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MEU TIME É MICHAEL JACKSON MAIS 10

Algumas considerações sobre atualidades, coisa que tenho me preservado de fazer nesse blog...

 

...sem esquecer do meu projeto filosófico

 

 

A década 2000 (estranho nome para uma década), todo mundo sabe, é a mais fraca em termos musicais, desde que ouvir e fazer (quem não tem ou teve uma bandinha ou quem não experimentou aqueles softwares que não exigem o menor conhecimento da escala musical por parte do operador?) Música se tornou natural, popular, descaracterizando, aliás, esse “M” maiúsculo de Música, provavelmente uma herança das Musas gregas, privilégio de poucas almas nobres...

 

“Geração banda-larga” é como apelido essa safra de adolescentes (de até 30 anos!) orkuteiros e usuários do Last.fm, a nova usina sonora do mundo. Obviamente, eu tenho conhecimento de causa porque possuo contas nos dois universos: estas redes são mais do que simples voyeurismo. Agora são sites os melhores termômetros para medir o alcance e o impacto de um artista consagrado ou de uma revelação.

 

Nos charts do Last, que não devem ter mais do que seis anos de rodagem – o que permite algumas distorções, como pensar que Green Day (64 milhões de execuções) e U2 (56 milhões de faixas até este momento) são melhores, mais influentes e mais importantes do que foram Ray Charles (8 milhões) ou Jimi Hendrix (25 milhões) –, os líderes incontestáveis são Radiohead e Beatles (173 e 171 milhões de captações, respectivamente). Completando o pódio, um sonolento Coldplay – o que salva um pouco é que o Metallica vem logo a seguir. Os Beatles, o único desses grupos que não está mais na ativa, é um caso à parte, já que o Last.fm adora entronizar os fogos-de-palha. E não tem outra pretensão, pois não passa da ponta de um iceberg de alguns séculos de História.

 

Esses números, lembrando, só crescem, pois vão da inauguração do serviço até aqui. Um golpe do acaso, semana passada, deixou bem claro o quanto esse tipo de ranking por contagem absoluta é falho: a morte de Michael Jackson, aos 50 anos. Ele pulou do sexagésimo sexto lugar para o primeiro, no recorte semanal. Imagine as estatísticas do “dançarino da Lua” se existisse o Last nos anos 80! Se ele vendeu quase 1 bilhão de discos, do que seria capaz no domínio virtual das coisas grátis?

 

Bastaria um pouco de senso crítico para notar o quanto o “soma” (narcótico pacificador, “anestésico mental”, do Admirável Mundo Novo do escritor britânico Aldous Huxley) radiofônico (falo do rádio na era da Internet) é o grande responsável por um certo cheiro de tecido podre no ar. O que estou dizendo é que a decadência da Música nasce da surdez dos ouvintes! Esse movimento de inércia – navegar nas estações e se deparar com os mesmos padrões (ou o mesmo padrão, sem espaço para nada diferente), abrir o perfil do colega e ver as desgraças culturais habituais –, essa falta de ponderação com respeito ao que se vai meter goela abaixo, fazem com que a esquizofrenia eletrônica martirizante de um Rádio-Cabeça qualquer esteja no topo de alguma lista que não “as principais causas da sua cefaléia crônica”! Me faz lembrar inclusive de uma passagem d’A Ideologia Alemã de Marx, que ataca seus conterrâneos afirmando que eles nada mais produziam que uma ansiedade verborrágica cortante pelo Apocalipse, cristãos que eram, prontos a marcar o compasso desse clímax chamado Juízo Final com as guilhotinas da Revolução Francesa. É bem essa a idéia da automação radioheadiana – um intuito fracassado apesar de qualquer número que deponha em contrário, deveriam admitir os membros da banda. Um som desprovido de humanidade.

 

Quando ocorre uma pequena fissura neste mecanismo “pastoral”, a nostalgia entra em campo: mas se foram feitas músicas sublimes e excepcionais nos anos 70 e 80, o que as impede de voltarem? “A tecnologia”; “a falta de inspiração”; “sorte”... Tudo balela. A despeito do caráter prometéico e irrepetível do Rei do Pop, o destino da música deveria depender estritamente de talento, discernimento (para não jogar todo o dom na privada – reparar que a noção que se tem de um artista é a de um gênio louco, alguém que vive perdendo as estribeiras e age sem coerência, engodo que precisa ser descartado) e CORAGEM, o que vem minguando de uns aninhos pra cá. Como o homem tem sempre a possibilidade da escolha, mas se tornou medroso demais para admitir, contenta-se com o “menos pior”, o pastiche cultural contemporâneo. “Inventar dói, vamos apenas testemunhar as infindáveis oscilações do pêndulo do relógio desse moto perpétuo chamado mundo.”

 

A década de 90 é intermediária entre essa fraqueza que reina hoje e a pujança que já se viu no Pop, no R&B, na Música Popular Brasileira, no Heavy Metal e nas demais searas da indústria fonográfica. Não faz três dias que vi um episódio dos Simpsons que é uma aula de História da cultura: Homer e Marge contam aos seus filhos, à lareira, as circunstâncias em que Bart veio ao mundo, os atribulados anos 90 (curiosamente, o desenho data deste período, mas a cada ano os personagens são apresentados com a mesma idade, repaginados para o contexto, como é o caso agora, dos anos 2000). Nessa “realidade alternativa”, enquanto Marge começava a faculdade, Homer dava um duro danado na loja de paintball do pai e ainda arranjava tempo para ser o líder carismático de uma banda, o Sadgasm (Tristorgasmo, na melhor tradução), paródia do niilista Nirvana. Uma época em que ainda havia um gênio criador, mas que, por não encontrar destinatários à altura para seu grunge, acaba se auto-destruindo. É um marco divisório: a negação da arte. O preferir-morrer anunciado pelo próprio Dioniso. A estética ocidental na sua agonia entrópica.

 

Está certo que não é “culpa” da Música: esta bomba de efeito retardado (sim, primeiro o relâmpago, depois o trovão!) só aterrissou na década de 90. O próprio Espírito da Música está fatigado, quer colapsar. Antes a moral burguesa já havia detonado muitas outras belezas. Arruinaram a Política, transformaram a vida num cardápio e tornaram onipresente a promessa de um Além. É sintomático que o próprio Kurt Cobain tenha batizado seu projeto de Nirvana: porque aqui é o insuportável reino da imperfeição. Mas querer a paz é justamente o motivo da decomposição do tecido. O que restaria para ser contado? Sempre que ouço uma boa canção penso em Homero: façanhas e proezas quase impossíveis, o desafio complicado e aterrorizante, a condição humana. Somos músculos e sangue, e, portanto, devemos usá-los e arriscá-los.

 

O que minha bola-de-cristal diz? Que viveremos as décadas de 10 e 20 na mesma missa cibernética, cheia de espasmos e espirros. Como ouvintes estamos doentes e não suportamos um olhar no espelho. Mas episodicamente um Dante ou Colosso nos visitará, como aconteceu em 2008 com o Death Magnetic, o literal re-despertar de um gigante.

 

Antipatia por pessoas é algo que faz bem! Não transfira ao mundo inteiro – não amaldiçoe tudo, procurando causas primordiais imaginárias – o ódio por conta de uma babaquice que só pode ser explicada pela própria vontade do autor de cometer a babaquice!

 

Alguém sempre transborda. Outros, sorvem.



Escrito por wormsaiboty às 18:22
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O grande sábio não quer convencer ninguém.



Escrito por wormsaiboty às 20:36
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ORIGEM ETIMOLÓGICA DOS MEUS SIGNIFICADOS NO DEVIR

Uma coisa que sempre me intrigou: quando era pequeno achava que era judeu. Não há nenhum traço judio em minha família. Nada concreto a respeito...

 

Mais uma: aos 5 ou 6 anos, quando da primeira vez que a Globo exibiu aquela novela, A Viagem (um grande sucesso, reprisado duas vezes no Vale a Pena Ver de Novo, num espaço de menos de meia década), eu sentia um prazer imensurável em acompanhar o protagonista, Alexandre, rastejando no Inferno, ao passo que aquelas “rodinhas espíritas” de pessoas vestidas de branco no Paraíso eram não só o ápice do clichê mas uma situação deveras desagradável, incômoda, suscitadora da – inicialmente – dúvida – depois provocação segura – de que não seria entediante ser um pecador irresoluto para no fim escapar àquilo. Fogo, trevas, inimigos, aventura... Eis aquilo pelo que minha infantil mente já clamava. Uma curiosidade é que Alexandre significa “altruísta, justiceiro”.

 

Eu tenho um primo bem mais velho chamado Alexandre. Sempre disseram que eu fui muito parecido com ele, que quando mais novo poder-se-ia julgar que sou seu clone. Com efeito, “puxei” muito essa minha tia, Socorro, a mãe de Alexandre. Meu pai tem irmãs loiras e míopes. Eu nasci loiro e tenho quase 10 graus de miopia no olho esquerdo. Não é de se estranhar que, na idade de “Pequeno Príncipe”, eu fosse comparado ou confundido com o justiceiro.

 

Quase me batizam como Hugo, de origem alemã, conotando “espírito, razão”. Espírito que é uma coisa de que o homem moderno, o alemão anti-semita, principalmente, que é o non plus ultra deste, prescinde. Curiosamente, dir-se-ia que um hebreu é alguém de espírito. O judeu tem espírito, é bem-humorado, sagaz e tem dinheiro. Por isso é tão odiado. Independentemente de não me chamar Hugo, eu tenho espírito. O que é estranho é eu ter pensado durante algum tempo que eu fosse judeu sem pistas claras.

 

Meu irmão Diogo, “conselheiro”, aconselhou meus pais a me concederem o nome de Rafael. De raiz grega, “curado por deus, aquele que é paciente, perseverante”. Além do mais, faço alusão específica ao termo TEIMOSO. Não foram poucas as conversas e as madrugadas reflexivas em que pensei nesta palavra como a minha sina: teimosia é o melhor de tudo para me descrever. Minha vida é a apresentação sob bilhões de formas do que significa um espírito teimoso diante de incessantes obstáculos. Também é dito nos dicionários de nome que Rafael é aquele que se esforça por ser observado, chamar a atenção, sobressair em relação aos demais. Não sei se estou falando da acepção genérica do nome Rafael ou então de mim mesmo, agora! Em 2002, quando dei minha largada mitológico-filosófica, exteriorizando minhas convicções no papel, produzi um compilado de teorias fundadoras da minha concepção de mundo e de eu, As Teorias Supremas. Nelas a característica da teimosia e a necessidade de retomar uma espécie de realeza que eu possuía na infância e que alguém ou várias coisas me furtaram são a tônica. Entendo que meu egoísmo é o puro altruísmo e ninguém percebe: ao ter alma de artista, eu estou presenteando a todos com meu super-talento, e cada vez mais atingindo minha própria essência. Nem que a custo de ser um pecador.

 

Minha mãe se chama Nadir, que significa “o contrário de zênite”. Zênite é o ponto mais alto do céu. Nadir, por extensão, implica decadência. Eu sou filho da civilização em estado putrefato, decadente. Meu pai se chama José de Jesus. Ao mesmo tempo, José é o pai de Jesus. Eu posso ser considerado um mártir. Mas filho de Nazareno já vem a calhar. Eis o ícone supremo do cristianismo e da moral que nos infecta, que torna o homem do século XX o extremo da miudeza.

 

Meu nome completo é Rafael de Araújo Aguiar. Aguiar deriva provavelmente de águia, que é a ave mais aparentada à figura lendária da fênix, Ouroboros, que remonta à sociedade egípcia e que foi transmutada para diversas civilizações até chegar ao Ocidente. A fênix implica a confirmação do princípio de eterno retorno de todas e de cada uma das disposições do sempre-transitório universo. Trata-se do único imortal factível, que renasce das próprias cinzas: tem uma vida finita, embora inesgotável. Rafael de Araújo Aguiar é uma denominação especial, porque eu consigo vê-la em círculo, se fechando em si mesma: Rafael de Araújo AguiaRafael de Araújo Aguiarafael de Araújo AguiaRa... Ra é o deus-Sol, o mais poderoso elemento dos cultos no Antigo Egito.



Escrito por wormsaiboty às 20:49
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ÉTICA DO CARONEIRO E IDIOTICE AO LONGO DO TEMPO

Quase três meses se passaram e eu não recebi a resposta a um e-mail que emiti a um amigo meu, ex-professor de Sociologia (ele continua dando aulas, eu é que não sou mais seu aluno) do CEUB. Observei que o blog anda às moscas e que a mensagem provavelmente jamais será respondida, o que é uma pena. Mas, se eu mantiver a identidade do destinatário em sigilo, aposto que a transcrição desse recado eletrônico é um poço de cultura e promoverá belos debates... Sim, vou publicá-lo na íntegra! É revelador acerca da minha própria vida ultimamente, como verão...

Absolutamente nenhum corte foi feito!

 

Pois é, agora eu também tô na correria, mas só pra não perder o hábito...

...escrevo mormente por conta de um lampejo meu de hoje:

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antes um parêntese:

Casou-se esse ano ou ano passado? Felicidades. Curiosidade mórbida: foi na igreja, no cartório ou no quê? Haha.

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A ética do caroneiro (você está dirigindo, aparece um transeunte, você deve parar o carro) - On The Road -, a ética do potlatch, enfim, essa naturalidade em conceder um favor -- certamente os que choram de saudades da propriedade privada já antes de seu fim não se sentirão incomodados ao dormirem na gruta "dos outros" (ética de acolher o visitante estrangeiro em seu palácio, A Odisséia) ou ao compartilharem um milho, uma maçã ou um veado morto (hoje um caçou e o outro amargou jejum, porém sentará à mesa com o primeiro; como amanhã pode muito bem se dar o inverso - mesmo o homem que deseja superar a si mesmo, o Zaratustra, não se faz de rogado, e ao invés de cair de fome por orgulho bate à entrada da choupana pedindo comida, não sem a costumeira altivez).


A postura de mendicância seria socialmente reprovável (como é neste mundo), outrossim a da ganância também, num futuro vago. Certamente pedir não seria constrangedor ao aventureiro que se visse conjunturalmente necessitado. E no entanto o ímpeto desse novo homem é tão amplo que amanhã mesmo aquele que teve de ser amparado estará retribuindo com um banquete homérico. Só não posso afirmar que haverá essa circularidade e o vetor obrigatoriamente horário ou anti-horário (como nas tribos estudadas por Mauss - aliás, principalmente por Boas, já que Mauss não "etnografava" - e nos trobriandeses de Malinowski). Não é curioso? Talvez não haja dívidas de gratidão: pague-me quando puder, um dia nos veremos de novo, faça de conta que eu sou o próximo que aparecer. Aliás, não tenho dúvida de que todos seriam no mínimo semi-nômades.

Pueril? A verdade é que olho ao redor e vejo apenas "idiotas", no sentido grego, isto é, os politicamente nulos e interesseiros da polis, pessoas que são ensinadas a recusar caronas para estranhos, jamais dar moedas por aí (Nietzsche diz: "é preciso acabar com o mendigo, porque frente a ele fica mal dar esmola e também não fica bem não dá-la") - o engraçado é que há uma camaradagem fora do comum quando se trata de cigarros (aliás, a droga de balada anos 2000 é consumida sozinha, enquanto a maconha ou os chás costumam ser ministrados em roda, grupos, essa é uma evolução comportamental notável) - e comer seu quinhão antes que abocanhem primeiro (exemplo habitual de professores em Introdução à Antropologia: o índio, chegando à cidade, consideraria o sumo do absurdo o egoísmo do homem branco, "pagar para comer!", e ao contar isso aos seus semelhantes, na volta, seria tratado como aquele que saiu da Caverna de Platão e viu a luz - louco ou mentiroso).

Tudo isso para dizer que o helênico desconhecia o homem estranho, era o antípoda da loucura, em sua loucura: o exato oposto da esquizofrenia pós-moderna do quarto com PC. O que podemos fazer? Certamente que nós somos apólogos da liberdade negativa, "cada um no seu quadrado" (talvez eu esteja ferindo a sua ao aborrecê-lo com um verso de funk). Idiota, em 2 mil anos, se tornou aquele que participa. O que não está claro é a conseqüência trágica (auto-mutiladora) de uma solidão que adora se expor (Orkut - não quero ser tocado, preciso ser observado, por 10 mil olhos, quiçá). Talvez o pessimismo seja apenas um disfarce do otimismo: quem nada espera lucrará com o que passar - e uma coisa tão grotesca e sedentária está devolvendo a interação com o estranho!

A propósito, a tese que pretendo defender é quase o que falei, só que com relação à televisão. Quem diria, a caixinha é tecnológica, não é magia, mas está ensinando modos alternativos de vivência para quem não desgruda a bunda do sofá. Se quem assiste o personagem morre com ele, nós estamos começando a gostar da idéia de "arriscar a vida". Obviamente, os esportes radicais são uma outra derivação do homem cansado de ser ascético...

Curiosidade: meu professor de Política disse que Dostoyevsky escreveu certa cena em um romance seu, um homem que ficava louco ao ver um cavaleiro açoitando seu cavalo, corria em direção ao animal e o acariciava. Nunca mais voltou ao estado normal. Pois bem, o que é divulgado é que, ANOS DEPOIS, Nietzsche veio a se tornar clinicamente insano da mesmíssima forma... O nome do livro é O IDIOTA. Eu já o li, mas sinceramente não lembrava dessa cena, por isso só me toquei com a menção direta da coincidência/previsão. Seria o mesmo com Maquiavel e Napoleão, aquele que veio a ser o "Príncipe empírico". Conhece mais casos?

A história é circular...

Rafael



Escrito por wormsaiboty às 21:23
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NIILISMO CANDANGO

 

Alexandre, que cursa o terceiro semestre de Ciências Sociais na Universidade de Brasília enquanto escrevo esta mensagem, e que faz Teoria Política Moderna às segundas e quartas comigo, é minha escolha para ícone do niilismo. A modalidade européia da descrença absoluta no homem parece já ter chegado aqui. Este jovem hedonista e seus comparsas representam o sumo da imundície e da vergonha. A elite brasiliense abraçou o nada com ímpeto. Seus corações econômicos desde já batem e se debatem por essa nova “verdade”. Não há nada pessoal na citação. Nenhum ato de Alexandre me pareceu particularmente abjeto. Mas um pintor que olha um quadro entende tudo. Apura a catástrofe que emana daquele retrato sem culpa. Sem culpa e sem dignidade, uma figura prosaica do cerrado, passível de ser encontrada em qualquer entrequadra (o Plano Piloto não possui esquinas) num dia de semana, bebericando um chopp. Alguém até bacana, sorridente... Mas isso borra ainda mais sua imagem.

 



Escrito por wormsaiboty às 17:29
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O BRASILEIRÃO DOS ATACANTES

Pedrão (Barueri, artilheiro do campeonato paulista com 16 gols); Rafael Moura (Atlético-PR, artilheiro do campeonato paranaense com 14 gols); Taison e Nilmar (Internacional, respectivamente o artilheiro e o vice-artilheiro do campeonato gaúcho, com 15 e 13 gols); Maicosuel (Botafogo, artilheiro do campeonato carioca com 12 gols); Fred (Fluminense, ex-Olympique Lyonnais e Seleção Brasileira); Adriano (Flamengo, ex-Internazionale de Milano e Seleção Brasileira); Dodô (???); Kléber (Cruzeiro, vice-artilheiro do campeonato mineiro com 13 gols); Diego Tardelli (Atlético-MG, artilheiro do campeonato mineiro com 15 gols); Washington e Borges (dupla ofensiva do São Paulo, juntos possuem 23 gols na temporada); Kléber Pereira (Santos, 11 gols no Paulista); Keirrison (Palmeiras, 19 gols na temporada, vice-artilheiro do Paulista e atual vice-artilheiro da Libertadores); Ronaldo (Corinthians, ex- e futuro jogador da Seleção Brasileira).

O cardápio promete. Mas se algumas das defesas não forem queijos suíços, vários destes nomes não vingarão. Resta torcermos para que o menor número possível saia desta lista no decorrer do campeonato e revelações dêem o ar da graça.

 

O Campeonato Brasileiro, que já era mais divertido que qualquer nacional europeu, agora tem também os melhores jogadores do mundo e, ao contrário da distribuição de renda do “país real”, há considerável isonomia entre os participantes: oito clubes ou mais com status de “favorito ao título” e belas peças distribuídas pelos 20 elencos da disputa, ao contrário das badaladas oligarquias inglesa, espanhola, alemã, francesa e italiana, em que três ou quatro times até podem vencer uma equipe brasileira em final de Mundial FIFA, mas onde os pequenos são sacos de pancada e fazem feio diante do nosso glorioso Ipatinga. O Cruzeiro é melhor que o Bayer de Monique. O São Paulo é mais time que o Sevilla. O Barcelona perdeu uma vez e perderia outras tantas para o Inter de Porto Alegre. Adversários mais cascudos, como o AC Milan, são não-raro capitaneados por brasileiros. Finalmente, um aviso ao Robinho: se não voltar, vai ficar desprestigiado na Seleção (e vai continuar na capa dos tablóides ingleses por coisas que não fez). Não sei se diante dessa virada econômica que trouxe o Fenômeno e o Imperador o Pato já se arrependeu, mas o Mineiro e o Breno tenho certeza que sim!

 

Arriscarei prognósticos quanto aos rebaixados deste ano: 1) Barueri; 2) Santo André; 3) Avaí (é, o mar da Série A não está para peixes pequenos...); 4) Atlético-MG (vai e não volta nunca mais!).

 

 



Escrito por wormsaiboty às 20:34
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A FALTA DE SENTIDO DOS CAMPEONATOS ESTADUAIS

A cerca de 110 minutos do final dos jogos de volta para determinação dos últimos campões regionais do futebol brasileiro, vejo-me num impasse. Bater palmas para os campeões (sim, antevejo vários deles)? Bocejar diante da televisão? Escrever um artigo para o blog? Quem sabe espernear com a anuência da CBF e a preguiça pensante das federações aqui e ali...

 

Não há nada de novo no departamento. As competições estaduais perderam a graça. Antes de dizer por quê, vou contar rapidamente a minha história com os estaduais, principalmente com o Campeonato Paulista, do qual participa meu clube do coração.

 

Comecei a acompanhar futebol a sério em 1998, aos 10 anos, apesar de guardar recordações da Copa de 94, da final brasileira de 1995 (no bar do meu pai, botafoguense) e de vários outros momentos marcantes (a final da Libertadores em que o São Paulo foi vice-campeão em pleno Morumbi, o bronze olímpico com Bebeto). O marco zero dessa minha incursão no mundo da bola como torcedor fanático foi a compra de um CD em loja de shopping enquanto passeava com minha mãe, uma prima e uma tia: A HISTÓRIA DO CAMPEONATO PAULISTA, para instalar no Windows 95, com fatos históricos de ano a ano, várias fotos, tabela interativa e até os escudos dos times que iriam disputar a série B-II (equivalente à quinta divisão)! Algo riquíssimo oferecido pela Federação Paulista e seus funcionários. Apaixonei-me pelo material, passei a madrugada lendo em voz alta o histórico do torneio, edição por edição. E não é pouca coisa: o certame mais antigo do nosso país, iniciado em 1902. A arqueologia do país do futebol! Juro que hoje procurei o CD e não achei, gostaria de reviver estes momentos. Tudo o que sobrou foi o ícone de atalho na área de trabalho do meu PC mais velhinho, um Pentium 166 Mhz, atualmente jogado num canto acumulando poeira. Naquela época o micro ficava no quarto dos meus pais; seu José já brigava com o filho que o não deixava dormir, e eu nem tinha acabado de ler sobre a década de 70! Mas que havia de mal em pesquisar um pouco do passado do esporte que pára a nação todos os domingos, em entender um pouco dessa predileção pelo São Paulo Futebol Clube (curiosamente, aquele foi o primeiro título que eu vi meu time conquistar!)? Outro conteúdo do fantástico compact disc – havia até um teste para futuros árbitros e bandeirinhas, cerca de 30 perguntas sobre controvérsias de regras. Para nenhum Arnaldo botar defeito...

 

Desde então o refrigerante e a pipoca estão sempre a postos, a TV a cabo é a companheira inseparável de todos os fins-de-semana – mais até que, em certa época, a namorada, que, por golpe do destino, era uma traíra corintiana!

 

Interrompo este relato carinhoso para anunciar: o Flamengo faz seu primeiro gol contra o Botafogo. Veja bem: eu disse primeiro. Sei que virão outros...

 

Por que uma história tão linda iniciada há mais de uma década possui um desenlace tão trágico (redigir um artigo intitulado A FALTA DE SENTIDO DOS CAMPEONATOS ESTADUAIS)? Temo que essa época romântica, essa idade de ouro da infância, já passou.

 

Não porei a culpa no campeonato nacional, que suga todos os holofotes. Pelo contrário: ele amadureceu. Não é em si uma questão de predominância dos grandes clubes ou de fatores econômicos (países de terceiro mundo não conseguem segurar seus craques, o interior é ainda mais falido, etc.). Apenas constatei que paramos no tempo.

 

Longe de mim querer abreviar de repente uma tradição que remonta ao comecinho do século XX, com o tricampeonato do São Paulo Athletic Clube (o avô do SPFC, é o que dizem). Mas a palavra abreviar vem bem a calhar para outra coisa: reformulação do formato. O que é isso, pessoal? Joguinhos que não valem nada de meados de janeiro até o mês de maio?! O campeonato estadual, para sobreviver, deve ser mais curto. Aos que aleguem que extra-oficialmente ele já não passa de pré-temporada, vá dizer isso para um flamenguista, um corintiano ou um cruzeirense amanhã... Se fosse apenas pré-temporada, torneio-exibição ou conjunto de amistosos não haveria toda essa pompa, festa e zombaria dos adversários. Nem tanto ibope global (eis um dos problemas fundamentais, obstáculo número 1 para a reforma tão necessária desses campeonatinhos). Ou se encerram as atividades das federações que patrocinam torneios inócuos, abarrotados de times de empresários, de incompetência e de repetições, ou intenta-se um último resgate do charme dos tempos preto-e-branco fazendo o campeonato acabar em março! Mas as regras e fórmulas das novas ligas eu deixo para vocês.

 

Vou insistir no ponto mais grave, no que me faz querer explodir esses campeonatos tão longevos e previsíveis: estamos em 2009? Tem certeza? Parece-me 2008, ainda; ou um 2007 levemente adulterado. Venho percebendo que de alguns tempos pra cá só em nível nacional surpresas podem acontecer (e olha que estamos diante de um São Paulo que é tricampeão, fato inédito!). Afinal, a cada ano pode surgir um novo Fenômeno, e não sabemos se ele despontará num time de Roraima ou no Goiás. Pode haver o ressurgimento de um daqueles centro-avantes apagadões, estilo Leandro Amaral. A volta de um craque europeu (no auge ou em decadência, mas neste último caso ainda serve!). Uma equipe de juniores que sobe para os profissionais e conquista o sucesso (Santos 2002). As variáveis são bem mais ricas, tudo é mais contingente e implausível.

 

Já nos estaduais, todos sabemos que os clubes ainda estão em período de banho-maria, no soro. O Fluminense, deixa eu adivinhar, trouxe as três maiores contratações da temporada, mas sequer irá decidir o carioca. Bangu e América não vão chegar; pelo contrário: até correm risco de rebaixamento.

 

No sul, polarização entre Inter e Grêmio, com o Juve tentando estragar a festa caso um dos dois grandes esteja envolvido demais na Libertadores. Em Sampa... ah, em Sampa! O torneio que me traz lembranças de infância... Deve ser diferente, afinal tem mais times, tem uma economia mais pujante... Pura ilusão!

 

Faça um exercício: procure no Google, nos arquivos do Terra, da Gazeta, do Lance – como terminaram os estaduais do ano passado?

 

Primeiro jogo da final do mineiro de 2008: Cruzeiro 5 x 0 Atlético-MG. Primeiro jogo da final do estadual do Rio de 2008: Flamengo 2 x 1 Botafogo. Último jogo do gaúcho 2008: Internacional 8 a 0 no Juventude. No DF (rá, claro, eu sou brasiliense, senão não lembraria), mais conhecido como Candangão 2007: Brasiliense pentacampeão. Várzea total. Monopólio inescrupuloso. E onde não há monopólio, há duopólio ou oligopólio, o que não é sinônimo de animação.

 

Flamenguistas, cruzeirenses e colorados fizeram a festa. O que mudou esse ano? O Internacional aplicou 8 a 0, mas não foi no Juventude! O Flamengo não venceu o Botafogo na 1ª partida, mas já está consertando o desvio... O Atlético levou de 5 do mesmo Cruzeiro. Sim, esse resultado é sintomático, quero usá-lo como exemplo máximo do quanto acompanhar estaduais ficou caduco, fora de moda. O que vale é o chopp com os amigos. É tentar prever se o Kléber será expulso. Tudo o mais perde o valor.

 

Aos que apontarem que eu negligenciei a análise excluindo o campeonato mais antigo e imprescindível dentre todos, reafirmo: não faz diferença se Palmeiras ou Corinthians são os campeões (desculpe, torcedores). Não faz diferença se temos Ronaldo. Não é mais emocionante acompanhar Ronaldo contra Ituano do que Ronaldo contra Itumbiara. E pra isso existe a Copa do Brasil... Mas vejam a 1ª rodada do Brasileirão ’09: Corinthians e Inter! Ronaldo x Nilmar... Agora sim o ano vai começar (coisa de brasileiro – e olha que dizem que nada anda antes do carnaval, mas a Páscoa já passou e até agora nada)...

 

Segundo gol do Flamengo. Estou reportando ao vivo.

 

O São Paulo foi eliminado pelo terceiro ano consecutivo em semifinais. O Santos está na segunda final em três anos. Não se deixem enganar pelo contraste entre os vencedores: esse quadrangular final, se reserva algum tipo de surpresa, é apenas 20% da competição. Nos outros 80%, rodadas inúteis protelando o que todos já sabem: um grande clube levantará a taça. Para que um inchaço no número de participantes, para que a execução do hino nacional antes de cada partida? Para que pay-per view (“pagar para ver”)?

 

Aquele torcedor do galo que despertasse de um coma de um ano julgaria que voltou no tempo. O mais desconfiado deve achar que colocaram um VT da final do ano passado por falta de recursos. O campeonato mineiro é o destino do paulista. E o carioca já é um mineiro adaptado ao Corcovado. Da próxima vez, você apostador já sabe: nada de bola de cristal ou mãe diná! Entre no meu blog, leia este artigo e aposte com seu amigo em 2010 sem medo de errar. Flamengo rumo ao tetra, Grenal decisivo, Cruzeiro ampliando a hegemonia...

 

Eu quero novidade, eu quero esquecer esse primeiro semestre...



Escrito por wormsaiboty às 17:18
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ÊXTASE E AUTO-GLORIFICAÇÃO

 

 

Interrompi minhas leituras para narrar o que considero um dos episódios mais belos de minha vida: o dia de ontem. Certamente poderia resumi-lo como a constituição de uma divina obra-de-arte. Algo passível de justificar a existência de todas as criaturas, dos fracos e dos fortes, per si!

 

Há alguns meses venho percebendo que nas noites de álcool e durante as ressacas produzo cenas das quais muito me orgulho, afastadas que estão de qualquer ingenuidade pueril de adolescentes e do modo humilhante como os brasilienses se comportam. Escapismo? É necessário admitir que, a despeito do lamaçal, venho provando que este não é o fim do homem. É preciso confessar que o mundo moderno e a escravidão produtiva tornam maioria dos dias deploráveis, o que no entanto não obscurece alguns deles, pontos esparsos, espécies de ondas de um mar subitamente revolto, explosões dionisíacas, pelas quais assumo inteira responsabilidade. Talvez o Brasil seja mesmo um lugar privilegiado, de onde provém a vendeta do espírito trágico sobre o espírito burocrático. Estas ocasiões especiais de que falo, mais comuns em fins-de-semana, distantes daquela fétida universidade, longe da rotina asquerosa, parecem mesmo uma luz de Tieta, uma glorificação do momento típica do país do carnaval – difícil de ser imaginada na insossa Europa.

 

A primeira vez que tive consciência da alteridade peculiar que uma ressaca me provoca foi quando, em outubro de 2007, decidi sair para outro lugar, sair pelo segundo dia consecutivo, em que pese estar quase sem dinheiro. Enquanto caminhava em direção ao ambiente escolhido – um show ao ar livre – meditei inesperadamente acerca da questão do namoro. A concepção enraizada entre meus convivas é a de que isso constitui algo normal. De repente, e sem motivo aparente, pus abaixo esses valores: não há coisa mais bizarra do que se integrar, quase que contratualmente, a alguém! Nasceu em mim, desde aquele dia, um invencível repúdio pela idéia de namorar, quem quer que fosse, a vizinha ou a Madonna. O que também promoveu um ódio automático pelos pombinhos arruinados, todos dessa “sociedade do namoro”. É importante ressaltar, aliás, o quanto tais caminhadas se converteram em algo imprescindível para mim. O jeito mais apropriado para refletir. Jamais gostei de carro, mas recentemente me veio esta implicância até com ônibus. Aonde eu puder chegar a pé, assim irei. Fato é que este novo hábito parece ser a interferência de alguém em minha vida (logo, neste relato, isso ficará mais claro). O efeito flashback me dominou: sempre que estou bêbado, ou de ressaca, e sempre que estou caminhando em qualquer dia “normal” eu diria que destruo tudo a meu redor, filosofo com o martelo. Não há valores arraigados que eu não tenha descascado e derrubado, como fizeram com aquele muro na Alemanha. Uma vez se disse (Jair Ferreira dos Santos disse) que Nietzsche, um viciado em marchas, que não parava até se exaurir, se vivesse entre nós, andaria por aí com um walk-man (notar a data do texto) mudo, ou seja, refletiria sem música, tão-só pelo prazer de caminhar. Fato é que há seis meses meu MP3 player queimou... mais tarde no relato eu dou seguimento a esta história...

 

Está na hora de retomar aquilo a que me propus no primeiro parágrafo: dia 19 de abril de 2009, véspera de eu completar 21 anos de idade, a maioridade em alguns países e em algumas épocas, uma perfeita demonstração de tudo o que eu disse. É quando minha natureza mais hercúlea fica evidente para mim. Sinto – e se sinto faço – que moldo a realidade conforme meu gosto e me enquadro no chamado “comportamento trágico”, e peço mais paciência ao leitor para entender por quê. Primeiro, vamos à descrição despretensiosa de ontem:

 

Acordei, vi um filme excepcional sobre a vida de um ex-soldado premiado por heroísmo na Guerra do Vietnã e sua família arruinada, do qual, porém, não pude obter o nome, comi dois pães redondos com hambúrguer, manteiga e queijo, despedi-me dos meus pais, que como de praxe se dirigiam ao sítio, e reservei duas horas para a leitura do começo da grande obra de Montesquieu, Do Espírito das Leis. Em seguida, iniciei os preparativos para receber um amigo, para assistirmos juntos ao confronto dos nossos times rivais. Preparativos que consistiam na compra de não mais que dez cervejas e na “ritualização” da casa, quer seja, espalhar coisas do São Paulo por aí, principalmente no cômodo da tevezona, deixar no canal certo e no volume máximo, escancarar a janela para a hora de gritar gol e trazer as cadeiras para a frente da TV – só faltava cobrar ingresso para o espetáculo. Ok, o Felipe chegou na hora combinada e, ao que parece, intimidado e sem confiança, pois não trajava seu manto alvinegro (manto com patrocinador é ótima!) e tecia elogios ao meu time (manda o protocolo? Não sei).

