X-TudoTudo


TRANSCENDER-12

DA CULPA E DA AUTORIA DOS ATOS E TEXTOS

 

Venho aqui tratar da gênese do sentimento de culpa. Defendo a tese, escorado em autores denominados imoralistas, de que a relação do indivíduo moderno com a culpa se assemelha à caça de uma longa e sinuosa serpente. A analogia ganha sentido quando se pensa que ao buscar incessantemente o rabo, e com ele jamais se deparar, o caçador apanha, tateando cego, de súbito, o que pensa ser uma das extremidades. E de fato: acaba de segurar a cobra pela cabeça. Ainda não era a cauda. A cauda é um enigma que, nesta minha história, jamais é desvendado. A pessoa inscrita na sociedade que busca “culpar alguém por alguma coisa” é um caçador de serpentes que acredita a todo tempo estar a ponto de se deparar com uma rabiça que chocalha. Há uma complexa relação entre “cena do crime” e “criminoso” que gostaria de desenvolver ao longo deste singelo ensaio.

 

Apurar um culpado é partir em busca da resposta: “quem fez?”, “de que consciência emanou a ação?”. Porém, tendo em vista conceitos lapidados ao longo de séculos como “indivíduo”, “volição”, “infração”, “acaso”, “antecedentes”, “conseqüências”, “testemunhos” e “confissões em júri”, torna-se impossível atingir um culpado ou uma penalização sobre os quais não recaia boa dose de incredulidade, mesmo revolta. O culpado e a penalização “ideais” ou “perfeitos” são o que se poderia chamar de cauda da serpente. Buscar a causa de uma cena e imputá-la a um sujeito é a prática mais corriqueira do propalado contrato social elaborado pelo homem branco europeu e hoje hegemônico no globo. Inicialmente, tal contrato era tácito, verbal ou hereditário. Filósofos então se acercaram do problema, evidenciaram-no, registraram-no, disseminaram a questão em diversos idiomas para que pessoas de épocas a partir dali pudessem consultá-la e quem sabe nela tomar parte. Houve até quem começasse a questionar a validade do contrato, sua engenharia, seus postulados, a natureza do homem. Pois se se necessita de um contrato, parece haver uma condição pré-contrato insustentável e que no entanto era o “previsível” ou “esperável”, o normal ou natural a suceder-se. Avessos ao contrato social renegam a moral cultivada pelo mundo ocidental e buscam novos valores para o homem, no que são vistos pelos compactuantes (assinantes do contrato) como imorais, apólogos do desrespeito ao contrato.

 

Contratos, de letras ou mais que isso, sempre podem ser quebrados. Diz-se que avalizam o ser com garantias, mas elas nunca são totalmente certas. Claro que se pode defender que é o suficiente e, ademais, o cume do possível. Infratores são prejudicados consensualmente; vítimas pontuais de infratores, algo sempre “fatal”, trágico, repentino, já que não podem ser evitadas, são aceitas e inscritas como “bodes expiatórios” insubstituíveis. Entra aqui uma expressão que gostaria de estender mais adiante ao autor da quebra de contrato, no ato de sua punição.

 

Assino o contrato. Acho que todos assinam o contrato ao nascerem em circunstâncias como as minhas. Mas sou contra o contrato. Enquanto não revogo minha assinatura, me limito ao que o leitor batiza de “plano teórico”, embora quem me conheça espere que eu não lance mão da dicotomia prática-teoria, por considerá-la uma barca furada. Fato é que enquanto não revogar minha assinatura e minha posição em acordo com o contrato social, caso ajam de modo ilegal contra mim serão punidos, o mesmo válido para mim. Não há escapatória: esqueci de dizer que quem não assina o contrato não existe. Não existe categoricamente neste mundo e não lhe pode ser agraciada nenhuma vantagem. Em um mar de milhões de pessoas e de coerção ultimada, significa que o indivíduo está condenado ao ostracismo mais cruel, provavelmente à inanição. Mesmo gangsters possuem um forte contrato social intra-grupo. Sou ciente do caráter absurdo de minha reivindicação aqui. Prossigo.

 

Assinar o contrato é proteger elementos para a própria existência esperando que uma instância que se põe à disposição de todos regule com sentenças negativas aqueles que ameaçarem a existência alheia. Assinar o contrato implica que caso aconteça uma ilegalidade (quebra de contrato), haverá um culpado pronto a indenizar, seja a vítima em si seja a tal instância central-mediadora (aqui, o Estado, sistema de justiça). Portanto, assinar o contrato é reservar à disposição, quando necessário, um caçador de cauda de cobra. E se digo que é impossível obtê-la? Já o disse. O leitor o sabe. O leitor pode também alegar que há uma “proximidade do rabo suficiente para tornar as coisas justas”, ou ponderar que inexiste “medida melhor”. Discordarei até o final, mas reconheço que minha voz não é estridente o bastante para calar as ontologias dessas preferências, as motivações singulares de cada um. Adoraria um mundo em que houvesse mais e mais vozes desafiantes como a minha... Atenção!

 

Há uma confusão muito grande entre dois pares de coisas que me faz preferir a rasura da minha assinatura do contrato. Eis os pares: condicionamento/incondicionamento, sujeito/predicado. Há razões lingüísticas e históricas para crer que o mundo moderno erra ao propor dicotomias o tempo inteiro. A idéia de que há alguém para ser responsabilizado por uma “cena” precisa ser afastada. Tradicionalmente, devido à individualização das relações sociais, há sempre um autor para uma ação, sempre um sujeito para um predicado. É até difícil de engolir, para uma proporção extremamente elevada desta “realidade competitiva” que se diga que a distinção entre eu e outros e entre pessoa e meio não é correta! Não existem pessoas. Pessoas são palavras. Houve enormes equívocos na relação entre ser (sujeito) e objeto (entenda como mundo) que amalgamaram a vivência. Os “autores do contrato” (não cairei no erro de buscar um rabo de cobra, mas preciso ser sintético) são gerações sucessivas de filósofos que partiram de pressupostos convenientes ao dogma cristão, por sua vez associado a condições que surgiram no falecimento do mundo grego... Percebe como eu poderia seguir para trás até chegar a lugar algum? Esta foi uma caçada sinuosa a um apetitoso rabo. Pois bem, nos atenhamos na parte frontal do comboio: considero filósofos como Platão, Kant, os existencialistas do século XX e alguns outros no decorrer da linha do tempo como contribuintes deste modo de pensar. Porém não os quero prender, nem mesmo malograr! Queria mostrar a gênese do sentimento de culpa.

 

Tais pensadores propõem o pensamento, a razão humana, como algo incomensuravelmente único, pertencente ao sujeito, inalienável. Através dessa razão efetuam-se inter-relação ser-ser e ser-objeto. Efetuam-se predicados advindos de um ser. Não há predicado sem ser. O cristianismo coloca coisas inexplicáveis a cargo de uma entidade chamada deus. O homem moderno deixa deus um pouco de lado (para intervir somente quando cômodo) e convoca o Estado e mecanismos de “impessoalidade” para representar um grande número de pessoas como se fossem uma só (o Brasil como uma pessoa de 200 milhões de “rostos”). O autor do mundo é deus. O mundo é o predicado de um sujeito. O crime é o predicado do criminoso. Alguém comete, alguém é responsável. O ser tem a primazia. Mas o que é o ser?

 

Este debate está ficando muito extenso! Nunca vou resolvê-lo com propriedade magnânima se não estiver da espessura de um livro, mas eu disse que seria um ensaio singelo. Singelo no sentido de que não deve ser muito longo, embora não seja breve para o que um leitor gostaria de ler. Nunca se tem tempo para ler. Um Blog de uma pessoa nada ilustre, então...

