A CALAMIDADE INVISÍVEL NO PILOTIS – uma etnografia de um condomínio típico de classe média
a) Transcrição:
ATA DA 59ª ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO CONDOMÍNIO DO BLOCO “J” DA SQN 308, REALIZADA NO DIA 20 de agosto de 2008
Aos 20 dias do mês de agosto de 2008, às vinte e trinta horas, em segunda e última chamada, no escritório do BLOCO ‘J’ da SQN 308, foi realizada a 59ª Assembléia Geral Extraordinária para deliberar sobre os seguintes assuntos: I- Leitura e aprovação da ata anterior; II- Deliberação sobre o requerimento do Morador do apartamento 607 (retirada das grades que bloqueiam a entrada da área de serviço, pelas escadas, e das fechaduras que bloqueiam a porta externa dos elevadores do 6º andar) e OBSERVÂNCIA DO ARTIGO 7º E 8º DA CONVENÇÃO DO CONDOMÍNIO E ARTIGOS 4º E 5º E SEUS INCISOS, DO REGIMENTO INTERNO DO CONDOMÍNIO; III- Assuntos Gerais. Compareceram à Assembléia os condôminos dos aptos 103, 104, 105, 106, 107, 108, 205, 206, 306, 503, 505, 603, 605, 607 e 608 que firmaram o livro de presença. Ao declarar aberta a Assembléia, o Sr. Ladário Teixeira Neto (apart. 605) se apresentou para presidir e convidou a mim, Severina Marques (apart. 103), para secretariar a referida assembléia. Iniciados os trabalhos, o Morador do apartamento 608 solicitou a palavra para questionar a necessidade da presente reunião, tendo em vista que o pleito de seu vizinho (Morador do apartamento 607) já havia sido atendido (retirada das grades) de forma consensual. O presidente salientou que o motivo para a realização da reunião não se restringia à retirada das grades, mas também em razão do respeito e do cumprimento das normas constantes da Convenção e do Regimento Interno do Condomínio que deveriam ser exortados naquela reunião, bem como pelo fato do Morador do apartamento 607 não haver manifestado o desinteresse pela reunião. Consultado o referido morador, este reiterou seu interesse pela assembléia. Dando continuidade à reunião o presidente da mesa perguntou se todos haviam lido a ata anterior, sendo dispensada a sua leitura no momento com a aprovação da mesma. Feita a leitura do edital de convocação pelo presidente da mesa, logo iniciou a discussão sobre a retirada das grades existentes no condomínio que obstruem o acesso da área de serviço pelas escadas. O Morador do apartamento 608 apresentou suas justificativas pela manutenção das grades até dias atrás. A Moradora do apartamento 105 solicitou a palavra para justificar a necessidade das grades em razão da segurança que estas lhes proporcionam. Apresentados os motivos legais (Lei nº 4.591/64 e Código Civil/2002) e normativos (Convenção do Condomínio) que proíbem a manutenção das mesmas, foi requerida, pelo Morador do apartamento 608, a votação nominal do pedido de retirada das grades, justificando que tal procedimento traria maior legitimidade à decisão. O presidente da assembléia consentiu ao pedido, esclarecendo que o resultado não mudaria a solução a ser tomada, uma vez que qualquer decisão contrária estaria infringindo a lei, bem como, para que se aprovasse tal medida (manutenção das grades) seriam necessários os votos de 2/3 dos moradores do bloco, pois importaria em modificação da Convenção. Iniciada a votação, os moradores dos apartamentos 105, 603, 604 e 608 manifestaram-se a favor da manutenção das grades e os moradores dos apartamentos 103, 104, 106, 107, 108, 205, 206, 306, 503, 404, 605 e 607 aprovaram a retirada imediata das grades. Com o resultado, a moradora do apartamento 105 solicitou prazo para retirada das grades para, primeiro, fixar uma grade em sua porta. A assembléia consentiu ao pedido fixando-lhe o prazo de 15 dias para tal procedimento. Dando continuidade à discussão do item 2 do edital – retirada de fechadura das portas dos elevadores do 6º andar, da prumada 07/08 –, a assembléia fixou idêntico prazo aos moradores daquela prumada para efetuar a retirada das mencionadas fechaduras, bem como de proceder aos reparos nas portas dos elevadores, fechando os buracos que por ventura ficarem no local. Em seguida passou-se à discussão do item III – Assuntos Gerais, em relação ao fato registrado pelo Morador do apartamento 607, comunicando a existência de sistema de circuito interno instalado pelo Morador do apartamento 608. O presidente fez lembrar que qualquer obra na área comum deve ser solicitada à Assembléia Geral de acordo com o artigo 7º da Convenção do Condomínio. O Morador do apartamento 608 afirmou que a colocação do sistema foi realizada com o consentimento do vizinho de porta. O presidente fez observar que, apesar de haver consentimento do vizinho de porta à época, tal consentimento não afasta a necessidade de autorização da assembléia para tal obra. Assim, não havendo tal autorização a assembléia fixou o prazo de 15 dias para a retirada do equipamento, dando por notificado o mencionado morador naquela assentada. O morador do apartamento 608 não aceitou ser notificado naquele momento, exigindo notificação por escrito. A assembléia, para evitar maiores celeumas, determinou que a notificação fosse efetuada por escrito pela Síndica, mantendo o prazo assinalado para retirada do equipamento, esclarecendo, desde já, ao Morador do apartamento 608, que o descumprimento da determinação importará em multa prevista na Convenção e Regimento Interno, bem como, se necessário, a adoção das medidas judiciais cabíveis e previstas na Convenção do Condomínio. Dando continuidade à assembléia, o presidente efetuou a leitura de correspondência entregue pelo Morador do apartamento 607, determinando que a mesma seja anexada ao livro de ocorrência para adoção de medidas administrativas que forem cabíveis, se necessário. Dada a palavra aos moradores presentes foi exortada por todos os presentes a necessidade de exercitarmos a relação da boa vizinhança, convivência e do respeito mútuo. Suscitado o problema dos espaços utilizados para estacionamento das motos na garagem foi, por unanimidade, aprovado que a discussão seja remetida para assembléia ordinária, na qual será apontado, após estudos pela Administração do Condomínio, Conselho Fiscal e Comissão de Obras, se há ou não espaço físico para estacionamento exclusivo de motos, bem como a manutenção ou não da locação e uso dos espaços destinados à área de movimentação do corpo de bombeiros. Estendida a palavra aos moradores, foram relatadas queixas quanto à manutenção da limpeza do prédio, sendo querida à Síndica que providenciasse, junto aos empregados do Condomínio, maior zelo em relação à limpeza dos jardins, garagem e demais dependências internas do prédio; foi questionado o alcance do sistema do circuito interno que cuida do estacionamento externo do prédio, pois não filmou toda a ação dos marginais que realizaram o furto de bens existentes no interior do veículo de morador do prédio, estacionado ao longo do meio-fio da calçada, ao que foi aprovada a realização de estudo e levantamento das necessidades para atualização e ampliação do sistema de segurança do condomínio para cobrir as áreas “cegas” do estacionamento externo do prédio; questionou-se a necessidade de reavaliar a manutenção do sistema atual de contratação direta de pessoal para limpeza e segurança ou substituição do pessoal existente por empresa especializada em conservação, limpeza e segurança de condomínio, ao que foi determinado que a Síndica realizasse uma tomada de preço, devendo apresentá-la na próxima assembléia; a Moradora do apartamento 505 apontou problemas com os ninhos de morcegos na estrutura do prédio, em particular na altura de sua janela, na junta de dilatação, ao que foi determinado que a Síndica realizasse tomada de preço para obra de fechamento das frestas em que se acomodam os morcegos; foi comunicado ainda que há moradores jogando comida pela janela, com o intuito de alimentar pombos, mas que tem atraído ratos aos jardins do prédio, ao que foi determinado que a Síndica efetuasse o fechamento dos buracos utilizados pelos ratos como ninho e que tomasse outras medidas necessárias para eliminação desses roedores. Nada mais havendo a tratar, o Sr. Presidente deu por encerrada a reunião, agradecendo a presença de todos e solicitou que eu Severina Marques – Síndica lavrasse a presente ata que vai assinada por mim e pelo Presidente.