 

O primeiro tempo foi de domínio da minha equipe, embora sem resultar em gols (e o São Paulo precisava vencer). Lá pelos idos dos 30 o interfone toca: é um amigo vascaíno com quem iria sair mais tarde, que já aportava no Plano e se auto-convidou para subir e assistir ao jogo uma vez que, em contrário, teria horas ociosas. Foi melhor assim: me sinto mais à vontade entre outras duas pessoas que ao lado de apenas uma – deve ser porque dissipam-se as atenções. E não era nada ruim o fato do novo conviva ser neutro na disputa: dois torcedores de times paulistas e um de carioca que não estava envolvido na final de seu estado, Flamengo x Botafogo. O clássico não foi belo; antes eu diria que foi embelezado por duas figuras: meus sábios comentários táticos e aquele jogador extraordinário (puta jogador!) chamado Ronaldo Fenômeno (por que será? Num mundo que navega no vazio ele é uma das poucas coisas que é concreta, impossível de passar batida). Meu time saiu de campo derrotado, Morumbi lotado, 2 a 0 no placar: o segundo tempo havia mudado os rumos da partida, o Corinthians emendou dois contra-ataques e foi o Felipe quem usou o maldito parapeito da janela para gritar e troçar dos coitados (sei de ao menos três são-paulinos no 3º andar). Um dos gols foi de gênio, R-9 tocando por cobertura ante o goleiro Bosco, lance rápido e preciso. É necessário aplaudir. E se conformar. Depois o jogador foi entrevistado e disse que “dos dirigentes do São Paulo às vezes sai muita... merda”, com um “r” bem carioca. A Band, parcial, enaltecia o feito do Timão com exclamações na tela, e foi a única a reprisar sem censura o desabafo feito ao vivo. Ronaldo teve razão: haviam dito que ele era um ex-jogador em atividade. Para variar, o Fenômeno concreto calou as bocas de quem não consegue subverter realidades adversas. Rapidamente restabelecido do fracasso esportivo, levantei e como bom anfitrião ofereci nhoque (ou inhame? Nunca sei) aos visitantes. Felipe, o vencedor, comeu. Brayner, que depois se arrependeria disso, repeliu o prato.


(continua abaixo)

 



Escrito por wormsaiboty às 02:16
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Marchamos rumo ao evento na Torre de TV (um dia, enganosamente, dedicado à televisão!) ao meu gosto, quer dizer, a pé e sem firulas... até que eu me dei conta de que, sabe-se lá por quê, saí de casa com duas chaves ao invés de uma, pondo em risco o chaveiro do Cristo Redentor sem necessidade, além de a dada altura, sem que nenhum dos três percebesse, ter sumido minha carteira de Carlton, quase cheia. O isqueiro e todo o resto estava lá no bolso. Praga do Brayner, que vinha dizendo que cigarro mata. Brayner é um bebedor compulsivo (alcoólatra) de 31 anos. Tivemos que parar a meio caminho para que ele comprasse uma micro-dose de conhaque, da qual aliás bebi mais que ele. Ao longo daquele dia aquilo ocorreria várias vezes. Nesse preciso momento fez mais ou menos 24 horas que comecei a ler Montesquieu, enquanto escrevo a palavra palavra. Ah, é claro! Olvidei-me de algo no relato cronológico: Tartas (como eu chamo o Felipe) me ensinou a pegar batatinhas no lixo do McDonald’s. Ensinar não é bem o termo – ele me lembrou que eu poderia fazer isso. Genial! Maravilhas do mundo capitalista, o dinheiro e as mercadorias circulam e os lascados se viram. O Brayner não parecia faminto, nem tocou naquela comida amarela deliciosa. Curioso notar que às 19:20 o relógio de ponteiro do Tartas parou. Deixe-me fazer um breve intercurso: como conheci essas pessoas?

 

Brayner: show do Alceu Valença aqui na Asa Norte há dois anos, um sujeito (ele) apareceu esmolando vinho. Eu estava com um amigo, Eduardo Maniax, e na verdade eles já se conheciam, então a garrafa virou propriedade de nós três.

 

Felipe Tartas: meu veterano na universidade, cursou História Econômica Geral comigo. Se Brayner é alcoólatra, Felipe T. é sua antítese social, e aficionado por automobilismo.

 

Os dois parecem ter – não muito tarde, mas tarde o bastante para não haver remédio – se arrependido da locomoção A PÉ. Almas simplesmente fracas. O Brayner despencou com 5/6 da trajetória cumprida. Disse que jogara bola de manhã e não comera direito. Agora o nhoque faz falta! Alguém inconseqüente feito moleque de 5 anos. Deu para ver que não era fingimento, o suor lhe banhava. Encontramos um bebedouro emporcalhado num posto, isso o susteve levemente; já meus músculos estavam sedentos por exercício, desperdício de energia. Assim que completamos a rota o maldito coroa devorou três cachorros-quentes e nem tinha dinheiro para pagar. Sujeito embaraçoso, além de alcoólatra que mente para si que não o é. Tartas nos acompanhava quieto. Logo encontrei duas amigas, que aliás vim a conhecer no primeiro dia em Brasília após um mês fora (em Fortaleza), há um ano, quatro meses após aquela ressaca em que questionei de súbito OS NAMORADOS. Eu havia chegado ao CONIC – mesmo lugar para o qual eu me dirigia na caminhada daquela grande ressaca – atrasado, com o show terminado, e fui comprar um hot dog e uma cerveja, quando as duas, bêbadas de cair, me abordaram. Adoro essas contingências urbanas. As duas, ontem, não me serviram para muita coisa, nem para alugar um baseado de maconha. Fiquei na base da vodca e da Antarctica noite adentro. O monstro comilão Brayner não tinha o menor respeito por si próprio ao se aproximar de mulheres. Degradante. Embaraçava o coitado do Felipe. Eis que surge em nosso horizonte o Eduardo Maniax, a razão de nos conhecermos, e provavelmente a razão de eu ter conhecido as magrelas a que acabei de me referir.

 

Muita coisa me aconteceu por causa desse sujeito, mas hoje não somos mais amigos. Logo se verá razoavelmente por quê. Um acidente, um desgraçado, esse cara de 28 ou 29 anos, o oposto das meninas, dezessetinhos virgens nas costas. Brayner observara ontem, mais cedo, que eu, aos 20, era um rei antológico da maturidade, artista do viver no mais alto grau – não com essas palavras de gênio. Lembrem-se: mesmo se tudo isso eu não fosse, mentir para si mesmo é um modo DIVINO de pensar... Responsabilidade criacionista: cada um é seu próprio demiurgo, existências precedem essências. É impressionante como uma pessoa reluzente pode justificar a existência de seis bilhões delas: eu. Se Brasília não existisse, eu não haveria, o que me deixaria muito triste! Esses vermes existem para que eu efetue minha self-glorification catártico-semanal. Olhar o outro e vê-lo baixo. Repugna mas acende. TODOS TÊM QUE APRENDER A CHAMAR AS COISAS PARA SI. Maniax é um bagulho humano, ou um homem bagulhado, estrupício. Não há pseudo-jornalista mais burro. Vou colar a URL do blog dele para vocês tirarem a prova: http://revolutionx.blogspot.com/ (mensagem do servidor: “O blog foi removido” – por que será? Um imbecil com um certo tipo de atitude frente à vida não consegue fazer nada direito – a menor coisa que faça, estará fazendo fora das regras estipuladas). Nefasto. Um sujeito desses é o limite do quanto um deus pode errar na criação dum universo. Todos somos deuses, mas uns não deixam jamais de ser patéticos. O safado ainda trabalha no PT e ganha cortesias para eventos caros. Molecote que apesar da idade usa bandanas na cabeça, munhequeiras de punk e parece um colegial. Além disso, sanguessuga deslavado, um miserável da sola do pé até o cálcio do (simiesco) crânio. Tomara que um dia ele encontre essa comovente descrição por uma googlada.

 

Dando prosseguimento à história linear, ele aparece e nos cumprimentamos friamente. A grande apresentação da noite, a Plebe Rude, se avizinhava. Cortarei pormenores destas horas até que chegasse o momento de todos se reunirem para deliberar o que fazer, após a última música. Mais de meia-noite, os fracos resmungavam ter de ir a pé e não haver ninguém com carro. Maniax, sempre esperto (demasiado esperto, o cristão), tenta abocanhar três mulheres de uma vez “alugando” meu apartamento. Aluguel compulsório, por constrangimento ao locador. Quem mesmo ele pensa que é? Ele sofre da síndrome de “meu filho”. Se direciona aos outros com um repertório de conselhos inúteis que refletem uma experiência que ele NÃO possui. Por isso ele acha que todos são seus filhos, e se considera também o proprietário da minha casa. Claro que as lindas meninas escapuliram, deram uma rasteira no “tiozão xarope”, e então, sem mulher no jogo, ele sabia que não tinha a mínima chance de pernoitar na minha casa (opção melhor que madrugar de olho vivo na rodoviária), ha-ha, como se eu fosse aceitar que ele viesse de brinde com qualquer mulher. Mulheres que não sejam suas amigas só servem para procriação, e ninguém procria duas fêmeas simultaneamente. Não haveria acordo nem se ele tivesse sob seu controle, digamos, a pessoa que eu mais desejaria comer. Talvez para comer alguém EU precise estar no controle, não um terceiro, cafetão, candidato a ser estampado na capa do NA POLÍCIA E NAS RUAS, esse Chaplin involuntário e horroroso, síntese do ridículo! E eu nem sei se quero comer alguém – alguém factível. Falando em comer é aí que chegamos ao impasse principal:

 

Maniax de repente se dirige ao Tartas e diz que foi ele que “me botou na fita da Mirian”, uma mulher que eu comi por causa dele. Nada a desmentir por enquanto. A segunda parte é que eu seria “cabaço” antes desse momento, ou seja, só “me tornei um adulto”, um “homem”, graças a ele! Instinto de pai em estado bruto. Mas o nome do meu pai não é Eduardo, e sim José, e o sobrenome não é de louco, embora Jesus fosse uma personalidade bastante controversa! O sentimento de repugnância foi tão elevado que me despedi de todos ali – dei um cascudo nele ou coisa assim, não me recordo (a reação do elemento foi patética, aliás) –, seguindo de volta para casa com meu orgulho. Isso eu chamo de HONRA, ou auto-respeito, e o que decorreu disso eu chamo de ASTÚCIA SUBLIME.

 

Voltando à metáfora das ondas do mar revolto, pode-se dizer que a ola arrebenta quando aquele mundo d’água atinge um ponto crítico: não pode segurar mais seu ímpeto, e se lança contra a praia, os arrecifes, as rochas. Eu sofro desse processo com uma freqüência incomum, rompo com as pessoas. E em muitos casos me esqueço, pouco tempo depois, do real motivo da briga. Não era a briga, o em-si, a baixeza do tratante, a motivação do cascudo, a galhofa sexual. Eu sou um brigador nato. O importante é que a briga saia, não interessa mais o motivo. Poderia sem medo de ser taxado de covarde me referir a esses instantes como pretextos. A essência do indivíduo me incomoda tanto que eu espero a oportunidade, a brecha... e ela sempre surge, a imundície sempre vem à tona. Não executei nada de caso pensado, mas a forma como isso vem acontecendo permite que eu elogie meu temperamento explosivo com os adjetivos “frio e calculista”: se eu meditasse por 1000 anos, teria feito exatamente o mesmo. Na noite passada em específico, essa ruptura com as pessoas que estavam na festa pública me possibilitou livrar-me de qualquer obrigação para com hóspedes, me deixou livre para caminhar e monologar (o que é muito melhor do que entabular conversa com fracos das pernas) e para me recusar a futuras conversas moles com o infame Eduardo. É como se num golpe de astúcia tirado da cartola (coroa) o Príncipe se visse liberto de tudo o que o ameaça; por ora.

 

Preciso continuar o relato linear, tão entrecortado que se desfigurou. Mas não carecerá, este desfecho, de qualquer esmiuçamento como as partes anteriores: houve uma insistência do par Brayner-Tartas, via celular, para que eu os esperasse em algum canto, ou para que eu atendesse o interfone, quando já estava em casa. Neguei absolutamente esse “socorro”. Por que eles deveriam ser punidos pela infeliz circunstância de estarem acompanhados de um bufão? Não é necessário um porquê. Os cristãos sofrem demais com finalidades. Que aqueles circunscritos ao que você quer punir paguem o preço de estar na hora e no lugar errado, sim senhor. Outra lição deste meu dia de destilação de sabedoria é que devemos assumir a inevitabilidade de bodes expiatórios.

 

(continua abaixo)



Escrito por wormsaiboty às 02:15
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Sendo generoso e fazendo uma concessão aos teimosos famintos por motivos “racionais”, ainda suponho que estes poderiam ter existido, e o justifico... Por que uma sensação de ofensa tão grave diante de algo aparentemente tão frívolo? Não seria imaturidade do autor do texto, quem se julga tão sábio apesar da pouca idade? Não se trata aqui de uma imagem arranhada de garanhão, mas da ruptura trágica com alguém que é exatamente o inverso do seu reflexo no espelho. Pode alguém honrado não se sentir DESPREZADO como se sua descomunal exuberância fosse reduzida a lixo? Minha primeira meditação, no meu entender, desde que pratico longas e assíduas caminhadas, foi quanto ao ato moderno de namorar. Eis que me deparo novamente com o verbo. Tudo faz parte de uma grande cadeia, e este artigo, em sua unidade final, o demonstrará. Obviamente, já passei pela experiência supracitada. Foram muitas gotas de suor, lágrimas e outras secreções que eu tive de vivenciar, para me fortalecer, em um longo relacionamento, quando tinha dezesseis; foi alguém – indiferentemente do juízo que eu faça dela hoje – com quem dormi mais de cem vezes; para depois de tudo isso brotar um MANÍACO da terra seca do cerrado e relatar aos outros coisas que desconhece acerca de mim? Não, não vivi aquilo tudo em vão, eu tenho uma história, história essa que é melhor que a dele em todos os sentidos, pulverizando nesta afirmação qualquer chance de relativismo. Além disso, selecionei esse caso em particular porque considero-o a vilania perfeita – MANUAL DE COMO SER ATROZ – devolvida do modo mais prometéico. Como tudo se desenrolou ontem minha memória segue viva a respeito e registro tal dia de domingo aqui como a demonstração par excellence de que uma vida bem vivida pode ser uma obra-de-arte apesar de (ou, aliás, justificada pelo fato de) vivermos no mundo moderno.

Durante todo o dia me senti poderoso, alguém sem virtude, mas com honra. Por vezes Montesquieu é bem nietzscheano. O engraçado é que eu vivo minha teoria. Os imbecis das Ciências Sociais não sabem o que fazem, vivem à deriva. Viver o que eu estudo é o único estímulo restante, o que faz da vida de universitário suportável, de modo que não largue tudo e vá ser serial killer.

Finalmente, vou retomar aspectos do início do texto. O leitor que não é de fixar muito bem assuntos pelos quais passa apressadamente talvez tenha de subir a tela novamente. Quase nada do que eu disse era sem propósito, mesmo quando parecia sê-lo. Quando falava do vício pelas caminhadas extenuantes, da necessidade de se afastar da quase totalidade das pessoas, provocando – se preciso for – cisões abruptas e escoradas em “motivos fúteis”, do walk-man e do MP3 e das nuances trágicas, eu estava preparando o terreno. Com todas as variáveis do meu dia dissecadas, chegou o momento de efetivar a unidade do pensamento da vez, revelar o princípio moral que é meu imperativo absoluto, minha diretriz-base.

 

Sinto-me à vontade, então, para definir a expressão que utilizei entre aspas no princípio do ensaio, comportamento trágico. Entendo que o homem trágico é aquele que molda seu destino. Mas não tome por esta expressão uma espécie de amo do gênio da lâmpada. Não é “sou aquilo que quero”; é “sou aquilo que consigo ser”, mas o que eu consigo é na verdade aquilo que eu queria. Daí concluo que nunca ajo de modo escapista, como uma Alice e seu ácido. Pelo contrário: eu chamo os embates, eles me transformam, e “o que não mata fortalece”. Sagro-me um ser brônzeo, um Hércules, semi-deus, herói, legendário, e o fato de desencadear a ira dos que se irritam facilmente com o sucesso dos outros (ainda que eles sequer entendam o conceito de sucesso, mas basta notarem que eu sou feliz comigo mesmo) só agrava o mesmo quadro: fico cada vez mais forte, daí o emprego do termo trágico: no fundo meu inimigo sou eu, e amo meu inimigo.

 

O ideal seria ser PROMETEU ou AQUILES. Como não podemos, resta-nos enganarmo-nos a esse respeito.

Mês passado tive uma aula de Teoria Política Moderna em que o professor Paulo Kramer citou algo curioso: a tendência de haver “profetas” na História. Menos pelo talento do próprio enunciador e mais pela capacidade de uma personagem futura moldar a sua maneira a vida de forma que se torne exatamente aquilo que foi descrito que deveria acontecer. Uma espécie de fatalismo; porém esta palavra não retira a responsabilidade e o livre-arbítrio que cada um teve na construção da “coincidência”. Do que estou falando, em termos menos obscuros? Kramer disse que Napoleão Bonaporte foi o exato Príncipe maquiavélico, três séculos depois da publicação da obra-prima; Nietzsche, quando ficou irreversivelmente louco, surtou ipsis literis como o protagonista de O Idiota de Dostoievsky. O romance foi escrito na metade do século XIX, enquanto o homem real foi internado em 1889. A cena do santo epiléptico que perdia a razão devido aos pecados incessantes dos homens e a incapacidade de apreender seus corações era permeada de detalhes que se repetiram sem-falhas na tragédia-realidade nietzscheana. Um capataz desumano que açoita um cavalo, as lágrimas que brotam, a corrida por um descampado, o beijo na boca do animal. O mundo está abarrotado de Édipos. Vou ser o mais direto possível aqui:

A cena da ruptura, o desenlace da noite de ontem, quando tomei a resolução de evadir o local, me vingando das ofensas recebidas, me evoca a última gesta de Zaratustra no livro-poesia de Nietzsche. Os detalhes biográficos, as semelhanças entre eu e o autor, já estiveram evidentes o suficiente. Mas o alter-ego do filósofo do martelo e da dinamite, o sábio persa, mistura de eremita com tirano redentor, sou eu. Depois de abrigar todos os governantes que foram de estatuto nobre no passado e que estão no seu ocaso, ofertando-lhes vinho, deleite e conversas agradáveis, Zaratustra pede licença, sai de sua caverna e se depara com o leão. Zaratustra fala com os animais. Não ordena explicitamente que destroce seus hóspedes, mas exorta a fera a entrar, pois é bem-vinda em seu lar. Acaricia sua juba imponente. Sua atitude astuciosa só lhe vem à mente depois que o rei-da-selva já sumiu na gruta: havia sido ato inconsciente, uma dionisiedade, um arrebatar instantâneo – fenomenal. Se pensasse por 1000 dias, teria feito a mesma coisa. Não há pusilanimidade no feito: apenas não há virtude; mas há honra. A correção de Zaratustra, a dignidade e a sinceridade, o protocolo, a cerimônia, a pureza e a desenvoltura com que se dirige a qualquer um sem meias-palavras e semore de frente não precisam ser a regra; ou, antes, é uma regra como qualquer outra: comporta suas exceções. Aquele que quer algo mais impõe a jogada mirabolante que ninguém no tabuleiro pode retribuir, ainda que eventualmente a possa prever. Que subjuga sem resistência. Maucaratismo, não. Golpe de mestre, sim. Àté o vinho da caverna lá estava, na noite candanga (transfigurado em conhaques e vodcas – Zaratustra concedeu as últimas risadas aos compatriotas falidos)! Eu reprisei a epopéia. Porque ao longo dos últimos anos forcei minha rotina a acompanhar o movimento daquele homem. Os contornos-gêmeos são atingidos assim: com extrema labuta. Depois de relegar os convidados às dentadas, Zaratustra parte para novas peregrinações, e não mais é visto. O que reserva o destino à ponte para o super-homem?

Previsões divertidas – Quiçá dessa teia de fatos decorra que a morte que eu aguardo para mim, definhar de fome, pode não ser a mais provável. Penso, agora, que terei um fim tranqüilo de alguém que enlouquece depois de mandar todo o seu recado, ou parte do seu recado com grande propriedade. O que será de mim a longo prazo? Serei professor, como o idealizador de Zaratustra. Amigos fiéis e duradouros? Creio que só tenha um, Thomas Edson. Espero que ele não seja meu Richard Wagner. Essas possibilidades de repetecos já começam a me assustar! Quem será minha Lou Salomé? Até agora não conheci uma mulher esperta - talvez a Patrícia?  E claro! Grandes livros virão, quanto a isso não há sombra de dúvida. Se puderem ser paridos sem tanta enxaqueca eu agradeceria... E eu gostaria de viajar pela Itália, respirar o ar veneziano, sentir a atmosfera florentina, rever, caso ainda exista (rever porque já a vi, num momento que não posso mais resgatar!), a pedra pontiaguda à beira do lago em Sils-Maria. Se sonho muito alto, quem sabe me contente com nossa Itália sul-americana, a Argentina! Não seria nada mal, na mesma toada, acompanhar algumas óperas: ambiente decadente, mas desfrutável.

Alguns aforismos deste ensaio foram retirados, até esta linha sem os devidos créditos, de outro homem, Jean-Paul Sartre. Também suprimi as aspas, intencionalmente. A existência precede a essência é uma delas. Somos livres para tudo, ou somos deuses, o que é uma tradução livre das suas implicações, é uma outra. Tratei com menosprezo este pensador mas repararei esta miopia em pouco tempo. Nunca havia dado uma chance a ele até perceber a importância da auto-responsabilidade nos séculos XX e XXI. Se digitar CTRL + F e procurar pelo nome do filósofo francês, o leitor deverá encontrar críticas severas. Vejo aqui que a dilatação do conceito de liberdade me incomodava. Mas a culpa não é de quem o cunho, é do rebanho que não o suporta!

Tréplica que já imagina a réplica – Ao leitor mais arrogante que retrucar que sou louco: loucos não escrevem tão bem.

A propósito, melhor do que me resumir em uma palavra, DOIDIVANAS, PSICOPATA ou sei lá – melhor o leitor me enxergar pelo prisma dessas três: APAIXONADO PELA VIDA. Acho este até aqui o post mais importante e trabalhoso do blog – hipertrofiou minha mão, tive que parar, escrever menos que o previsto, deixar as idéias descontínuas, devido à paralisão completa dos nervos do membro direito. Sempre acho, nessas horas, que não lograrei resultado melhor, como no DA CULPA E DA AUTORIA DOS ATOS E TEXTOS, ou, retrocedendo ainda mais, DA PASSAGEM E DA CONTINGÊNCIA DA ESTADIA NO VAGÃO, duas grandes publicações do blog, campeãs de comentários, aliás. Mas a espiral segue, incrivelmente!

 

Gostei dessa linha pessoal de postagem. Talvez relegue o PROJETO TRANSCENDER a segundo plano em prol de auto-análises similares. Talvez eu faça remendos e novas incursões baseado no que escrevi, principalmente a fim de que o leitor conheça mais a fundo a origem de várias das citações e personagens que eu busquei, mormente na literatura, e com os quais projetei paralelos. Ou seja, prometo desde já uma espécie de REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA deste ensaio. Isso poderá fundamentar inclusive pesquisas que enriqueçam meu próprio panorama, com informações que, conforme for conveniente, eu revelarei ou não a vocês!

 



Escrito por wormsaiboty às 02:13
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A MAIOR TOLICE: ESCREVER PARA PRESERVAR!

Dedicado a um amigo que jamais lerá

 

Frases minhas:

 

“Precisei de uma cicatriz para entender o ferimento”

 

“Sísifo suplantou todos os deuses”

 

“Eu sei por que leio tão devagar! Mas demorei a descobrir!”

 

“Um dia vou tatuar nas costas: o único cristão morreu na cruz”.

 

“Tudo é como num jogo de futebol: ser diferente não é escusa para o fracasso; você escolhe onde se posiciona em campo e o gesto que executa. Tente o melhor antes de reclamar da sua condição. Aliás, só são toleradas invectivas ao árbitro após o apito final. E, como eu dizia, a vida é como num jogo, e isso é depois do jogo...”

 

 

 

É engraçado como Deus sempre participa das decisões temporais até a época lockeana ou um pouco além. “Deus interferiu pessoalmente”, é o que consta de uma passagem do capítulo VIII do seu famoso Segundo Tratado.

 

Eu só consigo pensar num contraste como sendo um duplo. Mas não poderia ser triplo, ou polimorficamente conjugado?

 

Cada um é absolutamente responsável pelo próprio destino. Esta a única das verdades práticas já enunciadas e que ainda não se consegue suportar. Sim, o Euclides estava certo: eu tenho sede de poder. Ser poeta é ser demiurgo, é dar uma sapatada na cara de cada um dos desafetos. É, eu simplesmente gosto desse jogo! Ninguém descreve verdades, apenas produz verdades. Soneca e bando: esfarelem-se! “Ois” e nada mais, o melhor para o meu corpo. Há riso demais para tão pouca graça entre os jovens. O que eu digo é verdadeiro com base na força do que escrevo, e não do que vinha antes. Persuasão? Não, não é só isso: eu convenço fisicamente, uma vez que a matéria não mais resiste a esse moto – que é matéria, impulsos nervosos e pigmento de caneta Bic (ou bits e bytes, placas integradas, mandando um sinal elétrico daqui e dali). E é verdade, não obstante, que o demiurgo também se alimenta (até vermes como o Luan se alimentam, de onde tiram energia para dizer as asneiras de praxe) para poder criar. Mas, tiranicamente, me despeço: demiurgo é demiurgo, criatura é criatura. O dia em que todo mundo assumir culpas sem crucifixos...



Escrito por wormsaiboty às 19:49
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Talvez a Grande Política se resuma a governantes que impõem as seguintes condições:

 

- não puniremos quem matar ou ferir. Cada homem deve saber se proteger e arcar com conseqüências;

 

- sancionaremos aqueles que furtarem, adulterarem ou destruírem obras-de-arte alheias. O ideal é que o artista divulgue seus trabalhos. Iremos acolhê-lo mesmo se for contra nós. Mesmo e sobretudo, pois para nós não há “mesmo”.

 

Etapas para a re-extensão do espaço-tempo:

 

- fim da Internet e das comunicações modernas;

 

- fim dos carros;

 

- fim da cidade como a conhecemos;

 

- destruição dos pastiches das épocas passadas (que nem são tantas assim, dados trimilenares desconfiáveis);

 

- isolamento de vários grupos humanos (como em O MESSIAS E O HOMEM RURAL);

 

- decréscimo da população (obviamente);

 

- para tanto, não a guerra, mas o desmantelamento dos Estados nacionais via desastres climáticos – Nova Era do Gelo – oh, isso é engraçado!

 

- ou seja, muito espaço por explorar e um tempo para criar, de novo.

 



Escrito por wormsaiboty às 19:16
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SAGRADA FAMÍLIA

 

Não estamos satisfeitos com aquilo que nós temos

a não ser quando o perdemos

e depois o reavemos

De certo modo,

é um querer viajar

até o ponto do saturar

para em seguida tecer o voltar

 

Eterna saudade

do que precisa ser superado

 

Enquanto eu quero viver

o cristão só pensa em morrer

para descobrir o que vem depois

A sina está feita

quando se descobre

que o rabo da cobra

era a cabeça!

 

Infância

Mil ressurreições

A deposição

do ressentimento

de qualquer cristão

 

Vingança

qualquer anti-semita delineia

mas a minha

não é contra o espelho

nem avessa a minhas veias

 

Onde corre sangue

e não a metafísica hobbesiana

do judeu exangue

Deus Mamon, deus-dinheiro

O umbigo mais profundo

O sofista mais infecundo

 

O carnaval da elite

é pagão

Faz ajoelhar até

o chão

Típico valor

de pedra

Esse de se curvar diante de

uma reza

 

Eu voo

Porque seus pontos cegos

são mais cegos que os meus



Escrito por wormsaiboty às 18:56
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O JORRO D’ÁGUA

Do bebedouro ou do tonel

Por que essa explosão?

No meio da noite

A mulher distante se avizinha

O dinheiro se reaninha

O ouvido amigo se dilata

Para ouvir a queixa

de um lamuriado

Quer que batam,

mas se sente injustiçado

Lei da compensação?

Porque a aflição e o afeto

são como o vírus que

cristaliza

no ar

e de repente

com um sopro

vibra

 

 

 

 

 

***

 

 

 

Paguei uma puta

Só pra conversar

- De onde vem?

- Do útero da mãe

A puta é,

em última instância,

uma filha de outra puta



Escrito por wormsaiboty às 12:08
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HEGEL, MARX E NIETZSCHE: ARISTÓTELES, PLATÃO E SÓCRATES DE CABEÇA PARA BAIXO

Na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, o Marx jovem lança os postulados da sua futura filosofia iconoclasta trans-moderna. A partir da página 108 (edição de A Questão Judaica que contém o excerto no apêndice) a covardia alemã e o estado de subserviência da cultura teutônica tornam-se palpáveis.

 

Quais são os principais sinais de que uma cultura começa a evaporar (entra em decadência)? Um inequívoco é a transformação do que foi trágico em Comédia. O Estado alemão do século XIX, comandado por kaisers que tentam ser ingleses, é a sátira do Antigo Regime. Segundo Karl Marx, tendemos a nos despedir de um processo histórico de modo alegre, rememorando suas facetas risíveis. O mesmo se sucede hoje, na Pós-Modernidade: todas as Artes e todas as Ciências são auto-comediantes. Chegou-se ao ponto de as comédias de comédias proliferarem: Guerra nas Estrelas, uma paráfrase cósmica dos combates épico-medievais (George Lucas bebe da fonte de Tolkien), é a série campeã de referências divertidas nos filmes e seriados americanos. No âmbito político, ver Chávez, o Carlitos do Socialismo, o último adeus da alternativa falha ao Capitalismo clássico.

 

Voltando à Alemanha, inscrevia-se o país em uma situação tão peculiar que se poderia defini-la no entreposto entre o esgotamento do mundo idealista e o não-saber-o-que-fazer. Isso implicava refutar qualquer filosofia e, tacitamente, aceitar o destino fatal, o cumprimento da mesma filosofia (de qualquer modo, a maneira mais ágil de transvalorar, se não fosse a única)! Se tudo por enquanto (anos 1840) fora teoria (imaginação), amanhã o que faríamos não seria prática, mas tão-somente reflexo do que viemos a ser... Até que o movimento iniciado gere um colapso extraordinário e outro projeto renasça das cinzas – Holocausto? Por colapso sem proporções, certamente quer-se dizer o fracasso e a humilhação alemães, o débito pelo progressivismo tedesco no século em que a Inglaterra não queria guerrear.

 

A Alemanha havia cumprido sua função intelectual antes do mundo – Hegel é quem disso se apercebe, sendo simultaneamente aquele que arremata esta compreensão, assim como um protagonista de García Márquez fadado a desaparecer lendo um texto sobre si –, mas parou em 1900. Os dois filósofos de mais renome que sucederam Hegel são os pássaros do devir do mundo moderno.

 

Hegel percebeu que, quando o homem se dava conta de que estava preso numa cadeia de fatos já projetados, nascia a História. Marx apenas reforçou esse juízo com sua pseudo-inversão. Talvez Nietzsche não tenha reforçado muito mais, porém foi categórico. O que é do futuro do projeto realmente autônomo é de lá e é apenas uma meta do observador daqui, QUE AINDA NÃO SUPEROU A SI MESMO. Marx se engana no derradeiro pingo de seu trabalho, quando, consciente de que o homem que ainda não se superou jamais teria respostas definitivas para problemas como esse (simplesmente o da auto-superação da humanidade!), ainda assim, afirma que a chave da transvaloração é o proletário. Nietzsche não cita diretamente nenhuma fórmula capaz de subverter o Cristianismo, o espírito iluminista e os Estados-nações. Não há fórmulas. A fórmula é decidida pela própria existência a cada segundo transcorrido – a única menção mais clara de Friedrich Nietzsche ao atingimento do übermensch consta do princípio de Vontade de Potência e é um duplo alerta: caso as categorias do niilismo se mostrem invencíveis, justo no momento em que o homem teria mais força e capacidade para ultrapassá-las, tendo chegado tão longe, isto significa que ou os modos de produção não estão maduros o suficiente ou ainda não se encontrou o modo adequado. Talvez essa seja a linha mais enigmática do legado deste último filósofo, o Sócrates depois de Cristo. Provavelmente as duas coisas vêm juntas, e ainda que não se possa pressenti-las no horizonte o pensador do martelo, morto em 1900, nos envia preces otimistas (especialmente a nós): não importa o dia em que cheguem, os novos valores um dia vão chegar...

 

NOTA CONCLUDENTE: Por incapacidade total de que me entendam adotarei silêncio rotundo e constante sobre as coisas da vida em conversas. Lembre-se sempre: é melhor para a alma forte ser centrípeta que centrífuga, e aliás é o único pathos que ela conhece para si. Respirar o ar do crepúsculo e sê-lo, ser mais imperioso que qualquer jovem, que quaisquer pés sobre o asfalto. Auto-satisfação comigo mesmo e com minha majestade. A onda do mar navega milhas e milhas antes de arrebentar. Escolherei o pedregal.



Escrito por wormsaiboty às 20:05
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UMA (DUAS) ODE(S) AO AMOR IMPOSSÍVEL

 

Quão brilhante é a neo-clássica adaptação de Romeu e Julieta de Shakespeare para o cinema! Talvez esteja fora de moda, não só o próprio amor, mas a forma textual em que ele é comunicado. Na era da falta de imaginação, imagens e sons devolvem ao jovem o doce – e ao cabo amargo – sabor da ilusão. Talvez o diretor Luhrman tivesse em conta a situação do professor de Literatura ao iniciar as gravações. Afinal, com a exceção do rosto de DiCaprio, cilada que captura as menininhas e esvazia o significado da aventura – sem volta: todas as aventuras são sem-volta –, esta é a única maneira de solidificar o que é líquido e esparso. O vívido contraste entre a erudição e o colorido de boate é o mesmo de entre as carroças e os possantes carros, das páginas (sem vida? O leitor está inerte!) com as câmeras, da batina sóbria e da camisa florida do padre (dos padres). E o que se tira disso? Há algo familiar demais entre opostos que se atraem para ser ignorado!

 

A contradição que não se pode resolver, entre dois inimigos de sangue, é o mesmo dilema que sente a carne. Posto que é tão real, não pode ser loucura ou confusão. Ou será que serão? Tudo isso é, e muito mais; a nova força semovente abraça todas as alteridades num invólucro só. O que é de hoje e o que já se tornou estranho, fóssil de uma enterrada era... sempre estiveram no recôndito de cada alma. Nenhuma experiência é previsível, não há ato que possa ser repetido – logrado duas vezes.



Escrito por wormsaiboty às 15:22
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Vamos testar o canto da sereia

Provar minha dureza

Se sou um hipnotizado

Ou se tenho sangue nas veias

E, se digno de Homero sou,

Para sair dessa

Sem mastro a que me atar

Só por cera assaz espessa



Escrito por wormsaiboty às 15:59
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2300 ANOS DEPOIS...

 

PLATÃO – Vê no que se tornou minha República. De fato, o projeto entrou em execução. A virtude dos filósofos foi empregada para governar o povo e tudo que se tem agora é a concupiscência desses senhores, a corrupção generalizada... Eu as produzi! Como lhes ensinei o desinteresse, e subestimei a vontade de poder humana, hoje eles ainda se afirmam desinteressados, porém eu vejo através da demagogia...