 

Eu falei de Deus. Ou deus. Existe também um par que ingressa agora no jogo, o condicionado/incondicionado. Tudo que é cobra, ou filamento de cobra, evento envolvido num emaranhado de outros, sendo causa de uns tantos e causador de outros mais, é condicionado. Só se pensa existir um autor para uma quebra de contrato porque alguém promove uma ação. Ações sempre estão ligadas a sujeitos delimitados, no mundo moderno. Pode parecer estranho, mas nem sempre foi assim. No mundo grego talvez não se dissesse “somos três pessoas”. Poder-se-ia contá-las, mas não no sentido que conhecemos. Seríamos parte de um todo indivisível. O incondicionado respeita essa idéia. O mundo é o caos. Qualquer tentativa lógica de pintar suas motivações redunda em fracasso, insuficiência. Nada está em relação com nada na medida em que tudo está em relação com tudo. Digamos que o grego ainda assuma que a teia de eventos e fatos seja uma cobra, uma cobra das grandes, mas que não age como caçador de cauda. Se se pensa que tudo tem uma origem, há o problema da origem em si: o primeiro fato, a primeira ação, o primeiro ser, quem os trouxe ali? Deus serve para preencher essa lacuna como ninguém no mundo moderno. Pasmem aqueles que não sabiam muito sobre os gregos: eles não precisam de um deus!

 

Deus é tratado como todo-poderoso, onipotente, essa é sua razão de nos ser afigurável. Ele é incondicionado porque está além de qualquer causalismo, é independente e autônomo. Porém, como explicar que proviemos do incondicionado e somos condicionados? Mesmo os extensos poderes da criatura não depõem a seu favor. Na Grécia Arcaica aceita-se o mundo como eu penso que ele seja, um amontoado de caracteres incondicionados. Esbarraremos em perguntas por parte do leitor como “mas então de onde você acha que veio tudo?”. Não ficarei devendo esta resposta, mas devemos continuar!

 

O mundo moderno quer o condicionamento, mas como é complexo e na verdade impossível atingir o rabo da cobra, ele adiciona uma cláusula de incondicionamento ao contrato. Tudo isso para salvar a plausibilidade do binômio sujeito/predicado. Afinal, alguém tem de pagar por ter matado ou roubado alguém, ou antes, as pessoas precisam ser incutidas do medo para se sentirem seguras. Que belo vaivém!

 

Viu-se que são binômios assimétricos, deficientes. Não andam direito, não estão em compasso. Na Grécia está presente a idéia do incondicionado em sua totalidade, e agora não precisamos nos preocupar com cobras, autores, punições. O que parece punição, ao ocidental contemporâneo, o que faz vezes de castigo, não passa de “fato”, evento desligado de outros antes e depois de sua ocorrência. Chama-se a isso de ética trágica, um substituto do contrato social. Mente quem para me desmoralizar trata seres humanos que não pensam num contrato social como incapazes de viver, de estabelecer existências a longo prazo, viáveis. Além disso, “viável” é diferente aqui e acolá. A ética trágica preconiza que ninguém pode evitar desgraças, porém as desgraças são a chave da existência grandiosa, de quem quer ser lembrado em todos os tempos. Na Grécia clássica (pré-socrática), homem feliz é aquele que está “vencendo todo dia”. Pois, sem contrato, sua exposição a perigos permite que a sucessão de seus dias seja um contraste entre o perder e o ganhar. E o ganhar do grego, o prazer, só pode nascer do perder e do desprazer que lhe são anteriores. Dizem que o mundo ocidental tem um pouco disso: a ética da quantidade de vitórias! Mas isso é uma tendência que só pode se acentuar no futuro. Presentemente, é benquisto deitar-se e acalmar-se, dar-se a si mesmo uma vitória que permaneça. Outra vez já disse que a natureza não gosta de equilíbrios, e isso depõe contra a prática do contrato. Contratos são feitos para serem quebrados, parece saber o advogado, embora neste exato momento ele se acanhe. Parecemos viver em uma ânsia por cometer um crime. Essa vontade é a vontade de ser grego. Penso que minha antipatia pelo contrato já ganhou novos contornos! Pude explicar por um texto que não sou louco, mas apenas um “nostálgico”...

 

(continua abaixo)



Escrito por wormsaiboty às 00:44
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(cont.)

Complementarmente, para evitar buracos neste texto, me adensarei em alguns pontos. Se quiser, pode me abandonar. Intuo que eu esteja sendo interessante e você não vai partir.

Kant e seu Imperativo Categórico são as maiores salvaguardas da ética não-trágica, quer seja, da culpa e do contrato. Diz ele que a felicidade está em Deus ter fundado o mundo para que respeitemos uns aos outros, vivamos em comunhão. Persisto em que essa é uma prática maléfica que humilha o homem...

 

Eu diria que o mundo grego não é mais fraco por não ter um Deus. Antes, ele tem vários deuses. Mas esses deuses não são morais, não se preocupam com imputar autoria de ações a ninguém, tampouco se ocupam minutos que sejam com aquelas letrinhas pequenas de contratos... É uma liga poderosa. Já o Ocidente possui uma perna só. Para mim, o único alicerce da construção chamada “nosso mundo” é a palavra culpa. Se ela fenecer, todos os contratos serão cancelados.

 

Vou tentar convencê-lo a se juntar a mim e me encaminhar para a intrincada resposta que prometi (“mas então, de onde veio tudo?”). Mas para isso preciso fugir um pouco do assunto: conheci um homem – não pessoalmente – que antecipou todas as descobertas das ciências naturais no século XX, mesmo pertencendo ao século XIX e sendo um filósofo. Seu nome era Friedrich Wilhelm Nietzsche. Ele não é muito reconhecido pelos seus feitos. Sua principal descoberta foi que a natureza não existe, tal como pensamos, de forma absoluta. Ela não é o que ela é. O que vemos não pode ser, não existe a verdade, fixa, se quisermos chegar à VERDADE DAS COISAS. Nietzsche desvendou como ninguém as armadilhas da verdade. Podemos dizer que se trata de uma cobra. Quando dizemos que alguém é um criminoso pensamos estar enunciando uma verdade. Nietzsche resgatou o espírito grego e foi capaz de perceber que a verdade não pode nem QUER ser apanhada. Este é o problema: para que o rabo? Na verdade, antes que seja um desconsolo, seu enunciado é um consolo: “O único motivo da existência é não seguir qualquer motivo”. Não sei como imaginar uma vida que caminha para um propósito rijo no horizonte. Pode o indivíduo que lê se pensar como condicionado, realmente? A Sociologia faz isso, tem essa missão. Ciência das mais recentes, sua principal sobrevivência é negar o livre-arbítrio individual, porque ela se escora na existência de uma sociedade onde tudo é “causado”. O velho papo do rabo... Anulando-se a individualidade em plena sociedade que valoriza supremamente o indivíduo, chega-se a uma crise irreversível. E pensar que o sujeito está sozinho é naufragar. O melhor é ser grego e entender que não existe indivíduo ou não-indivíduo. Está tudo misturado. De quem é a culpa, se a Sociologia se encarrega de buscar as razões pela ocorrência de crimes? O leitor tem esperanças de que eu admita a captura da cauda da serpente? Não! A Sociologia não se resolveu com essa culpa, com esse “bode expiatório”. Ou se resolveu, a sua maneira: se tudo está entrelaçado e o criminoso cometeu a ilegalidade devido a circunstâncias sociais, e estas nasceram de outras, que por sua vez nasceram da natureza em evolução, que por sua vez principiou-se do cosmos, que nasceu a dado momento de algum ato, o único culpado é este ato 1. O ato 1 é a criação do universo por Deus. Agora descortinei este deus: aparenta todo-poder, é todo-desgraça. O ocidental, o homem moderno, culpa a existência por um ato criminoso. Se o sujeito supremo é deus, todos os predicados são seus crimes. E o pior é que a autonomia do indivíduo se subjuga a ser predicado, ou seja, ao zero. É uma engenharia completamente falha. A vida no contrato social parece um teatro horroroso do qual não se pode escapar: cadê o autor da peça? O homem não é mais digno no momento em que se revolta contra o autor do contrato que julga ser imprescindível sem saber quem ele é e sem saber por onde começar a rasgar a peça jurídica; e caso ele entenda tudo o que eu disse, tem vergonha por seus pares, que não o farão, impossibilitando que ele mesmo seja um perfeito grego. Ser grego é ser deus, neste aspecto. Se tudo se imbrica, que se assuma a responsabilidade por tudo e por nada ao mesmo tempo!