b) Comentários:
Que peça de direito espúria! (E qual não o é?) O que é isso? “Morador”? Letra maiúscula e obtusa falsificação de um nome próprio! OBSERVÂNCIA DO (...), caps lock para promover o policiamento, mania de tiranizar as pessoas. Como se estivesse inscrito no código genético deles (e bastasse lembrar!), e como se houvesse educação e ar polido na frase, havendo, na verdade, porque se é impessoal, e sendo impessoal não há confrontos! Teme-se o confronto direto! Mas o pedido de se observar essa ou aquela lei é certo. Pedido ou ordem, só que suavizada em papel, embora não se o deixe esquecer, pela letra de fôrma. São todos recursos que nos deixam pasmos: a burocracia se estende a cada diminuta e reles guarita condominial de quase-ricos! Transpira a colonização portuguesa. Nada mudou...
Eu nem sabia que podem, de repente, deliberar meu destino em reuniões nas quais só comparecem cinqüentões! E não há, tampouco, o interesse desses senhores de que jovens se imiscuam em seus negócios, como lamentamos e tememos o fato de que no futuro poderemos ser nós, a perder horas preciosas com uma desfaçatez de mundo antigo, de democracia grega, da qual na realidade não sobrou pedra sobre pedra – lidamos com obtusos!
15 apartamentos em 48: belo público! Assim se discute o bem comum! Mas o mais cômico é que há apenas dois nomes, duas pessoas, em toda essa peça, essa tergiversação legalista que apenas discorre sobre o engessamento de vidas em cubículos ao invés de mostrar qualquer sinal de que algo se movimenta e que nesse movimento não há decadente. Dá até para pensar que o documento foi parido por um escrivão-chocadeira, um ente mecânico qualquer. Em tempo: sou do 507 e meus pais preferiram passear do que ir à reunião. Às quartas-feiras, ademais, muitas famílias estão comendo pizza e vendo seus jogos de futebol.
O “espírito cívico” destes nobres cidadãos é tão elevado que a figura mais interessada (homem, mulher? Em que quantidade?), o apartamento 608, quis que não houvesse reunião. Tinha mais o que fazer. E é aí que entramos:
Problema 1: Grades dentro de outras grades (subjetivas e objetivas!) – Mora-se no cerne de várias “fortalezas”, prédios insossos uniformizados por Niemeyer, quadradões. É-se seguro. A falta de segurança propalada é decorrente apenas do contraste, já que dentro de mil celas ninguém aparece e, se um pedinte o aborda na rua, vai aparentar uma infração gravíssima. Perda de noção da realidade. Mora-se no último andar de um apartamento já num setor mórbido da entre-quadra, sem muito barulho ou acontecimentos. Adicione a isso o fato de enfrentar-se o ciclo medonho casa-trabalho-mercado-casa, sem cessar, estacionando a caminhonete na garagem e desconhecendo mesmo a sombra de uma árvore. Ar-condicionado é com o que uma pessoa assim mais está à vontade! E ainda se enjaula ACIMA da lei. O que é um feito notável: vide que a lei praticamente nos obriga ao confinamento, e as pessoas providenciam, sabe-se lá como, exceções para que consigam um meta-confinamento, uma supra-prisão! Passam por cima de qualquer direito de qualquer outro em meio a isso, como se vê (instalação arbitrária das GRADES). E, cá entre nós, a grade ali evitaria uma obediência irrestrita a um “marginal” caso este estivesse armado? Logo mais veremos a “natureza de cagão” desse tipo de pessoa (o morador, não o ladrão!), no tópico 6. Espessura do ferro considerável, porém muitas brechas entre suas várias linhas horizontais e verticais... Uma bala passa! O principal: se era medida ilegal, porque ocupou metade do tempo (ao que parece) das “deliberações” (palavreado chique)? E por que ainda houve votação, se só um punhado de carolas vociferava pelo direito de as ter em suas residências? – lembrando-se do paradoxo... Estes que latem em nome da Constituição e de sua liberdade positiva, negativa ou lá o que seja (sempre em prol do próprio pecúlio e que se dane a pimenta nas vistas terceiras!) são os primeiros a infringir os dispositivos legais. Típico do amesquinhamento do homem, da sua mediocrização. Instinto de rebanho, síndrome de pessoas. Não vive o perigo. Não vive. E o que é o perigo? Ser roubado? Ganha-se o suficiente para repor qualquer objeto furtado. Segurança dos filhos? Estes já estão empiricamente mortos, uma vez que seguem os passos dos pais em anular a própria existência com planos idiotas e contrários à própria satisfação do organismo, a – afinal! – unidade da vida! Vontade de ser prisioneiro, vontade de existir em vão! Última observação: a Moradora do 105 (letra maiúscula: os seres-bingo!) fez bem: encolheu a PRÓPRIA prisão – assim fico eu mais livre de qualquer contágio das ovelhas...