 

ARISTÓTELES – Que monstro produzistes! É chegada a hora, mestre e sobretudo leal amigo, de que luzes se tornem trevas e sombras matéria. Tua alegoria da Caverna é o que restou de mais preciso sobre a milenar natureza humana, e é um retrato perfeito de como os valores se invertem de era em era, de modo que o Bem se torne o Mal e o Mal se torne o Bem; e, claro, produzam-se essas figuras indefiníveis, fronteiriças. Sócrates foi o demônio antes de ser santo, e hoje é apedrejado novamente. Todas as épocas, apesar de toda alma ser livre, apresentam esses mártires, cuja liberdade se resume em atender uma necessidade universal: transvalorar o animal político! Meu inestimável professor, é tempo, já vês, de fusão de classes. Na morte de Deus já não há mais heróis, déspotas, escravos, o divino, o depauperado, um estamento infinitamente distanciado do outro, esta vocação de berço... Vês que todos esses homens treinados para a guerra, para os cálculos ou então para o comércio ou para bem servir os demais são atualmente um só? O querer sempre mais, a seleção que impusestes aos atenienses, este instinto de competitividade estranhamente alimentado pela ascese, isso gerou o corpo burocrático, isso centralizou todas as atenções no dinheiro. O nivelamento extirpou a nobreza.

 

PLATÃO – A areté é uma coisa que vai e que volta, nada deixa de ser... Hípias, Górgias... Vejo que o século XX será a reprise dos sofistas. É um movimento decadente, se bem que necessário, estímulo para uma ulterior ascensão. Vês como a Idéia atingiu sua exuberância máxima em Hegel? E não obstante foi com este alemão que meus ensinamentos principiaram a degenerar. Quando Glauco rebate Sócrates e diz que a Música não pode conduzir o intelecto porque é arte, sensível, ele está refutando Schopenhauer. O Homem ainda vai navegar por estas curiosas águas do tempo, meu amigo, até reencontrar Homero! Ressurreição do Olimpo!

 

ARISTÓTELES – Que a nova era dos poetas dure três mil anos e que até lá joguemos e dancemos, porque não será mais necessário tanto falar... O logos fica em segundo plano, coagulado.

 

PLATÃO – Aristóteles, apólogo de Sófocles, vamos indo que aí vem a caduca mas invencível mulher chamada Esperança...



Escrito por wormsaiboty às 15:36
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VONTADE DE (EXERCER) PODER

 

A Goethe

A Weber

E aos bons estrategistas

 

Por que o ser humano – jamais vi um caso – se recusa a fingir de modo que consiga as coisas fácil, que ganhe um atestado de que não é responsável sobre si e de que necessita de cuidados especiais de terceiros para sobreviver? Em outras palavras, de vez em quando me vem a idéia: e se eu fingisse que fiquei retardado de repente, com vistas a escapar de trabalhar, estudar ou de ser dono de qualquer coisa no mundo da propriedade privada? A fuga perfeita da burocracia que engole todas as consciências vivas, o resguardo em uma casa de loucos com cama, comida e roupa lavada (ou só os dois primeiros). Por que não? Ou a estadia em casa numa cadeira de rodas com a cabeça para o teto, a baba escorrendo sem-fim, os pais baqueados, sem alternativa a não ser servir? Algo aí não cai bem, e não é a desconfiança de que alguém não iria engolir o teatro ou a inexistência de planos paralelos (um deles seria cometer um crime hediondo para viver o resto dos dias numa jaula custeado pelo Estado).

 

Mas ninguém faz isso. É por culpa do transtorno que acarreta o simples pensamento de que se é um demente, um idiota. A humilhação instantânea. Todo ser humano vive para se esforçar e fazer seu melhor, mesmo que este melhor esteja muito abaixo do desejável. Prefere-se as dificuldades do “mundo lá fora”, o mercado de trabalho, o emprego insalubre, a existência sem sentido e o cotidiano enfadonho a qualquer enclausuramento mental. Talvez bata também (como me aconteceu), quando se reflete detidamente sobre o tema, o medo de se tornar um deficiente mental de fato, como resultado do hábito da dissimulação. Quem finge que é possuidor de um outro caráter há muito tempo frente a certas pessoas sabe do que estou falando. Uma coisa é parecer ser para angariar vantagens, outra é se converter na vítima do próprio golpe do baú. O que um completo incapaz poderia fazer? Nem que pedir esmola no sinal, o ser humano exige o direito de fazer alguma coisa. Quando penso que se tudo desse errado eu poria tal plano em ação, logo emanam dois impedimentos: o que eu poderia fazer? Talvez nem assistir televisão, ou ao menos não mudar de canal, porque não saberia mais contar, ou associar botões, controles, aparelhos, cores e cliques a movimentos coordenados do meu corpo. Não comemorar os gols do meu time. Não rir do que tem graça. Nunca mais. Tal perspectiva é apavorante. Não se está ganhando nada com isso. O sujeito mais convicto desta “saída” sofreria recaídas em menos de uma semana. Meu segundo obstáculo pessoal seria: nunca mais escrever, o pior dos interditos. Eu, que venho tentando emudecer, não aceitaria essa estaca no meu coração (onde afundaria, se entrasse pela mão destra), esse silêncio ainda mais fatal. Não acredito em loucos voluntários. No fim, em termos de sanidade, não tem como nos imaginarmos mascarados.

 

Tudo que cada um quer é aquele arrepio, aquela tensão, aquele sentimento de mover montanhas, que só se afiguram entre os poderosos. Ou entre as formiguinhas orgulhosas e persistentes que até o último instante têm esperança e apostam as surradas fichas nos seus sonhos.

 

(*) Para aqueles que consideraram ser este o ensaio mais ingênuo até então, se comparado com a série anterior, pense a respeito da doutrina da Contemplação de Platão e Aristóteles: em busca da Felicidade, viver a vida conforme as disposições de um débil mental. Recusar-se a qualquer tipo de afronta aos deuses! Ironicamente, tanta vontade de paz gerou “o mundo lá fora” desprezível que conhecemos. Mas nosso papel é aceitar a responsabilidade de combatê-lo, e não se esconder atrás de preces. Quem quer danar, vai salvar... ...e o verbo continua...



Escrito por wormsaiboty às 16:11
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O SONHO-PARÁBOLA PERFEITO

 

Proletários de todas as idades – falo de crianças e idosos, como no século XIX – e dos dois sexos, e uma voz que ecoa pela escadaria como se por um alto-falante ou por um sistema de rádio. Todos em trapos e inclinados à rebelião, exceto este austero homem da voz, devidamente engravatado. Firme, seguro. Ele representa o Capitalismo. A massa representa não o marxismo, a democracia ou o mercado de trabalho, abstrações: trata-se do homem, da condição humana. E os homens, em bloco, se bem que caóticos, descem as escadas. O ricaço – este anti-próton, antípoda da existência, que se aglutinou a nós, que se tornou desde tempos imemoriais nosso pastor – contempla, maravilhado. A escravidão em sua modalidade mais explícita me foi mostrada neste sonho-espelho. Não faz muitos dias, ou semanas, que ando tendo essas incursões filosóficas até mesmo na esfera inconsciente. É sinal de alguma coisa: essas questões se apoderaram da parte mais funda do meu espírito, da minha essência.

 

É como se o prédio se incendiasse e fosse posto em prática nesse exato momento um plano de evacuação, orquestrado pelo sujeito polido. Uma crise do sistema, uma desordem social, que logo será contornada, para que tudo volte a se assentar, como antes, ou mais que isso: em bases mais sólidas. As pessoas parecem saber disso, mas não há alternativa. Alguns, mais insurgentes, crêem que depois de hoje nada será como fora, a verdadeira revolução se aproxima. A exploração sepultada? Meu sonho penetra no verídico devaneio de bilhões de homens no decorrer da História.

 

Algo, no entanto, paira insondável. Aliás, ao invés de estático este algo talvez seja dinâmico, fluido, movimentado, eficiente, faceiro, sábio, sério e brincalhão na medida – uma entidade que opera com conhecimento total das circunstâncias, cujos propósitos até escapam à cena, algo que consegue enxergar além, uma origem e um destino do processo em curso – o momento da correria pelas escadas é o Ocidente, o mundo moderno. Esta criatura invisível, onisciente e observadora, o que é? Deus? Não, óbvio demais... Sou eu! E afora alguns detalhes meu sonho – eu diria extraordinário vislumbre alegórico – não avança mais do que isso...

 

Vamos aos detalhes: o grande proprietário, a burocracia de carne, rosto bem-aparentado, sorriso elegante, bom porte, enseja organizar seus soldadinhos em batalhões de diferentes tamanhos, de acordo com faixa etária e gênero. Há, como já mencionado, um burburinho, um mexerico, uma espécie de pólvora que promete comprometer essas fundações e que, depois, venha o que vier. A taça cheia precisava derramar seu conteúdo. Antes que as filas se organizassem como pedia a voz, tudo se desvanecia e eu acordava...

 

Às interpretações: o que é que diferencia os planos da massa dos meus diante desse “filme”? E o que faz de mim um antagonista invencível para este homem, enquanto só os operários com suas vontadezinhas imediatistas não passam de brinquedos sob rígido controle do dono? Eu sou a perfeição, diviso até uma das aparências ocultas desse homem engravatado: não é mais esbelto e galante, mas um gordo de cabelos encrespados, uma figura feia e áspera daquelas ante as quais se deve cuspir no chão ao se lhe dirigir a palavra, ou engolir em seco, caso seja seu patrão. O semblante de um obeso que promove o escárnio, ri sozinho e mata com suas piadas: o inimigo da sociedade há dois milênios.

 

O que vai acontecer é que eu vou combater este centro de poder com o único contragolpe à altura: ele mesmo. Os homens que rolam escada abaixo não podem tentar queimar suas fábricas, destroçar o Capitalismo: este último sempre triunfa. Eles devem sê-lo. Devem se fundir com a figura sebosa do capitalista: milhões de homenzinhos iguais, com a testa engordurada, um sorriso doloroso, o terno passado e justo, a conta no banco tão gorda quanto a própria silhueta. Isso traz à tona um diálogo – mais para lição, nada amigável – que tive há meses com um estudante de Serviço Social, engajado na promoção da  “justiça social”. Agora sim, com todos se comportando de modo pragmático, lucrando e lucrando... tudo vai desmoronar! Essa é a função atual do sindicato: ser burguês. Tornar-se a burguesia (um estranho crossover, é verdade), a classe unificada, a última habitante deste planeta. Para então se auto-destruir. Nenhum Aquiles escapa à sua sina. Clones em marcha: logo o senhor Narciso se enfastiará da própria imagem.



Escrito por wormsaiboty às 16:56
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MINHA INTEMPESTIVA III – DAS VÁRIAS METÁFORAS QUE EU ENCARNO

 

“Eu me arrependo de tal coisa.” Essa é uma frase corriqueira em nossas vidas. Mas tão comum quanto perecível. Quando se tem maturidade suficiente para se aperceber dos jogos de ação-e-reação que nos constroem e do papel do sentimento de culpa em cima de nossos atos, enfim, quando o sujeito apreende a “irrevogabilidade do crime” e enceta a direcionar seus erros a seu favor, tem-se finalmente autoridade para proferir a frase: “Todo arrependimento tem uma data de validade”. Se nem todos têm, é melhor embarcar na ilusão de que determinada ferida irá cicatrizar – ou não se consegue viver uma vida. Atente para meu exemplo: pelo menos um ano me arrastando em sonhos para ser readmitido no Colégio Militar. Mas eu engolia o dissabor com meu orgulho de leão (e não de pavão, que é um ser belo porém fraco) e não contava a ninguém – muito menos aos pais. Eis que quando a oportunidade se insinuou, piscou, tremeluziu... eu já me havia apoderado dela. Bingo! Todo arrependimento é vencível – seja pela ação do tempo, seja pela labuta individual (obviamente, essa é uma categorização como todas as outras: falsa, pedagógica).

 

Eu não me arrependo de descartar amigos. Talvez eu me arrependa de não descartar mais... Tenho de reconhecer que meu lugar jamais foi fora do reino burguês. Apesar de jamais ter sido dentro. É hora de cortar os laços que ainda restam para ser cortados. Não tenho mais amigos ricos e frescos. Sou tão estranho no ninho que ainda que com um bom porte, roupas adequadas e um celular da moda, não me confundiriam com um deles. Portanto, as badaladas do relógio hoje indicam: é tempo de se desfazer de quem te olha com estranheza não por estares de fora, mas por estares intrometido. Ou quem seria o intrometido de uma história que começa na minha casa com convites constrangidos? Desde o início fui montaria de um grupelho que me olhava como detentor de benesses especiais – de caráter financeiro. E que outro seria? Qualquer outra afinidade no meio do caminho é fachada. Como disse, arrepender-se é ou precipitado ou vão. Claro que se trata de figura de linguagem – todo ser humano se arrepende e ponto. Resta saber, contudo, o que se faz a respeito dessa angústia de não poder alterar o passado.

 

Minha vingança é atroz porque me vingo de mim mesmo. E quando reconheço o erro, resta muito pouco para os idiotinhas fazerem. Quem sabe já se conformar com o prejuízo seja a melhor saída para eles. Um ex-amigo que está indo para o saco nesta temporada chama-se Eduardo, o adolescente de meia-idade, o Peter Pan ébrio e urbanóide que se dedica ao ofício de ser o contrário do que a cara estampa a cada finalzinho de semana, para descontar a frustração existencial. Evidentemente, a cada criancice, faz questão de propagar sua moral antípoda: “aprenda com os mais velhos”. Precisa de um Cristo a cada sexta-feira porque a mão está cravejada de calos demais para que dê outros três passos adiante com a cruz nas costas. Talvez a madeira deste Pinóquio esteja tão podre que ele não se vê mais capaz de pressentir o mal que devém. Ele espera que um terremoto o avise, sem embargo o tremor de terra é o próprio mal do qual ele deveria ter sido alertado...

 

Um pobre diabo desses, quando cair em si, vai notar o bilhete premiado que lhe escapou pelas mãos graças ao vento e que, quando estava prestes a reaver, escorreu pelo bueiro. Por um acaso um bilhete se arrepende de não ter sido de algum vencedor? Se não se está com o bilhete, a vitória é só um sonho perdido. O bilhete faz o vencedor. Nem que passe a ser benquisto, para o próprio gozo de si, o destino de se colocar fora de qualquer alcance no submundo, e deixar a mesquinhez lá em cima se acumular. Se todo o ouro volta ao dono, o único dono é o fluir ininterrupto, porque nesta aventura não há retorno – e se houvesse o dono já não seria o mesmo.

 

É chegado o momento, em suma, de singrar por novas águas, o que implica a deserção de marujos saudosistas em excesso. Nada de velhacos com manias de meninice, nada de bufões. Daqui em diante, que o capitão prepare o convés, a proa e o casco – e, porventura, se algo der errado, o bote salva-vidas.

 

Ficam registradas algumas dúvidas pessoais: 1) passarei meu segundo ano consecutivo sem me apaixonar? 2) quantas recaídas eu terei naquele campus? Vou me sujar de novo com aquela patota? Me sentar de novo naqueles sofás comidos por traças?

 

Aos parasitas: aqui estão as chaves, mas é bom olharem para o chão antes de entrar, porque esqueci de dizer que moro numa imensidão. Uma imensidão que para pequenos praticantes da punga não tem nada de inteligível, é só uma queda no vazio.

 

Eu sou perigoso. Não ofenda o solitário. Eu não tenho absolutamente nada a perder, em nenhuma transação termodinamicamente cogitável. Um espírito como o meu -- possui a sabedoria de cem deuses, e o conhecimento do veneno específico de cada um que tem o azar de me surgir como pusilânime. Principalmente os outrora outra coisa. Eu emito sinais claros de que estou prestes a fazer uma “burrada”. Como não se precavem, os vizinhos indômitos levam um caixote: do cimo da onda – domadores do mar! – aos arrecifes. Se ter Napoleão como escada é o ideal, a meta máxima, tombar dessa escada deve ser o que deixa o cotovelo mais roxo: e se alguém nunca está tão elevado quanto quando sobre um lance de escadas, também nunca esteve em maior risco. Eu sou o homem-dos-riscos. De que me importaria o juízo alheio, se só eu me leio?

 

O trapézio que eu era, o palhaço que eu fui, viraram o fogo dos arcos, as facas dos alvos e as luzes do palco. Sem mim vocês não são nada. Mas comigo estarão mortos ou ofuscados.



Escrito por wormsaiboty às 17:50
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MEA CULPA

Tive meus anos de 2005, 2006 e 2007 pautados pelo liberalismo econômico mais ortodoxo. Relacionei-me com veículos de comunicação, pessoas e defendi idéias que não queria – não quereria, é dizer, se pudesse medir as conseqüências hoje. Me defrontei com muitas instituições, programas, crenças e vidas. Gerei polêmica, gerei tumulto. Em sala de aula ou em ambientes de trabalho. É verdade que, receber, eu jamais recebi por isso um só tostão. Até em paradas de ônibus na calada da noite eu me engalfinhei com desafetos (nem que apenas imaginários). Claramente havia uma atmosfera que me infectava, um acontecimento político escandaloso, a desilusão do passado (do infrutífero século XX), um curso superior errado, o impulso por ser contrário ao vigente, personalidades de cuja paralisia eu precipitadamente me alimentava.

 

Poderia elencar as principais figuras vivas, e os principais projetos em que me engajei (me enredei, vi depois) neste período, plantando desesperança e querendo colher a realização da liberdade: Diogo Mainardi, e sua sedutora e espetacularizante retórica – hoje eu não sei quem é esse homem, o que ele escreve ou deixa de escrever; Gabriel Keene – que me achem, esses indivíduos, no Google, se puderem –, o “presidente inteligente popular amigão” que atualmente enxergo lá embaixo como tendo sido uma trava temporária (ele era presidente de uma limitada de adolescentes faz-de-conta, não se formava por incompetência, apenas puxava o saco de algumas patricinhas, era somente uma daquelas crianças rejeitadas que cresceram com seu amor pelos videogames e pelo Tio Sam sem saber o preço de uma amizade); Raphael Bruce, um antiquado um pouco mais genioso que a rede de amigos geeks (*) ao seu redor, que pensa em “entabular diálogo” como “impor o meu falo”; professores muito... pessimistas; blogs em que trabalhei “querendo raciocinar em conjunto”, mas em que descobri o sobrepeso da minha opinião pessoal, dentre os quais o Abrigo Polar, o Horário de Brasília, As Fantas, o Bicarbonato de Sódio. Michelle, talentosa mas desorientada, Rômulo, Martino, um maluco ou outro da internet, Peu Lucena, o adulterador de textos, Carmen, a chefe invocada, Melina Sales, a de humor contagiante, colegas de ex-faculdade (ou ex-colegas de faculdade), todos me passam batido. Tem ainda o demoro.com, os jornais em que estagiei como clandestino. Seria impossível lembrar de tudo de uma lapada só.

 

Este artigo não pode se resumir à modalidade acusatória. Também trago uma receita para um melhor entendimento de onde se pisa: 1) caminhar muito ao ar livre, se possível debaixo de sol forte e com roupas pesadas. Ou melhor: tentar os mesmos trajetos em diferentes horas do dia. Quando se está um pouco bêbado e se passa por uma cidade suja, escura, desolada e insolúvel não se acredita mais no capitalismo. 2) de vez em quando desligue a música e a TV e coma uma refeição em silêncio!

 

Continuando o que ia dizer, 2008 foi o ano da virada. E este texto é só mais uma pedra.

 

(*) Cabe aqui esclarecer por que utilizo geeks e não nerds, uma etimologia arruinada que confundiria meu leitor – enquanto ser pensante eu ser considerado na maioria dos círculos jovens como nerd, com ou sem óculos, é auto-explicativo o bastante. Meu conceito de nerd/geek é: aceitar o mundo adulto só no que ele tem de eufórico: o aumento de poder, o carro, a bebida, as mulheres, as festas, as compras, poder olhar de olhos caídos alguém na rua e rumar para casa. Mas recusar as responsabilidades. Às vezes o nerd lê quadrinhos demais e esquece que por trás de toda a tecnologia do fabrico e a aparência há o fator humano e que nem tudo é uma rodada no Outback. Como o tio Ben do Homem-Aranha já dizia... (a frase todo mundo sabe) Porém, ninguém aqui quer saber o que implica o trabalho. Quando você cresce e seus amigos não, fica essa dificuldade de definição: o que há com eles? É precisamente isso: um estranhamento inter-geracional, porque você amadureceu mais depressa.



Escrito por wormsaiboty às 18:18
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EU DANTESCO

Eu já visitei o Paraíso e voltei

Contei que fui rei

Riram de mim

Do profeta em mim

Mas quem senão eu

Para relatar

Os bastidores do pós-espetáculo

Se Real não é palavra por acaso

Que denota a realeza

De tudo que vai

E de tudo que volta

 



Escrito por wormsaiboty às 17:55
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ANÁLISE PSICOLÓGICA DO SEXO NO PORVIR

 

As orgias gregas não são como entendemos as nossas, porque eles não negavam o corpo. O Cristianismo é um estímulo catatônico à perversão. Universitárias com poucos dotes intelectuais logo se abandonam ao fogo, feito as bruxas. Estudo do prazer - dar ou obter o presente proibido/oculto. Mas tem de ser um jogo igualmente tácito, é assim que se joga. Se a libertinagem ganha publicidade e câmeras demais, inicialmente é prostituição, mas há algo estranho aí - uma mudança, um ganho contra o pudor moral. A permissividade como excitação (com predomínio ainda do sentimento póstumo de vergonha) cede à adoção hedonista como costume - não-proibido. Culto e re-valorização do corpo, portanto da nudeza. Enfraquecimento da culpabilidade. Perversão à inocência (re-helenização). Nossas orgias ainda são o culto do socialmente reprovável. Caráter de desafio. Os bacanais gregos constituem o exame duplamente nu da verdade e das possibilidades do homem frente aos deuses - ele nasceu assim, ele é isso. Celebração da vida. O sexo sob o cobertor, o fabrico da vida às escondidas, soa como algo débil, aviltante da natureza humana. Até o ponto de ter vergonha de testemunhar a cópula entre os animais!

 

 

 

"Se Goethe tivesse cavado um pouco mais fundo na essência da mulher, teria descrito um segundo Werther que foi levado ao suicídio não pelo amor frustrado, mas por ter logrado o amor carnal. Mil Werthers cometem suicídio espiritual, enredados na roda dos ciúmes, para cada Werther que quebra a cabeça porque uma plebéia idiota se recusa a atender uns suspiros apaixonados." Friedrich Nietzsche

 

"Eu amei; eu também sofri, mas, acima de tudo, eu posso sinceramente dizer que eu vivi!" Fiódor Dostoyevsky



Escrito por wormsaiboty às 16:16
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O MELHOR GOLE D’ÁGUA

 

Hoje eu compreendo o sentido de três mudanças na minha vida: ter sido expulso do Colégio Militar; ter rompido com a quase totalidade dos meus colegas de curso; não ter me casado. Quando Nietzsche formulou o conceito de Deus ex machina ele escrevia a serviço do cristão Richard Wagner. O Deus ex machina, se fosse atualizado, seria entendido como parte do indivíduo e de sua força - o sabor da roda do acaso. Sinto que estas três linhas divisórias da minha vida foram de obtenção inconsciente. Mas é o inconsciente nossa verdadeira fatalidade.

 

Não houvesse sido inconseqüentemente submetido a processo disciplinar na escola-quartel em que estudava aos 14 anos, provavelmente hoje eu teria profunda ligação com amizades daquele tempo. Faria parte de um círculo razoavelmente sólido na Universidade de Brasília. Gosto de pensar que sou um barco à deriva ao invés de uma ilha, então minha base fluida me permite conhecer novas águas. Hoje eu entendo a modalidade de comportamento daqueles garotos, uma vez crescidos, como não tendo sido alterada mesmo após tantos anos. Sinto uma diferença muito dilatada entre nossos pontos de vista. Eles são minha antinomia: os filhos, os profissionais e os cidadãos que eu jamais seria. Conversas tediosas, rotina hedonista (cujo sinônimo mais próximo é "pessimismo": falta de capacidade e de claridade mental para suportar a dor e até querê-la, como nascedouro de novas vitórias), projetos ligados ao dinheiro e falta de discernimento psicológico. Sem dúvida esta última característica é a que mais me irrita: não conseguem compreender as atitudes dos outros (eu posso estar feliz com a cara mais séria!). Tal deficiência é óbvia, pois seus universos são como a viseira de um cavalo.

 

O mesmo problema - exatamente o mesmo - se verifica entre novos jovens. Não tão novos assim: parecem cópias dos primeiros. Ao entrar no curso de Sociologia, procurei avidamente me entrosar. Conhecimento e reconhecimento instantâneos. Estava caindo na mesma cilada de quatro anos antes sem perceber. Mas novamente houve uma interferência do que eu posso chamar de "o manobreiro-eu", sua parte mais colada à essência, sua personalidade verdadeira, que opera sua casa-das-máquinas. Contra os incuráveis hedonistas - perguntem-nos por que bebem tanto, o que querem esquecer, por que preferem a palavra "solução" a "problema"! - encontrei a solução da mímica: me tornei o superlativo do beberrão. O que aconteceu depois disso foi a quebra de um dente da frente numa escada e o dano moral. Finalmente o operador se recostou aliviado e emitiu um suspiro: seu pupilo absorveu o recado. Pude iniciar meus rompimentos no campus: uma série que ainda não acabou. Disposição havia, mas faltava o motivo: um para cada um, como seria desgastante! Mas, ao fim, bela manobra! Infelizmente, depois de baixar a poeira, percebi que algumas cabeças permaneciam fiéis. Mas eram fidelidades que doíam. Querer-se todo para si: esse é o extremo do amor! O próximo trabalho, em curso, está sendo revolver essa gente, que também me faz sentir apequenado. Já não basta a carência de rivais dignos, para injetar um pouco de graça? O que há no momento são mil sombras indiferentes e alguns adolescentes que ainda me incomodam por estarem do lado que se chama de "os amigos": não há grupelho mais propenso a destruir o que um tem de mais valoroso do que esse. É preciso tomar muito cuidado com cada coisa que deles se ouve e com cada postura que eles sub-repticiamente nos incitam a tomar.

 

Meu plano inicial - e falo de outro tipo de relacionamento agora, ocorrido cronologicamente entre esses dois primeiros marcos citados - era terminar a faculdade de jornalismo já despachando num jornal e me casar. Havia pressão da namorada para que isso acontecesse, e como ela era "o bem mais precioso" eu tinha de me esforçar. Uma vida inteira ao lado de quem se ama, a segurança sexual almejada pelo homem, quem sabe daí a vôos mais altos: lindos filhos, a propalada vida do bem-estar. Era o vírus do hedonismo, do ser humano sempre apático diante do que a vida tem para oferecer, esse querer-se enclausurar num conto-de-fadas, que me atacava outra vez. Como o ferrão de uma abelha, ou a agulha de uma injeção, de quem espera a anestesia, a sonolência, a amnésia profunda. Eu havia me esquecido que o amor perverte mais do que a amizade, é a amizade que dorme consigo na cama! A amizade de papel lavrado. A amizade não é o problema. Mas ser a amizade errada, e não sabermos onde raios se encontram as certas. Parece que não há naturezas como a minha. É esse o preço a se pagar por se desejar um pouco de desafio, querer tomar um gole d'água gostoso, e não porque se diz por aí que beber água faz bem para a saúde? Que bem é esse? Viver mais enquanto se nega a viver? Minha potencial noiva se apaixonou por outro e o sonho americano foi pulverizado. Aos 20 anos, eu confesso que sei demais: muito mais do que jovens hedonistas, cuja preguiça me cansa. É preciso aprender, tolinhos, que o gole d'água só é gostoso quando se está com sede...



Escrito por wormsaiboty às 17:31
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DESENCANTO E REENCANTO DO MUNDO

 

Lendo CartaCapital e a matéria sobre o barulho crescente de São Paulo e juntando isso com o NECROSE de Edgar Morin eu cheguei a um importante insight: contrariando - ou, antes, solvendo a dúvida da - minha nota prévia (abaixo) sobre o horror nuclear, o grande fenômeno que parece demarcar o início da derrocada do Ocidente e que sucede imediatamente o sucesso ou ponto máximo da era fabril é mesmo a Segunda Guerra Mundial. Agosto de 1944, para ser mais exato. Neste momento os embriões congelados das criaturas e coisas trágicas começam a fermentar. Este é meu procurado "turning point" da transmutação de todos os valores. É a este momento de sangue semita-japonês que Nietzsche se referia com garbo meio século antes. Apesar de índices enganadores como o Neo-Liberalismo pujante dos anos 80-90, isto já é decadência, pois o fôlego dos Estados representou a espoliação das massas, assim como o poderio soviético nos anos 50-60 é a demonstração de que a assim chamada cultura moderna não consegue sustentar seus ideais, embarca com fé numa nova solução, uma resposta para a crise, a qual irá tombar.

 

A Liberdade, dilema sempre central - cuja apoteose se deu na Revolução Francesa, durante a qual o homem estava no ponto-médio entre o servilismo feudal e a escravidão humanitário-democrática (julgando-se vitorioso sobre a primeira condição e ignorante da segunda) -, chegou ao paroxismo da sua auto-destruição com vistas a tornar-se soberana: abdiquemos de nossa liberdade individual, como autores de escolhas, e sacrifiquemos o czar, defensor de uma liberdade antiga e ultrapassada, para que as vozes sábias do Partido Comunista nos ordenem como há de ser daqui em diante, sem Deus. Esse era o teor do discurso, se pudéssemos ter ouvido francamente.

 

É conhecido o cenário vigente de proto-deuses que ainda concorrem para tomar o lugar da falida deidade cristã, do envelhecimento e pacificação da população, da desertificação, da mentira do crédito e da busca pela vivência alternativa, seja ainda parcialmente consumista ou radicalmente eremita, mas sempre mais "Gaia". A aceleração que é ininterrupta ao expectador é aparência. Não existe expectador, todos estão do lado de dentro do trem-bala. Talvez por isso não percebam, mas a sensação de velocidade se intensifica não porque os trilhos sejam percorridos mais rapidamente, mas porque as edificações do último milênio vão desabando em ruínas como nunca antes. Se Guy Debord soubesse que seu retrato não passa de aparência...

 

Este escrito é de alguém lúcido, no olho do furacão. Minha única ressalva é: não admito a ingenuidade de que novas catástrofes não ocorrerão e que a transição será tranqüila - vide proliferação nuclear entre nações do Terceiro Mundo. Intentei apenas descrever qual momento histórico era o ápice da contradição, entre tantos episódios, passados e vindouros.

 

 ***

Escrevi em 7 de dezembro (com reformulações na data presente para tornar o manuscrito acessível):

 

Terão sido as Guerras Mundiais e a Guerra Fria - o século XX - o estopim do processo de loucura niilista por que perpassa a humanidade, ou a a-humanidade, o ocidente decadente? Teremos a tranqüilidade de dizer que doravante o anel exibe sua curva ascensional rumo à idade de ouro trágica? Ou é necessário mais um esforço, um empenho sublime, um contagiante acesso de fúria, uma alta da maré tanto mais feroz para nosso século quanto o que a onda nazista representou para o rochedo outrora tão vacilante, inconsistente? Este, o rochedo da capacidade de assombro humano - o que hoje nos assombraria, para além de duas nuvens de cogumelo? O que será isso, ó Mãe-Natureza? De uma coisa tem-se a certeza: não existe fim de mundo, ou fim da História...

 

"No princípio, era a ação!" Wolfgang von Goethe

 

"O sociólogo precisa entender o que é apurar necessidades. Eu trato do que é inevitável a longo alcance" O Autor

 

"Existem pessoas centrípetas e centrífugas. Algumas empobrecem sua essência ao longo da vida, dissipam suas energias. Eu reúno o gasto sem propósito ao meu redor para realizar meus projetos" O Autor



Escrito por wormsaiboty às 16:37
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NIETZSCHE CONTRA TODOS, APOLOGÉTICA DO HOMEM

 

Sobre a imaturidade autoral: quando publicar imediatamente uma obra ou esperar mais tempo. Nietzsche já era auto-suficiente, se assim se pode definir, quando lançou O Nascimento da Tragédia. Zaratustra sem dúvida é outro píncaro, mas são aí dois autores cuja relação de linearidade não pode ser traçada.

 

Jesus e Nietzsche: os últimos transmutadores, os bodes expiatórios da Europa. É citado Copérnico (1), e poderia ter sido lembrado Galileu: aqueles que não tiveram problemas para levar adiante suas revoluções em vida, ou que desistiram em um último momento porque não tinham a força requerida. Nietzsche é um contra-exemplo: não se ajoelhou, não pediu perdão. Foi este santo que pagou com o próprio sangue para que os preconceitos da época fossem revistos. Aquele que não gerasse polêmica - um wagneriano - estaria levando a Europa para o caminho mais fácil e equivocado. Jesus podia muito bem ser substituído por Sócrates para ficarmos na Filosofia. Um homem como Sartre, que se torna pop star e colhe os bons frutos em vida...? Não se se quiser a verdade. Hoje em dia parece ser fraco o apelo de Cristo: quem morreria por ele? De igual modo, não conheço outros filósofos tão proscritos... Lutero quase representa esse pathos fatalista. Mas esses cânones modernos, de Platão em diante, tiveram existências tranqüilas, uma posição por demais asceta. Nietzsche jogou fora, por assim dizer, uma carreira de talento precoce para enobrecer o homem niilista. Professor da Universidade da Basiléia aos 23 anos, trabalhos sobre os pensadores do Helenismo que eram muito lidos e divulgados com prestígio. Era apadrinhado de dois influentes mestres, Ritschl e Richard Wagner. Só um louco ou idiota - para Dostoievski - abriria mão de sua trajetória individual para conceder aos humanos do porvir, a essa massa cristã desesperançada, a chave da cela. O meio-dia da eternidade. Sua posteridade auto-sentida pode ser atestada pelos subtítulos de suas obras. Zaratustra - um livro para todos e para ninguém. O irônico é que algumas tempestades sobrevêm sem aviso. A dinamite nietzscheana quase não tem explicação. Seu estado mental, talvez o corpo mais perfeito de todos, o mais intenso brilho da Arte até o século XX, assimilou o que apenas um humano com sede de afronta e de desafio não lograria fazer. Pode-se dizer sem medo que a Prússia estava diante de um milagre. O filho de Deus voltou à Terra, pereceu, procrastinou o Juízo Final por mais 2 ou 3 mil anos e ninguém está ainda a par. Se eu achasse ainda por um segundo que vivo em vão haveria aí um grande desperdício. O engraçado é que, ao contrário de Sócrates, Friedrich jamais teve um intérprete a sua altura. Tendo escrito - muito -, talvez tenha reunido dois em um, professor e aluno. Não era seu filho espiritual esse tal de Zaratustra?

 

Pequeno pedido: que os Direitos Humanos, que nunca existiram, fossem declarados inutilizáveis por qualquer nação. Que seu uso como prerrogativa para o apodrecimento do homem seja proibido. A guerra, atitude que jamais deixará de ser nobre, da qual cada um de nós homens poderá tomar parte um dia, é a mais peremptória negação desse remendo brutal da oratória suja do século vinte: e assim deve ser. Que o direito - e até a obrigação - de matar o próximo seja olhado com carinho. Viver é matar todo dia.

 

(1) My Sister and I, Introduction, by Oscar Levy



Escrito por wormsaiboty às 17:31
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A VENDETA E O MAL-ENTENDIDO – O CENTRO, A LENTE E O REBANHO

 

Hoje a chamada "instância central" dita o comportamento humano. Porém, não existe qualquer fonte objetiva - mediana social - quando se fala em homem. O indivíduo contemporâneo é apenas uma planta adulterada - o rascunho original está perdido. Com respeito a qualquer grandeza e dignidade na palavra "homem", elas vêm do próprio ente, não da transferência de responsabilidades ao vazio. A proibição da vingança pessoal é o indício mais claro dessa falência moderna do homem: o Estado é o responsável por julgar, vigiar a condenação, condenação que ele próprio criou... Mas quem é o Estado? Não se trata de um homem maior e mais poderoso - trata-se da covardia dos pequenos reunida. Sentimentos agregados de vergonha jamais fariam frente a um gênio indivisível, ainda que renegado - por isso nem se pode falar em Napoleão, que já em seu tempo foi a esperança do "século", até sucumbir à máquina burocrática.