 

Essencialmente, na natureza não existe nada que não se contradiga. Um criminoso é uma figura sempre ambígua. Um átomo é ambíguo. Nada é preciso. A vida é uma dança, um enigma, que nunca quer ser descoberto. Uma cobra não sibila reta. O fenômeno não existe em si. O próprio fenômeno é uma perspectiva. O mundo é muito mais rico do que aparenta. Não significa que nada seja real, mas que existe uma realidade para cada observador, e elas se sobrepõem, formando uma cornucópia impensável para o melhor dos criadores. Por isso o mundo não possui um autor. Como por trás de uma perspectiva há sempre uma criação ou ensaio de sentido, o Ocidente disso se aproveita para instalar a culpa. O Júri é uma instância observacional tão rica quanto qualquer pessoa, mas se diz acima de todas elas para julgar o ato como foi. Ora, não existe ato como foi! Além do mais, atos são atos e não podem ser negados. Tudo no cosmo se afirma. Crimes (que só recebem esse nome porque há sujeito – sem o ser, tudo são atos, apenas criminosos, apenas não-criminosos ou tão-somente atos puros, sem distinção, de qualquer forma) são atos. Irreversíveis. Apesar de existir o que se possa chamar de vingança, a vingança é um ato recomeçado. Não pode existir um centro de onde emana uma “punição”. Esta instância central está cometendo aí um crime, mas o homem não precisa se eximir de cometê-los e assistir o cometimento de ilegalidades de forma indireta. É uma prisão, uma revolta gerada pelo contrato e pelo conceito do Deus uno.

 

Para encerrar, um adágio em homenagem aos gregos, que acertaram, porque ao não pensar num contrato atingiram a imortalidade: “algo para ser eterno tem de acontecer só uma vez”. O universo é um anel, não uma cobra! Sua cauda é sua cabeça, sua origem é a mesma coisa que o seu desfecho. Este o enigma supremo do universo, porém eu não o descobri: enunciar uma verdade é perdê-la no instante em que ela sai das entranhas, para ser adotada de diferentes prismas, sempre em mutação, sempre em passos de dança. Agora a resposta “de onde veio tudo”: não acredito num deus que nos criou, em Kant, no contrato e na covardia. Eu acredito em uma economia invertida, em que o máximo esforço gera os menores resultados, e em que todos fazem o máximo de esforço. Há que haver riqueza. Quem possui mesmo a riqueza, riqueza de vida, tem o bastante para dar sem pedir nada em troca. Eu acredito que o universo jamais começou a começar e jamais cessará de terminar, embora ele comece e termine nalgum dia, para os que nele estão. Ele reverbera indefinidamente... Creio que a natureza seja traiçoeira e magnífica o suficiente para se ter engendrado isso: assim, jamais foi o “nada” e jamais rumará para um fim fixo, apenas se auto-afirmará perpetuamente... No anel, posso inverter o espaço-tempo, não existe antes e depois, e dizer que eu nasci porque neste momento de minha vida, aos 20 anos, decidi que devia nascer...



Escrito por wormsaiboty às 00:44
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Comprometo-me a não lançar mais nada, para além do texto acima, até novembro.



Escrito por wormsaiboty às 00:42
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Artigo dedicado a

colegas de discussão, em especial o Thomas

qualquer um que discorde dos métodos do professor Luiz Gusmão

os fãs de artigos bem-escritos

e, finalmente, às corajosas namoradas de quem primeiro ler (obviamente, homens)

 

POR QUE A PROSTITUIÇÃO JAMAIS ESTEVE TÃO PRESENTE APÓS A CRISE DA INSTITUIÇÃO DO CASAMENTO NO OCIDENTE HODIERNO (1)

 

Na página 8 de Filosofia do Amor, Georg Simmel nos brinda com a seguinte passagem: “(...) é fatal que um aumento de cultura acarrete uma necessidade maior de prostituição”, no que foi desqualificado peremptoriamente pelo cânone do magistério de Sociologia da UnB, Gusmão, em sala de aula repleta de alunos. O professor defende que a variável “flexibilidade da moral”, em 100 anos, tornou a afirmação obsoleta. Não é verdade. Ela jamais foi tão válida e referendada pelo quadro social. O “empirismo neo-platônico” gusmoniano falhou mais uma vez. Em sua decadência que recrudesce, o Ocidente continua sendo unidimensional neste aspecto. Jessé Souza, autor da Introdução a Simmel e a Modernidade me inspirou a contra-atacar minha cátedra, pois palpavelmente compartilha de meu ponto de vista.

 

Até que haja rupturas galopantes da moral (“bons costumes”) e da justiça (e respectivos “tribunais imparciais”) haverá crescimento de prostituição e elevação de crimes.

 

Há visivelmente um paralelo que elucida a compreensão da massificação da sujidade feminina, que é a correspondente explosão da criminalidade, sobretudo de crimes periféricos, como é o caso do roubo de um pote de margarina. Há crimes brandos e crimes graves; bem como há a prostituta clássica e a fêmea de hoje em dia (uma “mulher da vida em doses homeopáticas”).

 

Quando Simmel fala que homicídios eram tributados com módicas multas, subentende-se que “crimes não eram valorizados em uma sociedade arcaica”. Essa leitura ocidental despreocupada com a desconstrução de categorias é nefasta, erro crasso. Matar não era considerado crime, eis o sensato. Todo crime tribal é hediondo. Quem praticar o incesto ou cozinhar um animal-totem será castigado com a morte. O crime era sempre grave. Mas era episódico. Hoje um ato ilegal é coibido de maneira mais macia – o que não evita a pecha de marginal – e sua prática se alastrou bastante.

 

Hoje, aceita-se muitas “depravações leves”, contra o quadro anterior em que poucas eram depravadas porém estas eram notórias e suportavam a carga apenas entre elas. (2) Houve então uma “democratização” da vadiagem, o que está longe de simbolizar afrouxamento moral.

 

O tabu é tão vigoroso que na sala de aula é benquisto ao professor homem disfarçar suas opiniões sobre o assunto. A mulher negará até o último momento ou mesmo não compreende o panorama.

 

Quanto mais fervilha a economia especulativa, mais se enxergam essas vicissitudes. A questão dos relacionamentos sexuais precoces que serviriam para evitar que o mancebo recorresse a prostitutas antes do casamento é um incidente que não atrapalha a teoria – muito pelo contrário: com a instituição do matrimônio em crise irreversível, sobra má-fama para todas. Inexiste qualquer pureza de espírito na mulher contemporânea em sua infinidade de sub-moldes.