Problema 2: Aliás é sobre a nomenclatura “marginal” que me concentro agora! Marginal: trata-se tão-somente do não-idiota. O sujeito que vive a vida. Blinda-se-o de qualquer verossimilhança com estas pessoas que freqüentam a reunião, mas eu diria que – havendo separação abismal entre elas – a defasagem seria vantajosa para o “criminoso”: todo praticabte de infrações é digno de dizer-se “homem fibroso”. E mais: todos são imorais embora não o confessem! Preferem o véu da moralidade. Digam-me o que pensam fazer de mim ao ler minha análise? Pensamentos são ações!
Problema 3: O estranhamento do convívio com animais! O que é o morcego senão um primo nosso, um companheiro na aventura pela noite enigmática! Volto a considerar a esquizofrenia a ruína da alquebrada civilização ocidental-tupiniquim.
Problema 4: Ao invés de “exercitarmos a relação da boa vizinhança, convivência e do respeito mútuo“, assim, via decreto, dissimuladamente, espirituais condôminos, que tal explodir a garagem? O “carro-alcoolismo” de vocês é a fonte de 98% dos males não-obstáveis da ata da reunião enquanto não se atacar a discórdia pela raiz – soluções superficiais, paliativos, barrigadas? Parece-me a relação capitalismo-meio-ambiente! Reitero que não existirá espírito solidário entre mandatários de clubes do bolinha ou do condomínio enquanto seres humanos, quando não estiverem em casa, no trabalho ou no super-mercado 24h mais próximo (onde o segurança espanca os “marginais”!) se encontrarem dentro de um automóvel, surdos ao mundo, envoltos por vidros “fumê”... Cegos não são alguns pontos do circuito de câmeras, mas vocês!
Problema 5: “Bem como”, “por ventura”... Jargões do direito que, imensamente repetidos, não passam de analfabetismo e pobreza. Ah, Machado, veja a perversão do seu realismo!
(continua abaixo)
Escrito por wormsaiboty às 18:26
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Problema 6: O mais humilhante, embora não para mim: o apartamento 608, nitidamente o maior criador de caso dessa instância administrativa chamada “vizinhança da minha casa”, digo, seus MEMBROS, gostam de se verem cagando em terceira pessoa. Deve ser tudo que sua miríade de câmeras P&B consegue proporcionar. Notemos que eles pretendiam manter grade-e-filmadoras! Indubitavelmente não corro riscos ao publicar isto na Internet: seu alheamento à REALIDADE está em tão recrudescido grau que cogito se já não compraram passagens para o reino do nada ou se não procuraram, de repente, imitar Kant, trancando-se num bunker repleto de comida, livros e filmezinhos... A vida é preciosa, e até plantas têm ciência disso! Paquidermes!!
Problema 7: Quando o desemprego não afeta as peles dos “bem-resguardados” (agora um pouco menos, não é verdade!??!) não é sequer citado como problema. A demissão ou não do atual corpo de porteiros depende de uma mera convenção sobre tabelas de preços ou contentamento ou descontentamento com o regamento das flores! A vida desse pessoal que labuta, vindo cedo da rodoviária, é uma problemática terciária. Talvez lembrem deles quando o lixo orgânico passou um dia sem ser recolhido – e aqui se recolhe o lixo, coisa que outros moradores em outros pilotis precisam fazer por conta própria, até as lixeiras do centro da quadra! Aliás, seria saudável, já que os senhores só usam as pernas para acelerar e frear naquelas máquinas imundas...
Nossa vida cotidiana brasiliense está rachada. Requer-se a imediata ruína de tudo ou, ao menos, a mais branda passagem de bastão – gente velha será tão surda a mim quanto o é nos sinais (e seus filhos já aprenderam muito bem que gente em farrapos é lixo ambulante). Porém, nós, os reflexos do mimo intenso e irrestrito, não disporemos de dinheiro que nos permita manter essa existência luxuosa. Quantos advogadinhos sem-emprego terão que se mudar para a Candangolândia! Finalmente respirarão oxigênio! Brindo-vos, senhores! Vamos todos juntos, viver a vida intensamente...
Escrito por wormsaiboty às 18:25
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TRANSCENDER-5
VONTADE DE POTÊNCIA
VOLUME II – Um complemento de leitura, como com Latour!
Justiça seja feita ao maior livro de todos os tempos: não havia sido lido nem comentado à altura há 5 meses
(observações de 18/08 a 29/08/08)
CAPÍTULOS QUE ANTECEDEM A OBRA, NA OBRA
Após, ou no meio de, uma cronologia do indivíduo Nietzsche, um verdadeiro tratado sobre a Ciência e seus (des)caminhos, da Grécia Antiga e do Império Romano até aça. Uma vista cuidada sobre os limites de Freud, a narrativa do relativismo do século XX decorrente da obra do filósofo.
Agora me lembro de uma “besteirinha”: na recepção do curso de Sociologia na UnB trata-se com visível enfado mal-disfarçado por um misto de comiseração e descontração a declaração abundante do calouro, já desfeita no ceticismo veterano, “Quero mudar o mundo”. Idiotas!
P. 43 – parágrafo exuberante!
Continuação rodapé 51 (sobre absorvê-lo acriticamente):
(...) é aí que não o faço, pois ele quer que eu não adira de corpo e alma! Como se ele fosse o único que pudesse chegar aonde chegou e eu não encerrasse minha própria individualidade. Ele não é um santo meu. Tenho meus hábitos só meus, e uma teimosia que certamente se estende ao “ler Nietzsche”. Uma teimosia que pode muito bem anular estas linhas. O que gosto em mim é que vejo que o tempo passa: em dois anos me revoluciono, vivo a contingência! Por fim e ingenuamente, é como se ele tivesse nascido para mim.
Exemplos banais de que sou surdo a ele quando convém: posso ter filhos, torço por um clube de futebol a ponto do fanatismo boçal, ouço uma música que ele chamaria de lixo, detesto viajar... E o dado mais relevante: certamente eu abomino o convívio com as personalidades mais parecidas comigo e com ele!
Nietzsche recomenda que eu o leia em ritmo de mastigação
Culpar um homem pelos próprios dissabores e fracassos é bem típico do povaréu alemão!
AURORA – p. 65 – A descrição da sociedade dos fortes!
70/71 – MONOGRAFIA
76 – A excelência. Não estou sozinho.
VIVA A MEGALOMANIA! Que pena, xará! Mas devemos aceitar que viemos antes da História!
77/78...