 

Quando o Estado é questionado há cheiro de grandeza - ressurreição? Exceto quando esta revolta é inspirada por outro "centro neutro" ao invés das pessoas. De novo a ingerência do espaço vazio! A lente midiática atua como um segundo detrator da verdadeira assunção de responsabilidade. É um Estado sem sede ou exército - ou talvez essa assertiva seja muito ingênua. A vendeta da televisão é apenas outra cadeira elétrica. Não há aí punição com as próprias mãos. Há apenas uma sujeira anônima - no íntimo, esse anonimato é uma confissão de culpa geral, em uníssono. Uma sociedade que gostaria de ser queimada na fogueira. Quem é o carrasco?

 

A conversão da imprensa dos magnatas em "cada um emite a sua notícia", paradoxalmente uma tendência em propulsão graças a um grupelho de bilionários, que começa a falir os jornais e vê a infinitude dos blogs no espectro, é uma resposta inicial de uma mãe-natureza que nunca morre, de uma história que não acaba. Digamos que daqui a duas décadas já esteja bem mais claro o "olho por olho". Eu quero ser reconhecido por isso! Quem grita mais alto passa a ser ouvido: a atração será a magnitude do próprio eu, nada de cunhadismo - que cunhadismo? Um brasão de família que volte a arder! - ou venalidade. Já há blogueiros que não silenciam barato...



Escrito por wormsaiboty às 17:29
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EMBURRADO COM A IMPRENSA

Nesse reveillon, tive uma idéia: vou usar minha traquéia para, com eloqüência, melar a estréia da nova senhora gramática, que já lanço de antemão como candidata a mais precoce das viúvas - seja por falta de quem a pratique, seja porque não se pode entender o que deriva do que já não se compreende. Ao contrário de revistas luso-francas como a MONET (também, com um nome desses, como poderia ser fiel aos sub-trópicos?), não fico embevecido com obra-tampão (obra? Lei. Status inferior. Não é coisa de artista - não daqueles mais chiques que palhaços). Ainda falo o bom Português de Camões. Este Blog não aceita as novas recomendações ortográficas que começam a viger em 1º de janeiro de 2009. Algum problema com isso?

 

Já que toquei no assunto projeto de lei, ficam aqui minhas palmas para a figura plenária que teve a capacidade de engendrar uma votação para dar cabo de uma comunidade do orkut que veicula a discografia de vários grupos musicais em formato mp3. Agora sim, a pirataria vai acabar! A pobreza só não se esgotou porque nenhum gênio teve ainda a idéia de transformar riqueza em lei!

 

Um 2009 de mais sabedoria para quem não me lê - o tipo político, o tipo que tem vergonha do seu idioma.

 

(quem enxergou minha infração ao idioma estrangeiro? Minha retaliação doce como um vinho branco)



Escrito por wormsaiboty às 02:23
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TRANSCENDER 14

MAX WEBER apresenta:

 

A ÉTICA PROTESTANTE E O "ESPÍRITO" DO CAPITALISMO

 

APRESENTAÇÃO

 

Logo no primeiro parágrafo (p. 7) eu vejo como o Guilherme é burro!

 

Explicação das aspas (retiradas na 2.ed) na palavra espírito - cautela e destaque. Capitalismo no sentido amplo (o progresso).

 

"Rascunho" da Sociologia da Religião de Weber.

 

São praticamente dois livros, um de 1906, o outro de 1920.

 

TÁBUA DE CORRESPONDÊNCIA VOCABULAR

 

"Prisão/gaiola de ferro" se torna "rija crosta de aço" aqui.

 

Um sem-número de alterações fúteis (trocar "absurdo" por "sem sentido").

 

NOTAS DO AUTOR começam na p. 169.

 

GLOSSÁRIO (277)

 

Três igrejas protestantes a se considerar:

- anglicana (inglesa)

- luterana (germânica) (1546-)

- calvinista (sub-ramos esmiuçados ao longo do documento)

 

Afinidades eletivas: ler verbete; citação de Goethe.

 

Anabatistas: ana - outra vez; de novo um batista (protestante). Vertente radical, atiçava camponeses a se revoltarem e pregava um retorno ao cristianismo primitivo, considerado pagão. O "Ana" foi acrescido pejorativamente pelos rivais, uma vez que esta seita extrema se caracteriza por permitir o batismo de - e só de - adultos. Como um adulto é um bebê que um dia fora batizado classicamente, tem-se um re-batismo.

 

Anglicanos: protestantes ortodoxos ingleses. Se o dado principal é que todos na igreja puritana são pastores, teoricamente "iguais na tarefa de evangelizar os fiéis", aqui é diferente: há uma vertiginosa hierarquia, como nos domínios católicos.

 

Arianismo: originado no padre Arius de 3 a 4 d.C. (séculos), é contra a Santíssima Trindade. Jesus é como qualquer outro humano. Implica - talvez, desde já? Não apurei - numa redução do conceito de humanidade irrestrito cristão (Simmel)? Testa-de-ferro do anti-semitismo... Embora se possa direcionar a mesma crítica aos próprios judeus: eles se crêem "o povo escolhido", assim como o ariano crê que justamente o não-escolhido e funesto é o semita. O porquê de esse instinto repulsivo não se levantar de forma tão incisiva contra os católicos ortodoxos (ou não ter havido isso episodicamente, na Alemanha de Hitler)? O Cristianismo não é coerente, como nenhuma religião apresenta elevada coerência interna fundamental.

 

Ascese: basicamente, voto de castidade e submissão ao jejum. Ligado etimologicamente a "cuidar do corpo", é a mais clamorosa antinatureza! É o espírito apolíneo. No Budismo, forma mais avançada de niilismo, ocorre um combate às dores deste mundo pela fuga (Schopenhauer). No Protestantismo, ocorre o engano da função do desprazer, o que gera o fosso sujeito-objeto e a falta de senso do mundo, posto que há inconteste sujeição à moral uma vez estabelecida (dogma). Os impulsos do indivíduo são canalizados para o trabalho; uma ética do não-saber mandar e do obedecer. Álibi da fugacidade hedonista (fenômeno não coberto pela obra).

 

Batistas: preferiam autonomia provincial para seus templos, sem necessidade de prestação de contas ao Estado. O espectro das religiões (mesmo intra-ocidental, mesmo intra-calvinista) é vastíssimo, de modo que naturalmente o despontar de uma crença em definidos parâmetros instiga o aparecimento de diferentes configurações circunvizinhas. Tenderam, no entanto, a seguir as diretrizes da Confissão de Westminster (1647). Também chamados de "os independentes" ou "congregacionalistas" (detalhes no verbete puritanos).

 

Calvinismo: predeterminação do destino da alma. Calvino condena de antemão um sem-número de almas. A seita mais importante.

 

Confissão de Augsburgo: do rompimento com o Papa.

 

Confissão de Westminster: "compacto completo da fé calvinista".

 

Crematofobia: medo de dinheiro. E plutofobia?

 

Metodismo: afeiçoados em parte a Lutero - florescimento tardio nos EUA.

 

Pietismo: submodalidade ou derivação luterana, de 100 anos depois. Com ênfase, claro, na capacidade de interpretação das Sagradas Escrituras. Pietismo vem de piedade. O próprio indivíduo deve se auto-policiar (super-moral).

 

Presbiterianos: calvinistas sem hierarquia da Grã-Bretanha.

 

Puritanos: apólogos do "cristianismo puro", sem interferência vertical (artifício da Igreja invisível - os calvinistas ortodoxos estão neste barco, embora os quakers tenham levado esta prática a extremos por eles desconhecidos) e apoio às Escrituras. Prega-se a liberdade individual, mas a própria nomenclatura evidencia o moralismo. "Para Weber, o puritanismo é cria do calvinismo" ("cria nem sempre direta", acrescenta o verbete) e ele utiliza o vocábulo claramente como coletivo para vários dos grupos já pormenorizados que resumam o "protestantismo ascético", posto que englobam congregacionalistas, anabatistas... A maior crítica em relação à Igreja da Inglaterra: ostentações cerimoniais em excesso.

 

Quakers: protestantes radicais (movimento Reino Unido - Escócia - EUA). Advogam o direito de não ir à missa, de não haver batismo e a consciência como parâmetro último de todas as soluções de problemas e o silêncio. Parecem ser o cume do niilismo nietzscheano, pois reúnem características pragmáticas que os filiam ao que há de mais capitalista, ocidental, dado o enaltecimento do indivíduo e o "culto a Apolo" (de fato, atrelo-os fortemente aos republicanos contemporâneos, estes perdedores de eleições!). Pudicidade e vergonha recrudescem.

 

Rabinismo: judaísmo tardio.

 

Seitas: o intuito - voluntário ou não - puritano (suicídio do templo).

 

Septuaginta: Velho Testamento, traduzido para o grego em Alexandria - Egito - três séculos antes de Cristo por cerca de setenta eruditos. Sócrates teria visitado o local décadas antes.

 

Esclarecimentos (parciais) relacionados a Calvino e Lutero e aos anglicanos também:

Ambos são reformadores e até determinada altura dos anos 1600 sustentavam esta alcunha, que depois se tornou bandeira específica dos calvinistas. Calvinistas lembram quakers, batistas e congregacionalistas porque eles são anti-hierárquicos. Resta saber qual a grande novidade luterana, haja vista a própria capacidade de interpretação e piedade dos anglicanos! Resta asseverar: na Inglaterra não há após o século XVI nenhuma igreja católica formal, ou estas desempenham papel irrisório para o espírito do tempo. Os anglicanos são rompidos com o Papa; não obstante tenham mantido uma forte hierarquia. Talvez isso os diferencie não só dos calvinistas mas também dos luteranos, que pregavam igualmente elevada autonomia individual (anglicanos = flexibilidade mínima), com a diferença de que queriam se fazer ouvir por todos os cantos (ética universalista, o que explicaria o mundo moderno), enquanto os calvinos são provincianos (aristocráticos, "seitistas"). (Basta lembrar: Lutero rebaixa o homem, destrói o elo com o sagrado; ao passo que, no calvinismo, há ainda uma aura nobre que se intenta buscar, ainda que no coração do indivíduo, sem a mediação eclesiástica.) (Anglicano-luterano no Google aparece 268.000 vezes - acho que isso já denota por si mesmo o que quer dizer. Só quero deixar claro que isso não cancela o dito acima: está certo.)

 

PROBLEMA DA TEODICÉIA (CENTRAL NA ARGUMENTAÇÃO) - A barca furada do monoteísmo:

O Direito Divino. A tentativa infeliz de explicar a injustiça infindável do mundo que emana de um deus todo-poderoso, todo bondade. A confusão ocidental por excelência. É um problema de lógica bem simples de se resolver. Os gregos viviam sem o contrato social e ainda hoje paira sobre eles a aura da imortalidade. O culpado pela maldade que nasce da infinita bondade é esse "bom", Deus. Caso haja a fusão com ele nestes termos, esse é o preço a pagar. Porém, antes, é retirada a onipotência desse Deus para que o livre-arbítrio seja possível (situação da morte de Deus). Falta, meus amigos, rasgar o contrato. Deus, o autor de todos os crimes. Poder-se-ia agradecê-lo, sendo trágico! Não há forma concebível para findar com a Tragédia, com ou sem contrato. Basta apenas um pouco de cinismo e inocência! O mundo é uma luta que jamais finda.

 

Lutero é muito produto da mística cristã alemã cujo auge do movimento panteísta-monoteísta foi no século XIV. Explica-se esse híbrido pelo seguinte: há a formulação do amor universal à humanidade, mesmo à natureza, todos obra de Deus, que co-habita em tudo. Portanto, é uma forma de transcendência-imanência que influenciou o protestantismo (a reforma). Paradoxo: essa atitude de piedade aparta cada homem do outro indefinidamente.

 

A unio mystica ou simplesmente mística é o contraponto weberiano do conceito de ascese. No que poderíamos então substituir ambos por Baco e Apolo. Como esclarece Frazer, em "O Ramo de Ouro", Jesus é o ponto onde as duas divindades antagônicas se tocam. Eis que a religião cristã é anticristã! A tendência gaia não pôde vencer o processo de socratização/atomização do mundo. Ao pretender unificá-lo, estilhaçou-o. Se o deixasse como andava, homem-com-mundo seriam vitral intacto.

 

CHAVE: a iconoclastia protestante - abolindo a imagem dos imanentes-transcendentes Papa e Jesus - impulsiona o deus-dinheiro (hipertrofia do indivíduo). Latour: somos imanentes demais ou transcendentes demais. Hoje estamos na barriga do "U" e o indivíduo vai perdendo a força... (fusões no horizonte: Deus e Alá, Ocidente e China)

 

Obs.: Agora entendi o "a música é arte decadente" - é agora, por ser chave da transição. Será, então, majestosa. Artes clássicas = cume apolíneo. O dia da LUZ DE TIETA se aproxima... Universidade é o silêncio rotundo. Contemplação: imagem. Participação: música. Obrigado, Dimitri.

 

Obs. 2: Reler todas as notas "polêmicas".

 

CRONOLOGIA

 

Max Weber - Max, o tecelão.

 

Simmel e tantos outros se reuniam em sua casa!

 

O mundo religioso do amanhã: politeístas no topo da pirâmide; monoteístas na base (subdivisão monoteísta: ateístas).



Escrito por wormsaiboty às 23:38
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LIVRO

 

PARTE I

O PROBLEMA

 

1. CONFISSÃO RELIGIOSA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL (p. 29)

 

Weber embarca em um pensamento redundante: tomados em lato sensu, os dois hemisférios de seu título, "ética protestante" e "espírito do capitalismo", adquirem uma impressionante tautologia - "compulsão para o progresso gera (gerou historicamente) uma sociedade voltada para o progresso" (claro que a tal compulsão é, para os efeitos aqui estudados, "vontade de salvar a alma"). Essa é a mensagem principal: a ÉTICA PROTESTANTE é a morte de Deus mediante a hiper-valorização do indivíduo, o enceto de um ciclo esquizofrênico (o ideal asceta); o "ESPÍRITO" é o mundo desencantado, sem Deus e POR ISSO sem indivíduo. A pergunta DEUS EXISTE? Não tem sentido sem um acréscimo de dimensão valoral. Tal binarismo sim/não é apenas uma peculiaridade do sistema. Há outros tipos de deuses do lado de fora... Mas claro: pertencendo à época a que pertenceu, M. Weber descortinava uma faceta até então inimaginada a não ser por uns poucos.

 

Pode-se dizer que Lutero foi o assassino de Deus, ao torná-lo transparente com a tradução das escrituras, universalizar o transcendente, ferir letalmente essa essência, rebaixar o intérprete. Há que haver pelo menos duas castas.Calvino não rompe tal laço. Condena tantos para salvar uns.

 

INÍCIO DO FICHAMENTO DO LIVRO PROPRIAMENTE DITO

 

Considerem-se dois aspectos: 1) Weber já inclui uma auto-crítica de seus postulados ANTES de desarrolar a tese. Ou uma "resposta antecipada" a previsíveis contestações. Relata que se pode verificar no Capitalismo moderno incipiente mais famílias protestantes ricas e que boa parte disso decorre mesmo por herança; 2) mas, seguindo pela serpente causalística, depara-se com um handicap educacional entre os dois núcleos familiares em estudo - protestante e católico. Esta diferença é que há mais estudantes de nível superior de pais de Igrejas reformadas. Obviamente, o fato de possuir um capital mais elevado nisso ajuda. Contudo, rebuscando ainda mais fundo estas origens, vê-se que em geral o católico é enviado para formações humanísticas (o típico "desinteressado", culto), que por si são incapazes de multiplicar patrimônios. Já o evangélico costuma ser aluno de formações tecnicistas (administração, economia, direito...), o que de uma geração a outra irá indicar a mais forte razão da defasagem de riqueza entre os adeptos da primeira e da segunda religião.

 

Mas claro: Weber devia ter enxergado que no proto-capitalismo esse quadro viria naturalmente à tona - necessidade de competição, especialização, ganho. Exatamente como na Autogestão Iugoslava, em que a burocracia renasceu das cinzas devido à acirrada disputa entre operários e políticos (classe que havia sido abolida, não por muito tempo...).

 

P. 33 - os judeus são ricos porque são párias aonde vão (voltam-se para um aporte material).

 

O protestante é aquele que remotamente era o CHÃO cristão? Talvez inconformado com seu estado de miséria - e veja as condições do proletário inglês*! -, tenha se lançado num esforço reformador para que enriquecer não fosse malvisto. Bingo: novo ethos.

 

* antes ou depois da reforma? Lutero apareceu cedo, mas Calvino vem de um contexto já semi-industrial! Em que pé andava o processo de industrialização inglesa em 1546 (da alemã nem se cogita que existisse algum traço)? Em rápida navegação, não encontro indícios. O sistema-mundo ainda é capitaneado pelos holandeses em seu capitalismo de companhias de comércio, e até Espanha e Portugal ainda encabeçam a lista dos centros de acumulação.

 

Salto idêntico não foi dado pelos cristãos não-protestantes em países tardios que já "nasceram" protestantes, tal qual a Alemanha.

 

Ou seja: o protestante, o tipo-ideal cristão, é inclinado à racionalização na "saúde e doença" - a exceção judia não está em foco.

 

Troca de farpas entre católicos e protestantes sectários: "ascético!" (indiferente ao mundo), grita o 2º ao 1º; "materialista!" (desencantado), é a pronta-resposta. Um mundo sem espaço para COMER E DORMIR, ao mesmo tempo. Só que: o quadro anterior deixa subentendido um certo apreço do evangélico pelo mundo. Não é bem assim. Ele é que é o ascético, espécie de hipocondríaco.

 

Weber deixa sempre visível que hoje o espírito é autoguiado. Trata-se aqui de uma GÊNESE, de uma história.

 

ENGENHOCA: P. 36 - mecanismo: PIEDADE à (senti-la leva à) MAXIMIZAÇÃO DOS LUCROS, que criará, ampliará, o fosso social entre abastado e miseráveis, fato que... à (gera a) PIEDADE à ... (recomeça)

 

Colchetes 37: os calvinistas eram mais racionais que os luteranos (sublimavam as fronteiras nacionais).

 

39 - Montesquieu

 

Calvino e Lutero criaram um Frankenstein.

 

Um esforço causal hercúleo nas próximas páginas...

 

NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 1

(quase) sempre obedecerei a notação "número da nota (página entre parênteses)", o que quer dizer que abaixo disponibilizo comentários sobre as notas 16, 19 e 23, nas páginas 172 e 173 (quando omito a numeração da página, a nota se encontra na mesma página ou muito próxima da anterior). Como metade do livro são notas, isso facilita muito a consulta (o exemplar é a 2ª edição da Companhia das Letras).

 

16 (172): a relação de banqueiros e igrejas protestantes: Banqueiros sempre transportam riquezas pelo mundo; nada de mais ele não ser deste credo (auto-resposta a TREVOR!). Todavia, quando é, e se é pastor, há(via) controvérsia sobre a possibilidade de cobrar juros. O interesse era não misturar este par de funções. Weber toca neste assunto muitas outras vezes.

 

DA DIÁSPORA

19 (173): o sul dos EUA era católico? Sim. Weber não dá crédito à tese dos "países mais ricos" estarem ligados ao Protestantismo (resposta a TREVOR). Caso contrário a França seria mais pobre que países como a Polônia. Na Polônia a elite financeira era de reformados. Não obstante, sempre há uma brecha nacional que seja, como é o caso dos huguenotes.

 

23: uma assertiva digna de um clássico: os efeitos provocados são divergentes das intenções primevas. Contextualmente, acerca da reação protestante frente ao capitalismo tardio.



Escrito por wormsaiboty às 23:36
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2. O "ESPÍRITO" DO CAPITALISMO

 

Delimitação tosca provisória do objeto de pesquisa (o tal "espírito").

 

"Filosofia da avareza" de Benjamin Franklin - o objetivo da vida é poupar e render; dinheiro não deve ser DESPERDIÇADO com diversão - ou qualquer coisa que o não multiplique - mas afinal, para que serve o dinheiro? Este é o espírito moderno em carne viva, pois o dinheiro cresce cada vez mais e mais rapidamente, no entanto nada ainda foi feito... pelo homem.

 

Mais do que isso: não é questão de uns serem lobos e outros cordeiros: é o inculcamento, na massa, dessa moral esdrúxula.

 

"Dinheiro é pra se gastar!" é um pensamento corrente que parece ser o início de uma virada. Eu, por mim, não me sujarei na bolsa. Orçamento apertado em prol do hoje: não porque ECONOMIZE, mas porque não tenha dó de me livrar do meu pouco!

 

A tal ethos, basta PARECER. Mundo da mentira e de Platão. Mulher cesárea.

 

P. 46 - entre "felicidade" e "utilidade", obviamente a "virtude" protestante (Nietzsche diria cristã, e é uma neo-configuração inerente ao cristianismo, esta sua reforma - EXATO, PEDRA-DE-TOQUE da idéia de epifenômeno e dilatação do conceito!) fica com o segundo.

 

O pano-de-fundo dessa ética é desvelado: o contrário de ser-se materialista! E o contrário (a acusação é católica) de "desencantado": aos olhos protestantes, está-se seguindo os desígnios de Deus. Franklin quer apenas se sentir digno PORQUE TRABALHA. Não-raro percebo este fenômeno na juventude (Débora Schuab, o protótipo)...

 

Norte-EUA x Sul-EUA: a prova de que o MERCADO - por si, sem a religião - não basta para pôr em movimento o processo. O Norte não tinha intuitos comerciais, apenas pregadores: logo se tornou "próspero". O Sul, de finalidade mercantil, estagnou. Dir-se-ia que apresentava o chamado "capitalismo irracional" ou "amador", da ótica protestante.

 

P. 49 - citação da "superestrutura".

 

A Itália, país de artistas, apresenta um capitalismo deficitário.

 

Sempre houve, pontualmente, representantes dessa ética (Franklin), nas mais diversas sociedades. Na época moderna, entretanto, afigura-se como fenômeno de massa (e é isso que Weber aponta).

 

massa/mediocridade/democrata/"sem Deus" X Aristocracia/Sangue-azul/Privilégio da transcendência/Mensageiro de Deus

 

Quem segue a palavra da Bíblia lê o mandamento "com isso me contento" e segue "sossegado". Produzir mais seria pecar. A interpretação da palavra divina (Lutero, maldito!) DEMOCRATIZOU a livre-interpretação. De pecado a virtude.

 

P. 54 - Weber refuta a característica do progresso enquanto provinda de um arrocho ou (muito menos) aumento salarial. Não tem a ver com Economia ou patronato neste aspecto: é um processo de inculcamento a longo prazo.

 

CALVINO NÃO É BENJAMIN FRANKLIN

Há - e era a regra - empresas capitalistas tradicionalistas. Adotavam a política do "lucro suficiente", que não precisa ser aumentado. A antítese disso: Franklin dizia que cada cinqüenta centavos num café poder-se-iam tornar 100 libras se não fossem gastos (o mesmo que jogar os centavos - e, por tabela, 100 libras!, ao mar). Esta é a prova cabal de que o capitalismo moderno veio das agruras, de uma modalidade de comportamento (o proto-especulador), não de repentinas benesses materiais. Ressaltar este ponto na prova: classes outrora subalternas em ascensão monetário-ascética.

 

P. 60 - surgimento de uma das causas periféricas de Weber: o achatamento do mundo, via aperfeiçoamento dos meios de comunicação.

 

Auxilia nisto o fato da perseguição e coerção moral que sofreram à época: naquilo que de modo algum eram venais era na persistência desta moral em um quadro adverso. Só a religião possibilitaria esse tipo de "incursão funesta" em algo, contra tantas intempéries e tanta gente.

 

Ademais, o próprio Tocqueville diz que a razão do sucesso inglês/norte-americano advém da ininterrupta religiosidade das elites (do homem médio, no caso do Novo Mundo). Já na França demonstrava-se, principalmente no topo, uma aversão tremenda pelo não-imanente, era-se tremendamente irreligioso, o que não combina com o papel social de um nobre. Logo, os burgueses barganhadores, no início paupérrimos, foram se agigantando e reivindicando este espaço. Tal descoberta é uma inversão da idéia comum que se faz - senão do mundo do dinheiro - da gênese da burguesia.

 

"Impulso perverso: a auri sacra fames" p. 63 - provavelmente o em latim quer dizer "o ethos ascético [do dinheiro]".

 

Daí provém o dito: VOCAÇÃO PARA GANHAR DINHEIRO, como outros são metafisicamente situados no mundo para descobrir a verdade e ainda outros para governar, e outros para SENTIR.

 

P. 64 - mais uma vez, a ruptura: o Capitalismo no piloto automático. Qual o momento certeiro da cisão? Não há, assim como a semente cristã e a semente protestante são difusas na História...

 

DA USURA À OBRIGAÇÃO

Transição do PECADO ao DEVER MORAL (e pontada em Marx):

"Querer falar aqui de um 'reflexo' das condições 'materiais' na 'superestrutura ideal' seria rematado absurdo"

 

Igreja pede dinheiro e visa ao lucro para ampliação de seu poder temporal! O que é feio é o catolicismo hoje, ainda "fiel" às escrituras...

 

NOTAS DO CAPÍTULO 2

 

31 (175): racional/irracional - questão Valdyr.

 

34 (175-79): longa tergiversação acerca de contenda com Sombart: verossimilhanças ou não entre Battista Alberti e Benjamin Franklin. No final, algo que tange o que falei de Tocqueville: os reis passam a agir de forma "pagã", a espécie de cristianismo mais remoto. (outro fragmento anti-ROPER)

 

35 (180): Brentano e meu comentário inicial (abre-alas) sobre a tautologia weberiana.

 

40 (181): sobre o "ópio do povo" como fator periférico em Marx.

 

44: a ética protestante não é universal, mas traga quase tudo para seu mundo, feito um buraco-negro. Gusmão na lona. É imprescindível ressaltar sempre o caráter DE MASSA DO FENÔMENO em Weber.

 

50 (182-185): outra longa digressão, agora sobre a proibição eclesiástica da usura e do causalismo fulcral de Weber - defende-se, nas linhas derradeiras, que o cristianismo pré-reforma já era essencialmente capitalista (citarei pela última vez que Weber repele o póstumo TREVOR-ROPER sozinho e sem esforço...). Há aqui ainda a citação das ordens jesuíticas, o "catolicismo mais capitalista". Veja-se que o Papa, no século XIX, já sabia que a Terra não era mais o centro do universo: a Igreja não reconhecer um erro emanando de suas fileiras não implica que ele não tenha existido e que não tenha se dado naquele espaço-tempo específico.

 

52: justiça/injustiça, caso em que vale o lucro e ocasião em que não é próprio. Isso sempre houve e vai sempre haver, vide ultra-especuladores da bolsa acusados de não serem éticos - pelos seus pares, já um tanto suspeitos (ora, se a função de todos no pregão não é primar pela anti-ética!)! Para tentar fechar esta questão, o lucro é sempre permitido quando "está a serviço da glória terrena de Deus".

 

3. O CONCEITO DE VOCAÇÃO EM LUTERO. O OBJETO DA PESQUISA

 

História do verbo "chamar", o Beruf, e do substantivo "vocação".

 

O nascimento da demonização do período de ócio. O trabalho é que é a vontade de Deus (influências deterministas).

 

Ódio às cerimônias difundidas no "calendário pagão-cristão", cheio de dionisidades... O país pára no Carnaval... mas quer saber? Tem mesmo é que parar! Carnaval e futebol são a chave para uma vida mais artística...

 

P. 75 - "O pão nosso de cada dia nos daí hoje" - não amanhã, o amanhã que nunca chega... Por isso o evangélico "já não reza".

 

Paulo e Lutero como tradicionalistas. A que serviço... Verdadeiros Édipos!

"indiferença paulina [ao mundo do trabalho]", p. 77

 

LUTERO à DESENVOLVIMENTO DE à a) luteranismo ortodoxo; b) luteranismo heterodoxo.

 

Catolicismo x calvinismo à parece ser mais explícito

Mas Calvino e Lutero se complementam (finalmente algo A FAVOR de Roper).

 

A Divina Comédia (p. 79): é benquisto ser expulso do Paraíso para contar o que viu a alguém - de nada vale a contemplação muda, é esta a verdade! Se não me engano, despejo a mesma coisa em SIMMEL AVENTUREIRO, dia 5/12/08. Se não despejo, trata-se de um comentário do autor ou de seus comentadores. (*)

 

P. 80 - dura crítica à idealização de um povo em cultura nacional, como se homogêneos fossem: "os ingleses, os alemães..."

 

P. 81 - a tragédia em Weber, dialética bruta(l):

"programas de reforma ética não foram jamais o ponto de vista central para nenhum dos reformadores (...) A salvação da alma (*), e somente ela, foi o eixo de sua vida e ação (...) os efeitos culturais foram conseqüências imprevistas e mesmo indesejadas do trabalho dos reformadores"

 

(*) Quem disse que o homem quer ser salvo, quer ser FELIZ? Esse sim é um questionamento filosófico que não se costuma fazer.

 

NOTAS DO CAPÍTULO 3

 

53 (185-188): sobre a história lingüística de Beruf (vocação). Provavelmente, no Português [não-citado na obra] o sentido hodierno se dissociou muito dessa origem divina. Weber aponta para o fato de Lutero ter modificado o alemão para ensino de sua doutrina (processo que se poderia batizar de racionalização da língua) - deste empobrecimento do idioma nós, além-mar, escapamos, e Nietzsche o saberia bem (o que não quer dizer que o Português seja perfeito para um poeta-filósofo se expressar).

 

P. 190 - certamente há uma metafísica nas ações! Uma razão (entenda que degenerativa, apenas uma de tantas próximas e passadas) para tudo! Vide este texto clerical: "Se alguém foi chamado já circunciso, não dissimule sua falta de prepúcio. Foi alguém chamado com prepúcio? Não se faça circuncidar". Assim como dia 17 de outubro na biblioteca compreendi eu ser o centro não-sendo, essa dissimulação eterna entre unidade e caos, me veioà tona um passado que eu não pude escolher que me torna o que eu quis. É uma consonância cósmica. Ao mesmo tempo há metafísica e não há: afinal, é um anel!

 

Afinal, o que é a literalidade bíblica?

 

Calvino veio depois de Lutero e secularizou, intramundanizou Beruf (no horrível dialeto da tradução da Cia. das Letras).

 

Pascal, 193: objeto de desgosto e do mais alto apreço - simultâneos - de Nietzsche.

 

58 (194) - da teodicéia - Adão peca porque foi impulsionado por Deus, que vê nisto a perfeição de seu próprio mundo.

 

65 (196) - de como foi vantajoso para o Reino Unido manter "satélites", Irlanda, Escócia, ao invés de POSSUÍ-LOS de maneira irrestrita.

 

-FIM DA PARTE I-



Escrito por wormsaiboty às 23:33
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PARTE 2

A ÉTICA PROFISSIONAL DO PROTESTANTISMO ASCÉTICO

 

1A. OS FUNDAMENTOS RELIGIOSOS DA ASCESE INTRAMUNDANA (cotidiana/imanente)

 

4 "seitas" ou portadores da ética protestante:

 

  •  CALVINISMO
  •  METODISMO (neo-ascetismo, ver p. 87)
  •  ANABATISMO e correlatas (provincianas tendentes a Calvino)

(ascetismo de tipo pleno)

 

  •  PIETISMO - Lutero

 (sobras místicas)

 

(obs.: o pietismo inicialmente não queria se desvincular da igreja católica-mística; o metodismo não pretendia romper com o puritanismo clássico - percalços da história)

 

ISMO's "parecidos mas diferentes" ou, antes, heterogêneos mas semelhantes - a semelhança é mais forte na consideração do espírito ascético.

 

Segundo me parece, não há uma relação de correspondência entre anglicanismo e calvinismo, porém me soa claro que todas as igrejas inglesas efetuaram a cisão com o papa - e não poderia deixar de ser: com tolerância religiosa ou não no país, fato é que houve uma contenda/queda-de-braço entre o Papa e o Estado britânico como um todo, e qualquer templo devia "obediência" a ele: OBEDIÊNCIA lato sensu, ou seja, apenas para resumir que Estado-Igreja, no ato de governar e de representar o divino, muitas vezes são um corpo só (a Igreja também mandava no Estado). De fato, os perseguidos da diáspora americana foram aqueles que recusavam a ode ao templo (intensa hierarquia).

 

Não houve "revolução" nas casas de Deus. Uma ia se distanciando da outra conforme os séculos.

 

Barafunda:

Historicamente, há tese e antítese. Anglicanismo é o que de mais católico poderia haver na Inglaterra (cf. 88). Sua oposição inicialmente se aglutinava no rótulo "puritanismo" (portanto sem Martinho Lutero), que ainda não era um calvinismo devidamente modelado.

 

CONTRA GUSMÃO

O papel de Lutero é anterior e se circunscreve à compulsão pelo trabalho. Estranho híbrido formado: sinal da predestinação ao paraíso na vocação temporal enriquecedora! Roper não pode contestar Weber se este reconhece as exceções mas constata - habilmente - que de qualquer modo foram as famílias progressistóides que "elevaram" a condição da Grã-Bretanha e espraiaram a configuração Europa e América afora. Tampouco faz sentido jogar no começo de uma aula a afirmação de que Weber atribui à ética protestante somente o início da expansão capitalista, tornada automática depois, se logo em seguida se vai evocar que os budistas também convivem com o lucro - não é esta a questão: ascese extemporânea alguma seria capaz de gerar "homens práticos" (eles são o contrário da denominação - ver RACIONAL X IRRACIONAL em Weber!), e ele (o professor) sabe que o que é "flagrado" nestes países é posterior à onda de acumulação inglesa, o que faz deles VÍTIMAS e não CRIADORES. Vítimas de um processo já automatizado que não exigia mais a conversão religiosa.

 

CONTINUANDO, outros templários importaram o costume do trabalho duro que não herdeiros legítimos de Lutero.

 

P. 91 - Coroa x puritanismo

O "dogma perigoso"

Pp. 91-92, transcrição da Confissão de Westminster; a predestinação é um enigma parcial, uma engenharia diabólica do comportamento humano: sempre haverá a dúvida, o que é natural nosso, doxa, e sabendo-se disso se determinou que o PREDESTINADO é aquele que apresenta a fé, CERTEZA. Mais: eficácia (funcionalismo) e anti-hedonismo (ordem, austeridade, Apolo).

 

Calvino: aristocrático, em que pese anti-hierárquico! Revogar seu dogma seria ferir a onipotência de Deus. Justiça, culpa ou mérito, como valores humanos, não se comparam ao juízo todo-poderoso.

 

Luteranismo e calvinismo, não obstante, são iguais. Não saem do lugar. Debate infrutífero entre determinismo e livre-arbítrio.

 

P. 96 - Gusmão - o mundo moderno com a continuidade da religião - porém, com o rompimento com o mundo mágico - religião pagã!

 

Interiorização promovida pela esquizofrenia do indivíduo: o esperado. Resultado: abolição da confissão com o padre.

 

Uma atmosfera tão nauseabunda só podia fabricar doentes mentais!

 

P. 99 - Kierkegaard e a fissão ética (o fosso latouriano) + teodicéia (uma vez compreendida esta palavra, compreende-se a tese).

 

P. 100 - Gusmão - calvinista: "ferramenta" (de Deus)

                                  cristão/místico/em parte o pietista: "receptáculo"

 

P. 103:

"o virtuose religioso pode certificar-se do seu estado de graça, quer se sentindo como receptáculo, quer como ferramenta da potência divina. No primeiro caso, sua vida religiosa tende para a cultura mística do sentimento; no segundo, para a ação ascética. Do primeiro tipo estava mais perto Lutero; o calvinismo pertencia ao segundo."

Ilustrativo

 

Resumo até aqui: ambos (LUT/CAL) tratam da virtú cristã. No entanto, a de Calvino é mais policialesca, uma venalidade da alma MAIS EFICAZ.