 

Antes, a fogueira como punição da desonra. Hoje, cochichos. Quanto mais dinheiro, maior a força da propriedade. Mais sórdido é o caráter da exclusão social – os status de marginal/trombadinha e mulher que se vende tornam-se insuportáveis. Acirra-se o contraste. E ao mesmo tempo é impossível para cada homem não ser ladrão de vez em quando ou para cada mulher não agir feito puta. Isso não sou eu quem inventou: está nas ruas. Nunca a palavra de quatro letras foi tão empregada. Na sociedade das prostitutas, a mãe daquela que esqueceu por segundos de ser pudica é fortemente coagida pelo verbo. A proliferação da categoria das fêmeas que rodam a bolsa as está tornando sinônimo do grupo social, mais abrangente, “mulher” – engolindo o gênero feminino tal qual buraco-negro. A castidade passou a ser encarada como mito. Houve a ampliação descomunal do conceito. O pote de margarina, banal, disseminado, me evoca a não menos freqüente menina-sabão. “Menina” que é de nítido caráter inocente, conjugado com o instrumento básico de limpeza nos lares e cuja função é escorregar, de mão em mão se for preciso. A limpeza vira sujeira quando se ensaboa os homens. Estranho crossover (3) ocidental pós-moderno...

 

Se nem todas chegam a tanto (ser uma “menina-sabão”), tem cara”, parece”, “está agindo como uma” ou é insinuante em algo, se veste de maneira que provoca. Algum pecado a moça tem! Obviamente, ele é produzida pelas relações de dinheiro. Certo é que o fenômeno não desapareceu, mas se fortaleceu. Quanto mais dinheiro, mais os valores da dignidade humana se degeneram.

 

(1)  Atual, que vige.

(2)  Minhas observações englobam até o mundo mais imediatamente pré-moderno, ou seja, de sociedades consideradas primitivas até o mundo feudal.

(3)  Híbrido – explicação mais detalhada em “MARX E NIETZSCHE: VEROSSIMILHANÇAS”, artigo do dia 3 de abril de 2008 –nota de rodapé II.



Escrito por wormsaiboty às 19:40
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A INDIFERENÇA VOTACIONAL E O PROBLEMA DA UNIVERSIDADE (PÚBLICA OU OUTRO MODELO QUALQUER)

 

Ouso afirmar que o dilema do ensino superior no Brasil (Terceiro Mundo) (1) não reside em pontos abordáveis por qualquer campanha partidária e que o jovem que não vota pouco tem a ver com isso: antes, diria que aquele que se compraz em votar intensifica o problema!

 

Apesar da democracia se apresentar como o sistema menos inadequado de gestão do povo – ou de instituições –, sua controvérsia por excelência (eu diria “pouca vergonha”) é que constrange o indivíduo à participação, por uma rede de meios.

 

Em uma democracia de último tipo é absolutamente incorruptível o direito do cidadão ao alheamento. Vê-se que os direitos ativos são prometidos e não mais que parcialmente cumpridos: todos, constitucionalmente, teriam acesso à informação; não é o que acontece. Além disso, posso questionar o valor da informação em uma sociedade do espetáculo de massa. Poderia questionar qualquer tipo de serviço do Estado. Há dúvida em se o esgoto é melhor do que a falta de saneamento. Em uma grande cidade, certamente é uma bela solução provisória; mas o problema dos detalhes hiberna e ressuscita à frente. Paralelamente, posso apontar pequenas povoações em que a ausência de encanamentos representa facilidade de vida e bem-estar, porque o lixo de poucas casas não chega a agredir o meio ambiente. Aliás, povoados mais isolados e que não sucumbiram à tara da industrialização não possuem o que se pode chamar de lixo. Ilustrativamente, o tão danoso plástico é algo industrial. Nenhum indígena poderia “poluir” a natureza, no sentido que nós mesmos criamos para nossas porcarias... Nada essencial para o aborígene fica mil anos em deterioração como uma lata de Coca. E, cá entre nós, quer lugar mais imundo que o subterrâneo citadino? Porém, interrompamos esta última parte da digressão!

 

Eu me referia ao direito ao alheamento: a priori, é mais simples de fazê-lo valer do que a demagogia ou falácia da “benesse para todos” (os exemplos citados da televisão e jornais e do sistema de esgoto). Isso porque não há dependência econômica, não se lida com recursos escassos. O indivíduo que não incomoda a liberdade do próximo para desfrutar a sua, dando predileção à TV desligada, ao jornal na lixeira (não que o problema do excesso de lixo seja seu!) e à indiferença quanto à prestação de serviços pelo governo (“eles não recolhem meu lixo, em contrapartida eu não pago impostos”), é o modelo preciso do cidadão que quer e pode, segundo a lei, “alienar-se” do coletivo. Vê-se que, em verdade, apesar de uma ou outra baixa na receita, gostos voltados para a misantropia são apreciáveis da ótica do Estado. Basta não o olhar, o dispêndio zero, e a administração quita com suas obrigações para com o sujeito; o sujeito adora esta situação, está de acordo. Há reciprocidade, mutualidade. A democracia permite acordos tácitos em que “ninguém se mexe para não perturbar e não ser perturbado”. Assim como, não esqueçamos, jamais veda o caminho de quem quer participar, custe o que custar. O mundo perfeito!

 

Não obstante, essa é apenas a descrição normativa básica do paradigma democrático: não se sustenta após observações. O quadro real apresenta incongruências nos dois pólos: o cidadão ativo é submisso ao Estado e dele não recebe “recompensas” o suficiente (o que, aliás, produz em muitos a vontade de tornarem-se passivos); o cidadão passivo não consegue “não agir”. Disserto aqui sobre este segundo malefício, limitação congênita de democracias até onde as conheço. Em suma, pedimos ao poder central para não participarmos, aceitando as conseqüências (por mais que nos digam que tal atitude é prejudicial, fazemos um balanço interno e consideramo-la uma postura vantajosa!), no entanto a “máquina” não aceita nossa escolha. A falha clamorosa é que o Estado declara respeitar essa vontade de omissão; mas, na prática, pune o omisso (para não falar do ativo). Portanto, a afronta à liberdade é clara e venho por meio deste manuscrito denunciá-la. É verdade que esse meu ato se afigura como “luta ativa”, mas direciono-o tão-somente ao círculo mais próximo com o intuito de explicitar os motivos irrefutáveis de minha não-participação nas eleições da UnB, evidenciando uma crível superioridade da passividade em relação à atividade.

 

a) Findo este PRELÚDIO, adentremos o concreto.

 

De volta à universidade subdesenvolvida e votantes e não-votantes, observo que ontem, no campus Darcy Ribeiro, dia 18 de setembro de 2008, no último dia do primeiro turno para eleição do novo reitor, havia uma forte pressão, proveniente dos fiscais ou ativistas das chapas concorrentes (dir-se-ia, antigamente, “massa de manobra da inteligência”; dir-se-ia, por estarmos onde estamos, que eles SÃO a intelligentzia; mas me recuso – são ovelhas!), para quem ainda não havia votado e não demonstrava ímpeto para tal, votar. Uma pressão indevida e onipresente nos corredores do Minhocão: dificilmente se é indulgente ao ponto de vista de que “alienar-se” do processo eleitoral é já, em si, uma escolha. Argumenta-se, do lado de lá, que “sempre é melhor exercer seu voto”. Eu não compartilho desta tese. Todavia, exceto por esta carta, não tento demover quem pensa diferentemente de mim. Aí está o intenso paroxismo do “espírito democrático”.