Choro, mas afirmo a vida acima de tudo. Sou o contingente da predeterminação, o predeterminado, necessário, inevitável, das aleatoriedades. Megalomaníaco, se quiser. Os últimos fatos me vieram relatar que todo personagem, todo grande personagem histórico, se repete uma vez. Eu sou outro preâmbulo do novo-homem, desta vez na encruzilhada de outros dois séculos. Talvez farsesco ou para sempre anônimo. Mas isso não tira os meus méritos...
Dizer que eu não sou só eu muito me fortalece! Eu sou um universo, uma vontade própria que varre e que ensurdece, que rompe e atesta vigor num espaço grande e indispensável, comparado com seja lá o quê. Nisso está o plausível amor à rivalidade! Luta e vitória! Derrotas, se quero vitórias, viva! P.S.: não tenho base (ainda), mas penso que Bauman é um pobre coitado – e míope.
ADENDO – apostila cujo autor ignoro provinda do CASO: A busca incessante pela verdade ou a crítica suprema do Valor Verdade e o que este implica e assume para o pensamento ocidental.
Compara-nos a uma mosca: ela também se sente o eixo central do universo e crê que a verdade está sob sua jurisdição. A verdade é uma moeda sem rosto! (sobre a verdade e a mentira em um sentido “extra-moral”, texto de 1873)
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INÍCIO FÁTICO
89/90 – O inesquecível esboço
P. 65 e arredores – Sobre o caráter anti-clássico e invariavelmente decadente da Música. Wagner <-> Carl Orff, conversas com Igor e Bianca. E, um pouco antes, todo o arsenal contra Wagner. O riso torna-se simplesmente fácil!
Ver-se como decadente já é um sinal de força, de que se chega a uma totalidade e que se vai transmutar.
Pp. 142-3: ótima síntese da lógica anti-vida cristã.
P. 145 – Nota de rodapé que justifica a interpretação de que Nietzsche é o homem que tentou salvar o Cristianismo.
P. 149 – Genealogia do amor no Ocidente: os judeus!
Afirma-se VONTADE DE POTÊNCIA como um compêndio de duas metades polares: a primeira pessimista-denuncista, a segunda otimista-construtiva. Destruição – após exposição de motivos – do mundo moribundo e erigimento da “terra da vida, eternamente retornável” em seguida.
Pp. 155-156 e arredores – o papel do Estado na sedimentação do fracasso do ideal cristão (fracasso no sentido humano: Estado e Igreja felizes de mãos juntas como símbolo da decadência do forte homem helênico).
O Cristianismo primitivo era uma coisa boa. O apóstolo/santo Paulo e Novo Testamento são os verdadeiros vilões morais: inverteram as prerrogativas de Jesus. Os germanos, etnia recente, se tornaram paulinos.
Pp. 161-162... Um bom humor contagiante no momento crítico de descrever nossa própria ruína como civilização!
P. 165 – o histórico da luta de classes a la Nietzsche, em detrimento de Marx.
A HISTÓRIA CONDENSADA DO OCIDENTE ATÉ DEPOIS DE HOJE
Esclarecimento no rodapé da mesma página: falar em democracia, por volta de 1890, era se referir basicamente ao socialismo, a forma extrema (e cristã) da justiça social, a transferência de foco de Jesus, de Paulo, de Lutero ou do papa para a Política, o Estado. Próprio da décadence européia. Instinto de rebanho puro. A sociedade sadia é a que se estrutura em castas. Porém analisemos nosso paradigma liberal-democrático em princípios do século XX: continua insuficiente, porque força e vigor não são os requisitos para se galgar a pirâmide social. Quão mais alto na escala, menos os valores da vida são respeitados. Imperam, ainda, a máscara, a comiseração, a predileção pelo sonho. Mas finalmente é uma maturidade niilista mais intensa: o nivelamento total já foi descartado. Elementos como eu proliferam nas cidades – estes covis da debilidade, onde não se sabe o que é lei natural, homem ou vontade de potência. A esquizofrenia de uma sociedade que se olha para si entendendo a própria fragmentariedade de modo passivo é um dos últimos estágios na demanda pela transvaloração. Se a história de todas as histórias é o enredo dos imemoriais escravos buscando a redenção, a superação dos inimigos, tempo mítico chegou em que a torpeza da moral burguesa sofrerá o golpe letal.
Escrito por wormsaiboty às 15:43
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DESCENDÊNCIA E ATESTADO DE LOUCURA
Reflexão solta – é meu pai como o pai de Nietzsche? Ligado a tempos tradicionais e a mim oposto, se bem que afável? É preciso crer que sou um Messias. E os Messias provêm de lugares inauditos – do seio tipicamente decadente-burguês. O holocausto desta civilização é justamente o germe da próxima – e que transvaloração seria exeqüível sem um tanto de megalomania? Assumo-me um louco: somente alguém com essa tipificação clínica na sociedade atual poderia se propor a superá-la: não porque esta seja insuperável, apenas que é preciso ser louco pelos parâmetros desta falsa ciência que está aí para se aperceber da vida! Causa-me tédio ver como os marxistas (e muitos outros, mas escolhi um termo bem próprio ao alienismo!) rechaçariam minha dialética trágica com um boletim burguês (meu exame de sanidade mental) ao mesmo tempo que me ofereceriam um assento em sua sociedade de iguais!
Quando se fala que Deus morreu e o Muro de Berlim caiu, eis uma dupla morte de totens dos inferiores. Mas nossa sociedade não é menos opressiva que a soviética: apenas que somos regidos de maneira descentralizada, de alto engodo.
Lembram que o Blog nasceu há três anos tentando responder à pergunta “QUAL É O MELHOR SISTEMA POLÍTICO-ECONÔMICO?”. Finalmente estou pronto para uma resposta adequada: é a AURORA de Nietzsche, uma sociedade de castas em que a Chandala sejam os sacerdotes, e em que o zênite seja composto dos imoralistas.
Blanquis e Le Bon – quem são esses fortuitos “asseclas contemporâneos” do Eterno Retorno?
P. 206 – sublinhado sobre a grande questão que me aflige há ano e pouco. Jamais poderei esquecer minha pretensão cristã de culpar a totalidade, diante do quê Marco Antônio, professor de Semiótica (um grito de desespero do homem afogado, esta “ciência”), retorque: “E então... Doravante é necessária ainda mais responsabilidade...” ou então: “Muito bem! Agora aumenta sua responsabilidade”. Aí está: a “gênese do mal” não existe, como não existe o mal. O Devir é inocente. Meus pais são inocentes e eu por minha vez sou (Frederico é um demente). Não existe uma causa; mas se posso crer que é um prêmio... Uma auto-celebração do Devir, e minha, que vêm e aparece tão-somente para dizer em uníssono – porque eu sou ele, e ele sou eu, somos o que passa e esse é um momento célere, de auge, de cume, de festa (eu cunhei o nome e o conceito, para dizer que os cunhei) – QUÃO BELA É A VIDA!