 

O católico "podia ser perdoado infinitas vezes". Romper com o tradicional não deixa de ser irreligioso. Calvino e Lutero são dois irreligiosos. O Cristianismo é profano par excellence! Lutero DEMOCRATIZA; Calvino INTERIORIZA (não que Lutero não interiorize e que Calvino não demonstre preocupações para com aqueles que não serão perdoados, já que "é preciso acreditar"!). Claro, ainda há sagrado em cada - a sua guisa.

 

P. 107 - Descartes, a separação do corpo e da mente/alma e a correspondência com a fé calvina.

 

Ao ler a 110 não posso compreender mais por que o Pietismo não é mero catolicismo!

 

111 - a faca suicida de Calvino: "como Vossa Santidade sabe que é uma alma salva?"

 

115:

"A grantia amissibilis luterana, que a todo instante podia ser recuperada com o arrependimento e a penitência, não continha em si, obviamente, nenhum estímulo àquilo que aqui nos importa como produto do protestantismo ascético: uma sistemática conformação racional da vida ética em seu conjunto."

 

No tempo de Lutero (ou "antes de Calvino", ou "seus adeptos em qualquer tempo") ainda havia a presença entrecortante de Baco. O confessionário era a garantia de sua sobrevivência. Ocorre como hoje em que o fim-de-semana é uma religião. A EXPIAÇÃO cotidiana do "semi-reformado" (pietista) salvava qualquer um... Era um resquício mágico.

 

-interrupção na 117 para...

 

NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 2 (CALVINISTAS)

 

4 (202): relato de como é difícil uma etnografia se não há um respeito na Alemanha pela própria história dos dogmas das seitas provinciais. Mais adiante, o que Tocqueville não viu em Democracia na América: a transformação secular do povo americano.

 

5 (203): desculpas pelo excessivo número de notas de rodapé!

 

13 (205): esclarecedora sobre o "deus-de-chave" de Latour e o casamento entre a tendência luterana do "deus bom" e a tendência calvinista do "deus velhaco" (Novo x Antigo Testamento, o crossover moderno p. excell.)

 

20 (206): judeus são protestantes de outrora, anti-mágicos. Daí a suspeita nietzscheana de que Sócrates esteve em um reduto judio no Egito. O convênio/pacto da (des)razão!

 

23: o individualismo para Weber - analogia com o duelo racional x irracional. É simples lembrar que são proposições simétricas e de ponta-cabeça, a depender do acusador.

 

26 (207): do amor ao inimigo, do eremitismo e de outras disposições em Zaratustra.

 

35 (210-11): a comicidade das missões puritanas para recrutar fiéis - massa de manobra de predestinados à condenação, inclusive na China!

 

37 (211): Cromwell e sua aliança com a doutrina da predestinação.

Na mesma nota: ensaio de distinção católicos/pietistas.

 

48 (214): divertido; gosto quando Weber "conversa conosco" e utiliza exclamações. Citações de Pascal: o trabalho é a distração da dor que é estar no ócio, ou seja, um sub-ócio! Volição para a morte...

 

49: "Como posso ter certeza eu da minha bem-aventurança?", a pergunta-cerne das religiões, segundo Weber. Referente à "brincadeira" dos reformistas com uma pobre alma sempre em DOXA.

 

50 (215): mais uma vez - da proximidade entre as condutas mística (unio mystica) e pietista.

 

66 (217-19): menção de Nietzsche. Questão daquela burra, Luiza Rossi (na aula de 21/10): a conseqüência lógica de se enunciar a predestinação é recair no fatalismo (niilismo passivo pessimista); o efeito psicológico, no entanto, à época, foi a compulsão pelo trabalho, a certeza da seleção/eleição ao Paraíso. Obviamente, tal ÂNIMO não perduraria por mais de QUATRO séculos... e seus sintomas de derrocado são desde sempre perceptíveis... "o último limite lógico" do Ocidente, o próprio fatalismo - único resultado cristão a longo prazo (Der Wille Zur Macht).

 

UM "CAUSO" (25/4/2008)

Viro a página na mesma nota. O que leio me recorda cena do meu último aniversário, saindo da realização de uma prova de História Geral em franca ressaca - na espera pelo atendimento no guichê da xérox, ouço diálogo entre professora e funcionário em que a primeira arremata: "Há que se ter muita coragem para colocar alguém no mundo hoje". Não sei se foi o conhaque do dia anterior ou o sentimento exasperante inevitável de "entrar em contato" com cristãos. Aquela frase me ficou marcada e agora faço registro. É um problema típico de responsabilidade verificado nas índoles fracas, que elaboram autores para cada ação. Mas, seguindo o ditame nietzscheano, é bem melhor que não procriem! Aqui está o trecho que me remete a uma mãe niilista:

 

"Por razões de princípio análogas [psicologia calvinista querendo acumulação em que pese a danação; logo, em face da Tragédia, amo-a! Nietzsche teve de amar a II Guerra como se se tratasse de obra sua tanto quanto o surgimento antitético de pessoas como eu!], os adeptos de Nietzsche reivindicam para a idéia de eterno retorno, como todos sabem (?), uma significação ética positiva. Só que se trata aqui da responsabilidade por uma vida futura com a qual o SUJEITO DA AÇÃO não guarda nenhuma relação de continuidade de consciência - enquanto para o puritano o futuro queria dizer: tua res agitur {Problema teu!}."

 

(?) Talvez o círculo letrado que freqüentava a casa do autor - em meu contexto ninguém sabe o que é.

 

Concluindo a nota, ainda sobra para a coitada da Ciência, a religião do proletariado contemporâneo de Weber!

 

68 (219): abertura de precedentes para a SANTIFICAÇÃO OBRÁRIA [ética da recompensa] calvina. "Esmolas são um meio de evitar penas temporais."

 

77 (221): a repulsa dos pietistas pela filosofia de Aristóteles.

 

80: outra tirada de sarro para cima de Brentano. Weber evidencia a transição gradual de uma ética transcendental dos mosteiros para a cotidianidade.

 

82: influência da ascese na configuração do ethos militar moderno (precursor, apud. Weber: Maurício de Orange).

 

91 (223): gênese da secularização americana - o cancelamento da primogenitura. Na Inglaterra este é um direito imemorial cuja "atualização" pode ser considerada o dogma da predestinação de Calvino ("o eleito para herdar").

 

105 (225-227): "o grande fundamento dogmático (sola fide!)..." - só pela fé se alcança a salvação... Logo a seguir, pesada crítica à passividade alemã.

 

-fim das notas (parte I) deste capítulo.



Escrito por wormsaiboty às 23:33
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1B. RETOMADA DA LEITURA LINEAR

Pietismo mais próximo de Calvino do que aparenta. Serve aqui a pecha de puritano.

 

Sabe-se que luteranos/místicos são assistemáticos, enquanto que calvinistas são sistemáticos (ordenamento, ascese, vida privada desregrada). O pietismo, aqui, se subscreve na segunda categoria. Isso porque, lembrar-se, o que fala mais alto é o mandamento calvinista - que lembra a ferramenta - de que obras terrenas são executadas com o fim de ampliar a glória de Deus. Os homens existem para Deus. Seria uma lição de egoísmo herege inverter o axioma. Os pietistas, ainda que coligados ao sentimento, tinham essa idéia em mente: a de que os desígnios da divindade sequer precisam ser compreendidos para se fazerem valer. Weber reconhece a dificuldade de distinguir o calvinista pietista e o não-pietista. A piedade está lá, mas podia muito bem não estar. Não "serve". É apenas uma característica alternada do puritano, uma tendência mais "humanitária".

 

O calvinista clássico (item A) acredita na auto-prova de que se é um eleito. Esta postura de se antecipar ao julgamento divino - necessária para uma vida de dúvida - é interpretada como soberba pelos católicos. Eis que os protestantes pietistas atenuam essa "arrogância", típica dos eclesiásticos, que sempre se arrogam o título de salvos, de santos. A certitudo salutis provém de mecanismo divergente. Não muito.

 

Há uma democratização do sentir-se santo e todo um método interiorizado de pacificação da alma, ligado ao trabalho. Obviamente, reside aqui a verve excludente da maioria. Deus abrirá as portas do sucesso só a vocacionados. Ademais, diferencia-se do "mais místico", o católico, por se distanciar da idéia de que o santo era alguém envolvido por certa pobreza material. Pelo contrário: no novo ethos, aquele que não aumenta a graça de Deus pela disciplinação diária é um réprobo.

 

Um "empregado" é visto como mais adequado ao inculcamento pietista. O calvinista ortodoxo costuma ser o empresário, burguês clássico. Há gradações delicadas aqui, um crescendo de atividade. O pietista é conformado à ética do progresso mas é mais passivo; o caudaloso homem de negócios ou irrepreensível jurista é quem "leva a Economia nas costas", transforma o mundo, moderniza-o, com efeito. O pietista também possui um sub-elemento em sua doutrina conhecido como terminismo: ganha a salvação uma vez, súbita e indefinida, em sua vida, mas pode perdê-la se não fizer por onde.

 

Metodismo: também "pietista", menos aferrado ao dogma; quer apenas chegar ao seu intuito de salvação de modo mais esquemático. Típico do Novo Mundo.

 

A certitudo salutis tem chance, por essa doutrina, de se manifestar ainda nesse mundo. Um calvinista diria em represália que também acredita nisso, exceto que seja algo que venha de súbito, alegando ser um processo contínuo até a morte e que um pecado na velhice pode pôr tudo a perder (alegoria da conta corrente), enquanto que o metodista diz atingir o estado de graça em dada altura de sua vida, para supostamente não mais a perder e viver, dali em diante, levemente. Até este dia, no entanto, ele é um puritano como o tipo-médio.

 

OS DOIS PERIGOS DESTA FUSÃO

Trata-se de um estranho híbrido. Há incoerências poderosas no metodismo - claro que em todas as correntes as "falhas psicológicas" ora vêm à baila. Obviamente, elas estão atreladas ao dogma central da predestinação. Se a certitudo salutis podia aparecer antes, então ou neste momento o indivíduo se desligava da ascese ou se tornava um ultra-calvinista porque sua certeza (de uma coisa perenemente duvidosa!) fazia de si um santo. Aqui cito Weber: "uma exacerbação do tipo puritano pela via do sentimento". É preciso lembrar que a glorificação da santidade é manifestamente condenada por Calvino e por isso a prática de algumas igrejas de auto-legitimar-se era um incômodo calvinista irresolvível. Pois há iconoclastia nestes adeptos (todo puritano em geral), já que não se é "santo por acaso", nem é bom tê-los em alta estima, afinal não se sabe se Deus os absolveu! No espectro da reforma, dir-se-ia que:

 

  1. há o luterano, um "reformador inconsciente", místico e crente incipiente na vocação;
  2. o pietista, já algo concretamente voltado para o dogma da predestinação;
  3. o metodista, tipo um pouco pietista mas com teor pragmático palpável;
  4. o calvinista, ideal para descrever a ética da ascese em Weber. É verdade que as fronteiras são difusas e maleáveis, mas geralmente dir-se-ia que o metodista está entre o 2 e o 4, com arroubos conservadores e/ou emotivos (irracionais) em torno do que lhe é peculiar (o "momentum" da consagração/revelação).

 

Há coisa mais curiosa e exposta a ataques que a fruição de uma sensação por meio de uma série de procedimentos burocráticos? Parece mais um condicionamento mental manjado.

 

Outro fato: o metodismo despontou realmente tarde, então ele não cumpre o papel que Weber atribui à ética protestante para o surgimento do espírito do capitalismo.

 

Reputa-se ao pietismo alemão a maior proximidade com o catolicismo, no quadro europeu. Huguenotes e puritanos diriam se tratar de bárbaros, magos retardados no mundo secularizado. No século XIX a Alemanha é o progresso em pessoa, e suas religiões não são vanguarda: ela adota a ascese tipicamente capitalista de outras partes.

 

D. Batismo e anabatismo

 

Tempo histórico: 1500's, 1600's, mesmos séculos do auge da influência de Calvino. Itens A e D os realmente importantes na tese. Quakers estão aqui.

 

Distinção weberiana recorrente: Igreja visível x Igreja invisível. A primeira é típica do mundo católico e proto-protestante (luteranos). Qualquer templo é um elo com a transcendência. A reforma interiorizou a ética e com isso enfraqueceu bastante as formalidades (sacramentos). Desejoso seria que só quem num templo pisasse fosse o predestinado à salvação, embora saibamos da utopia deste intento pastoril. Sucede-se que o próprio condenado cumpre um papel, "aumentando a graça de Deus" (chavão chato!). Ponto forte da nova ética, esta transformação da Igreja é, por motivos óbvios, também um baque infra-estrutural. Muitos são os puritanos reclamantes de uma maior presença espiritual do sacerdote. Resquício mágico - a crescente impessoalidade exige, para o calvinista, a "seitalização" do que era MASSIVO. Os batistas são notórios nesse processo de "almejar-se seita". Outros grupos que acabaram por se converter em seitas não o tencionavam - apenas foram expurgados pela autoridade central eclesiástica, como os metodistas.

 

Restrição: protestante x católico. Diz o 1º: "não basta conhecer, deve-se sentir" - uma das contra-reações aristocráticas à tradução e popularização das escrituras (ou seja, da vulgata gerada pelo próprio protestantismo, enquanto ainda fosse "católico" na acepção bíblica).

 

Estes templos municipais anabatistas seriam de culto pagão (sem confessionário; o segundo batismo era tão-somente a revogação do primeiro, era mais um "não-batismo" que batismo!) - o que é cúmplice do DESENCANTAMENTO DO MUNDO. O grande papel estaria no OFÍCIO (trabalho).

 

135: "a idéia de que Deus fala somente quando a criatura se cala"

 

Os anabatistas são uma miscelânea de todo o já visto. Claro que eles possuem algo de específico. Aqui vai: mais "afastados do mundo" que qualquer puritano, eram avessos à política e a cargos públicos. Seu interesse se centrou na pecúnia e na ascese intramundana.

 

Preponderância, já há algumas páginas, de citações como "regeneração" e "obra", interconectadas. A predestinação co-habita com impulsos conciliatórios de "vamos lá: grande perseverança nos redime ante Ele".

 

Weber promete indefinidamente aprofundamentos na abordagem que nunca chegam, e o livro está acabando...

 

Benjamin Franklin: um quaker, para o autor.

 

137-138 - FULCRAL:

"De caso pensado, não partimos das instituições sociais objetivas das antigas igrejas protestantes e suas influências éticas, nem em particular, da disciplina eclesiástica, tão importante, mas dos efeitos que a apropriação subjetiva da religiosidade ascética por parte do indivíduo estava talhada a suscitar na conduta de vida. E não só porque esse lado da coisa foi de longe o menos estudado até hoje. Mas também porque o efeito da disciplina eclesiástica nem sempre ia na mesma direção. O controle eclesiástico-policial da vida do indivíduo, tal como foi praticado nos territórios das igrejas estatais calvinistas, tocando as raias da Inquisição (*), podia ao contrário contrapor-se, por assim dizer, àquela liberação das forças individuais que era condicionada pela busca ascética da apropriação metódica da salvação, e de fato assim ocorreu em certas circunstâncias."

 

(*) Se a Contra-Reforma foi pesada, não devemos pensar na Reforma como algo mais brando.

 

139

 "A ascese cristã, que de início fugira do mundo para se retirar na solidão, a partir do claustro havia dominado eclesiasticamente o mundo, enquanto a ele renunciava. Ao fazer isso, no entanto, deixou de modo geral intacta a vida cotidiana no mundo com seu caráter naturalmente espontâneo. Agora [séculos XVI-XVII] ela ingressa no MERCADO DA VIDA [açougue!], fecha atrás de si as portas do mosteiro e se põe a impregnar com sua metódica justamente a vida mundana de todo dia, a transformá-la numa vida racional no mundo, não deste mundo, não para este mundo."

 

Nas duas passagens acima os grifos são do autor.

 

NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 2 (PIETISTAS, METODISTAS E BATISTAS)

 

111 (229-31): contendas Estado-Igreja. O extremo dessa cisão entre vontade de sagrado e temporalidade reside nos aristocratas anabatistas. Impulso capitalista e tolerância religiosa não estão em absoluto associados.

 

115 (231-2): Weber critica a intromissão de termos da Psicologia.

 

119: mais contenda. Desta vez, não especificamente Primeiro contra Segundo Estado, mas contra o Terceiro (clero x burguesia).

 

146 (236-7): do percurso filosófico da idéia de piedade e da teodicéia, passando pelas ciências modernas, ao projeto pedagógico nefasto das escolas do Ocidente (a nefasta preferência protestante pela Física, a disciplina que "desencanta o mundo"). Citação de Descartes, Platão et al.

 

169 (240): religião e economia - qual é epifenômeno e qual é causa incondicional? Sabe-se a antinomia de Weber em relação a Marx, mas no fundo são dois "brincalhões da Grande Ciência", que não vêem moral ou condições materiais como sobredeterminantes - tão-só recíprocas, justapostas. É a minha aposta. Algo eles precisam eleger, caso contrário seria escusado não tergiversar sobre essas coisas, sem uma palavra. O próprio Nietzsche seleciona a sua: moral. São estas três palavras conotadoras de universos amplos o suficiente para descreverem a condição humana.

 

171 (241-2): os anabatistas, tais quais pietistas e metodistas, são secundários para o trato da ontologia da ética burguesa. Batistas, quakers e menonitas se encontram no foco dos problemas, ao lado dos calvinistas ortodoxos.

 

179 (243-4): consideração sobre a democracia no mundo moderno e seus dois diferentes tipos (porque de dois distintos precedentes): 1) a democracia radical dos povos de ascendência puritana - "radical" no sentido de que pendem a uma isonomia fundada na liberdade individual (Tocqueville) e na ausência de um chefe a que se deva obediência (Pai); 2) a democracia "latina", paternalista, instaladora de tensões - autoritária, igualitária, contraditória (França, Brasil, Portugal, Espanha - ditaduras equivalentes à militar brasileira - Alemanha - pois Lutero é um "protestante manso", o país é falso-evangélico, trata-se de um povo católico nos séculos XIX e XX -, Itália... Curiosamente, os dois principais pivôs da Segunda Grande Guerra, o "Eixo do Mal"). E então, o que há de novo? Ora, defasagem se explica pela ascese intramundana. É dito que entre os quakers o ataque às imagens foi tão aberrante que gestos de etiqueta como "tirar o chapéu" se tornaram sinônimo de submissão espiritual - e portanto razoáveis chances de não ser um eleito. Esta peculiaridade genial é oferecida por Weber como a explicação dos modos rudes do norte-americano, um caipira se comparado ao gentleman da Rainha.

 

189 (246): Veblen apud. Weber: "super-homem econômico", "acima do bem e do mal" - provavelmente se refere a figuraças esporádicas: de Rockefeller a Chateaubriand. Esses homens nunca deixaram de haver, mas não como fenômeno de massa até a era moderna, ressalte-se de uma vez por todas!

 

190: o "formalismo da ética puritana" e seu absurdo apreço pela honestidade em simultaneidade com o lucro - não, não há compasso...



Escrito por wormsaiboty às 23:30
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2. ASCESE E CAPITALISMO

 

Calvinismo ortoàheterodoxo. Era o 2º o de grandes nomes por trás das seitas protestantes: Baxter é o renomado puritano; o destaque pietista (alemão) recai sobre Spener; e ainda temos Barclay como porta-voz dos quakers.

 

P. 143 - na Baixa Idade Média já se tolerava a usura mesmo entre o clero. Na Reforma, pelos escritos de Baxter, houve grave recuo, a reprovação da riqueza. Como? O perigo da posse é o que ela carrega consigo - ócio e prazeres da carne... "Perder tempo é o pior dos pecados" - luxúria, preguiça à "tempo é dinheiro". Tempo é execução da ampliação da graça de Deus. Descansar? Só no domingo - e lá isso.

 

Tomás de Aquino ainda não enxerga no trabalho a "ferramenta de Deus".

 

Baxter não aceita sequer as exceções tomísticas, inclusive para os ricos: estes devem trabalhar mesmo que não dependam disso para a imediata sobrevivência.

 

É demandado obedecer a sua vocação - e nisto não está incluída a contemplação!

 

Baxter é smithiano em alguns pontos (nota 226: vantagem comparativa). Outrossim, defensor da especialização do trabalho, um ordenamento para as funções do indivíduo - artesão em xeque (ele é um "vadio").

 

ATUALIZAÇÃO: vê-se hoje que a carreira estável petrificou-se em mito. Sintoma de décadence.

 

"Não o trabalho em si, mas o trabalho profissional racional, é isso exatamente que Deus exige" p. 147

 

Abertura de precedentes: aceita-se a troca de vocação (que é metafísica!) e o acúmulo de várias delas sob a alcunha de um só, tomando por base, claro, que se está em crescente congraçamento com Deus - e isso é o que importa!

 

Baxter e os demais "engenheiros" selecionavam os trechos propícios do Velho e do Novo Testamento para seus sermões - enquanto qualquer fragmento tradicionalista era logo rechaçado. A propalada guerra com o mundo mágico.

 

P. 152 - ILUSTRATIVO à Carlos I e seu Book of Sports - afinal, o Protestantismo nasceu inimigo do corpo (escusa: "preservá-lo!") e só depois, vagarosamente, adentrou em mutações - emergência do homem trágico [ensaio e textos de Sociologia do Esporte]. As seitas calvinistas eram originalmente inimigas do esporte, pois seria uma "prática francamente irracional", pelo desperdício de energia física, além de estar sempre atreladas a "apostas e bebedeiras", nas próprias palavras de Weber. Era-se até contra banhos quentes!

 

WEBER PROFETA - P. 153 - o mecenato.

 

P. 154 - cultura de massa/indústria cultural à contra a "divinização da criatura" - roupas iguais - hoje - MODA - Olimpianos.

 

"(...) a ascese era a força 'que sempre quer o bem e sempre faz o mal'" p. 156. A benção de Deus é a semente do cúmulo da culpa.

 

"E confrontando agora aquele estrangulamento do consumo com essa desobstrução da ambição de lucro, o resultado externo é evidente: acumulação de capital mediante coerção ascética à poupança." - DIFÍCIL DE REFUTAR! Detratores, experimentem...

 

Holanda à Inglaterra, ciclo de Arrighi

 

Efeito trágico das normas: "A história inteira das regras das ordens monásticas é em certo sentido uma luta perpetuamente renovada com o problema do efeito secularizante dos haveres"; "O mesmo também vale em maior escala para a ascese intramundana do puritanismo" - metodismo tardio como uma das reformas dialéticas.

 

pp. 159-160: a auto-constatação do paradoxo cínico e da crise de valores.

 

Robinsonadas quer dizer: a idiotia do Homo oeconomicus.

 

Os primeiros efeitos da ascese só puderam ser sentidos em um tempo retardado, logicamente. O princípio do problema da mendicância em escala global. Os anglicanos se locupletavam com a presença de um - sua salvação era facilitada por intermédio de esmolas - DEPENDIA delas. Os puritanos, pelo contrário, trabalhavam por uma reforma constitucional que recrudesceu a indigência (o típico de proliferar o mal que se "enseja" debelar).

 

Emergência da questão trabalhista.

Rico à trabalhe para o lucro à (ele) amplia a glória divina

Pobre à venda sua força à (isso) é edificante

 

164-165: belo tratado da decadência. Rival de Marx? HAHAHAHA

 

(adaptado)

"Quis o destino que o manto do santo se convertesse em uma rija gaiola de ferro!"

 

(ipsis literis)

"Também a rósea galhardia de sua risonha herdeira, a Ilustração, parece definitivamente fadada a empalidecer, e a idéia do 'dever profissional' ronda nossa vida como um fantasma das crenças religiosas de outrora."

 

P. 166 - o neo-caráter agonístico-esportivo dos EUA.

 

O MAIOR PARÁGRAFO DA SOCIOLOGIA - p. 166

"Ninguém sabe ainda quem no futuro vai viver sob essa jaula e, se ao cabo desse desenvolvimento monstro hão de surgir profetas inteiramente novos, ou um vigoroso renascer de velhas idéias e antigos ideais, ou - se nem uma coisa nem outra - o que vai restar não será uma petrificação chinesa [ou melhor: mecanizada {comentário da 2ª edição de Weber}], arrematada com uma espécie convulsiva de auto-suficiência. Então, para os 'últimos homens' desse desenvolvimento cultural, bem poderiam tornar-se verdade as palavras: 'Especialistas sem espírito, gozadores sem coração: esse Nada imagina ter chegado a um grau de humanidade nunca antes alcançado'." [grifos meus]

DE ARREPIAR!

 

Depois: diretrizes para os pesquisadores sucedâneos.

 

E Weber admite o entrelaçamento irresolvível de causas à nota 307 - Marx.

 

-A cereja do bolo...

 

NOTAS DO CAPÍTULO 2 PARTE 2, AS CONSIDERAÇÕES FINAIS DE WEBER

 

Concepção forense de justificação - baseada em provas inexoráveis (inexistentes) à santificação, jogo da DOXA, interiorização.

 

198 (247): Baxter é anti-mamonista (mamona = dinheiro), o que REALÇA Weber ao invés de refutá-lo - o que importa é o efeito indesejado (impulso à parcimônia e autocontrole coincide com lucro; se ele não é gasto - não pode ser -, é reinvestido ou no mínimo poupado e os juros trazem mais dinheiro - aqui temos o clássico caráter trágico do dinheiro, Édipo-Frankenstein, que se deprecia a si mesmo ao se inflacionar - logo o limite do pecado se dilata - contrai, entendeu-se!).

 

204 (249): a proibição do "falar sem pensar" - "em boca fechada não entra mosca" - e a recomendação de Nietzsche de que é preferível falar a escutar. "Economizar na fala". HAHAHA.

 

211 (251): o DESINCHAÇO da cidade grande é outro sinal de transmutação. Um dia compilarei a lista completa!

Mito do desenvolvimento zero (o progresso já não se dá crédito)

Fusão entre trabalho e lazer (flexibilização da rotina)

...

 

214 (252): pietismo x puritanismo

 

216 (252-3): "escalas de casamento" conforme prática do sexo / Simmel / o problema do médico do Ocidente (à Gaia).

 

224 (254): Soneca: Spener (piet.) avesso à troca de vocação + 232 (257) + 246 (260)

 

225 (254-5): sistema hindu x protestantismo e judaísmo.

 

233 (256): "Matarás [por vias indiretas, como o cultivo de tabaco]!"

 

235 (257): classe média, burguesia, o limbo entre a nobreza que OSTENTA (pecadora) e o miserável (vadio, pecador). Ciclo da poupança já referido duas vezes.

 

236 (257): catolicismo e protestantismo podem até concordar de soslaio, mas a questão vocacional e ascética era periférica no primeiro.

 

239 (258): Carlos I, o primeiro "estadista do bem-estar social", indignando os partidários do liberalismo puro (ainda que estatal).

 

244 (259-60): protestantes x judeus.

 

252 (260-2): mais QUESTÃO JUDIA. Kant ascético. Realmente esclarecedor sobre a ética judia. Aparentemente, espírito judeu + protestante compõem o capitalismo em seus ciclos D-M-D', fases de expansão materiais (M-D-M') e especulativas. (Na mosca com relação a ROPER.)

Judeus à capitalismo especulativo-aventureiro;

Ascetas à capitalismo burguês-burocrático.

Este é o esboço feito no fim da nota, só que o Protestantismo ALIMENTA o Judaísmo ao promover o lucro E a não-gastança. Parece uma alternância de bastão.

 

ARTES & HOLANDA (questão de teimosia de um docente):

258 (263): o "nada absoluto" da arte musical inglesa. Dêutero; Rembrandt... + 260.

"o que se ouve o mais das vezes a título de 'canto coral' é uma gritaria insuportável para ouvidos alemães" + notas na página e verso...

 

261 (264): configuração da Holanda ou Países Baixos. O mercenarismo e a fragmentação: "os pregadores ingleses evocavam o exército holandês quando queriam ilustrar a confusão babélica das línguas".

+ jogo moral/imoral (perspectivismo habitual weberiano): exércitos inglês e alemão.

 

262 (265): "em Shakespeare, ódio e desprezo pelos puritanos não perdem a chance de se manifestar a cada passo de sua obra"; "Ainda em 1777 a cidade de Birmingham denegou autorização para a abertura de um teatro sob o pretexto de que iria fomentar o 'ócio', sendo portanto prejudicial ao comércio [hoje teatro = comércio!]".

 

273 (267): o imperativo categórico e o direito à herança. "Quem se diverte em esclarecer uma idéia seguindo-a até suas últimas conseqüências, lembre-se daquela teoria de certos milionários americanos segundo a qual não se deve deixar para os filhos os milhões adquiridos só para não privá-los do benefício moral que só a obrigação de trabalhar e lucrar por sua própria conta e risco pode dar: hoje, evidentemente, isso não passa de uma bolha de sabão 'teórica'." à sabão em Brentano (mais um). Ou seja, a moralidade dos calvinistas enriquecidos não passa para os descendentes a longo prazo.

 

276 (268): "o quaker era (...) a 'lei da utilidade marginal' ambulante".

 

278: Bernstein e o Norte poupador.

 

289: autoconsciência sempre houve, difícil é cessar a impessoalidade: não pecar implica no chamamento do pecado; a religião se perdeu e Deus foi morto.

 

293 (272): "Como se vê, o interesse de Deus e o do empregador confundem-se aqui de forma suspeita" - patrão = Deus (Jesus tem pai mas não tem pai - eis o culto da imagem quando interessa) / a repelência aos gordos - para ver aonde os EUA chegaram...

 

298 (273): Marx... eles se amam!

 

303: o cosmos científico goethiano, o homem sem espírito pós-moderno. E a inversão cretina de Benedict, Ruth [antropóloga estúpida].

 

308 (275): epílogo: "Também não sou muito afeito a escrever livros mais grossos, desses que precisam se apoiar fartamente a trabalhos alheios" - para mais sobre a "igreja invisível" ele recomenda seu AS SEITAS PROTESTANTES E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO.

 

293: vender sua força de trabalho é "dignificante", é o recado para o proletário.



Escrito por wormsaiboty às 23:27
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TRANSCENDER 13 (E)

Ensaio sobre a Dádiva

 Esta resenha será dividida em tópicos (as mesmas três partes, em 3 posts) e subtópicos correspondentes aos empregados por Marcel Mauss:

 INTRODUÇÃO - Da dádiva e, em particular, da obrigação de retribuir os presentes

 

  • a) Epígrafe - O antropólogo irá tratar aqui de um fenômeno batizado de "dádiva", a ser pormenorizado mais à frente. Por enquanto, basta a consideração de que em toda dádiva está embutida uma contradádiva, e nisto se poderia resumir por enquanto a espécie de contrato social que vigora em várias sociedades "primitivas" (outro intuito de Mauss é demonstrar o quanto este termo está equivocado, pois o sistema da dádiva é algo plenamente maduro do ponto de vista ocidental e, até seu tempo, isso era difícil de reconhecer).

 

  • b) Programa - Mauss introduz os dilemas ou perguntas principais de sua tese: qual força misteriosa impele o receptor da dádiva à contradádiva? O que existe de direito real (arcaico) incrustado no direito pessoal, nome pelo qual nos acostumamos a chamar nossas garantias e deveres constitucionais (nos termos maussianos, "conclusões morais sobre (...) a crise de nosso direito", p. 189)? Analisando sociedades míticas, em que não existe a noção de indivíduo dissociado de um todo, pretende-se chegar a estas respostas.

 

  • c) Método seguido - Há uma semelhança incrível entre o método comparativo de Mauss e o método histórico ensejado por Franz Boas, que será, aliás, enormemente citado em notas de rodapé. Objetiva-se o "acesso à consciência das próprias sociedades" (p. 189) e, para tanto, há a consideração do sistema cultural em sua completude, sem comparações fragmentárias entre instituições de um e de outro povo, o que "tiraria a coloração" delas, pela perda do contexto.

 

  • d) Prestação, dádiva e potlatch - O número de sociedades ao redor do mundo descritas detalhadamente por Mauss - para comparação posterior - é razoável e será possível encontrar desde "sistemas parciais da dádiva" até "dádivas totais" ("prestações totais" ou potlatch, como Mauss emprega, que quer dizer nutrir ou consumir), esta última variante encontrada nas tribos do noroeste americano. Algumas destas culturas apresentam pistas de parentesco (uma adotou o sistema após contatos com outra que já o adotava e depois o suplementou a sua maneira), mas este fato não é uma necessidade absoluta (há casos de desenvolvimento autônomo das prestações e contraprestações).

 

  1. As dádivas trocadas e a obrigação de retribuí-las (Polinésia)

 

  • a) Prestação total, bens uterinos contra bens masculinos (Samoa) - O próprio casamento se afigura como relação de prestação e de contraprestação: oloa é como são chamados os bens masculinos (móveis) e tonga os bens femininos (imóveis). A criança é tida como um bem uterino: ela é literalmente um bem que será fonte de contradádivas pelo resto de sua existência (parentes que o presentearão - regalarão, em conseqüência, o núcleo da família do menino ou menina - com oloas, bens móveis). Mas tal sistema samoano não é ainda um potlatch (prestação total), uma vez que fica faltando um pré-requisito essencial: a ocorrência da guerra caso a reciprocidade não tome lugar.

 

  • b) O espírito da coisa dada (Maori) - O tema ganha em abrangência quando migramos, em pensamento, para outra sociedade, a dos maoris. Sucede-se a transição do conceito anterior "tonga" para "taonga". Cada taonga tem o seu hau (aqui, tonga ganhou em amplitude) ou mana, quer seja, espírito, alma, atributo sem o qual "não se está vivo", "não se está". Pois bem: quem infringe a regra da dádiva e da contradádiva tem seu hau destruído, a maior vendeta imaginável (vendeta = vingança - quando alguém comete um crime, supostamente será alvo de vendeta daqueles em comunhão com as vítimas). Eis a caracterização da violação às regras de troca como crime, "punido" e sentenciado de forma diversa do nosso sistema de justiça. Portanto, a coisa "tem poder sobre o ladrão". Se a coisa tem poder, ela não é inerte (a propriedade "resmunga", "grita", cf. p. 254 e circa). A interpretação das coisas terem haus é que sejam espíritos, antepassados, objetos que foram de antigos maoris e que ainda encerram suas atribuições, e jamais deixarão de fazê-lo, posto que circulam indefinidamente. Há um vínculo inseparável entre coisas e homens aqui: na própria linguagem nativa, seria impossível determinar o que é o quê.

 

  • c) Outros temas (a obrigação de dar, a obrigação de receber) - Não consiste o potlatch apenas em retribuir, mas, por inferência lógica, em sempre oferecer e receber (afinal, a retribuição só existe com estes dois verbos a ela vinculados), e jamais recusar convites (exceções são enumeradas, mas creio que não seja preciso chegar a esse nível de precisão).

 

  • d) Observação - o presente dado aos homens e o presente dado aos deuses - Estendendo as conclusões sobre o hau, tem-se que os deuses são os "verdadeiros proprietários das coisas e dos bens do mundo" (p. 206).

 

  • e) Outra observação, a esmola - Alcunha-se aqui a teoria da esmola, uma eventual origem do nosso "Doces ou travessuras?" do Dia das Bruxas: "dádivas às crianças e aos pobres agradam aos mortos" (p. 208), em última instância aos deuses. Sendo assim, é demandado "dar" para não entrar em desgraça. Mauss precisa o momento em que os termos hebraicos da Bíblia passaram a significar esmola ao invés de outra coisa menos clara, o nascimento da doutrina cristã como adequada para aqueles que viviam em penúria material.


Escrito por wormsaiboty às 15:38
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 2. Extensão desse sistema - liberalidade, honra, moeda

 

  • a) Regras da generosidade. Andaman (obs.) - Os antropólogos desta escola racionalista francesa não priorizam a história (apesar de levarem em alta consideração as metamorfoses do Direito nas diversas sociedades) - fogem do difusionismo puro e também do "independentismo puro e simples das descobertas de um povo" (neste aspecto lembram muito Boas, ao se situarem em uma escala intermediária, de moderação na explicação das "invenções culturais").