 

b) Razões menos abstratas de “por que não voto” e da situação periclitante da universidade em relação profunda com a ruína do Ocidente (2) (e com a mediocridade da população, resultado dos impulsos democráticos):

 

O problema mais profundo é o SISTEMA ELEITORAL. É o MEIO URBANO. É a SOCIEDADE OCIDENTAL em todos os seus pressupostos. Devo dizer que enquanto perdurarmos neste modo infecundo de viver não VOTAREI. NUNCA votarei, pois o correto é não votar. A seguir exponho razões individuais para não ter votado ontem:

 

- Meu peso é nulo – em escala de Brasil, DF, UnB e mesmo em uma sala – geralmente defendo o indefensável para a moral que vigora; penso que se fossem somente eu e mais dois, eu seria provavelmente a minoria. Mas independentemente de uma personalidade avessa à mediania ou não, há total irrelevância do cidadão que vota. Note-se que eu sou um. Nunca vi uma eleição ser definida por um voto. Qualquer votante fervoroso sabe que não muda o menor estilhaço do espectro político. Corneteiros, que querem transformar seu voto em cem votos, pelas mãos e cabeças dos outros, são uma figura proibida na eleição politicamente correta (pois é dela que trato aqui – não preciso citar quem fere as liberdades individuais, quem age por interesses segundos, sempre a serviço de um poderoso, ou do candidato que mexe pauzinhos para se auto-eleger... Essas condutas são óbvias, qualquer um constata, e já demonstram per se a falência do ideal democrata... E eu aqui bancando o SALVACIONISTA... Nem deveria discutir com vocês!). Porém, mesmo para a eleição definida por UM voto, sua responsabilidade é nula, acredite. Como alguém poderia dizer “se eu votasse na legenda adversária, o resultado seria integralmente diferente”, todos os demais o poderiam! Isso implica que a responsabilidade é indizivelmente dividida. Não sobra nada. Nunca se é responsável, é a conclusão. A democracia é uma fuga da responsabilidade! Parece que não se vive, é um desperdício votar... Se ainda não se convenceu, devo explicar o mecanismo “democrático” da Universidade de Brasília: o mais votado pelos estudantes/professores/funcionários (e é muito mais sadio pensar que professores escolhem um reitor ao invés de jovens inconseqüentes em curto estágio por estas bandas) não é automaticamente eleito. Na verdade, longe disso. Mesmo os dois candidatos de segundo turno podem ficar alijados da cadeira de reitor. As eleições servem apenas para que seja submetida uma lista tríplice ao Ministério da Educação, que adotará os próprios critérios. Anula-se ainda mais um peso individual que tangia o zero! Em suma, eu, pelo menos, tenho coisas muito mais terríveis e homéricas com as quais me preocupar – uma delas é o que fazer no domingo eleitoral se não tem futebol na tevê nem se vota para vereador ou prefeito em Brasília...

 

- Há obscuridade e interesses vis em cada um dos candidatos. Pouco pude conhecer destes renomáveis senhores e seus vices, nas páginas de jornais internos. Mas não só pode haver parcialidade por parte do jornalista como fica clara a vacuidade de cada programa. Todos bastante homogêneos entre si, parece ser o detalhe de uma barba grisalha ou de um sorriso ameaçador os fatores decisivos na escolha do aluno. E pelo que pude perceber, todas as candidaturas eram irregulares! Panfletagem em locais proibidos e posse de empresas privadas, coisas inconstitucionais... Não se vota em ladrão! O mais grave mesmo é o amontoado de santinhos e filipetas, que poderia ir para o lixão e ser tratado (reciclado), mas que devido ao recomeço da estação de chuvas escorreu em grosso para os esgotos, amplificando o problema já tratado mais acima.

 

- Uma universidade não pode primar pela democracia, é um lugar para relações hierárquicas. A universidade não é uma coisa engraçada? O conceito de uma instituição superior de ensino em si já muito me assusta, e ainda mais a micro-democracia em algo que exige tamanha verticalidade (professor x aluno). Tenho pena de quem panfletou em nome do 70 e alguma coisa... A universidade não tem lugar em meu cardápio de estimas porque está imbricada em uma legião de equívocos: “mercado de trabalho”, “boletins de desempenho” e “intenso convívio com PADRÕES” são aviltamentos indizíveis à vida!

 

Proponho eu a varredura completa. A universidade terá sempre, nestes moldes, um limite baixo de recursos. Os “revolucionários da reitoria” não o desfrutarão: o capital inundará as engenharias. Por mais que seja reconstruído por pessoas diferentes (José Geraldo?), seu sucateamento é inevitável. Vivemos em uma nação herdeira de uma filosofia perfeita de “como tornar almas miseráveis”. A UnB não muda sem que mude primeiro o sistema-mundo. Mas num sistema-mundo transcendido (adequadamente!) inexistem universidades... Não quero melhorar a UnB porque quero destruí-la - eis a minha essência. Sou um verme latente. Uma larva que hiberna antes de amadurecer e inocular seus filhotes nos bebedouros – todos beberão e serão arruinados, se fracos. Haverá também muito veneno do esgoto, este mundo de porcalha próprio dos ocidentais!

 

NOTAS

 

(1) Não autorizo a interpretação de que “elogio” sistemas de “Primeiro Mundo” ao fazer desde o primeiro parágrafo uma crítica tão-somente ao “nosso mundo”, mas, como veremos abaixo, ao menos nestes lugares há uma maior qualidade no atendimento de serviços básicos, até para o cidadão que pode contribuir com muito pouco. De qualquer modo, ao avançar em minha argumentação deixo claro que não salvo países, muito pelo contrário: condeno todos os Estados.

 

(2) Ocidente, neste contexto: modelo desenvolvimentista, mundo moderno, crença no Iluminismo e preponderância do espírito apolíneo na condução das vidas (Idealismo, a vida fora da vida!).



Escrito por wormsaiboty às 23:57
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Tocqueville – O Antigo Regime & A Revolução – desfecho

 

Conforme prometido dia 23 de agosto, retorno com o prosseguimento de meus estudos em Alexis de Tocqueville e sua grande obra final. Recentemente me deparei com a obra na universidade, no primeiro quarto da disciplina TEORIAS SOCIOLÓGICAS CLÁSSICAS. Agora, com um distanciamento palpável e tendo realizado prova discursiva a respeito, estou apto para promover o desfecho das anotações – até por questões de tempo! O texto a seguir, adaptado em alguns trechos, vai do dia 26 ao 30 de agosto:

 

LIVRO TERCEIRO

 

Capítulo II

 

Unidade aparentemente dedicada à motivação intelectual-imediatista da Revolução.

 

Um inquestionável incitador dos brios dos literatos: a censura da imprensa, na época na mão dos eclesiásticos.

 

Punições levianas por parte do Estado (a polícia em aliança com a Casa de Deus).

 

Pp. 141-5

 

Capítulo III

 

Tocqueville (na página 149) estabelece o crescimento mútuo de dois males trajados de “redenções”: a BUROCRACIA e o SOCIALISMO, interdependentes por completo. Ponto não-pacífico! Os liberais também bebem da fonte do Estado (Arrighi).

 

Digamos que fossem mesmo irmãos: posteriormente o segundo tentará se livrar do primeiro e não irá conseguir (até na Autogestão Iugoslava a máquina impessoal – redundância? – ressurgiu das cinzas!). E não é interesse de uma economia neoliberal, tampouco, afrouxar a burocracia. O que seria, ademais, dos EUA, num esforço de guerra, sem um comando central e uma rígida hierarquia?

 

Capítulo IV

 

P. 157 – de suma importância.

 

Capítulo V

 

“Apanhado” das facetas da Revolução Francesa: a lei dos contrastes, o buraco-negro que se tornara a cidade de Paris em relação ao campo ou mesmo qualquer alternativa urbana (contraponto perfeito com Languedoc) e a “Teoria Brasil”, que coloca a França do século XVIII em pé-de-igualdade com o Brasil contemporâneo (crise institucional – o Impeachment de Collor equivalente à noite da Bastilha, uma vez que é apenas um marco vazio, na verdade um enceto da EXPANSÃO dos casos de corrupção ao invés de seu término).