P. 207 – maltrata a Sociologia como ela merece, rainha da décadence que é!
P. 217 – Nietzsche no domínio dos anticoncepcionais!
Na mesma página, mas em outro subtítulo, o alemão enceta sua viagem pelo mundo grego arcaico. Lembremos que inexistia a pérfida noção de bem e mal, ao menos como oposições.
Referência: “Circe de ...”
Deusa da Morte, do encantamento, da hipnose
Geralmente entendido como “calcanhar-de-aquiles” aqui
A LÓGICA CARTESIANA, EINSTEIN, HAWKING, PLATÃO – O porquê da incondicionalidade do devir e da impossibilidade da verdade
Pp. 233-238: aula – como se refuta a intensa “fé na verdade” de Descartes. Lembrar-se que a humanidade que cresce e afirma uma verdade a dado ponto não é mais que, analogicamente, uma criança que adquire a potência suficiente para sistematizar seus julgamentos. Isso não é dizer que ela atingiu qualquer julgamento absoluto, e o mesmo para a humanidade! Tudo remete a categorias de simplificação da realidade! Lembrar-se de que assim como a criança que se torna um jovem que reflete e que não pode por isso relatar, por mais experiências que faça, a história do universo até antes de si é o mesmo caso da espécie humana subitamente em posição reflexiva diante do universo no qual se encontra desde um momento sobre o qual jamais obtém qualquer certeza. Seria petulância, outrossim, depositar em René toda a chance de “ter-se descoberto” o absoluto. O absoluto é simplesmente a idéia, a negação do mundo real em prol de um suposto mundo-verdade. É interessante rememorar, inclusive, que a própria idéia sempre precisa do devir para se cristalizar. A cristalização, a tipificação em torno de duas ou mais dimensões, de algo que faça sentido, que seja mais que nada, inevitavelmente se escora no espaço e no tempo, espaço-tempo, uma coisa só, não se altera um sem alterar o outro. Implica, afinal, na confirmação do devir e na ausência de coisas-em-si e do ser – e também do nada. Cientistas ainda hoje têm dificuldade de digestão no assunto: referem-se ao Big Bang como “singularidade, fuga das leis da Física”, seja esta, aliás, a Clássica ou a quântica. Basta a apreciação de um filme, no entanto, para compreender (tela, superfície bidimensional; relógio, passagem das cenas). Mas mesmo um pônei rosa estático ou a idéia de uma criatura todo-poderosa só podem ser expressos no devir. Estranho é um absoluto dependente!
O homem só pode ser a medida do homem – jamais de outros valores. A mosca também se crê, como já mencionado, o eixo central do universo. Há que se pensar que nossa vida sendo eterna na temporalidade é o suficiente – chega de idealizar – materializemos! Quem idealiza é sempre insuficiente. Ademais, esse espaço de vida que temos é bastante para bastante criações. Ainda que normalmente o Eterno Retorno não seja apreendido antes dos 20 anos, restam muitos para se sentir imortal E o supremo consolo: quantos homens não morreram crendo no mundo-verdade? Não pode ser eterno aquele que não se cria eterno! Tenho mais de quarenta anos de criações pela frente!
Nietzsche foi o mais fenomenal definidor do mundo! Dissolveu-o e fundou outro no lugar.
“Não existe contraste: é pela lógica que temos a idéia de contraste e de lá transportamo-la falsamente às coisas” p. 244
Não há a oposição entre um tempo perene, o dos ciclos, e o tempo uno, que vivo agora, linear e incorrigível: é um só, se bem que um, dois, oito ou infinitos... isto também é convenção.
P. 245 – O verbete VERDADE em Nietzsche. E, mais abaixo, sínteses precisas de todas as principais lições do livro.
O erro humano: tem uma visão panorâmica do que já passou e uma visão estreita e particularista de si. Os dinossauros se julgavam o “fim”, o equilíbrio da natureza (desaceleração da percepção evolutiva)! Daí a analogia no meu longínquo seminário a respeito da humanidade de um minuto em um dia de cosmo. A propósito, até o que disse da inversão de Schopenhauer estava certo. Pergunto-me se Cláudia Maria Busato já leu Vontade de Potência.
Se o autor tem repulsa por tudo que é cristão, e o mundo hoje é quase todo cristão, ele encerra em si muito de niilista passivo, vontade do nada. É necessário ir além e empregar uma de suas ferramentas: implodir os dualismos. Exemplo: paganismo/cristianismo. Se quisermos ser animais nosso totem é um borrão entre deus e nosso sentido da visão. O que deve existir é a aprovação de que se pense e de que se tenha idéias – cristalizações –, contanto que cientes do devir (sirvam ao devir).
Nietzsche é platônico num senso: pode-se considerar sua Filosofia a elaboração de um mundo-verdade. Sucede-se que esse mundo-verdade é precisamente o espelho deste mundo!
(em outro resumo – compreendo que a Câmera latouriana dos objetos seja o retorno à natureza, o anti-socialismo em grandessíssimo grau.)
O que não bate em F. N.: sua descrição da emergência de uma nova raça, de potência crescente, mais elevada, e a simultânea afirmação de que “não devemos nos querer melhor”.
Pp. 258-262 – A mecânica do devir. Seu livro é o trotado do mundo fluido. É uma cristalização impossível do devir! São águas. É eterno e verdadeiro. Demole todas as concepções, até as próprias. É um apanhado de tudo o que a Filosofia já discutiu.
Pp. 264-265: sublinhado que atravessa as páginas. Chamo de “Paradoxo de Majin Boo” essa aquisição suprema de potência, o ter o inimigo e com quem lutar, não ser toda a potência. FISIOLOGIA PERFEITA.
Minha principal preocupação: como professor e esbanjando superioridade, como deveria alimentar minha vontade de potência? Fora de sala? Instigando o rebanho? A quê? “Neguem-me, é o que peço”? Um grito de desesperado? Inimizades nas salas dos professores (ideológicas)... Não sei não, acho que vou acabar debaixo da ponte... Eu devo ser meu rival! Até o fim...
P. 278: Dostoievski e o crime em Zaratustra. A máquina punitiva do Estado (imoral).
P. 279 – Corrobora minha auto-formulada tese! “À espera de uma oportunidade”, de uma brecha que seja, para cometer o crime. Ser grande reside quase que exclusivamente na infração a normas. Até o rebanho o sabe.