 

  • b) Princípios, razões e intensidade das trocas de dádivas (Melanésia) - Por diversas vezes, ficamos sabendo que o "comércio circular ou de retorno", de taongas ou bens, o potlach ou kula (em Malinowski), costuma ser realizado intra-chefia, ou seja, entre os chefes de fratrias e tribos. Eles - e o povo que mediam - estão sujeitos a sanções como o banimento do indivíduo ("O esquecimento tem conseqüências funestas", p. 246). Correspondente a essa noção e não menos importante, temos as classes sociais destas sociedades. Pensava, por noções antropológicas anteriores à leitura deste livro, que as sociedades australianas "primitivas" careciam de divisão social em estamentos. Porque fica transparente em Mauss (e Malinowski, no kula) a presença de um ethos nobre, à maneira hindu, no tocante às relações de trocas entre os indivíduos. Os presentes da troca são supérfluos no que se refere à subsistência, mas nisto reside sua importância e sua nobreza (para não deixar margem para dúvidas, está é uma questão que, exteriormente, varia: tais presentes podem muito bem constituir filhos e comida, bens claramente de subsistência, tomados sem um contexto definido, no entanto é requerido observar a função desse tipo de honraria. É escusado dizer que aqui se trata de dádivas sem as quais, em tese, ainda é viável uma vida - só que não é suficiente tê-las só para si ou não tê-las, é necessário haver essas relações de troca entre os nativos, como se sem isso, com efeito, viessem a morrer. Prova cabal disso é o costuma ancestral esquimó de presentear o visitante - e não o nativo, o que é uma peculiaridade - com sua própria esposa, ao menos na primeira noite em que o estrangeiro é recebido em suas dependências: sem isso sua existência se tornaria vexatória, indigna). Há um distanciamento soberano entre a dádiva e o econômico/cotidiano: não pode haver barganha, pois isso denegriria o processo. Há inclusive a idéia do juro, mais moral que material (qualitativo ao invés de quantitativo, exato, matemático): em um mês se viaja sem mantimentos e se é acolhido; pois no próximo a intenção é receber aqueles anfitriões de outrora com ainda mais luxúria e opulência. Talvez por isso haja um impulso de "dar" inicialmente: dar sem ter recebido indica honra e significa um grande presente ou banquete vindouro.

 

Na nota número 29 entra em jogo o complexificador do sistema: a moeda. Mauss lista algumas etapas de consolidação do sistema financeiro até o presente. Antes de a moeda ser um equivalente universal de todos os bens e que não é um bem por si (o que ocorre em nossa sociedade - uma nota de 10 reais não pode "ser vendida" por 2, ou então por 25 reais, pela sua beleza ou para qualquer tipo de consumo final, se seu valor ainda está em curso e não estamos falando de colecionadores), ela era também qualidade, estava atrelada à magia, ao hau. Ou seja: apesar de envolver algo de impessoal, a moeda arcaica não o é de todo (aliás, disso está distante). Tanto é assim que Malinowski e Simiand contestam a classificação de Mauss, que atribui ao cobre, conchas, gado e a tantos outros talismãs das sociedades estudadas o título de moedas. Sua defesa é de que apesar de não haver uma arregimentação fixa do valor de troca, este existe, pode ser expresso em números, e isso basta. Tampouco há um centro burocrático emissor da moeda ou que a estipula por lei; mas para as considerações em mente do antropólogo francês a lei escrita é banal: basta que seus efeitos se verifiquem, e parece realmente ser uma instituição de uso universal nas fratrias e clãs. A relação do indivíduo local com a moeda é curiosíssima: "Os proprietários os manipulam [os pedaços de cobre] e os observam durante horas. Um simples contato transmite suas virtudes. Colocam-se os vaygu'a sobre a testa, o peito do moribundo, eles são esfregados em seu ventre, balouçados diante de seu nariz. São o supremo conforto dele" (p. 219). O contraste com nossa situação chega à comicidade: apesar do alto apreço pelo dinheiro e de eventuais demonstrações de "fruição do poder", como o milionário que "se banha de notas e moedas" ou que "joga o dinheiro para o alto", contentíssimo (o personagem ficcional Tio Patinhas, que mora num cofre, seria o absoluto disso), tanto o dinheiro de plástico quanto o dinheiro de metal estão mais associados à sujeira; lavamos a mão depois que entramos em contato com cédulas - elas "passam pelas mãos de todo mundo", não servem para nada que não seja "comprar aquilo de que se necessita", seu uso é "pontual e metódico".

 

E para atestar a "tese da moeda", Mauss lança mão de analogias com um corpo de nomenclaturas com o qual estamos acostumados, ainda que não torne essas ilustrações explícitas. É o caso, por exemplo, da menção ao basi, que funciona nitidamente como "entrada" numa "compra a prazo", uma espécie de "fiado"; e dos "bancos" (nota de rodapé 37). Uma associação do sistema de dádivas com o mundo ocidental é, então, viável: o dinheiro ou capital (forma acabada do dinheiro) é onde nossa potência e sua elevação reside. Onde se concentra o ímpeto cultural de criar. Seu cunho inflacionário, os juros sobre juros e as casas financeiras garantem que amanhã ele será mais que hoje. Assim como o "primitivo" retribui amanhã mais do que lhe foi oferecido hoje. O que é nossa poupança senão um enorme potlatch?

 

É preciso apenas deixar claro que a dádiva não compreende toda e qualquer transação (o potlatch é entendido como essa totalização, mas mesmo ele carrega cadeias secundárias). Há, acessoriamente, no cotidiano das famílias, trocas meramente comerciais ou o chamado escambo, onde os dois pensam estar fazendo um "negócio lucrativo", trocando algo de um quantum menor por algo de um quantum maior. A essência do escambo é divergente do princípio do potlatch: o impulso do primeiro se direciona ao ganho material, enquanto o segundo, de significação mais profunda e mítica socialmente, é motivado pela moral e pela honra, onde o mais importante é dar. As ilhas Trobriand, onde esteve Malinowski, e suas considerações sobre a enorme variedade de comércios existentes serve de base ao meu comentário.

 

b.2) outras sociedades melanésias - Chegamos aqui a uma demonstração viva (comprovada pela língua) da "confusão" existente entre "pessoa" e "coisa", indissolúvel nestes povos: "As operações 'antitéticas são expressas pela mesma palavra'" (p. 231), referência à ignorância do nativo quanto a "estar emprestando" e "tomar emprestado": para ele, são uma coisa só. Tal peculiaridade ainda reside parcialmente em dialetos correntes, no Ocidente e na China (notas de rodapé 116 a 118).

 

  • c) Noroeste americano

c.1) a honra e o crédito - Na página 236 nos deparamos de novo com aquilo que se poderia chamar de bancos, entre os índios americanos (nota de rodapé 131: se todos fossem sacar ao mesmo tempo aquilo a que tem direito por "crédito", haveria uma "quebradeira geral"! Vê-se que apesar de serem sociedades ágrafas, elas possuem tantos elementos especulativos quanto a nossa, e sequer se poderia dizer que nelas estes são "informais", porque há um sem-número de ritos que envolvem os atos de empréstimos, concessões e pagamentos). Aliás, a preponderância do potlatch no noroeste americano é tão patente que uma das tribos se chama Kwakiutl, "rico" no dialeto local. Pode-se concluir, por conseguinte, que o tema da destruição e da guerra ("dar é destruir", p. 239; ato bélico que é, aliás, equiparado a "jogar um jogo") está presente com força nessa região. O banquete cumpre uma importante função social, outrossim. Normalmente, os nativos passam uma estação inteira "dizimando" sua moeda, toda a riqueza, o excedente do restante do ano, em tremendas festas. E Mauss defende que "complexidade jurídica" e "complexidade do fato social" não estão necessariamente em compasso: aqui as normas são mais simples que nas ilhas do Pacífico e no entanto o potlatch é ainda mais ostensivo (ou melhor: se há um potlatch, ou algo que mais se aproxime de um potlatch puro, eis o exemplar). Sobressai, também, a conclusão de que a própria dádiva talvez seja o fenômeno econômico mais fundamental, e quer dizer muito sua configuração como evento complexo: significa que as instituição humanas atuais não vieram linearmente de relações simples que iam se complexificando com o passar do tempo. O autor até acha que o escambo, bem como a compra e venda contemporâneas usuais, é que derivaram desse estado de coisas de prestações e contraprestações, afinal pedir uma mercadoria no balcão de uma loja e dar uma certa quantia monetária por ela é uma espécie de síntese do fenômeno fundamental da dádiva, duas etapas de um fato social camufladas de uma só!

c.2) as três obrigações: dar, receber, retribuir - Reiterando, o axioma máximo descoberto por Mauss em sua pesquisa etnográfica (a despeito de não-presencial) é: "melhor dar do que receber". Mas "receber" não é visto como vexame. O vergonhoso seria apenas receber. Recebe-se com austeridade e polidez e desde esse ponto a ética demanda a retribuição gloriosa e mais rica do primeiro presente.

c.3) a força das coisas - Mauss se escora em inumeráveis mitos das diversas sociedades para ilustrar a importância da dádiva e da contradádiva. Apresentam um enorme poder explicativo alegórico, mas não é necessariário falar em nomes neste resumo - suas idéias se encontram diluídas nos outros tópicos.

c.4) a "moeda de renome" - A partir da página 260 podemos averiguar a extrema relevância do cobre entre os kwakiutl. Já ficou claro há muito tempo, mas finalmente o autor comenta o assunto nestes termos: a dádiva é um fato social total (abrange toda a existência - ou no mínimo muitos, quase todos os, elementos, em uma singular troca - dos povos tratados, do ethos exigido aos nomes com que chamam as coisas, da política à religião, passando pelos preceitos econômicos, pela moda, pela família e pela vida sexual, entre inumeráveis outras minúcias).



Escrito por wormsaiboty às 15:36
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 3. Sobrevivências desses princípios nos direitos antigos e nas economias antigas

 

  • a) Direito pessoal e direito real (direito romano muito antigo) - Um sistema jurídico parcialmente mágico e no entanto reconhecedor da propriedade privada (alienação dos bens). A questão é que no nexum romano o escravo ainda é um bem móvel, o que deturpa (em relação à nossa sociedade) a relação sujeito-objeto. Somente na época de Justiniano haverá uma reformulação que torne a "coisa" mais afeiçoada ao que se pode chamar de "inerte". Os antigos romanos são muito similares aos kwakiutl no tocante a bens inamomíveis de uma família, porque eles são a família (é só lembrar da relação dos melanésios e dos índios norte-americanos com a moeda - e transferir automaticamente essa relação afetiva para objetos ancestrais do clã).

a.1) escólio - Na página 272 verifica-se a explicação da nomenclatura reus, de suma importância quando se vai considerar a relação diferenciada que povos mágicos mantém com os objetos - sua relação sujeito-objeto que se afigura, inicialmente, estranha a nós. Os contratos e a punição do furto nos remetem às tribos já estudadas por Mauss: réu - aqui - é o acusado e o acusador! Outras figuras jurídicas comuns a vários tempos e sociedades: o leilão, onde compete-se para dar mais.

a.2) outros direitos indo-europeus - Aos gregos tardios e aos semitas atribui-se o fato da primeira divisão conhecida entre direito real e direito pessoal (modernidade). Mas Mauss é breve por não tê-los estudado a fundo.

 

  • b) Direito hindu clássico (teoria das dádivas) - O Código de Manu é uma extensa lei que trata em grande parte da moral da dádiva. As associações não param por aí: "O Mahabharata é a história de um gigantesco potlatch" (p. 279, grifo do autor). Há variações de hau verificáveis, adaptadas, por exemplo, à doutrina da reencarnação: "O alimento dado é (...) ainda o mesmo alimento na série de seus renascimentos", cf. p. 281. Além disso, "a terra canta", assim como "a casa fala" nos kwakiutl. Há, para se ver, a figura do poeta jurista, evidenciada em uma das notas. O Ocidente é o típico lugar da abertura incomensurável do fosso entre o jurista (técnico) e o poeta (irracional). E é com este poeta do direito que Mauss encerra o capítulo: "Aqui há somente uma roda (girando de um lado só)", é o que o primeiro diz.

 

  • c) Direito germânico (a caução e a dádiva) - A noção que merece ser citada é a de caução, não-ausente (apenas levemente diferenciada) no Império Romano Arcaico: trata-se da garantia contratual que pesará sobre o infrator, e que diz respeito naturalmente à contraparte, também. Eis o velho conhecido (das linhas acima) vínculo entre sujeito e objeto, uma espécie de hau.

 

  • d) Direito céltico - Vizinho do folclore alemão (sabe-se que o Direito se funda nos mitos - tanto isso que autores como Max Weber irão denunciar que apesar da coexistência entre burocracia e Direito, trava-se perpetuamente uma luta neste campo: aquela entre os especialistas, que são sempre reformadores da sociedade, apólogos do progresso, e os juízes clássicos, "sacerdotes", os porta-vozes da vontade divina, que são os representantes dos mandamentos mais arcaicos e tentam "conservar" a sociedade, evitar sua secularização técnica).

 

  • e) Direito chinês - O Direito Chinês também está permeado da noção de "perigo" ou "risco" de se "aceitar um presente". Terras para onde se migra, uma comida que se aceita, podem encerrar maldições, feitiços, de espíritos remotos - os mortos estão nas coisas, são as coisas, as coisas são gente. Este é um país de tradição camponesa em que a terra é considerada parte da família e dificilmente é abandonada. Mesmo na China Comunista não houve a alienação total das terras pelo Estado, como se há de pensar. Um sistema milenar dadivoso não rui facilmente: nas comunas rurais a gerência continuou sendo autárquica e um dos mandamentos de Mao lembra a questão do dom: "Aprender a andar com as próprias pernas", que ensina a recusar favores o quanto for possível (evitando assim o mau agouro de espíritos ruins). Grande parte das informações deste tópico "e" foi complementada pela etnografia de Henrique de Sousa Filho, Henfil na China.

 

4. Conclusão

 

  • a) Conclusões de moral - Marcel Mauss nos oferece, então, em seu balanço final, ricas páginas. Alerta para o perigo do Homo oeconomicus engendrado pelo projeto moderno, que passa a enxergar tudo como relações venais. Mas na verdade a mágica sempre subjaz em nossos atos, não é possível escapar dela! Os exemplos da aplicação da dádiva em nossa sociedade são vastos. Por mais que se o omite, as coisas ainda têm alma e superstições cotidianas não nos poderiam fazer olvidar. O que dizer de dar três toques na madeira depois de dizer algo de ruim? E o que uma escada haveria de ter a ver com nossa sorte? Há uma luta constante, nos porões da arena social, entre os valores tradicionais/humanistas e a inumanidade (objetividade) de nossos códigos. Receio estar sendo parcial ao criticar este mundo? Não o receio porque estou apenas dando eco à atitude de Mauss. As passagens do francês são, aliás, soberbamente atuais. Ele dá saltos e comenta da lei francesa de proteção aos artistas, do sistema de previdência social, dos movimentos assistenciais (de ONGs, por que não? Ele anteviu bastante coisas...) e proletários - enfim, de tudo que tem uma acepção "anti-mercado" hoje, um quê de comunitarismo. "A sociedade quer reencontrar a célula social", é seu recado exibido na página 297. O perigo, assinalará mais adiante, é quando o pequeno grupo se considera o porta-voz de toda a sociedade.

 

  • b) Conclusões de sociologia econômica e de economia política - Nas páginas 304 e 305 encontramos um belo resumo de todo o percurso delineado até aqui. Na 306, a mensagem de que quão mais alto é o teor mágico de uma sociedade, mais a característica da beleza estará atrelada à da força - o mais belo é o mais forte (invertendo a frase a compreensão pode melhorar), o que mais tem para dar. Ainda na mesma página: se "[a palavra] interesse é recente", conforme o texto, é indubitável que chamar os nativos de "desinteressados" (ou justamente "interessados"!) para caracterizar o potlatch é desprovido de sentido - a linguagem cria essas ambivalências. Está claro que para os nativos da etnografia maussiana não existe nem uma coisa nem outra. Afinal, no mundo mágico a roda gira para um só lado...

 

  • c) Conclusões de sociologia geral e de moral - Enxergo a Sociologia e Antropologia de Mauss como bastante atuais, e um grande serviço epistemológico para as Ciências. Apesar de citar Durkheim em seus escritos, de ser co-autor de livros com ele e de ser constantemente emparelhado com o mesmo, sinto que o sobrinho superou o mestre, porque seus questionamentos não envelheceram, pelo contrário, como os postulados objetivistas de Durkheim. A escola francesa é um interessante esforço de guinada antropológica, pois ensaia a tão necessária crítica ao Ocidente, o que vejo de forma mais acabada em autores contemporâneos como Bruno Latour. São capítulos fundamentais, portanto, da história da disciplina no século XX. Imprescindível leitura para a compreensão da "circularidade da cultura".


Escrito por wormsaiboty às 15:33
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TRANSCENDER-13 (D)

 

O IDIOTA - Dostoievski

 

Contém revelações.

 

1ª PARTE

 

O idiota é, naturalmente, aquele que ama. A mulher quer a insídia e o desvario.

 

O que representa, na instância fundamental, o dinheiro, afinal de contas? Nada. Não significa nada para uma vida humana digna.

 

2ª PARTE

 

207-8: o Eterno Retorno do Príncipe Míchkin! O estupor e a existência supremos.

 

Estado febril recorrente nas mentes de grande gênio, também verificável na personagem Raskólnikov de Crime e Castigo.

 

O ataque epiléptico, segundo o narrador, é "um homem gritando dentro de outro homem".

 

CAPÍTULO VIII/IX: a discussão-espelho: o Príncipe, acusado por um suposto filho bastardo de "milionário idiota", rebate em exímia exposição que o idiota é o acusador - ou, senão, há no recinto pelo menos dois doentes da cabeça.

 

3ª PARTE

 

Teoria similar à de Raskól: CIDADÃO ORIGINAL X GENERAL (aquele que destoa da carreira de funcionário público, o genial, era um tolo, um idiota social). E, afinal, a despeito do atraso do czarismo russo, fervilham naquele país-mundo os tais "homens práticos". Nada mais inglês...

 

P. 372 e circa - a "convicção suprema" de Ipolit.

 

P. 409 - do sonho.

 

4ª PARTE

 

P. 490: "O Catolicismo romano (...) não chega nem mesmo a constituir uma religião; é, para falar com propriedade, a continuação do Império Romano do Ocidente".

 

"O ateísmo saiu do próprio Catolicismo romano!"

 

"(...) tudo foi trocado por dinheiro, por um miserável poder temporal"

 

"O russo passa muito facilmente ao ateísmo, mais facilmente do que não importa qual outro povo do mundo." Míchkin é sem dúvida alguém à frente de seu tempo.

 

P. 555 (última) - a edição de capa-dura rubro-negra da BCE possui marcações

 

"E toda a sua Europa (...) não passa de fantasia" Lisavieta Prokofiévna, uma bela previsão dostoievskiana. Um fim tão mais niilista que o de C&C. Gostei bastante do narrador, em constante interlocução com o leitor, como se fosse, e isso se cita na própria obra, um artigo de revista. Concede leveza à loucura desmedida das personagens, equilibrando a trama.

 

Outro fato curioso a observar: apesar de ambientar-se na mesma cidade do outro romance, "O Idiota" nos brinda com uma Petersburgo, quereria saber por quê, diferente - nem mais nem menos sombria, tão-somente uma urbanidade paralela. Ao menos é meu testemunho visual - pode não equivaler a outras apreensões.



Escrito por wormsaiboty às 15:06
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DE ARREPIAR A RAIZ DOS CABELOS

Acordei assustado. Eram quinze e um. Porém, os relógios do microondas e do rádio, as únicas referências, estavam piscando. Sinal de que a hora não está certa. Deve ter chovido e um raio resetou o horário durante a noite. Ansioso por saber o verdadeiro momento em que acordei, liguei a televisão. Está passando Domingão do Faustão, nada mais cotidiano (digo, para um domingo). Na RedeTV, um estranho programa de auditório com a Eliana que nunca vi na vida. Apesar da novidade, nem me interesso muito: a TV perdeu a capacidade de mexer com a gente; perdeu nosso respeito; a gente se sente anestesiado diante da caixinha, "anestesia" é bem a palavra. Mas e o jogo, e o jogo? O Domingão do Faustão é uma atração tão gigantesca que não sabemos se é 4 da tarde ou se pode ser 8 da noite... Claro, a Globo nunca vai deixar de mostrar futebol, acaba "cortando em dois" o programa... Mas sei lá, um dia poderia ser que... Bom, para checar se não estava atrasado, mudei para o SporTV.

E foi então que me desesperei de vez. SPO 0 COR 1. Sim, isso mesmo. São Paulo Futebol Clube, placar vazio. Sport Clube Corinthians Paulista, um gol anotado. É segundo tempo, começo, ao que parece. O Rogério Ceni faz como o Marcos outro dia: parte atabalhoado pela intermediária, tentando evitar o segundo desastre. Quem diria que a decisão do campeão por pontos corridos ficaria para o clássico paulista? O Grêmio poderá abocanhar o título se o SPFC tropeçar no arqui-rival... "Segundo desastre"? No meio de semana, quarta-feira, o Corinthians havia curiosamente eliminado o São Paulo da Copa do Brasil... Acordei assustado. Eram nove e um...



Escrito por wormsaiboty às 10:06
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TRANSCENDER-13 (C)

SIMMEL AVENTUREIRO

 

Resenho Simmel em mais duas ocasiões (já havia sido bastante pormenorizado na análise de A FILOSOFIA DO AMOR e defendi uma curiosa tese a respeito da prostituição contemporânea em ensaio posterior), uma em um riquíssimo livro-coletânea (Simmel & A Modernidade) e outra em Fenômeno Urbano, capítulo "A metrópole e a vida mental" (mais breve).

 

Fenômeno Urbano

 

Na página 24 o autor cita o ódio pela metrópole costumeiro dos adeptos de Nietzsche e o quanto, na realidade, esse tipo de profeta obscuro é personalidade amada, diante do quadro de uma humanidade falida que quer ouvir sobre uma possível redenção.

 

Enxergo uma verossimilhança de abordagem entre quatro grandes gênios, pois observei que 4 de seus respectivos conceitos convergem:

- Durkheim e sua anomia (quando vai descrever o suicídio anômico, fala em termos que poderiam ser atribuídos a Nietzsche no famoso prólogo de seu Vontade de Potência, antecipando-se à crise do Ocidente);

- Bordieu e sua distinção (conceito trabalhado em livro homônimo, a ser investigado);

- Nietzsche e seu emergir do niilismo, a última conseqüência lógica do Ocidente cristão;

- Simmel e seu cidadão blasé.

 

Simmel e a Modernidade

 

(26/09/08 a 16/10/08)

 

INTRODUÇÃO

 

P. 12 - o nivelamento democrático-monetário percebido como degradante por Simmel.

 

P. 13 - muito boa à o Deus moderno - CAPITAL.

 

P. 14 - os dois tipos básicos de homens modernos, o blasé e o cínico:

CÍNICO: quantificação de qualquer valor. Venalidade máxima.

BLASÉ: indiferença; ar sensaborão, insípido; apático, anômico.

Um representa a vontade voltada para a falta de escrúpulos e extinção da dignidade.  O pragmático, modelo de advogado, empresário e deputado. O outro é a manifestação do beco existencial produzido. Um sujeito que seguiria sobrevivendo na ética do dinheiro como seus ancestrais cavernosos, embora isso se deva apenas a uma inércia e falta de qualquer alternativa. Assemelham-se muito, tais padrões, ao andróide melancólico e ao hedonista, os dois pós-modernos típicos descritos por Jair Ferreira dos Santos (num plano mais econômico). Eis que no parágrafo seguinte o próprio Simmel se refere à questão da busca do prazer.

 

P. 15 - sociedade doente (mais um ponto de contato com Émile Durkheim).

 

Os tradutores apontam para a seguinte faceta simmeliana: enquanto Marx é um teórico dos modos de produção, Simmel concentra-se no mercado, onde o dinheiro "pode ser visto". Seria o andar basilar(*) da pirâmide braudel-arrighiana. Não há um "papa" da sociologia que nos tenha brindado com os três patamares em uma teoria concisa. (**)

 

(*) No sentido de que sem indivíduos que precisam subsistir não haveria qualquer ciclo de acumulação.

 

(**) Pois basilar mesmo é o modelo estrutural de Giovanni, no sentido de que ali estão os tentáculos históricos das riquezas das nações. Marx está no "meio"; a fábrica e o trabalhador, instâncias urbanas fundamentais (ainda "homens", mas em inter-relações mais tácitas que em uma feira).

 

P. 15 - veredicto do parentesco com Nietzsche (o prefácio é de Jessé de Souza).

 

P. 16 - distinção como única saída. A Publicidade sabe bem explorar o fato.

 

No quadro destas páginas a pós-modernidade parece apenas um acirramento da modernidade - ou antes o contrário, dado o engrossamento do volume do dinheiro.

 

Jessé finaliza com a assertiva: "cada vez mais atual". Na mosca.

 

1. O DINHEIRO NA CULTURA MODERNA (1896)

 

A purificação moderna (ver TRANSCENDER-11, JAMAIS FOMOS MODERNOS, 23 de setembro).

 

O ser era a associação.

 

A sociedade anônima: o dinheiro se INTROMETE (interpõe) entre a instância subjetiva (a personalidade) e a objetiva (a técnica).

 

O dinheiro JUNTA pessoas de interesses DIFERENTES.

 

A "tara da troca". Apesar do alheamento das individualidades, a contradição é que se amplia a necessidade de estabelecer relações! "Laços entre os homens" - não seriam laços por demais esvaziados?

 

Lição de vantagem comparativa e compressão espaço-tempo (economistas e David Harvey - apresento um extenso resumo das conclusões de CONDIÇÃO PÓS-MODERNA, deste autor, em, se não me engano, fevereiro deste ano, vide páginas retroativas do Blog).

 

Em prol da liberdade? E da restrição da mesma liberdade! Leia-se: tanto o homem pré-moderno quanto o moderno adoram correr riscos. Somatório das vontades de potência = ZERO. (Imagine-se, num exemplo absurdamente cotidiano, que toda a medicina ocidental não é capaz de produzir uma relação satisfatória de "sobrevivência", uma vez que a paixão por carros substitui o animal selvagem e outras intempéries como fonte mortífera e de controle populacional, a seleção da natureza para o que vive e o que não mais viverá.)

 

P. 31 - belo exemplo: o camponês na transição entre os dois mundos: há, ainda, um quê de insubstituível na terra, embora ela possa ser cedida em troca de um reembolso proporcional (aí está: proporcional à quantidade). Havia, portanto, decisões binárias: uns, mais modernos, se compraziam por reter a remuneração e sair dali; outros não podiam abandonar esta base/tradição milenar.

 

O que torna Simmel um "pequeno Nietzsche"?

- seu perspectivismo;

- seu caráter trágico (lato sensu);

Nesta segunda categoria enquadra-se a aventura ou "eterno desafio de si mesmo - amar a desgraça. Sísifo (vide posts de julho e agosto). O fim do bode expiatório cristão, a responsabilidade por todas as coisas.

 

O hegelianismo do mundo moderno: a ansiedade cortante e a esperança - cada vez mais dolorosos - por um FIM: "o tempo moderno e, especialmente, como parece, a situação global vivem num sentimento de tensão, de esperança de pressão não-solucionado como se ainda fossem chegar à coisa principal" p. 34 - grifos do autor.

 

"O dinheiro é o estado permanente da alma" - o Homo economicus não possui uma "chave de desliga".

 

P. 37 - parece D. Harvey!

 

P. 39 - autonomia dos campos. O exemplo que Weber deu para a religião e o impulso capitalista. Poderia - e é, ao mesmo tempo que a hipótese anterior - ser o inverso; está tudo entrelaçado. E nosso caro Max jamais o negou, basta ver a última página de seu livro clássico!



Escrito por wormsaiboty às 23:57
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- CONTIGÊNCIA E PESSIMISMO NÃO SE TOCAM -

 

Individualmente, pouco importa o contexto espácio-temporal de alguém na consideração de sua propensão à auto-realização, suas chances de terem impulsos tais e tais - isto é, de ser menos ou mais tráfico, de existir "psiquicamente" pior. Mesmo situado como estou em um tempo de stress e de inclinação ao erro e ao ato falho, considero-me em condições de vida análogas a um indigente paquistanês de hoje ou a um mecenas do Quatrocento. Não existe "não nascer fortuitamente". Eu não sou um desgraçado por nascer entre dois tempos que se desmancham. Talvez isso aconteça com todos, nas épocas, mais austeras. Não sofro mais, ou menos. Não vivo mais. Não "perco" coisas, não sou mais arrependido. Pertenço a um limite mas sei que ele não permitiria nada de diferente, somaticamente falando, caso fosso transposto. A vontade de transvalorar e o não conseguir tampouco! O certo é ser uma exceção e viver este lindo Evangelho! Não existe cansaço acumulado. Tudo vale a pena, até quando parece que não. Sou de natureza tal que se não me viessem problemas eu os criaria. Por enquanto esta arte/verdade está assim. Até o próximo rodopio... Se há qualidade na quantidade é essa das 'vitórias sucessivas", quando me venço em todos os tempos e efetuo um registro - um querer cristalizar. O Vontade é águas porque ele é meu e escorre novo a cada dia!

 

2. (capítulo sobre o mercado de trabalho - Marx é um analista mais completo e não entrarei na descrição simmeliana)

 

-

 

3. O CONCEITO E A TRAGÉDIA DA CULTURA

 

"o processo infindável entre o sujeito e o objeto" p. 77

 

"o sujeito vivencia incontáveis tragédias"

 

"Esperança". Creio que sejam as mensagens complementares de Marx e Nietzsche. Somos voltados para o futuro (Camus - O HOMEM REVOLTADO).

 

Cultura: perdida entre o indivíduo e sua sociedade.

 

O ponto ideal é "o crime que dá certo": um Napoleão.

 

Alerta para o perigo do Idealismo.

 

Ele vem depois de Nietzsche para "aclarar" um pouco as coisas, ser um mediador entre o imoral e outro imoral (de 2000 anos atrás), Platão. Acompanhe: "Na formação do conceito sujeito-objeto como correlato, no qual cada um só encontra seu sentido no outro, já há a nostalgia e a antecipação de uma superação deste último e rígido dualismo". p. 81 (fragmento de alguém não menos que gênio). F. N. fecha o fosso exposto por Latour.

 

85: "Um nascer do sol que não é visto por nenhum olho humano não acresce absolutamente valor ao mundo, nem o torna mais sublime, uma vez que sua facticidade objetiva prescinde dessas categorias; mas tão logo um pintor reproduza a atmosfera, o sentido da forma e da cor e a capacidade de expressão deste nascer do sol em um quadro, passamos a considerá-lo um enriquecimento, uma elevação de valor da existência em geral; (...) a existência do mundo nos parece mais digna, e seu sentido nos parece mais próximo."

 

P. 87 - é Nietzsche? Vejo termos inconfundíveis de um "niilista perfeito": "estranha indiferença", "formalidades e refinamentos da vida que apenas parecem ser valores culturais, que ocorrem em épocas decadentes, pois, onde a vida em si tornou-se vazia e sem sentido, toda a vontade e potencialidade de desenvolvimento até o seu ápice constituem apenas um desenvolvimento esquemático"; "corpo doente"; "desenvolvimento sadio".

 

O egoísmo não-decadente jamais se preocuparia só com o ser, refutando o objeto. Cultura é síntese, não antítese.

 

P. 89 - um manifesto pós-nietzscheano contra as figuras do cientista e do padre.

 

90: "Para o sentimento de vida moderno, a antiguidade tem muitas vezes esta coerência auto-suficiente e acabada que impede sua recepção em nosso ritmo pulsante e ininterrupto de desenvolvimento". Incomparável distância de pujança. Discussão semelhante ao meu texto célebre, DA CULPA - o rabo da cobra!

 

91-92: "Nós nos tornamos (...) mais 'cultos' - mas nossa cultivação não avança, pois, em verdade, passamos de uma posse e de uma capacidade inferior para outra superior, mas não de nós mesmos como inferiores para nós mesmos como superiores". Genial.

 

"A cultivação é uma tarefa situada no infinito" - em quebrar todas as verdades. Evoca-se-me Sísifo, que nunca acaba de empurrar a pedra, em que pese sua ação poder ser considerada não só breve como irrepetida, singular. Perenidade na "vanidade". TRAGIK DIALETIK.

 

(pequena pesquisa: Sísifo, o mais ardiloso entre os mortais, segundo o mito grego. Enganou Tânatos, a Morte - não menos de duas vezes -, deixando Zeus Hades e Ares furiosos. Morrera apenas de velhice - pois não conseguia ser apanhado - e recebeu sua punição ao lado de figuras lendárias como Prometeu, Títio, Tântalo e Ixíon.)

 

Tragédia como superlativo - conseqüência última do PARADOXO.

 

95: "Pode ser que a fenda se abra mais ainda" profético

& "realidade histórica [que] pode perder sua continuidade"

 

P. 96: "não tem nenhum produtor", sujeito/predicado, bode expiatório.

 

"destino espiritual humano geral" - o segredo de sermos profetas.

 

O caráter trágico da cultura (101): "as forças aniquiladoras dirigidas contra uma essência brotam das camadas mais profundas desta mesma essência".

 

102: vocábulo nihil, finalmente.

 

103: ideal ruskiniano: o resgate do artesão.

 

A soma das partes e o produto "diferente" (essência nova).

 

4. O INDIVÍDUO E A LIBERDADE

 

Origem de individualidade em Sócrates ou na Renascença?

 

Ânsia por distinção social é seu impulso primordial...

 

...até a primeira crise da razão européia, que no Iluminismo elege a liberdade como princípio pelo qual lutar.

 

Liberdade e democracia: universalização do conceito de homem. (modelo platônico de homem)

 

Todas as fichas na Política: sobrecarga de responsabilidade. (alargamento do fosso sujeito-objeto)

 

DISCUSSÃO AULA 10/10 (Tocqueville) - 111: "Parece-me que foi o instinto que propiciou o acréscimo da exigência da fraternidade ao de liberdade e igualdade, posto que apenas a renúncia eticamente voluntária, que esse conceito expressa, poderia evitar que a liberdade fosse acompanhada do oposto da igualdade". Devia ter mostrado ao Rodrigo, o "falador da classe".

 

112: restante da explicação incompleto! No século XIX a contradição liberdade-igualdade foi posta à prova. Afiguram-se os homens de letras que, até o alvorecer do século XXI, são os mais geniais já vistos, dos quais Simmel é cronologicamente a retaguarda, mas bem podia ser o carro-chefe (um dos). Há essencialmente, "espíritos fortes" e "fracos", de modo que inevitavelmente "uns são mais humanos que outros".

 

Remendo na "constituição moderna": acentuação das individualidades num mundo de "direitos iguais": germinação da cultura de massa, em que todos estão sujeitos ao mesmo sistema de escolhas, que no entanto se mascara como heterogêneo dado o vasto cardápio de recombinações. O equivalente universal é o dinheiro. Dinheiro traz a liberdade em vários níveis, mas normalmente cobra o mais alto preço (literalmente). Exceto em situações como loteria, a capacidade de adquiri-lo pode ser associada ao desenvolvimento de uma verve de especialização que estilhaça o homem (figura do especulador). Apesar de capital estar imbricado em trabalho, quem menos trabalha é quem mais lucra. O próprio lucro - necessidade automática - e a inerente inflação agem como eternos dilatadores do grau de liberdade - a busca compulsiva por ela mediante procedimentos anti-naturais torna-se escravidão.

 

113: o Idealismo alemão (o ideal romântico*) - "salvar pela moral". Individualidade: einzigkeit.