 

Capítulo VI

 

A tônica dos dois últimos capítulos: nobreza rachada. E a majestade é um nobre...

 

Discurso – e atitudes – reformistas: veneno puro. É como dar a chave de casa e fechar os olhos ao ladrão.

 

Capítulo VII

 

A falta de solidez das instituições atinge um ápice: batalha campal intra-funcionalismo público. Burocratas trocando farpas!

 

P. 171 (rabo): revolução-fantoche: o teatro parisiense.

 

Capítulo VIII

 

Resumão/catadão (o que vinha sendo toda a unidade 3, em âmbito geral). Tocqueville se despede em uma exaltação napoleônica cujos detalhes e gênese não nos são concedidos...



Escrito por wormsaiboty às 22:06
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FILOSOFIA DO AMOR, Georg Simmel

 

POSFÁCIO DE LUKÁCS

 

Autor fragmentário (...) Não é considerado um niilista que vá até as últimas conseqüências como Marx (...) o “filósofo do impressionismo” (...) Isso pode ser entendido como uma referência à visita de Simmel ao submundo, aos porões da moral do Ocidente – simbolismo, sensações, irracionalismo (...) Já expressionismo denota perspectivismo, solidão e incomunicabilidade (...) vida e amor como fins últimos, em si mesmos (...) pensador do devir (...) Diferença marcante entre perspectivismo e relativismo: o relativismo nega uma realidade quando percebe sua contradição; o perspectivismo aceita todas as contradições, adentra a estética do absurdo (...) brinca com os novelos de Ariadne (...) um homem cheio de paradoxos: paradoxos são inerentes aos gênios.

 

Algumas reflexões sobre a prostituição no presente e no futuro (1892)

 

Marcada ironia (...) denúncia da vileza da moral burguesa (...) o mecanismo do bode expiatório (...) o papel do individualismo e da propriedade privada (...) única defasagem da reflexão: flexibilidade moral que não está interligada ao dinheiro (inversão inesperada – crise da instituição do casamento e relações sexuais mais cedo e com mais parceiros) – rebato posteriormente! (artigo manuscrito) (...) “machismo metafísico” (...) a primeira filosofia do excluído de que tenho notícia (como aparece o marginal em suas várias categorias – lei dos contrastes: segurança x crime, castidade x vadiagem, prevalência da mediocridade) (...) o cristianismo e seu inculcamento massivo do pecado.

 

Sobre o artigo – “variante da flexibilidade moral / embora se possa contestar o envelhecimento da teoria simmeliana ao se perceber a disseminação da ‘prostituta’ em ‘casos eufemísticos’ mas praticamente universais, ‘meninas-sabonete’ ou ‘de vestes provocantes’, etc.”

 

Atriz – a prostituta disfarçada: trai em público; usufrui do “meio”, do conteúdo da traição, e evoca um novo fim, um fim pudico, o de “fazer-se passar por alguém mais”, “em nome da arte”!

 

A questão da “concorrência com o homem”, uma crítica do feminismo como ingênua oposição – transcrição de fragmento do fichário na seção de TA-1 (sobre Mead) / para considerações em Simmel, vide p. 74:

“Queremos mostrar que nosso padrão societário é somente um padrão – não precisamos estar por baixo” – mas, segundo Simmel, é a competitividade gerada pela conclusão de terem sido ludibriadas tanto tempo que as torna realmente vulneráveis – assim como não são piores, não são melhores, e se partem com handicap não nos podem confrontar. O correto seria ignorar o sentimento de vingança e pensar no renascimento de uma complementaridade.

 

Sobre a sociologia da família (1895)

 

A história da família como um importante instrumento do Ocidente (...) gênese igualmente ligada ao dinheiro (...) contra a monogamia institucionalizada* (...) a lembrança de que o homem é universal, mas historicamente diversificado (...) ligação mais forte entre mãe e filho (...) Só há um pai no Ocidente por conta do casamento, que nivela pai e mãe – “o que é seu também é meu”, vide relação de enteado hoje (...) inversão sociológica: casar para propagar a riqueza; casar para produzir o amor (o eterno) => casar PORQUE ama; filhos dispendiosos. (...) raiz do casamento: a propagação sadia da espécie – mas se se casa por amor... e o amor ignora a espécie... contradição simmeliana... (...) “a posse gera o amor da posse” (...) antigamente, quando a filha tinha papel social mais próximo ao de escrava, calculava-se bem antes de liberá-la de casa rumo a um noivo; com o passar do tempo e o amadurecimento do capital, houve justamente a ocorrência do oposto: o dote, para que fosse um investimento que valesse à pena por parte do noivo, e também para “garantir o futuro da prole” – Simmel enxerga fortes tendências estoicistas aí: a Igreja exige sacrifício por parte do fiel; assim é que ele ama Deus; pois assim é que o pai aprende a amar a filha, perdendo cabeças de gado e alqueires... Outrossim, uma posse dificultada (processo de conquista) é uma posse que gerará mais amor por parte do dono.

 

* No entanto, defende que a poligamia é tão-somente uma modalidade rústica da monogamia, a condição natural do homem.

 

Igualmente, hoje se interpreta o filho como peso, embora a origem do filho atual se relacione com a volição do proprietário de “perpetuar-se”, tornar-se imortal, um homem eterno, via “propriedades que serão conservadas indefinidamente pelo meu sangue”. Evoca-se-me o mito total de Diana e Vírbio: o sangue sou eu; todo filho do meu filho serei eu. Mas a pedra sou eu! Eu sou a potência! O feliz anel do existir!

 

O papel do dinheiro nas relações entre os sexos – fragmento de “Uma filosofia do dinheiro” (1898)

 

O casamento (negociação da esposa) nasceu do escambo, até o modelo acabado do capital. Compra-e-venda da mulher, obviamente, anda de mãos dadas com o amadurecimento da Economia, que por sua vez gera o indivíduo e as conseqüentes reputações. Dir-se-ia que existem dois tipos femininos: a puta de família (a noiva) e a puta puta.

 

O dote representa a entrada em um novo patamar de complexidade econômica (mulher e filhos começam a ser FARDOS econômicos, ao invés de ganhos) – p. 49.

 

Hoje: autônomos e trabalhadores “para fora”, não há mais o dote e a coisificação da mulher. A carga se deposita sobre os filhos e sua crescente necessidade de especialização mercantil. Não se requer, sequer, a virgindade como “condição do produto comprado”: vai o usado mesmo!

 

P. 51 – PRESENTE (anel, etc.) –D MULHER FIXA, SENTIMENTO

DINHEIRO-VIVO –D PROSTITUTA, SEXO CASUAL (sujidade, grave ofensa)

 

Lesbianismo como efeito colateral da situação rebaixada da prostituta (p. 55) – “a busca pelo amor ‘verdadeiro’”

 

P. 56 – não é a poliandria da mulher que desperta sua rejeição: é o fato de vender barato sua personalidade (mulher-objeto). Não creio, diferindo de Simmel, que se possa desmembrar as causas, até porque mulheres que praticam muito sexo, embora não por dinheiro, têm má fama porque conotam uma puta. Restaria saber – e é impossível – se isso advém da associação que se faz entre os atos múltiplos e a venda compulsiva da intimidade ou se a má impressão decorre da poliandria em si – de qualquer modo parte-se do pressuposto de que qualquer prostituta (toda “ofertadora do serviço chamado ‘prazer’”) faz sexo com um número considerável de homens (deprecia-se “n” vezes como ser, diariamente). Um traz sempre o outro (mais dinheiro = mais clientela = maior depreciação do corpo e da personalidade, da história do indivíduo) – mas existiriam muitos casos de “puta de ½ período”, profissão de renda complementar? (pergunta retórica) O que parece ser o motivo da degradação, em Simmel, é a IMPESSOALIDADE, dar sem ser por impulso (valor pessoal singular).