Um terrível (apenas grande, mas que confunde os estultos) PARADOXO: ao negar o átomo, a coisa-em-si, o próprio sujeito, Nietzsche é o próprio retorno à natureza, portanto REAL. Latour e seu esquema de “abertura incomensurável da esquizofrenia e perda de noção entre sujeito e objeto” não me sai da cabeça. Os existencialistas absolutamente não entenderam o recado!
P. 290 – chegamos ao belo. Domínios da minha MONOGRAFIA.
Listar:
Grifo baixo p.291 (357)
P. 292 – “mulherzinhas histéricas!!!”
P. 294 – quarto, em chave. IPSIS LITERIS!
P. 295, rabeira – 363 – “o grande erro de ARISTÓTELES”
(ver também destaques no http://groups.yahoo.com/group/sesshou/files/, pasta de Ciências Sociais)
DIVINA COMÉDIA, de Dante Alighieri: a maior das tragédias. Rumamos à idade trágica.
Pp. 310-11: Nietzsche e o dinheiro.
Bendigo-me!
Escrito por wormsaiboty às 15:40
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TRANSCENDER-4
(inicialmente) 4 NOTAS ACERCA DE “ANTIGO REGIME E REVOLUÇÃO”, OBRA CLÁSSICA DE TOCQUEVILLE
1) Por que o desejo de igualdade francês é algo que enfraquece seu povo
P. 47 – Tocqueville é um aristocrata nacionalista defensor até as últimas conseqüências do direito à liberdade; no que não vejo contradição: sucede-se que a França é um país tradicionalmente déspota cujo segredo de conservação é o apelo à igualdade que obscurece o homem como um todo, justamente porque apaga as individualidades, esquecendo-se de que o livre-arbítrio é o principal requisito para o êxito de uma nação. O autor é um nobre orgulhoso que enxerga na capacidade de auto-crítica da classe a chave para o enriquecimento de um povo digno – o despotismo é apenas uma forma dos aristocratas enfraquecerem-se a si mesmos, porque súditos engessados implicam em majestades catastróficas. A raiz da redenção está no reconhecimento dos sangue-azul de que seu tempo já passou, e que não compreendê-lo ou respeitá-lo aceleraria a própria derrocada. Uma sociedade com mais liberdade é, sim, a mais igual; mas a liberdade (genuína) deve vir antes; antes da liberdade forçosa, por decreto. Ter mais ou menos posses não vai tornar alguém melhor ou uma alma mais próxima da salvação que outra. Desde que se compreenda que igualdade significa manutenção de individualidades, o povo está mais bem-servido.
2) A complexa índole do autor
Para compreender a intrincada personalidade de Tocq. deve-se ter em mente o seguinte comentário do professor: “Ele é um liberal político”. A última palavra permite a coexistência entre seu ódio pelo capital e sua posição de aristocrata moralista). Em Tocq. há uma repugnância estética pelo mundo burguês. Sem embargo, como visto, ele não pode ser marxista se tem extrema aversão à igualdade como pilar social (sempre pensar no dualismo franco-inglês, e na situação alemã, inclusive).
3) Analogia do tapete
Por todo o livro transpira-se o estágio contraditório que vivia a civilização francesa: na superfície feudal, era desde a época pré-revolucionária um Estado moderno sob o tapete. A revolução não CRIOU a sujeira que arruinou os móveis do Ancien Régime, ela foi apenas a puxada do imundo tapete.
4) A essência da obra
Hoje se diz que somos dois Brasis: a França era no século XVIII duas Franças. A coexistência de uma nação sumamente medieval com um Estado que atendia a avanços e reivindicações sociais de longo tempo (talvez, juntos, num território só, o país mais “atrasado” e o mais “adiantado” da Europa) foi a dinamite da Revolução. O Reino Unido era mais homogeneamente avançado; a Alemanha era mais homogeneamente atrasada; então não transcorreram choques culturais parecidos nestes dois países.
DECISÃO DE ‘ESTICAR AS ANOTAÇÕES’:
Um razoável complemento às notações do XVIII Brumário
Tocqueville – O Antigo Regime & A Revolução
Alexis de Tocqueville teria aberto uma seara: a da análise totalizante, sem a qual Weber não poderia formular seu tipo ideal. Diz-se neste prólogo que o francês estava na encruzilhada entre o fenômeno e as estruturas (conjeturas), um “sociólogo da História” ou “historiador sociologizado”.
Não é inteligente reduzir a complexidade do mundo em fórmulas. Ele – e a condição humana – deve ser aceito em sua integralidade.
Exalte-se sempre que possível seus dons proféticos. É uma capacidade sociológica, e não mediúnica, de “captar tendências”.
A Revolução Francesa é sintoma do apodrecimento da Política. É quando as sociedades européias começam a conviver com o fantasma weberiano da burocracia.
Mais do que isso, a Revolução Francesa não representa qualquer ruptura com o passado, mas sua continuação natural e previsível. Esse é o tópico-frasal da obra.
Daí a ulterior constatação ocidental de que toda revolução é um mito [mais sobre isso, extensamente, abaixo]. Qualquer transmutação poderosa, ainda que pós-falência de uma moral, é vagarosa. Está em curso. Mas não se exprime por revolução. A revolução é o que ela não é: massas participando do movimento e conseqüências atomizadas; uma transmutação autêntica de valores é cotidiana e individual, porém suas conseqüências são gerais.
Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade muito se desgastaram. Converteram-se no contrário, na análise histórica do período: as três pretensões ideológicas francesas e a profusão da bandeira alvi-ciano-rubra são símbolos tirânicos, convencionalmente, tais quais Lênin e Stalin e suas reverberações de sangrias em outra Revolução conhecida. Enquanto isso – pese em que a democracia seja imperfeita –, nações como EUA e Reino Unido efetuaram transições igualitárias mais aceitáveis.
Tocqueville é um nostálgico do mundo grego de cidades-Estados e do paradigma da participação direta.
O ódio revolucionário à Igreja advém de seu intenso poder secular – Deus pouco tem a ver com a questão.
Se a Revolução é apenas a confirmação de uma tendência, só falta ao volume literário uma justificação das mudanças que lhe foram anteriores – a caminhada humana para o ódio à vida, a plutocracia (e em um tempo consideravelmente curto, embora não em uma noite).
Languedoc era uma província relativamente autônoma (talvez a única, faticamente, já na véspera do golpe), próspera e de orçamento gigantesco. Era um empecilho à tendência burocrata de centralização do Estado. Havia mobilidade social no Languedoc. Podia acontecer de um nobre pagar impostos e um plebeu pequeno proprietário estar isento deles – algo inimaginável para quem ainda pensa na Rev. Francesa como o “ato zero da justiça social”. Portanto, quando a insurgência “chegou” a Languedoc não houve nenhum escândalo: os efeitos pretendidos pela Constituição moderna já haviam comparecido antes da causa (a indignação dos literatos tomando forma brutalmente em Paris). Eis a transição reformista em uma sociedade madura (ao contrário do clima de histeria no restante da França).