(*) E aqui está a chave: crê-se que este homem europeu situado entre séculos é um modelo "de todos os tempos", a GRANDE RESPOSTA. É já um esboço de força, mas em carne fraca, uma insinuação rumo ao acaso trágico. (Deus joga dados - o próprio século XX continuou sem entender...)

 

114: interessante cruzamento entre o XVIII e o XIX, entre respectivamente França/Inglaterra (Primeiras Luzes) e Alemanha (expoente: Goethe).

 

Primeiro, há um otimismo frente ao mundo, algo smithiano. Posteriormente, o apego a preceitos morais (recuo).

 

Simmel também adentra a Economia marxista como fiz acima (Indústria Cultural).

 

O autor é um Nietzsche que vacila, pois não se decide a atacar este mundo e prever um próximo... É, no entanto, reconhecidamente, um "filósofo dos conflitos", anti-apolíneo.



Escrito por wormsaiboty às 23:57
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PARTE II - SOBRE A ARTE E A PSICOLOGIA DO COTIDIANO

 

5. A MOLDURA. UM ENSAIO ESTÉTICO (1902)

 

Nota de rodapé 119: Simmel reconhece a existência como anel!

 

Brinca em torno do condicionado/incondicionado.

 

"Uma coisa só é igual à própria coisa" - sem causas ou efeitos.

 

Visivelmente um ensaio destoante do prévio no livro - denso (embora agradável), permeado de notas.

 

Para intenções de MONOGRAFIA, o capítulo é fundamental.

 

Patriarca do existencialismo - que Sartre vá às favas!

 

Doravante, sempre que o que estiver anotado já esteja no artigo TRANSCENDER-13 (B) ELEFANTES ACADÊMICOS, inserirei três pontos verdes (...).

 

...

 

Uma reta é um círculo quando observada em outras dimensões! Nossa vida linear é anel. Produzi-me exatamente tudo tal e qual de modo a SER tal e qual! Sem finalidades secundárias por baixo do pano! Eu quis minha própria desgraça para sair-me triunfal. Neste mundo socado, as desgraças são sempre inconscientes. Édipo se desgraçou para se serenar...

 

...

 

Alma = arte (ser-por-si-mesmo); corpo = "moldura do quadro".

 

Pega emprestado o conceito de fetichização de Marx e critica a "individualização do móvel moderno".

 

6. A ASA DO VASO

 

Como definir um elemento híbrido, funcional e estético?

 

É o vaso, já, o meio-termo entre duas modalidades de arte, a escultura e a pintura. A primeira existe espacialmente e interage com o que a cerca, embora não seja obrigatório nem comum "cutucar-lhe", entrar em contato físico com ela; a segunda é uma realidade fechada e inatingível, apenas contemplável e, como visto anteriormente, emoldurada. E o vaso, que cumpre um ideal de beleza tridimensional mas está ao mesmo tempo ali para ser tocado, para servir de transporte, como evidencia sua asa?

 

A asa "que se agrega" e a asa que é desde o princípio um membro do vaso (paralelo com o homem e seus braços)!

 

O vaso é muito parecido com o homem em sua dualidade: é para-si e para-o-mundo.

 

7. A RUÍNA

 

Arquitetura, o elo entre o imanente e o transcendente. Uma edificação que se ergue finca raízes no solo, obedece à gravidade, mas ao mesmo tempo que fixa o ser humano abrigado ali abaixo também sabe alçá-lo ao céu, ao divino, porque afinal a ele se eleva, figurativamente.

 

Justamente por erguer-se contra uma força, há nesse gesto um desafio. O que dizer da demolição, do perecimento do ideal arquitetônico?

 

Vejo tal caos em outras artes: na tela quebrada, na partitura incompleta...

 

A natureza combalir a obra e o homem findar com ela são duas coisas diferentes, embora a primeira tenha sempre a palavra final: se um exército inimigo destrói o palácio invadido, anulou-se o fator humano ao se evocar que a natureza "cumprisse seu papel": apenas se deixou que "a resistência" esvaziasse, é mais algo passivo que ativo. Atividade fática vem do meio ambiente, que sobrepuja o homem.

 

"Tudo que é humano vem do pó e ao pó retorna"; goethismo.

 

É como ver diante de si a fragilidade e o caráter perecível do projeto humano.

 

8. OS ALPES

 

Os Alpes pintados, por serem menores, não possuem o impacto do original.

 

Paisagem emblemática do caos: impossível ser uma unidade, pois seus vários picos destoam e não há um centro.

 

"O transcendente não tem forma" p. 146.

 

O mar, ali perto, é a vida em pleno movimento. Os Alpes não são morte: antes, são um retrato intocável desta mesma vida. Algo severo e invencível, que não sucumbe a intempéries.

 

A prova cabal deste absoluto é, para Simmel, o(s) topo(s) nevados que continua(m) intransigente(s) às estações.

 

P. 148 - a idéia de que "nada se repete", tudo são experiências inéditas e inexiste qualquer padrão.

 

9. A ESCULTURA DE RODIN E A DIREÇÃO ESPIRITUAL DO PRESENTE (1902)

 

"A história da escultura termina com Michelangelo (...) recomeça com Rodin"

 

Rompe com o paradigma clássico, a forma de arte greco-européia.

 

154: "Dentre todas as áreas de produção cultural, talvez seja a escultura a mais presa à convenção"

 

"a física desencantou o mundo"

 

Rodin perfaz a síntese do naturalismo e do convencionalismo - uma "subjetividade aceita", não-anarquia.

 

Simmel não é absolutamente o socialista imaginado pelo capítulo sobre a prostituição!

 

Michelangelo: "centrífugo", apresenta a unidade escultural, de onde o observador atual disseca a alma e o belo.

Rodin: "centrípeto", retrata alma e forma segregados, a la mundo moderno, a fim de que o observador efetue a união.

 

P. 157 - sobre a "arte esvaziada", arte politizada. Apenas MEIO.

 

Rodin fez "O Pensador" e "O Beijo". Há "movimento", drapeados novos, supra-clássicos. É algo dado apenas parcialmente, que o olhar do espectador finaliza.

 

10. DA PSICOLOGIA DA MODA: UM ESTUDO SOCIOLÓGICO

 

O paradoxo: moda é imitação e superação da imitação; é identificação com um grupo e reconhecimento social concomitantemente à diferenciação, atendimento da necessidade de distinção individual.

 

Essencialmente aristocrática. Antecipação da Indústria Cultural: "o guia é, na verdade, o guiado". "Daí porque seu ápice constitui também semente de sua morte e de seu destino que é desaparecer"

 

Nascida para as mulheres, este "corpo homogêneo".

 

"toda moda singular aparece como se quisesse viver para sempre" - e sabemos que sua lógica interna não é esta.

 

11. A AVENTURA

 

O que é?

 

"ela extrapola o contexto da vida" - análoga à descrição do amor.

 

"Todos sabem como os sonhos são rapidamente esquecidos" p. 170.

 

Rompimento com a linearidade, o despertar de um novo sujeito.

 

"a aventura tem começo e fim" - pergunta: desvendar este capítulo é uma aventura?

 

Aventureiro é artista.

 

...

 

Num ponto futuro xerocar este capítulo à BCE EDIÇÃO RECENTE, CAPA ILUSTRADA, GRIFOS A CANETA AZUL.

 

A volta da magia (infantilização e rejuvenescimento da humanidade) - o crescimento esotérico do mundo. Tendências previstas e hoje constatadas...

 

"o aventureiro profissional faz da ausência de sistema da sua vida um sistema de vida" p. 173.

 

...

 

Musa e léthe... memória (eternidade) e esquecimento (o pó, a ruína).

RESENHA DO TEXTO "OS MESTRES DA VERDADE", FILOSOFIA/CEUB - não me agradou muito...

 

Não existe arte pela arte porque vida é arte. Página 174: "[tanto a obra como a existência, na aventura] caminha[m] em direção à ALTERNATIVA DE UM GANHO MÁXIMO OU DA DESTRUIÇÃO" - conceito econômico de F. N. em Vontade de Potência - achar e referenciar a frase em que se diz que "se deve correr perigo de vida para merecê-la (esse livro será um grande xodó nos próximos anos - preparar um vis-à-vis bem calmo dele, aos moldes do ENSAIO SOBRE A DÁDIVA).

 

"o rápido aproveitamento das chances"

 

...

 

O excremento quando sai é o recado de que vêm mais aventuras. E o que é a ejaculação? O mecanismo biológico a garantir o prolongamento da aventura!

 

A prostituta-barroca como o objeto de desejo supremo do homem. Se por um lado a coquete é quem joga, o homem é o adivinhador frente à esfinge...

 

...

 

O que dizer do surgimento dos esportes radicais?

 

...

 

Assim como Marx promete o futuro idílico pelo sacrifício do presente, Nietzsche assegura a iminente conversão do que é mero sonho e ideal em vida de recriações contínuas. (comentário semelhante ao da esperança, logo no tópico 3, acima - e de que havia tratado em inumeráveis ocasiões, tais quais A ESPERA PELO SUPER-HOMEM, POR QUE VOCÊ NÃO LUTA? e neste balanço sem título logo abaixo.)

 

...

 

"a totalidade da vida ser sentida em um instante" - um "sim" traz infinitos "sins".

 

PARTE III - COMENTÁRIOS SOBRE SIMMEL E SUA OBRA

 

12. A MODERNIDADE ATEMPORAL DOS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA: REFLEXÕES SOBRE A CONSTRUÇÃO DE TEORIAS EM ÉMILE DURKHEIM, FERDINAND TÖNNIES, MAX WEBER E, ESPECIALMENTE, GEORG SIMMEL

 

A eterna crise das Ciências Sociológicas: texto do serdestac no Yahoo! Groups (ver link abaixo, em ELEFANTES ACADÊMICOS). Se o objetivo da Sociologia é sempre problematizar a parcialidade dos juízos de valor, sendo a Ciência do Erro ela cumpre sua função! Ciência de décadence... O engraçado dilema: impõe-se que os clássicos estão ultrapassados mas eles são a referência última no campo.

 

A superficialidade, pobreza intensa, dos espectros "esquerda" e "direta".

 

Auge do interesse em Marx: anos 70.

 

Tocqueville, Simmel e Weber: interesse atual (data do livro - 2005).

 

É um esforço de Novas Luzes (desfecho de HARVEY, 1989).

 

Proposição de subcampos (194): METODOLOGIA PURA (Gusmão/Beto - o preenchedor de formulários), TEORIA DO COMPORTAMENTO (neo-behavioristas?) e FILOSOFIA DA CULTURA (hipertrofia do próprio conceito de cultura = decadência). Que tal uma Sociologia da Natureza?

 

...

 

Redescoberta de Simmel: 80's.

 

211-12: nota de rodapé com mais um esclarecimento de vocábulo alemão e Nietzsche. A síntese simmeliana do fosso, a VIVÊNCIA. Há, por suposto, algo acima dela?

 

13. A PERCEPÇÃO DAS ESSÊNCIAS EM SIMMEL - UM ESTUDO METODOLÓGICO

 

A preponderância do olhar - da imagem e do sentido da visão. A anti-filosofia por excelência: só se pensa na superfície que se vê. Grande agenda-setting.

 

"O pensamento lingüisticamente ativo não agüenta a si mesmo, a longo prazo" p. 280 - eis quando mais nos acercamos dos animais. E seu contrário, o fosso: o conceito.

 

P. 228 - imagens-duais: velha/jovem.

 

P. 231 - O que é platônico e o que é nietzscheano em Simmel: "positivismo idealista", paralelo com Husserl, que se crê verdadeiro ao negar o mundo.

 

Simmel é um último esplendor da metafísica na Filosofia do século XX.

 

"A classificação de Simmel como atomista, psicologista, formalista, irracionalista, esteticista e pensador conservador-burguês, etc. parece já ultrapassada..."

 

14. O PARADIGMA ESTÉTICO (A SOCIOLOGIA COMO ARTE)

 

"Os originais geralmente foram nomeadores" Nietzsche, A Gaia Ciência

epígrafe do capítulo

 

"Talvez seja tempo de exigir para o sociólogo o direito de poetizar, de estetizar sobre o desenvolvimento social" Michel Maffesoli, trad. Berthold Öelze.

 

"tudo o que associar fenomenologia e poesia poderá achar seu lugar nas nossas disciplinas" p. 236

 

Ensaio delicioso!

 

Duvidazinha: nietzschiano, nietzscheano - por que o "i" ganha aceitação?

 

"após ter prevalecido o pensamento iconoclasta assistimos a uma revalorização dos modos de aparecer." O primeiro niilista perfeito é que superou o niilismo.

 

P. 240 - de Nietzsche a Guy Debord.

 

Ler McLuhan, este link entre tantos autores.

 

DA CULPA - p. 243 - lembra o rabo da cobra, ética trágica e contratualistas... O rabo da cobra evidencia minha habilidade de dar nome ao que não pode ser percebido pelos outros.

 

P. 246 - "A esse respeito...", um parágrafo para mim.

 

15. UNIDADE E FRAGMENTAÇÃO EM SOCIEDADES COMPLEXAS (Gilberto Velho)

 

Sua etnografia de um ritual de umbanda numa rua do Rio de Janeiro me inspirou a planejar duas coisas:

- UM ROMANCE

- UMA ETNOGRAFIA

A segunda eu faço quando puder: um dia de jogo no Maracanã - para algum espaço-resíduo foram os geraldinos! O primeiro haveria de ser o dia em que todos acordassem com o inconsciente para fora. Como que bêbados de falar coerente. Meu alter-ego seria o mais artista, terrível e engenhoso, sem dúvida.

 

Me vêm à mente as aulas de RMI, verdadeira Antropologia Urbana. Que tal o mendigo tocando num dia chuvoso em aeroporto americano? E Joe Gould?



Escrito por wormsaiboty às 23:55
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Julgo que não precisarei comentar tão longamente a respeito de textos passados que continuam de interesse para os desenvolvimentos do TRANSCENDER. Vou aqui fazer um breve intercurso, citando alguns dos mais queridos:

 

“A ESPERA PELO SUPER-HOMEM” (de 10 de julho desse ano) deve ser encarado como a pastilha de esperança de que se precisa. A temática do porvir e do futuro – na ausência de qualquer chance de demonstrabilidade – é bastante delicada e a mensagem transmitida aqui é a da espera confiante, em um teor aliás bem próximo ao do “POR QUE VOCÊ NÃO LUTA?”, sub-texto da resenha do XVIII Brumário, de Karl Marx, um dos mais lidos pelos meus amigos mais próximos, cuja palavra-síntese seria, em minha opinião, “paciência”. As lições da paciência e da esperança são complementares. Fica faltando aí um elemento para complementar o tripé nietzscheano (a paciência e resignação na forma do camelo; a esperança e a inocência do devir na forma da criança; e por fim o vigor e a força destrutiva/criativa do leão – talvez estes sejam bem-representados pelo DA CULPA, a apologia do crime. O que importa, no fundo, é uma ética positiva em relação à vida e a consideração do princípio de rivalidade como norte de cada momento para a existência, o que aliás eu transmiti belamente na breve resenha de Rocky Balboa, com a história da “vaga que precisa ser encontrada todo dia”).

 

Recentemente, li um prefácio de obra-coletânea inédita de Nietzsche até quase um século depois de sua morte, do professor Flávio Kothe, da própria Editora UnB. Sua mensagem é a de que a promessa messiânica de um para-além-do-homem de Nietzsche o põe em pé-de-igualdade com Marx e sua profecia trágica a respeito do Capitalismo: eis uma “estranha convergência”, nas palavras do professor-doutor, que só deixam de concordar quanto ao método ou mesmo ao fim – embora muito se discuta sobre a idéia marxista do “comunismo”. Já apontei em texto passado as verossimilhanças entre esses dois autores – então a matéria, para mim, de fato, não é nova! Encontrei, inclusive, salvo engano, três pontos estruturais da obra de ambos que podem ser razoavelmente equalizados. Fato é que são dois imoralistas, cientes da decadência do Ocidente e do obscurecimento das Luzes que, apesar da crescente notoriedade século XX adentro, ainda não foram postos à prova – o tempo destes peculiares alemães que por pouco não respiraram o ar de uma mesma cidade ainda há de chegar. E sim, acolho a advertência de Kothe de que ambas essas posições adquirem ares de religiosidade. Obviamente, isso é irrefutável. Nietzsche sempre soube que seria alvo de culto como se fosse um santo. Mas mesmo que mostrasse sua reprovação, sabia seu destino. Não nego que sou religioso – isso seria estúpido, conhecendo a mensagem que quer ser passada (a de que o niilismo é a sobreposição do indivíduo com um deus morto) – e que espero, assim como o cristão, a redenção do homem para o amanhã. No entanto eu tenho uma postura de vida absolutamente divergente do “deixar-morrer” do mundo-verdade. Não é que esteja esperando um fato histórico, uma esperança retilínea, mas sei que esse momento chegará, como chegou, chega, está chegando (não há tempo verbal adequado), porque a história do universo já foi contada e se reprisa em auto-glorificação, como na curvatura interna imperturbável de um anel. O que se sucede é que minha vida ainda é uma célebre incógnita! No que eu puder ajudar a respeito dessa história já escrita porém desconhecida da transição para novos valores...

 

E, honestamente, se não puder ajudar estarei muito bem no meu silêncio poético. Sou adepto de uma religião que poucos no meu tempo-espaço poderiam compreender, a de uma invencível vontade de existir (levando consigo todos os paradoxos possíveis), de que as complicações existam e até aumentem. Alguma hora, alguma coisa irá acontecer. Ainda que não, terá valido a pena! Mas lembre-se: nunca se pode falar de si no passado, como a dizer “quando existi”. É sabido que se vive para sempre.

 

Encerro uma potência mais elevada que a de meus leitores. Sou um artista. Ao meu redor, este dispositivo que com a crise da razão se tornou símbolo da decadência – a linguagem – revive, ganha a vida tão ausente dos olhares e suspiros com que co-habita. E isso só faz de mim mais espetacular, uma flor que desabrocha no deserto mais árido. Sou rico em proporções que um simples leitor não pode mensurar. O propósito de uns é receber, o de outros participar da forja do anel.

 

Este foi mais um balanço momentâneo de minha obra até aqui.



Escrito por wormsaiboty às 00:58
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TRANSCENDER 13 (B)

ELEFANTES ACADÊMICOS

 

Genial reviravolta anelídea

 

120: rememorando que a obra-de-arte é auto-explicativa. Página útil na discussão da fronteira entre participação ativa-passiva no meio audiovisual. Eu só recebo? Sou também produtor. Porém, produtor no sentido de que interpreto “o que me é dado”. Criar seria diferente de participar do já criado, ativamente que seja. Nietzsche, o esteta do absurdo, nos brinda com o ganho psicomotor que isso representa... Um mundo de criações e dejeções. Sentimentos são sentidos por músculos, e o artista é o que sente.

 

Vivenciar uma tragédia em meio econômico capitalista já é um ganho de potência. Não é desfeita a polarização sujeito/predicado [ou será que é desfeita?]. Até que ponto trata-se de “aliviar culpas”? E em que ponto enceta o “produzir libertação”? Este é o debate acalorado em torno do meu tema. O “aliviar culpas” pressupõe que temos uma expiação cotidiana (descarga psicofísica), o “hedonismo”, em resposta à problemática cristã. Trata-se aqui de ser o passivo esgotado nietzscheano. Dias depois sua necessidade (contrapor o desprazer) será novamente exposta. PROCURAR MAIS DETALHES QUE EM SOCIOLOGIA DO ESPORTE ACERCA DAS “CORRENTES DE VALORIZAÇÃO DO CORPO” DO NEO-PROTESTANTISMO – OU APENAS RELER AQUELAS APOSTILAS... (Weber fala disso no finzinho de seu A Ética). Mas não cumpre papel de sinal demarcador, de ponte, transição? A amoralidade é o primeiro passo para a imoralidade... O sentir-se culpado e o realizar-se estão muito próximos, e de fato a auto-realização deve ser cotidiana (ética trágica), embora atualmente ela seja apenas mediada por Platão. Eis aí: encetam-se os casos de interferência na realidade – TIROS EM COLUMBINE/ELEFANTE – meu filme torna-se perfeito aqui: pastiche: Beethoven’s 9th e documentários sobre Hitler; nazismo com beijo gay; videogames violentos e bullying; e-bay, estrutura familial e escolar. Todos confusões do caráter trágico da cultura ocidental(*). Como resolver a questão? SERÁ QUE MUDO O ENFOQUE DA TESE PARA ESTE? BRILHANTE! Atos são atos. DA CULPA – creio mesmo que, adaptado e recauchutado de referências, aquele texto se torna um achado acadêmico – terrível ironia! Continuando: e os jovens são bodes expiatórios da escola – e a narrativa é um anel, talvez propositalmente para evidenciar a falta de culpados. Poder-se-ia responsabilizar a escola pela liberdade possibilitada! A família e sua desatenção! Mas, quê...!!! Não percamos tempo! QUEM LEU DOSTOIÉVSKI AQUI SE VIRARÁ BEM: Eis o perigo do sociólogo-estatístico de associar fatores como “n° de execuções de música clássica na rádio local” com “aumento da criminalidade”.

 

(*) Isto é Marx e o auto-fenecimento. Elejo Renan o molde platônico do imbecil que não me compreende...

 

“Serei um grandessíssimo criminoso, uma cria do Estado que o agride absurdamente!”

 

Por que o Édipo-Rei soflocleano seria uma tragédia?

 

Os alunos da escola pública que se preparem... Porque a realidade petrificada tende a se destruir em prol da conservação do não-equilíbrio (“e esta é a única coisa que está demonstrada!” VdP): o filho é uma potência conseqüência de pai e mãe e a causa de seus finais. Criar e destruir se confundem! Só o que mata vive! A existência são problemas, existir significa problematizar. E Édipo, seu povo, os reis e a esfinge são altamente comparáveis ao cenário elephantiano à o peso da culpa. E Édipo e seus crimes hediondos foram uma coisa casual – selecionada mesmo só na hora de contar!

 

Resta saber, então: o telespectador médio da cultura de massas de Morin é trágico neste senso? O mundo é a criação contínua. Está em prática a reverberação dos ideais cristãos como a iconoclasia (termo ambíguo!). Porque em si a adoração dos ídolos que vigoram encerra o próprio destino fatídico. A sociedade produziu Nietzsche e Nietzsche produziu a própria má-fama atrelada ao Nazismo. LER UMA AUTOBIOGRAFIA PÓSTUMA DESTE MALDITO POR EXCELÊNCIA!  A resposta não pode deixar de ser ambivalente. O limbo. Moram em frente à TV, encarnados na individualidade (essa mesma uma confusão entre alma/essência e vitupérios sociológicos de causa-e-efeito) o Cristo e o Anticristo. Todos salvam e todos danam. Todos são padres loucos. A prostituta freira (Sônia).

 

Talvez essa massa disforme não passe de um grande rascunho que sirva de entrelaço entre várias coisas que irei desenvolver... tentarei quitar os vermelhos desta trama...

 

O QUE É O TRÁGICO?

 

É que a própria ação do dono sempre se volta contra ele. Sartre não assume a própria liberdade (favor ler “DA PASSAGEM E DA CONTINGÊNCIA”)! O que engendro eu a seguir? Que tipo de contenda fabulosa? Eu sou minha diarréia, gengivite, tabaco da lenta morte, dente quebradiço, auto-intoxicação: e sou o MAIOR indivíduo que já pisou nesta terra... Tudo eu cultivei. Eu cultivei minha janela-de-ferro com duração imprevista. Eu escolhi nascer no mundo mais decadente imaginável. Eu anelei o existir... Como dizer que eu não seria Deus? Você sabe o que é EU! As coisas se imbricam. Mas eu sou o incrível cerne delas. Sou o resumo da história a longo prazo. Deus está morto porque se matou... Esqueci o autor da frase: “A única desculpa de deus é que ele não existe” Stendhal.

 

Só falta a cereja do bolo da catarse. Gênese da palavra MÍDIA: mediar [ainda posso pesquisar mais a fundo – época do Jornalismo + leituras pendentes]. Artistas (todos recebem e dão em igual grau; há uma afluência mais rica em meu entorno – me dão mais! Tudo é quantidade de experiências. Teoria-prática, o diálogo infindo, meus sonhos cresceram! Sou mais sensível porque troquei mais sensibilidades), Nietzsche, todos são. É inegável, claro, que nós magnetizamos um quantum maior de potência. Há furibundos e há Napoleões...

 

Não há qualquer relação verificável entre o CONSUMO DE ARTE e o ETHOS, a não ser uma cômoda flecha dupla. Nunca a sociedade criou uma máquina de predição de crimes ou um scanner para determinar com 100% de exatidão que um indivíduo, por tais e tais antecedentes, cometerá um crime (lembrou de algum filme?). O enigma é invencível. A sociologia, sendo trágica, não pode sequer estremecer a meta-physis.

 

Ouso o bastante para redigi-lo no projeto da UnB? Por isso me dói pensar na temática: me revolto com a crença na certeza (ainda bem – o primeiro passo para não cair no messianismo)! EU, UM TEÓRICO E APÓLOGO DO CRIME!

 

A vitória do presente sobre o passado e o futuro – juventude. Características do PRESENTE ETERNO televisivo. Um filme é um sonho? [contexto de “A Aventura”, de Simmel – postarei depois] Compressão espácio-temporal em David Harvey (RELER), O Homem unidimensional (Marcuse)... CHOQUE FUTURO entre o IMPULSO ECONÔMICO e o IMPULSO NATURAL (antinatureza x essência, ou quantidade x qualidade), o desencadeamento do duelo apolíneo-dionisíaco... O homem vive a aventura fora dos músculos, uma tragédia platônica... Estranho crossover...

 

Aventureiro é jogador, é uma criança, inocente -> DOSTOIVSKI “O Jogador”

 

“a vida como um todo pode ser sentida como uma aventura” – modalidade de vida superior à aventuras empíricas (SIMMEL E A MODERNIDADE, p. 174): na mídia, há uma mediação, não se é um sujeito pleno, e o acaso é falso. “Talvez nossa vida terrena consciente seja somente uma parte isolada”.

 

Zaratustra, que observa o leão comendo seus hóspedes, ébrios, ESTE LIVRO É UM GRANDE JOGO. E NÃO É NEM PODERIA SER TELEVISÃO. ESTA É UM DIÁLOGO, UM MERO PRÓLOGO, STIMULUS, DO HOMEM MODERNO A FIM DE SE TORNAR TRÁGICO.

 

O aventureiro é um niilista – não crê em nada, ou que cada ponto é tão sólido quanto o vapor. Tudo é possível, e há tempo e lugar para todas as coisas (HARVEY).

 

Eu penso que nasci premiado de uma estranha loteria... Que faz da minha vida a maior saga de um homem.

 

“instinto místico” do “gênio” (p. 176, op. cit.)

 

P. 177 (id.) – “cultura feminina” = PASSIVA. Omissão na fruição midiática. A mulher necessariamente é a “recebedora de presentes”, mais pobre metaforicamente. Aliás, a mulher é um embrulho. Pênis e vagina (fácil discorrer sobre): um oferece a riqueza; a outra apenas recebe, recepciona, porque não tem aquilo que dar. “mulherzinhas histéricas!!!” (VdP)

 

Uma sociedade que ENVELHECE é uma sociedade que DECAI. Será que estou vivendo o meu auge? O fulcral é o risco de vida: e na televisão ele não é real. Vive-se a experiência da morte no intuito de se arriscar a ela no plano real. Estímulo/treino!

 

Filme -> aceleração, velocidade, devir -> o AQUI e AGORA p. 181.

 

“Entre o empreendimento burguês mais seguro e a aventura mais irracional há uma série contínua de manifestações da vida nas quais o compreensível e o incompreensível, o provocado e a graça concedida, o calculável e o casual se misturam em uma infinidade de graus.” P. 183 – talvez seja impossível a aventura pura, o ideal, e igualmente não há a ascese burguesa total

 

TEXTO – mensagem 50 do Y!G textoscs: http://br.groups.yahoo.com/group/textoscsociais/message/50 “Os novos desafios epistemológicos da Sociologia”, por Jean Michel Berthelot. Desde que autores estapafúrdios como Comte saíram de cena, o tema central da Sociologia navega nas velhas águas sujeito-objeto (teoria da ação em voga), ou sua falta de águas, o fosso latouriano. Qualquer sociólogo de presteza sabe não haver sociedade ou indivíduo, a coisa-em-si (a crítica profunda de Nietzsche surtiu efeito) sem a consideração do olhar do seu próprio complemento. A verdade se esgueira, se contorce e desliza. O problema é ela se apoiar em dualismos mais desbotados que o próprio Auguste Comte, natureza-cultura, teoria-prática, EMPIRIA! Belo parto platônico... Sem abrigo sob o Sol torrante fora da Caverna... Uma ciência de proposta tão dinâmica sobre bases incrível e falsamente sólidas! É por ACREDITAR no mundo moderno enquanto procura rompê-lo que a Sociologia é a crise em seu último grau... É um problema do Ocidente e da Linguagem, insolúvel, sabem os pós-modernos! Só esperemos a consumação da Tragédia para nos entendermos com a senhora Arte... E são contra os sociólogos que poematizam!

 

Quem será meu orientador? Seu Eurico, da “aula mágica” do Weber?



Escrito por wormsaiboty às 22:57
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TRANSCENDER-13 (A)

CRIME E CASTIGO – Dostoievski

-exemplar grande, preto

 

Não leia estas anotações caso não queira ser estuprado por revelações da narrativa.

 

Pp. 296-99 – cerne do livro: Rodion Românovitch Raskólnikov explica suas intenções ao escrever o artigo de Direito para o jornal: a sobdivisão da humanidade em duas classes de homens: os ordinários-conservadores, que se fiam pela Lei, e os extraordinários-transgressores, que cometem o crime e mudam a lei (projetando suas implicações para os vindouros, que aceitando-as estariam automaticamente no primeiro time), quando bem-sucedidos, ou que o cometem para em seguida ser guilhotinados, em caso de descuido ou preponderância da moral sobre o instinto libertário.

 

Pp. 376-378 – o encontro dos dois pecadores clássicos: o assassino e a prostitua. Vender o próprio corpo – fazer vazar o sangue – e inutilizar o alheio – idem – constituem os dois tabus fundadores da coletividade humana – ou da Pré-História do homem. O Pós-Moderno e o insulto do Dia das Mães me cheira a reviravolta, uma guinada rumo a algo novo. Para assassinos e prostitutas não há família. Não há totem, não há tabu. Sem o cabresto, a liberdade e o poder. Eis o Homem, maiúsculo.

 

Mercado do Feno: alusão à imundície, sujidade, local de cometer ou de bolar um crime.

 

475 e passim – reminiscência com Sônia: razão para o crime...

 

SEXTA PARTE: tudo parece se resumir a “ter um novo objetivo”.

 

O grande dado acerca do crime é que ele não encerra provas – exceto que se encontre a tal pedra, sob a qual se encontram pertences da velha. É um caso cuja solução reside, como tão falado, na psicologia. E aí se depende, também, de algum erro por parte do criminoso ou réu.

 

562 - A cilada do antagonista – devo supor que o melhor amigo acabará por casar-se com Avdótia e Raskól findará preso. Mas por onde andaria o falsário do ex-noivo?

 

Sobre o protagonista recai um antes inesperado sentimento de culpa e ele confessa o crime. Afirma, no último diálogo que manteve antes da revelação à polícia, que não é um niilista. Neste momento mais se assemelha a um cristão, de fato – embora o Cristianismo seja o niilismo passivo em sua mais descascada acepção.

 

E a mãe, esta foi blindada da verdade, o que me remete a Adeus, Lênin.

 

A redenção está no amor – e num que platônico não fosse!

 

O sonho de Raskól no cativeiro: a guerra de todos-contra-todos. Uma aventura sem fim, contingente e incalculável.



Escrito por wormsaiboty às 22:10
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Estou-me iniciando na poesia e não é de hoje. Verdade que até ontem não as publicava...

 

1

 

(sem data precisa, meados de 2008)

 

O QUE FAZER COM A MEDIANIA?

 

  Ela me olha aonde eu vou

  Ela senta nos meus assentos

  Ela fala como pretenso sábio interlocutor

  Ela pergunta: por que anda trocando

a prosa por poema?

  É instinto!

  Não desejo mais que um ou dois seletos

  Cheguem a minha essência;

pois enquanto minha essência e não

algo dado

obviamente ela só é tirada de mim

(quando a olham e a tocam)

  Prefiro meu jeito – de cultivá-la

E desta vez é a sério: sem acidentes

 

E então, aforismático? Suas necessidades vêm crescendo... O que fazer com a vil ania?

 

Fá-la morder a isca!

 

Que leva a seu fel.

 

Nunca hoje, mais, ando encontrando a parceira. Havia de ser mulher não-de rebanho. Essas meninas do campus são todas novinhas. Umas virgens ou depravadas! Eis um campo sem direito a parcial. Enfado-me tanto mais quanto venço a mim mesmo todos os dias e coleciono troféus! Sei que durante alguns momentos sou visto como deus. Minha próxima vitória é ampliá-los.

 

   Sei, outrossim, que meu sistema psicomotor e as dificuldades impedem que eu deixe de cometer alguns deslizes. Ah, o sono... Essa peste que me detrata... Se eles são gatos, eu sou o velhinho que escarra...

   Aliás, em Camus há sempre um sádico de animais!

 

   Eu sou o sádico do meu zoológico e da minha veia esquerda. Quanto mais faço bocas cessarem de falar me comprazo do meu desprezo.

 

Quem é a próxima vítima...

 

1... 2... 3... Testarei algo...

 

  Calarei a boca e não citarei mais Nietzsche.

 

O primeiro que encher a boca... e perguntar dele, como bem fazia outro – ou se utilizar de bordões nefastos – teria preferido um sopapo...

 

  Estou farto dessa herança desse dogma de participações...

 

Com quem eu mantiver interesses de segunda ordem esta regra não vale – ainda sei ser econômico no senso cristão!

 

Quero testar mais que qualquer coisa ali onde o cansaço de qualquer modo me neutraliza... O silêncio – o velho silêncio – na mesa do bar... E nada súbito. Distanciamento gradual, o melhor... Adeus, rostinhos – já bastou de confidências.



Escrito por wormsaiboty às 23:14
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2

 

21/11/2008

 

17h50

 

Poemeto Gusano?

 

Começamos a duvidar de que o tempo já tenha passado...

Se há algo a louvar nesta época

É a rachadura dos ídolos

A Lei da Inércia

Cair no Ridículo

Um gato-zumbi

Uma explosão

Podem ser as respostas

Para todas as perguntas

Que podem conter

novos pontos de interrogação

 

3

 

21/11/2008

 

20h42

 

Arqui-inimigo transcendental

 

Quem, afinal, é meu inimigo mortal?

  Minha família stricto sensu? (eu vou colocar o itálico na sua bunda)

  A vizinhança burguesa? Esta chafurdou em ostracismo!

  Algum algoz de longa data que sinto que esteja a minha altura?

  Sua potencial inexistência talvez explique minha crise de poder

  Nenhum capitão honroso com quem medir forças

  Parece que vagarei mais tempo no lombo do burro até encontrá-lo – este outro eu.

  A propósito,

não é o amor uma forma de ódio?

 Este conter aquele não deprecia o primeiro, senão que é toda a razão de seu vigor

  Talvez o mundo seja o meu inimigo, porque me jogou em adversidade infinita. Infinita em termos

  É certo que posso contá-la!

  Para depois cobrar o débito!

 

4

 

21/11/2008

 

20h55

 

Ditaduras e glóbulos

 

 Por que escrever poemas

  É o meu caminho

  Se minha opção é por encravar mais um espinho

  Na mão já espicaçada

  que é que vossos sermões têm com isso?