 

P. 57 – a incomensurabilidade dinheiro-mulher:

HONRA X DINHEIRO

Qualidade x quantidade

É também uma LEI DE CONTRASTE e o cerne da sociologia de Simmel – Tocqueville e Simmel se parecem na estruturação dialética/bipolar de suas explicações causais. E corresponde à fetichização em Marx: comprar o produto não é atingir sua essência. Produz-se logo uma cobiça por um outro produto ou o aperfeiçoamento industrial daquele.

Lembrar-se que a mulher se compromete mais ao se entregar do que o homem. Ela é um todo, não pode se entregar em partes.

(relação com o homicídio e seu crescimento de importância – porém eu escrevi sobre a malversação dessa noção)

 

P. 64 – a “puta de luxo” e seu maior prestígio (mais dinheiro, minora o abismo – mas enquanto a quantidade de capital não for infinita ou inestimável, ainda há a distinção de pessoa cujo corpo tem um preço – ainda que seja um que raros possam pagar!)

 

Contradição simmeliana: no capítulo sobre a prostituição alega que pagar serviços de prostituição rebaixa o próprio cliente, ao nivelá-lo à excrescência social que é a mulher de rua, mas neste o autor contemporiza – “pagar em dinheiro é terminar radicalmente com tudo”.

 

Mulher – um bicho mais homogêneo; homem – heterogêneo, diferenciado. (logo, o “segredo mais íntimo” da puta é o mesmo da madame – além disso, dar a vagina representaria dar-se por inteira / um homem prostituto não padece da mesma mazela)

 

Mito da cara-metade: única fuga da “prostituição crônica no casamento”, para a mulher (vide negrito “puta puta” acima).

 

Mágica ocidental: esconder o interesse econômico de tudo em que ele é a essência.



Escrito por wormsaiboty às 20:45
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Cultura feminina (1902)

 

P. 88 – Sobrevalorização do problema social da mulher?

 

Antevê, com vocábulos magistrais, na página 70, o estado de coisas de uma “sociedade niilista” (diagnósticos de HARVEY, MORIN e NIETZSCHE). 1) Busca descrever o ser humano para apurar – atrás da quantidade (dinheiro) – seu verdadeiro e inestimável valor; 2) É um profeta certeiro da “feminilização da civilização ocidental” como um todo, ou do arrefecimento do caráter masculino no próprio homem enquanto a mulher termina com esta soma ao final (fêmeas mais autoritárias, mais machas). (MULHER – morte, totalização, homogeneidade; HOMEM – vida, cisão, diferença; por ironia das ironias, BUROCRACIA é substantivo feminino – a separação do homem de seu trabalho e sua sujeição a uma totalidade meramente impessoal é a faceta mais eminente do mundo moderno: alguém como Marx ordena sua imediata abolição; Simmel não chega a comentar destes pormenores do modo produtivo.)

 

Neste processo, o homem e a mulher se perdem – decadência, pulsão de morte, maquinização, deposição das características humanas nos objetos (conseqüência última e nefasta do processo de individualização, a grande crítica de Simmel).

 

Pensando nas formações de gêneros das palavras, há divergências clamorosas: A VIAGEM, EL VIAJE e THE TRAVELING exemplificam o caso. Já Deus é uma palavra masculina. No Olimpo havia deusas; não obstante Zeus era o deus supremo. Ainda assim, perdia e ganhava delas – no Ocidente há apenas um.

 

Divide a cultura em duas frestas: a individual e a objetiva (coletiva). Trata-se, respectivamente, de nada mais que as escolhas (ser amoral, imoral ou moral) e da própria moral.

 

A questão feminina acima da do proletário. Com a entrada das mulheres no mercado de trabalho (ou antes, na indústria de serviços compartimentados e pesados), dada sua fragilidade, forçou-se a barra para que pessoas do sexo feminino e crianças recebessem menos; e, em segundo lugar, forçou-se a barra para que essa fosse a contratação prioritária, porque poderia ser exigido um esforço extenuante para que tentassem produzir como homens e continuar-se-ia pagando comparativamente pouco. Isso provocou a ira dos próprios proletários masculinos.

 

A verdade é uma mulher – sempre sinuosa, nunca quer ser congelada, escapa pelas mãos!

 

O campo artístico mais receptivo às mulheres é o romance literário. Pensar também em uma Madonna. São, ainda, belas educadoras. São o meio para o modelo perfeito de homem: nossas moldadoras, o meio para o grande fim da existência!

 

Psicologia do coquetismo (1909)

 

O amor como um jogo de vaidade – dos dois sexos ou só da mulher? Impossível: se não há bilateralidade, ainda assim tratar-se-ia de uma partida. O homem é a criança/o jogador; a mulher representa o brinquedo perigoso.

P. 97 – confirmação: não parece haver o homem-coquete que dualiza/dança frente a uma mulher. E quando ele entra no jogo, este está completo – ou a própria mulher, antes segura, pode cambalear. Nunca se enseja atingir um definitivum.

 

Apoio em Platão, porém não é uma abordagem esdrúxula. Condiz com a ética dum quantum para as vitórias, a tragédia. A mente humana e suas sensações funcionam com contrastes do momento atual com um momento imediatamente precedente. Experiências longevas impõem contrastes mais nítidos.

 

Alguém fácil demais não desperta amor.

 

P. 97 – distingue o ciúme pré- e pós-conquista do charme em si. Parece um ritual, uma dança. Simular que flerta outro homem na frente do amado (do interessado em si em potencial; ALVO) não é neste caso considerado “provocar ciúme” nem ato vulgar, mas uma etapa do jogo da vaidade/conquista.

 

O jogo perdura enquanto se processa a ambigüidade – adora-se um enigma, o homem nasceu para a esfinge. Eis a grande aventura suburbana (MORIN).

 

P. 98 – O coquetismo – homem/mulher, somente – é diferente de qualquer outra relação humana.

 

Gera-se aqui a satisfação da “parte pelo todo” (p. 100).

 

Exposição exuberante (pp. 101-102).

 

Ambivalência JOGO/REALIDADE (subtítulo II)

 

Eis a explicação das primeiras linhas: o ponto-médio e instável entre o TER e o NÃO-TER. Platão deveria ter pensado no DEVIR como quadro dialético e único possível do SER/NÃO-SER. O universo é um “caso de amor”.

 

Isto é arte, e eis a estrada da vida: melhor quando é sinuosa e sem objetivo derradeiro/mecânico. Trata-se de Nietzsche puro, Gusmão!

 

Esfera autônoma, fim em si. Uma arte.

 

P. 107-111 – Teoria relacionada com a VONTADE DE POTÊNCIA – esgotamento x desprazer como estímulo.

 

Sobre o chamamento do PERIGO/RISCO – A fonte do maior prazer possível só pode ser a ocorrência prévia do mais intenso desprazer, ou ao menos seu convívio lado a lado, a idéia de sua iminência ou vizinhança. O desprazer age como estímulo dialético da vida mais vivível que pode haver – de uma vida “mais feliz”, tão-só se esse “feliz” fot entendido como o trágico, um osciloscópio.

 

LEI DOS CONTRASTES – o “requebrar” – rosto casto / corpo ardente

 

Amor, a única aventura que nos restou (a Economia do forte: reduzir suas chances mediante uma ampliação dos esforços).