Escrito por wormsaiboty às 22:48
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Uma última evidenciação aos incautos da revolução como efeito derradeiro de um longo processus, e não uma causa súbita: por que o povo se insurgiria, os camponeses lutariam em aliança, se não houvesse qualquer identidade pré-figurada entre eles? Obviamente, porque a construção dessa identidade, mesmo no povo mais “atrasado” (ligado a sua terra), se deu antes da revolta comum (produzindo-a), mediante o despotismo que consolidou classes e fronteiras francas no curso de gerações. Outro argumento a favor de Tocqueville: em documentos de 1789, os nobres pedem a destruição da prisão ilegal da Bastilha, tida como o grande símbolo da aristocracia francesa! O que se combateu, afinal? Na noite da degola, o Rei ainda dormira crendo ser as elites sangue-azul seus principais inimigos. Tocqueville é melhor do que eu para sintetizar a idéia de estupefação do leigo que tem acesso a esse estado invertido da História: “Para fazer a Revolução, só faltou a estes nobres serem plebeus” (p. 197). E o que se vê na Revolução não passa da reunião de todos os crimes hediondos que ela pretendia combater. A agricultura e sua difundida ineficácia foi a vítima não-humana mais vistosa de tempos em que o essencial era descuidado e os homens pareciam orbitar em torno das próprias sombras (já dizia a metáfora marxista de Schlemiel).
A crescente dependência do Estado – o estranho ocultamento da opressão (o governo centralizado é apenas a sede da resolução de todos os problemas).
Burguês e aristocrata: se não podiam entrar em acordo na terra de Joana D’arc, eram farinha do mesmo saco de interesses individualistas e barganhas. Isso tornava mais aguda e inaceitável a diferença do sangue, última barreira para os novos-ricos que já dispunham do mesmo capital e da mesma interlocução cultural.
Distinção particularmente tocquevilleana:
Aristocracia – camada esclarecida de ex-nobres que entram em acordo com a burguesia em ascensão e são capazes de manter suas posições sociais relativamente intactas e o país estável. É o caso inglês.
Casta – divisão incomensurável, estamental, irreconciliável, entre nobres decadentes e burgueses (situação francesa), o que transforma cada corpo em uma ilha e prepara uma revolução como efeito colateral compreensível, à primeira agitação que permita uma aglutinação de descontentes.
Curioso, a respeito disso, notar a inversão de Tocqueville em relação ao senso histórico comum: a Idade Média franca foi um período de conciliação classista e de mobilidade; com o fortalecimento do aparato estatal há uma decuplicação na distância entre os interesses, ou antes uma anulação do diálogo que permitia aos dois grupos entenderem reciprocamente que desejavam o mesmo. Vê-se, assim, uma era feudal-liberal sucedida por uma era moderna aos moldes indianos (com o agravante chamado Estado, um buraco-negro que suga todas as atribuições antes regionais a si, com sua fome de receita). De fato, posteriormente na narrativa ele defende os ideais revolucionários como produto do espírito feudal-humanista desperto. Um suserano jamais o é sem seus vassalos. E enquanto o senhor enxerga o servo como pessoa, o Estado só enxerga uma massa disforme. Eis o autêntico sentido da servidão. Tudo tem a ver com a transição de uma dominação carismático-tradicional para a impessoalidade, a racionalidade, a legalidade (ilegalidade, se se leva em conta a vida, o fator humano!) e a máquina estatal. Cada vez se fala mais em liberdade, contudo ela jamais foi menos praticada. Eis a clara constatação, por fim, de que vemos a Idade Média – a começar pelo seu nome de batismo – com um véu a nossa frente: um mundo muito mais livre e digno que o moderno, o qual somos impossibilitados de divisar – obviamente que livros didáticos não deveriam ter mesmo esse intuito, visto que não usufruímos de liberdade.
Ademais, o imposto sobre o campo tornou-se exorbitante, o que acarretava uma inveja ainda maior quanto ao citadino. Havia ajuntamentos populacionais crescentes em Paris. Uma caixa de fósforos! O funcionalismo público concretizava-se como sonho dos imigrantes. A plutocracia e o encorpamento da burocracia falam por si. Nossas instituições sólidas como o vapor, a falta de independência da justiça e a obsessão ubíqua pelos cargos públicos em profusão me remetem a comparações como: “O Impeachment de Collor foi nossa Revolução Francesa”. O fenômeno dos caras-pintadas foi apenas uma decorrência infra-estrutural da corrupção, que não deixou de adquirir feições cada vez mais inacreditáveis desde então.
A França sofreu a Tomada da Bastilha porque no intervalo de poucos séculos vai de ‘pequeno amontoado de democraciazinhas’ a ‘um Estado forte e tirânico’. A Alemanha prosseguia descentralizada. A Inglaterra nunca havia sido tão comunal, celular, muito por causa das diminutas dimensões. Não fora tão democrática e com feudos onde os senhores tivessem tanta autonomia legislativa quanto na França. A transição medieva-moderna foi, por conseguinte, muito menos traumática ali (sem falar que o fato de a Alemanha ter saído da Idade Média no século XIX sob um forte imperialismo, desembocando no führer do III Reich dispensa comentários - caso-gêmeo ao francês). Além disso, Londres dividia as atenções com Manchester e Amsterdã (ciclo holandês-britânico de Arrighi), enquanto Paris não dividia as suas com ninguém. Talvez a Revolução seja mais obra de um feudalismo nativo brando e justo demais do que qualquer outra causa. Não havia sequer a cobrança da corvéia! A França era mais sagrada, mais religiosa. Como tal, a Igreja e a nobreza continuaram tendo privilégios inexplicáveis, e aliás o burguês podia comprá-los; isso os tornava refratários com relação aos nobres orgulhosos, mas obviamente transtornava o camponês. Aliás, o camponês se descontentava com o vizinho mais produtivo que conseguia juntar dinheiro e comprar propriedades na cidade, e quando podia delatava suas fortunas para que o inspetor do Estado viesse comê-las. Sobre esse panorama de eus-sozinhos há mais o que falar, adiante. Não se entende como contraditória a afirmação recorrente no livro de que “os franceses eram todos iguais, mas atomizados”. É uma necessidade, não uma antinomia: eles eram idênticos, PORQUE refratários, esquizofrênicos. A Revolução é a derrocada do eu na cultura greco-latina. Volto a afirmar: o apodrecimento do tecido político. O princípio da ruína, decadência e moribundice ocidentais. Um homem é a própria terra, e não deveria se esquecer disso. Ao invés, vê-se envolto por uma irresistível vontade de mediocridade.