  Se digo o que tem mais valor,

  sou autoritário

  Se demonstro,

  sou conquistador

  Entre Mussolini e Napoleão

  Menos de uma galinha

  que um ladrão pode muito bem roubar

ps.: Sangue não se produz em açougues! Eles só o fazem jorrar aos montes. Eu sou um artesão venal, e treze dialéticas não iriam me desmentir. Quero ver esse espinho reluzir ao Sol. Um Sol mitológico ainda não encontrado. Não perdi por enquanto o respeito pelo Sol. Para mim, ainda é Sol. Não sol



Escrito por wormsaiboty às 23:13
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Procurem minha entrada de 7 de janeiro de 2008: “Da passagem e da contingência da estadia no vagão”. Um texto-achado filosófico (tenho medo das reações que essa palavra desencadeiam)... Eu gostaria de completar com algumas afirmações, listar os comentários das visitas para aquele texto (confiram ali, está igualzinho, apenas editei os fragmentos de D. para que ficassem em uma tomada só, coisa que na caixinha de comentários não era possível, além de ter suprimido um comentário que não dizia respeito ao texto) e, então, encaixar outras falas minhas.

 

*** leia o texto agora!!! Depois volte aqui... ***

 

Considerações a posteriori: reli este texto hoje, no falecimento de uma tia nova em acidente de carro, e o texto pareceu absurdamente mais atual! E quando me refiro à contemplação, faço menção à única contemplação possível: a participativa, a sensitiva.

 

Extenso leque de comentários, à época:

 

                Pra começar, para que usar da frieza enquanto se caminha para o frio absoluto, que é a dissolução do nosso corpo nesse etéreo onde experienciamos os sentidos supostamente o real? De minha parte, prefiro ser tão quente quanto eu não fui com minha mãe. Mas minha interpretação do que vc disse depende se vc é frio ou nao com sua mãe (eu suponho q sim). E diga, os problemas com as mulheres estão sempre ligados à nossa figura de mãe? Não que eu ache vc um "fiel" de Freud, mas libertamo-nos do édipo. Ou temos capacidade. Sempre com experiências psicodelicas nas lembranças, nao consigo concordar com "um nunca pode ser dois". Talvez pq uma coisa, imediatamente, seja somente essa coisa. E imediatamente o um nao pode ser o dois. Mas assim, no indefinido, "um nunca pode ser dois", nao consigo. Até onde me julgo humano, descarto a racionalidade como fator de maior "exuberância" da especie, ou como caracteristica de ouro. De fato, é nos momentos em q me perco na consciencia racional que sinto-me proximo de qualquer coisa semelhante à "verdade", ou ao que nos referimos como verdade. Enfim, algo meio transcendental (num sentido mais ordinario, nada kantiano). É quando ocorre sinestesia, quando ja nao sei quem sou, entende? Então, sim, porque eu nao sou vc? Os fundamentos da tecnica, tornar-se são! Mesmo cotidianamente contrariar isso... Talvez um sentimento religioso com a humanidade hehehe, mas nao uma religiao niilista como a cristã (acho q discordamos sobre oq é niilismo, oq nit martela, etc). E vei, justamente pq depende de um FUTURO passageiro, de uma futura consciencia, de OUTRA, de OUTRO, de alguem que, cotidianamente, nao é vc, eh justamente por isso q nao eh TAO grande responsabilidade.

 

E mais, ess@ futur@ passageir@ aparece, sobe no bonde, quando menos se espera, assim que é gostoso! Infortunios, ou melhor - pq aqi nao se trata de sorte ou má sorte -, acontecimentos esses, inesperados, dão graça à vida. A VIDA nao é uma peça de teatro para assistirmos (ou novela, como qeira). Ser mais um espectador, por mais q seja um espectador crítico, perspicaz, não chega à um décimo do q é viver plenamente. E NISSO chorei com o último paragrafo: a graça da vida está nela mesma e na nossa desorientaçao sinestesica, em experienciar "infantilmente" momentos, e tentar expandir esses momentos para se tornarem o como da propria vida, criar sentido, mas sentido unico e proprio. A arte COMO VIDA e nao como objeto externo, num museu ou em departamentos nas universidades afora.

 

Dionísio é, faz, dança. Apolo está, parece, posa. Contemplar é morrer, e quando morremos nada mais nos resta alem de contemplar - contemplar o nada, contemplar a caixa de madeira do caixao. Na vida, a melhor imortalidade eh viver, mas viver gozando.

 

Comentando o comentario da Nanee: O ciclo "obritagorio" pra mim eh o espontaneo, o único "biologico" talvez. O problema pra mim são os ciclos q nosso meio nos impoe: Work-Buy-Consume-Die (tentei pensar algo em portugues, mas em ingles fica mt melhor). Enfim, eh por ai...eu ainda acredito em divindades e experiencias humanas qeridas.

 

D. |  02/02/2008 14:18

 

                Morrer deve ser chato. E ter família causa gastrite. Sobre ter filhos, eu também não quero, mas toda vez que falo isso algum filho da puta vem com papo de que eu vou ter um monte (e na cabeça dessas pessoas vou carregar os verminhos pendurados em mim por toda a parte, que nem um retirante). Esse ciclo "obrigatório" de vida me deixa louca! Nasce-cresce-reproduz-morre. Bah!

Nanee | http://ladymoondust.blogspot.com |  07/01/2008 15:02

 

                Gostei do post Worm. Você anda um pouquinho suave, que foi isso!? Renovação de energias pra 2008? hahaha beijos!

Liz |  07/01/2008 13:14

 

Comentários acerca dos comentários:

 

Liz, você realmente acha que “peguei leve”? Infelizmente esse vocativo é retórico, pois não vejo ocasião de entrarmos em contato de novo...

 

Ciclo! Ah, esta palavra me remete ao tão-mais-bem-vindo anel... Todo mito é circular. Eis o humano, eis a perfeição do mortal e eterno!

 

Sim, D., você captou a essência. Quis dizer realmente que sou frio com ela, mas não sou freudiano. O mito de Édipo é grego e, obviamente, foi bastante deturpado neste século XX! Minha interpretação dele é que “matar o pai” constitui “matar um leão por dia”, a superação contínua de desafios; e se relacionar com a mãe tem a ver com a Gaia, sua origem e sua situação neste mundo. Nos posts subseqüentes eu vou promover algumas novas correlações com o mito de Édipo.

 

Também passo a concordar, depois de tantos meses, ou sempre concordei mas não pensei a respeito, com esse um sendo dois. Assim como 2 mais 2 podem dar cinco. Só que mesmo que eu fosse a soma de duas partes ainda assim teria uma essência a eles estranha, esse o caráter trágico da realidade criadora-destrutiva.

 

Sobre a sinestesia, tacitamente sobre Baudelaire, concordo. Acho que toda a maldade (a construção do sentimento de absurdo, melhor dizendo) deste mundo advém da consideração de um indivíduo. Na verdade, retorno ao problema numérico: não há o indivíduo, ele não merece essa sobrecarga. Sartre atribuiu ao ser liberdade infinita e isso terminou por sufocá-lo. Isso não é verdade. Somos o devir, e, ora, números são só números! É por isso que convencionalmente podemos traçar qualquer coisa... Mas tampouco isso significa para mim, atualmente, cair na pós-modernidade. Conversando com alguém pouco iniciado em Filosofia no campus semana passada me disseram que “se toda linguagem pode ser desconstruída”, por que eu ainda deveria discursar? Para que viver? O “para quê” é o monstro dos monstros da civilização ocidental, mas eu já o encarei no espelho; e se aproxima muito do que você disse. Em minha grandessíssima opinião (e não modesta!), matar-se ou recusar-se à vida são apenas desperdício. Na mente dos incautos o desperdício é “gastar energia”. Não “somos” para outra coisa! O rico quer dar! O pobre quer conservar – e nunca consegue... Pobre de espírito. Os ricos de hoje não são ricos, se bem me entendem... Se hoje cometo suicídio, não “chego ao nada”, como deixei entrever por este velho texto do vagão. Gostaria de cancelar tal idéia. Não existe o nada, não existe universo coagulado ou cristalizado. O que são meses para remexer nossa cabeça! Matar-me hoje significa retornar ao meu parto. Só o que há é a vida, e seria um desperdício não “cometer” (usei esse verbo para se assemelhar ao cometimento de um crime, pois sou um transgressor por natureza) mais aventuras. Não ganharei nada, apenas uma reprise infinita, se morrer hoje. Já é em si uma bendição eterna, mas prefiro que essa bendição perpétua dos meus incomensuráveis nascimentos, em um universo cíclico, desejo que isso ainda esteja por vir! Ainda quero saborear mais o teor imprevisível do cosmo... Belo desabafo, e eu não o tencionava!

 

Pois é, talvez agora concordemos em o que seja niilismo! Vamos pôr essa conclusão “individual” (de um devir concentrado, eu diria!) à prova, quando você, D., me ler.

 

“E NISSO chorei com o último parágrafo” – você não vai chorar de novo. Parece que fui um bom aluno. Como disse acima, nas CONSIDERAÇÕES A POSTERIORI, porque não pude me conter, e tinha de dizê-lo antes de reler sua resposta indignada, não pude deixar esse mal-entendido por mais minutos... Talvez eu estivesse num limbo, querendo enunciar e não podendo. Porque não pode ser coincidência citar “Arte” e “contemplação” juntas. Pois bem: temos aqui uma contemplação transfigurada! O universo é tão perfeito que é impossível alguém SÓ contemplar. O mais platônico de todos ainda é carne, e escorre feito um rio...

 

Ainda bem que não existe um pós-morte! A não ser que estejamos falando do retorno do anel, do nascimento. Porque não existe estado fixo, ponto de equilíbrio! Se se quiser chamar isso de ATITUDE DIVINA, pois que se o chame! Mas as melhores criações são destruições: o melhor Deus é aquele que se destrói para que reine soberano (afinal, não haveria outra forma!).

 

Obviamente, o grande problema é como responder à pergunta “você acredita em Deus?”. Tanto faria, porque ao cabo não me importa, só que se eu quiser responder fidedignamente a esse alguém, terei de fazer longas incursões. Ou não?! Direi que sou politeísta, é um belo atalho... O ateísmo é só uma forma aguda de cristianismo... Deve ser patético não ser deus – sim, nem me lembro como era, essa época!

 

Para encerrar, sobre nossa confrontação com o ideal apolíneo que predomina no Ocidente, é por isso que estou fazendo o que estou. Posso estar me iludindo, mas abandonei o Jornalismo porque em primeiro lugar não desejava fazer duas faculdades e perder em vida. A academia é realmente uma ilha que pretende descrever o continente via telescópio enferrujado. Porém, meu sacrifício de quatro anos visará à vaga no magistério de escola pública. Pretendo passar minhas próximas décadas trabalhando em meio-período, dizendo o que quiser dizer para jovens de 14 ou 15 anos – e, sim, me construir projetos no restante do tempo. Nada de academês pra lá ou pra cá! Claro que essa “necessidade de cultura” nos absorve, mas ao ser festeira nossa sociedade contrabalança isso ao seu modo. Quero ler muitos romances, quero ainda ler muitos filósofos e escrever sobre eles, quero poetizar... Mas o principal não é isso... Nem reside o segredo em qualquer cerveja, música ou afetação feminina... Um quantum de experiência é o que eu quero, mas isso não me torna afoito para não me aperceber do agora...

Escrito por wormsaiboty às 23:04
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Em meio à elaboração do TRANSCENDER-13, gostaria de estar iniciando um ciclo em que revisito antigas postagens em busca de um auto-descobrimento que, nesse ponto, se faz essencial se eu quiser transvalorar. Começo com dois janeiros de anos diferentes... (próximos dias e horas)



Escrito por wormsaiboty às 18:39
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TRANSCENDER-12

DA CULPA E DA AUTORIA DOS ATOS E TEXTOS

 

Venho aqui tratar da gênese do sentimento de culpa. Defendo a tese, escorado em autores denominados imoralistas, de que a relação do indivíduo moderno com a culpa se assemelha à caça de uma longa e sinuosa serpente. A analogia ganha sentido quando se pensa que ao buscar incessantemente o rabo, e com ele jamais se deparar, o caçador apanha, tateando cego, de súbito, o que pensa ser uma das extremidades. E de fato: acaba de segurar a cobra pela cabeça. Ainda não era a cauda. A cauda é um enigma que, nesta minha história, jamais é desvendado. A pessoa inscrita na sociedade que busca “culpar alguém por alguma coisa” é um caçador de serpentes que acredita a todo tempo estar a ponto de se deparar com uma rabiça que chocalha. Há uma complexa relação entre “cena do crime” e “criminoso” que gostaria de desenvolver ao longo deste singelo ensaio.

 

Apurar um culpado é partir em busca da resposta: “quem fez?”, “de que consciência emanou a ação?”. Porém, tendo em vista conceitos lapidados ao longo de séculos como “indivíduo”, “volição”, “infração”, “acaso”, “antecedentes”, “conseqüências”, “testemunhos” e “confissões em júri”, torna-se impossível atingir um culpado ou uma penalização sobre os quais não recaia boa dose de incredulidade, mesmo revolta. O culpado e a penalização “ideais” ou “perfeitos” são o que se poderia chamar de cauda da serpente. Buscar a causa de uma cena e imputá-la a um sujeito é a prática mais corriqueira do propalado contrato social elaborado pelo homem branco europeu e hoje hegemônico no globo. Inicialmente, tal contrato era tácito, verbal ou hereditário. Filósofos então se acercaram do problema, evidenciaram-no, registraram-no, disseminaram a questão em diversos idiomas para que pessoas de épocas a partir dali pudessem consultá-la e quem sabe nela tomar parte. Houve até quem começasse a questionar a validade do contrato, sua engenharia, seus postulados, a natureza do homem. Pois se se necessita de um contrato, parece haver uma condição pré-contrato insustentável e que no entanto era o “previsível” ou “esperável”, o normal ou natural a suceder-se. Avessos ao contrato social renegam a moral cultivada pelo mundo ocidental e buscam novos valores para o homem, no que são vistos pelos compactuantes (assinantes do contrato) como imorais, apólogos do desrespeito ao contrato.

 

Contratos, de letras ou mais que isso, sempre podem ser quebrados. Diz-se que avalizam o ser com garantias, mas elas nunca são totalmente certas. Claro que se pode defender que é o suficiente e, ademais, o cume do possível. Infratores são prejudicados consensualmente; vítimas pontuais de infratores, algo sempre “fatal”, trágico, repentino, já que não podem ser evitadas, são aceitas e inscritas como “bodes expiatórios” insubstituíveis. Entra aqui uma expressão que gostaria de estender mais adiante ao autor da quebra de contrato, no ato de sua punição.

 

Assino o contrato. Acho que todos assinam o contrato ao nascerem em circunstâncias como as minhas. Mas sou contra o contrato. Enquanto não revogo minha assinatura, me limito ao que o leitor batiza de “plano teórico”, embora quem me conheça espere que eu não lance mão da dicotomia prática-teoria, por considerá-la uma barca furada. Fato é que enquanto não revogar minha assinatura e minha posição em acordo com o contrato social, caso ajam de modo ilegal contra mim serão punidos, o mesmo válido para mim. Não há escapatória: esqueci de dizer que quem não assina o contrato não existe. Não existe categoricamente neste mundo e não lhe pode ser agraciada nenhuma vantagem. Em um mar de milhões de pessoas e de coerção ultimada, significa que o indivíduo está condenado ao ostracismo mais cruel, provavelmente à inanição. Mesmo gangsters possuem um forte contrato social intra-grupo. Sou ciente do caráter absurdo de minha reivindicação aqui. Prossigo.

 

Assinar o contrato é proteger elementos para a própria existência esperando que uma instância que se põe à disposição de todos regule com sentenças negativas aqueles que ameaçarem a existência alheia. Assinar o contrato implica que caso aconteça uma ilegalidade (quebra de contrato), haverá um culpado pronto a indenizar, seja a vítima em si seja a tal instância central-mediadora (aqui, o Estado, sistema de justiça). Portanto, assinar o contrato é reservar à disposição, quando necessário, um caçador de cauda de cobra. E se digo que é impossível obtê-la? Já o disse. O leitor o sabe. O leitor pode também alegar que há uma “proximidade do rabo suficiente para tornar as coisas justas”, ou ponderar que inexiste “medida melhor”. Discordarei até o final, mas reconheço que minha voz não é estridente o bastante para calar as ontologias dessas preferências, as motivações singulares de cada um. Adoraria um mundo em que houvesse mais e mais vozes desafiantes como a minha... Atenção!

 

Há uma confusão muito grande entre dois pares de coisas que me faz preferir a rasura da minha assinatura do contrato. Eis os pares: condicionamento/incondicionamento, sujeito/predicado. Há razões lingüísticas e históricas para crer que o mundo moderno erra ao propor dicotomias o tempo inteiro. A idéia de que há alguém para ser responsabilizado por uma “cena” precisa ser afastada. Tradicionalmente, devido à individualização das relações sociais, há sempre um autor para uma ação, sempre um sujeito para um predicado. É até difícil de engolir, para uma proporção extremamente elevada desta “realidade competitiva” que se diga que a distinção entre eu e outros e entre pessoa e meio não é correta! Não existem pessoas. Pessoas são palavras. Houve enormes equívocos na relação entre ser (sujeito) e objeto (entenda como mundo) que amalgamaram a vivência. Os “autores do contrato” (não cairei no erro de buscar um rabo de cobra, mas preciso ser sintético) são gerações sucessivas de filósofos que partiram de pressupostos convenientes ao dogma cristão, por sua vez associado a condições que surgiram no falecimento do mundo grego... Percebe como eu poderia seguir para trás até chegar a lugar algum? Esta foi uma caçada sinuosa a um apetitoso rabo. Pois bem, nos atenhamos na parte frontal do comboio: considero filósofos como Platão, Kant, os existencialistas do século XX e alguns outros no decorrer da linha do tempo como contribuintes deste modo de pensar. Porém não os quero prender, nem mesmo malograr! Queria mostrar a gênese do sentimento de culpa.

 

Tais pensadores propõem o pensamento, a razão humana, como algo incomensuravelmente único, pertencente ao sujeito, inalienável. Através dessa razão efetuam-se inter-relação ser-ser e ser-objeto. Efetuam-se predicados advindos de um ser. Não há predicado sem ser. O cristianismo coloca coisas inexplicáveis a cargo de uma entidade chamada deus. O homem moderno deixa deus um pouco de lado (para intervir somente quando cômodo) e convoca o Estado e mecanismos de “impessoalidade” para representar um grande número de pessoas como se fossem uma só (o Brasil como uma pessoa de 200 milhões de “rostos”). O autor do mundo é deus. O mundo é o predicado de um sujeito. O crime é o predicado do criminoso. Alguém comete, alguém é responsável. O ser tem a primazia. Mas o que é o ser?

 

Este debate está ficando muito extenso! Nunca vou resolvê-lo com propriedade magnânima se não estiver da espessura de um livro, mas eu disse que seria um ensaio singelo. Singelo no sentido de que não deve ser muito longo, embora não seja breve para o que um leitor gostaria de ler. Nunca se tem tempo para ler. Um Blog de uma pessoa nada ilustre, então...

 

Eu falei de Deus. Ou deus. Existe também um par que ingressa agora no jogo, o condicionado/incondicionado. Tudo que é cobra, ou filamento de cobra, evento envolvido num emaranhado de outros, sendo causa de uns tantos e causador de outros mais, é condicionado. Só se pensa existir um autor para uma quebra de contrato porque alguém promove uma ação. Ações sempre estão ligadas a sujeitos delimitados, no mundo moderno. Pode parecer estranho, mas nem sempre foi assim. No mundo grego talvez não se dissesse “somos três pessoas”. Poder-se-ia contá-las, mas não no sentido que conhecemos. Seríamos parte de um todo indivisível. O incondicionado respeita essa idéia. O mundo é o caos. Qualquer tentativa lógica de pintar suas motivações redunda em fracasso, insuficiência. Nada está em relação com nada na medida em que tudo está em relação com tudo. Digamos que o grego ainda assuma que a teia de eventos e fatos seja uma cobra, uma cobra das grandes, mas que não age como caçador de cauda. Se se pensa que tudo tem uma origem, há o problema da origem em si: o primeiro fato, a primeira ação, o primeiro ser, quem os trouxe ali? Deus serve para preencher essa lacuna como ninguém no mundo moderno. Pasmem aqueles que não sabiam muito sobre os gregos: eles não precisam de um deus!

 

Deus é tratado como todo-poderoso, onipotente, essa é sua razão de nos ser afigurável. Ele é incondicionado porque está além de qualquer causalismo, é independente e autônomo. Porém, como explicar que proviemos do incondicionado e somos condicionados? Mesmo os extensos poderes da criatura não depõem a seu favor. Na Grécia Arcaica aceita-se o mundo como eu penso que ele seja, um amontoado de caracteres incondicionados. Esbarraremos em perguntas por parte do leitor como “mas então de onde você acha que veio tudo?”. Não ficarei devendo esta resposta, mas devemos continuar!

 

O mundo moderno quer o condicionamento, mas como é complexo e na verdade impossível atingir o rabo da cobra, ele adiciona uma cláusula de incondicionamento ao contrato. Tudo isso para salvar a plausibilidade do binômio sujeito/predicado. Afinal, alguém tem de pagar por ter matado ou roubado alguém, ou antes, as pessoas precisam ser incutidas do medo para se sentirem seguras. Que belo vaivém!

 

Viu-se que são binômios assimétricos, deficientes. Não andam direito, não estão em compasso. Na Grécia está presente a idéia do incondicionado em sua totalidade, e agora não precisamos nos preocupar com cobras, autores, punições. O que parece punição, ao ocidental contemporâneo, o que faz vezes de castigo, não passa de “fato”, evento desligado de outros antes e depois de sua ocorrência. Chama-se a isso de ética trágica, um substituto do contrato social. Mente quem para me desmoralizar trata seres humanos que não pensam num contrato social como incapazes de viver, de estabelecer existências a longo prazo, viáveis. Além disso, “viável” é diferente aqui e acolá. A ética trágica preconiza que ninguém pode evitar desgraças, porém as desgraças são a chave da existência grandiosa, de quem quer ser lembrado em todos os tempos. Na Grécia clássica (pré-socrática), homem feliz é aquele que está “vencendo todo dia”. Pois, sem contrato, sua exposição a perigos permite que a sucessão de seus dias seja um contraste entre o perder e o ganhar. E o ganhar do grego, o prazer, só pode nascer do perder e do desprazer que lhe são anteriores. Dizem que o mundo ocidental tem um pouco disso: a ética da quantidade de vitórias! Mas isso é uma tendência que só pode se acentuar no futuro. Presentemente, é benquisto deitar-se e acalmar-se, dar-se a si mesmo uma vitória que permaneça. Outra vez já disse que a natureza não gosta de equilíbrios, e isso depõe contra a prática do contrato. Contratos são feitos para serem quebrados, parece saber o advogado, embora neste exato momento ele se acanhe. Parecemos viver em uma ânsia por cometer um crime. Essa vontade é a vontade de ser grego. Penso que minha antipatia pelo contrato já ganhou novos contornos! Pude explicar por um texto que não sou louco, mas apenas um “nostálgico”...

 

(continua abaixo)



Escrito por wormsaiboty às 00:44
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(cont.)

Complementarmente, para evitar buracos neste texto, me adensarei em alguns pontos. Se quiser, pode me abandonar. Intuo que eu esteja sendo interessante e você não vai partir.

Kant e seu Imperativo Categórico são as maiores salvaguardas da ética não-trágica, quer seja, da culpa e do contrato. Diz ele que a felicidade está em Deus ter fundado o mundo para que respeitemos uns aos outros, vivamos em comunhão. Persisto em que essa é uma prática maléfica que humilha o homem...

 

Eu diria que o mundo grego não é mais fraco por não ter um Deus. Antes, ele tem vários deuses. Mas esses deuses não são morais, não se preocupam com imputar autoria de ações a ninguém, tampouco se ocupam minutos que sejam com aquelas letrinhas pequenas de contratos... É uma liga poderosa. Já o Ocidente possui uma perna só. Para mim, o único alicerce da construção chamada “nosso mundo” é a palavra culpa. Se ela fenecer, todos os contratos serão cancelados.

 

Vou tentar convencê-lo a se juntar a mim e me encaminhar para a intrincada resposta que prometi (“mas então, de onde veio tudo?”). Mas para isso preciso fugir um pouco do assunto: conheci um homem – não pessoalmente – que antecipou todas as descobertas das ciências naturais no século XX, mesmo pertencendo ao século XIX e sendo um filósofo. Seu nome era Friedrich Wilhelm Nietzsche. Ele não é muito reconhecido pelos seus feitos. Sua principal descoberta foi que a natureza não existe, tal como pensamos, de forma absoluta. Ela não é o que ela é. O que vemos não pode ser, não existe a verdade, fixa, se quisermos chegar à VERDADE DAS COISAS. Nietzsche desvendou como ninguém as armadilhas da verdade. Podemos dizer que se trata de uma cobra. Quando dizemos que alguém é um criminoso pensamos estar enunciando uma verdade. Nietzsche resgatou o espírito grego e foi capaz de perceber que a verdade não pode nem QUER ser apanhada. Este é o problema: para que o rabo? Na verdade, antes que seja um desconsolo, seu enunciado é um consolo: “O único motivo da existência é não seguir qualquer motivo”. Não sei como imaginar uma vida que caminha para um propósito rijo no horizonte. Pode o indivíduo que lê se pensar como condicionado, realmente? A Sociologia faz isso, tem essa missão. Ciência das mais recentes, sua principal sobrevivência é negar o livre-arbítrio individual, porque ela se escora na existência de uma sociedade onde tudo é “causado”. O velho papo do rabo... Anulando-se a individualidade em plena sociedade que valoriza supremamente o indivíduo, chega-se a uma crise irreversível. E pensar que o sujeito está sozinho é naufragar. O melhor é ser grego e entender que não existe indivíduo ou não-indivíduo. Está tudo misturado. De quem é a culpa, se a Sociologia se encarrega de buscar as razões pela ocorrência de crimes? O leitor tem esperanças de que eu admita a captura da cauda da serpente? Não! A Sociologia não se resolveu com essa culpa, com esse “bode expiatório”. Ou se resolveu, a sua maneira: se tudo está entrelaçado e o criminoso cometeu a ilegalidade devido a circunstâncias sociais, e estas nasceram de outras, que por sua vez nasceram da natureza em evolução, que por sua vez principiou-se do cosmos, que nasceu a dado momento de algum ato, o único culpado é este ato 1. O ato 1 é a criação do universo por Deus. Agora descortinei este deus: aparenta todo-poder, é todo-desgraça. O ocidental, o homem moderno, culpa a existência por um ato criminoso. Se o sujeito supremo é deus, todos os predicados são seus crimes. E o pior é que a autonomia do indivíduo se subjuga a ser predicado, ou seja, ao zero. É uma engenharia completamente falha. A vida no contrato social parece um teatro horroroso do qual não se pode escapar: cadê o autor da peça? O homem não é mais digno no momento em que se revolta contra o autor do contrato que julga ser imprescindível sem saber quem ele é e sem saber por onde começar a rasgar a peça jurídica; e caso ele entenda tudo o que eu disse, tem vergonha por seus pares, que não o farão, impossibilitando que ele mesmo seja um perfeito grego. Ser grego é ser deus, neste aspecto. Se tudo se imbrica, que se assuma a responsabilidade por tudo e por nada ao mesmo tempo!

 

Essencialmente, na natureza não existe nada que não se contradiga. Um criminoso é uma figura sempre ambígua. Um átomo é ambíguo. Nada é preciso. A vida é uma dança, um enigma, que nunca quer ser descoberto. Uma cobra não sibila reta. O fenômeno não existe em si. O próprio fenômeno é uma perspectiva. O mundo é muito mais rico do que aparenta. Não significa que nada seja real, mas que existe uma realidade para cada observador, e elas se sobrepõem, formando uma cornucópia impensável para o melhor dos criadores. Por isso o mundo não possui um autor. Como por trás de uma perspectiva há sempre uma criação ou ensaio de sentido, o Ocidente disso se aproveita para instalar a culpa. O Júri é uma instância observacional tão rica quanto qualquer pessoa, mas se diz acima de todas elas para julgar o ato como foi. Ora, não existe ato como foi! Além do mais, atos são atos e não podem ser negados. Tudo no cosmo se afirma. Crimes (que só recebem esse nome porque há sujeito – sem o ser, tudo são atos, apenas criminosos, apenas não-criminosos ou tão-somente atos puros, sem distinção, de qualquer forma) são atos. Irreversíveis. Apesar de existir o que se possa chamar de vingança, a vingança é um ato recomeçado. Não pode existir um centro de onde emana uma “punição”. Esta instância central está cometendo aí um crime, mas o homem não precisa se eximir de cometê-los e assistir o cometimento de ilegalidades de forma indireta. É uma prisão, uma revolta gerada pelo contrato e pelo conceito do Deus uno.

 

Para encerrar, um adágio em homenagem aos gregos, que acertaram, porque ao não pensar num contrato atingiram a imortalidade: “algo para ser eterno tem de acontecer só uma vez”. O universo é um anel, não uma cobra! Sua cauda é sua cabeça, sua origem é a mesma coisa que o seu desfecho. Este o enigma supremo do universo, porém eu não o descobri: enunciar uma verdade é perdê-la no instante em que ela sai das entranhas, para ser adotada de diferentes prismas, sempre em mutação, sempre em passos de dança. Agora a resposta “de onde veio tudo”: não acredito num deus que nos criou, em Kant, no contrato e na covardia. Eu acredito em uma economia invertida, em que o máximo esforço gera os menores resultados, e em que todos fazem o máximo de esforço. Há que haver riqueza. Quem possui mesmo a riqueza, riqueza de vida, tem o bastante para dar sem pedir nada em troca. Eu acredito que o universo jamais começou a começar e jamais cessará de terminar, embora ele comece e termine nalgum dia, para os que nele estão. Ele reverbera indefinidamente... Creio que a natureza seja traiçoeira e magnífica o suficiente para se ter engendrado isso: assim, jamais foi o “nada” e jamais rumará para um fim fixo, apenas se auto-afirmará perpetuamente... No anel, posso inverter o espaço-tempo, não existe antes e depois, e dizer que eu nasci porque neste momento de minha vida, aos 20 anos, decidi que devia nascer...



Escrito por wormsaiboty às 00:44
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Comprometo-me a não lançar mais nada, para além do texto acima, até novembro.



Escrito por wormsaiboty às 00:42
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Artigo dedicado a

colegas de discussão, em especial o Thomas

qualquer um que discorde dos métodos do professor Luiz Gusmão

os fãs de artigos bem-escritos

e, finalmente, às corajosas namoradas de quem primeiro ler (obviamente, homens)

 

POR QUE A PROSTITUIÇÃO JAMAIS ESTEVE TÃO PRESENTE APÓS A CRISE DA INSTITUIÇÃO DO CASAMENTO NO OCIDENTE HODIERNO (1)

 

Na página 8 de Filosofia do Amor, Georg Simmel nos brinda com a seguinte passagem: “(...) é fatal que um aumento de cultura acarrete uma necessidade maior de prostituição”, no que foi desqualificado peremptoriamente pelo cânone do magistério de Sociologia da UnB, Gusmão, em sala de aula repleta de alunos. O professor defende que a variável “flexibilidade da moral”, em 100 anos, tornou a afirmação obsoleta. Não é verdade. Ela jamais foi tão válida e referendada pelo quadro social. O “empirismo neo-platônico” gusmoniano falhou mais uma vez. Em sua decadência que recrudesce, o Ocidente continua sendo unidimensional neste aspecto. Jessé Souza, autor da Introdução a Simmel e a Modernidade me inspirou a contra-atacar minha cátedra, pois palpavelmente compartilha de meu ponto de vista.

 

Até que haja rupturas galopantes da moral (“bons costumes”) e da justiça (e respectivos “tribunais imparciais”) haverá crescimento de prostituição e elevação de crimes.

 

Há visivelmente um paralelo que elucida a compreensão da massificação da sujidade feminina, que é a correspondente explosão da criminalidade, sobretudo de crimes periféricos, como é o caso do roubo de um pote de margarina. Há crimes brandos e crimes graves; bem como há a prostituta clássica e a fêmea de hoje em dia (uma “mulher da vida em doses homeopáticas”).

 

Quando Simmel fala que homicídios eram tributados com módicas multas, subentende-se que “crimes não eram valorizados em uma sociedade arcaica”. Essa leitura ocidental despreocupada com a desconstrução de categorias é nefasta, erro crasso. Matar não era considerado crime, eis o sensato. Todo crime tribal é hediondo. Quem praticar o incesto ou cozinhar um animal-totem será castigado com a morte. O crime era sempre grave. Mas era episódico. Hoje um ato ilegal é coibido de maneira mais macia – o que não evita a pecha de marginal – e sua prática se alastrou bastante.

 

Hoje, aceita-se muitas “depravações leves”, contra o quadro anterior em que poucas eram depravadas porém estas eram notórias e suportavam a carga apenas entre elas. (2) Houve então uma “democratização” da vadiagem, o que está longe de simbolizar afrouxamento moral.

 

O tabu é tão vigoroso que na sala de aula é benquisto ao professor homem disfarçar suas opiniões sobre o assunto. A mulher negará até o último momento ou mesmo não compreende o panorama.

 

Quanto mais fervilha a economia especulativa, mais se enxergam essas vicissitudes. A questão dos relacionamentos sexuais precoces que serviriam para evitar que o mancebo recorresse a prostitutas antes do casamento é um incidente que não atrapalha a teoria – muito pelo contrário: com a instituição do matrimônio em crise irreversível, sobra má-fama para todas. Inexiste qualquer pureza de espírito na mulher contemporânea em sua infinidade de sub-moldes.

 

Antes, a fogueira como punição da desonra. Hoje, cochichos. Quanto mais dinheiro, maior a força da propriedade. Mais sórdido é o caráter da exclusão social – os status de marginal/trombadinha e mulher que se vende tornam-se insuportáveis. Acirra-se o contraste. E ao mesmo tempo é impossível para cada homem não ser ladrão de vez em quando ou para cada mulher não agir feito puta. Isso não sou eu quem inventou: está nas ruas. Nunca a palavra de quatro letras foi tão empregada. Na sociedade das prostitutas, a mãe daquela que esqueceu por segundos de ser pudica é fortemente coagida pelo verbo. A proliferação da categoria das fêmeas que rodam a bolsa as está tornando sinônimo do grupo social, mais abrangente, “mulher” – engolindo o gênero feminino tal qual buraco-negro. A castidade passou a ser encarada como mito. Houve a ampliação descomunal do conceito. O pote de margarina, banal, disseminado, me evoca a não menos freqüente menina-sabão. “Menina” que é de nítido caráter inocente, conjugado com o instrumento básico de limpeza nos lares e cuja função é escorregar, de mão em mão se for preciso. A limpeza vira sujeira quando se ensaboa os homens. Estranho crossover (3) ocidental pós-moderno...

 

Se nem todas chegam a tanto (ser uma “menina-sabão”), tem cara”, parece”, “está agindo como uma” ou é insinuante em algo, se veste de maneira que provoca. Algum pecado a moça tem! Obviamente, ele é produzida pelas relações de dinheiro. Certo é que o fenômeno não desapareceu, mas se fortaleceu. Quanto mais dinheiro, mais os valores da dignidade humana se degeneram.

 

(1)  Atual, que vige.

(2)  Minhas observações englobam até o mundo mais imediatamente pré-moderno, ou seja, de sociedades consideradas primitivas até o mundo feudal.

(3)  Híbrido – explicação mais detalhada em “MARX E NIETZSCHE: VEROSSIMILHANÇAS”, artigo do dia 3 de abril de 2008 –nota de rodapé II.



Escrito por wormsaiboty às 19:40
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A INDIFERENÇA VOTACIONAL E O PROBLEMA DA UNIVERSIDADE (PÚBLICA OU OUTRO MODELO QUALQUER)