Ler Tocqueville descrever a França do século XVIII é como encontrar exemplos no Livro do Diabo (múltiplos deles!) para cada um dos sete pecados CAPITAIS. O autor não entrará no mérito, entretanto a razão do Estado francês se comportar de tal maneira despótica se relaciona com a competição com a Inglaterra, a vencedora do século em termos de “solução mercadológica em escala global”, sendo necessário a seu arqui-rival encontrar urgentemente uma saída a esse estado de coisas. Taxar o camponês era sempre a última instância da precária resposta.
CONSIDERAÇÕES ACERCA DO DESTINO HUMANO
Tocqueville é um liberal que fala em alto e bom som para todos ouvirem: afora o paradigma aristocrata greco-renascentista (do qual participavam cidades italianas e francesas), a política e a economia – enfim, todos os valores – das civilizações modernas se encontram jogados na lata do lixo.
Penso nas contendas dos subúrbios no século XXI, noticiadas por um semanário o mais superficial possível (citemos a VEJA!): se a Revolução Russa fracassou, o que dizer da francesa (capitalista), sua inspiração? Se escrevesse um livro, chamá-lo-ia A COMÉDIA DA HUMANIDADE NIILISTA – Um posfácio a Nietzsche. Mal sabem que estão à caça de valores! Para eles tudo bem. Nada cheira mal e nada tende a qualquer hecatombe! O milagre do dinheiro lhes é infinito retro e avante!
A própria linguagem é mais débil. Não sinto imponência no dizer! Não quero saber de ler manuais!
***
Como o tempo foi de repente fundado? O grande e inegável feito revolucionário está em “ter-se produzido uma revolução”, esta, a Francesa, sem saber ao certo o que se estava produzindo, uma vez que esta foi a primeira. Diante disso peguei-me elaborando...
...ressalvas ao espírito revolucionário (manuscritos a respeito da página 197 do livro):
O PAROXISMO DO ANARQUISMO
Não se fazia idéia de humanidade, não se sabia conjugar como Marx o fez os jogos de poder entre as classes. Antes de “a História ser fundada”, de se acreditar num sujeito ou em massas de sujeitos que a produzissem (Napoleão ou os proletários), qualquer intelectual não era o que sabemos hoje um intelectual. Era um proto-intelectual. Aspirava à sistematizações mas era arquiteto de “ISMOS” precários (como se os próprios modelos prontos, tais quais Socialismo, já não o fossem!). Ignorava qualquer “consciência de classe”, logo seu trabalho reflexivo era mais a expressão de um âmago seu, um libelo apaixonado e perspectivista, uma literatura ficcional, do que qualquer outra coisa. Tira-se daí que a revolução foi o último acidente esperado, uma conseqüência jamais prevista. E o modo torto como ela nasceu – e que seria incessantemente imitado – é que desencadeou ser ela um fenômeno potencializador da servidão ao invés de ser o maçarico que derrete os grilhões do homem. O fato universal nasceu de egos! É pelo paradigma revolucionário ainda ser o francês que não fundamos uma humanidade...
Esta é minha UNIDADE I de estudos em TEORIAS SOCIOLÓGICAS CLÁSSICAS, que vai da Apresentação ao livro de Alexis ao primeiro capítulo do Terceiro e último livro (sub-livro) da obra “O Antigo Regime & A Revolução”. Forma uma “unidade” justamente por se tratar de uma uniformidade de pensamento, do dia 12 ao dia 23/08. Devo ter muito a dizer, ainda, tangendo o autor.
Escrito por wormsaiboty às 22:47
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PROVA DA INEXISTÊNCIA DE DEUS!
“Deus” é sinônimo de onipotência, o conceito humano para o uno, ilimitado e intangível, uma chave de acesso ao transcendental via linguagem: quatro letras que encerram a idéia de tudo que está por trás da existência e da possibilidade de se ter qualquer idéia. Como tal, “Deus” cresceu com o homem. É seu mito, sua raiz. A determinado ponto foi sistematizado em escrituras – o que não o desvencilha do paradigma panteísta, não obstante: panteísmo é a crença de Deus sendo tudo e todas as coisas. O universo, a natureza. Aqui está o ponto a que desejava chegar para comprovar a inexistência de Deus, se é que o leitor não preferirá legitimá-lo de uma forma diferente... [vide adiante] Serei lógico; acompanhe:
O caráter de onipotência de Deus é sua definição pura. Significa que para tal entidade inexiste o impossível. A realidade inteira é o desenrolar de sua vontade. Como tal, só pode ser ele mesmo (o que é vontade de Deus é deus, e não há o que não seja): voltamos ao Panteísmo, ainda que sois cristãos. Se tudo é deus, eu também sou deus. Afirmar deus é negar-me a mim mesmo. Penso que sou livre para escrever que sou livre. Tenho autonomia na decisão. A simples crença na assertiva basta ao leitor a fim de negar Deus. Porém, sigamos adiante, rumo aos limites da argumentação: se se aceita que eu sou Deus para não negá-lo, eu me anulo. Eu existo – o leitor existe – e aceitar-se como Deus representando a própria impossibilidade do Ser de existir é pífio. Existo e por isso automaticamente Deus deve ser negado.
Ainda que eu fosse Deus – esse é o único método, entenda o leitor, de poder afirmá-lo [a legitimação em “forma diferente” supracitada] –, ou tudo sou eu (tudo que acontece é minha vontade – sua liberdade acabou de ser formalmente morta), ou eu sou uma PARTÍCULA de Deus. Mas um poder infinito não se divide: a principal característica divina é a unidade, é ser a arrumação coerente do todo. Não existe, portanto, essa conveniente solução intermediária.
Retomando, há dois (ou três) paradigmas: 1) TUDO é Deus (e sua Vontade), sob o alto preço de não existirmos (nossas individualidades não passam de ilusão, falsas consciências de Deus regidas por uma, e só uma, verdadeira consciência); 2) NADA é Deus. Esta possibilidade permanece de pé, pois permite que existamos; 3) O indivíduo é DEUS. Incabível. Porém, interessante observar que 3) não existe senão como subconjunto de 1). Deus não pode ser um subconjunto, nem mesmo possuir um subconjunto! Deus não pode existir se há no universo qualquer consciência que levante o problema.
Escrito por wormsaiboty às 20:49
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