 

Por fim, o autor aprova a brincadeira. Autor trágico, exibe o máximo amor ao acaso.

 

Fragmento sobre o amor (escritos póstumos)

 

“Abismo metafísico”: cada ser humano é uma ilha intangível. Sofre de uma solidão indizível. É a nossa essência.

 

Um capítulo que me lembra Acima do Bem e do Mal.

 

No sentido em que a natureza seja imoral, nenhum ato é egoísta. Atos são apenas forças, vontades independentes. Se bem que para Simmel “vontade” é “lei”. O salto quântico da coragem de chegar aos “finalmentes” do galanteio.

 

Como se pode dizer sem base em fenômenos que alguém ama alguém? Nossa sociedade é legista porém fala debalde de quaisquer essências.

 

O salto quântico entre a sobriedade e a paixão. O que me lembra a descrição da doença de Nietzsche como “estágios”, graus. Amor como ruptura, como elemento iconoclasta. O alvo amado nunca mais será o mesmo. Chave entre imanência e transcendência. Apontada como fórmula trágica da vida. Quem disse que a história não pode ser realmente recomeçada? Não há um elo perdido! Paixões são estacas zero individuais. E já que a humanidade não existe como real, ou é incipiente... Nesse sentido Nietzsche não ama todos eles (nota de rodapé 3): jamais devotaria amor a um Chandala.

 

Relevância da divisão castidade + sensualidade, que na verdade precisa ser unificada no amor moderno (Morin).

 

O amor a deus é algo constrangido. O amor a qualquer norma e moral é um invólucro “esperável”, frugal à vida. Mas o amor por um objeto/sujeito é especial: ninguém foi obrigado, o amor nasceu de forma espontânea.

 

Ódio não é o contrário de amor. Antes, a indiferença cumpre essa função.

 

Moral e religião dissociadas: a primeira é um ciclo fora da vida. A segunda pode existir independentemente de prescrições que escapam ao ser (mandamentos INTERESSADOS).

 

Ética e estética não dialogam de forma tão óbvia: quem ama não precisa obedecer, ter fé; e vice-versa.

 

Não é preciso repetir que psicologia sexual a la Freud é “coisa de carniceiro”, e que a idéia da prevalência do prazer sexual na sociedade é já um sintoma de décadence...

 

P. 132 – o conceito de amor em Simmel (vida & amor; vida X amor – ROMEU E JULIETA)

A vida é, então, a negação de si. Mas é uma afirmação. Pois tudo que nega afirma,  parte da vida. Tudo que acontece reverbera. Tudo é um dizer-sim; e há ocasiões em que é necessário um mistério: que ele venha travestido de dizer-não.

 

Amor contingente e cara-metade (destino)... Os dois são aventuras...



Escrito por wormsaiboty às 20:45
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***

 

Refuta-se o dualismo habitual egoísmo/altruísmo, algo que se assemelha a “ver a questão de um ponto superior”, acima do bem e do mal. Trata-se, em Simmel, da “motivação específica e primeira” (p. 115) do amor. Inerente ao indivíduo enquanto inscrito na natureza, no universo. Se egoísmo for a pedra que cai... se se atribui um ego à pedra... tudo são egos, mas isto é exagero. Romper bipolaridades modernas é o primeiro passo para a inevitável crítica da civilização ocidental.

 

O sentimento do amor: uma “meta desenterrada”.

 

Resumo do bololô da p. 119 (inspiração das supercordas): uma convenção satisfatória, a palavra AMOR.

 

Amor, classicamente, há o de homens e mulheres. Mas há subtipos com predominâncias do fator CARNE, outros da PSICOLOGIA. Há carinho por um relógio. Ou gosta-se da aparência de alguém mas não do que ela fala ou vice-versa (incompletude).

 

125 – a contingência do amor. Não há um arranjo prévio, um em-si, de um objeto para o outro (determinação de que z deve ser amado, no tempo q, por x, y e k). Um sujeito é que “o delegará poderes”, casualmente. Em suma: o amor não é uma soma de partes; é algo autônomo e indivisível, uno. É como 2 + 2 = 5, porque impossível que dois elementos tais produzam algo “lógico”.

 

128 – genealogia

 

133 – Sexo é o “complemento do amor”. O amor é a vontade de viver, vontade de força; a procriação é a possibilidade de uma vida se ultrapassar, ser mais que vida. O amor é um fim em si mesmo e engloba tudo – mesmo o acasalamento, o sexo, é tão-somente um meio.

 

214 – grande nota (2)

 

Digressão sobre o Eros platônico e o Eros moderno

 

A idéia de indivíduo ausente dos pré-socráticos; a crise de Deus deixando tudo a cargo do indivíduo na crise da razão.

 

Pela última vez: discordo da platonicidade de Simmel porque ele é um apólogo do ilógico e do irracional no amor e na vida.

 

O irônico é que Platão ajudou a fundar o cristianismo e o indivíduo, portanto ele não é tão oposto assim ao Eros moderno.

 

No amor platônico, ama-se. Não se ama o indivíduo. Ama-se a própria idéia. Se se amar três mulheres em vida, não farão parte senão de um amor inalcançável no mundo terreno, o mesmo. Não obstante, Platão representa o ser que busca essa unidade, cinde o mundo grego.

 

O sagrado embutido no sujeito – No amor moderno, o amor é singular e atrelado ao ser. Não obstante, há sempre transcendência, uma aura de eternidade vinculada a este sentimento. Um “além”.

 

Amor cristão > (em quantidade) amor humano universal (relatividade do conceito de humano)

O amor cristão quer abarcar tudo, é um nivelamento patético e mal-intencionado.

Já comparar os dois qualitativamente seria como pôr a Divina Comédia frente a frente com uma pusilanimidade qualquer.

Muito engraçado: “pecar” fica sujeito a probabilidades estatísticas!

“com o dogma, a religião acaba de deixar a esfera da vida para entrar na da idéia” (p. 173)

p. 161 – verossimilhança com “A metrópole e a vida mental”: imagine o amor cristão sendo praticado na cidade grande! Iminência do blasé...

Há cristãos e não-cristãos, mas isso não é definido pela Igreja. Mas que importa sê-lo? É preferível não sê-lo e não simular sê-lo.

 

p. 165 – passível de discussão em revisão – distinção muito homogênea entre os dois amores. Páginas, aliás, “nebulosas” para além do normal em Simmel...

 

Fragmentos e aforismos

 

Quem não gosta de lidar com o imprevisível não ama, é embotado, sensaborão.

 

“A sensualidade é, em si, o genérico, e nessa medida o verdadeiro oposto do amor” P. 183. A sociedade libidinosa é também a mais decadente.

 

Enquanto todo o indivíduo ama, apenas o pênis trabalha no sexo (especialização do “trabalho”).

 

Três descrições do beijo: 1) na amizade, afirmação espiritual; 2) no sexo, como sinal da entrega do corpo; 3) no amor, como beijo e nada mais (analogia com a Música).

 

Plotino: o homem já individualizado não sabe se fundir com Deus e o acaba perdendo.

 

A antecipação do momento feliz é já esse momento feliz.

 

O casamento é mais comumente promovido por opostos que se atraem, mas tende a homogeneizá-los, é auto-degenerativo. Simmel deve querer amores a dois, até que se desgastem naturalmente e mudem-se os casais.

 

A infelicidade no amor: quando se aproxima do tédio e da indiferença; recusa e ódio são inflamados, são positivos, são ainda um “sucesso do amor”.

 

Possuir a felicidade não é ser feliz! O indivíduo bem-aventuroso precisa do risco e do perigo. Precisa pôr tudo a perder; não fosse o contraste, que seria da felicidade? Merecer o direito ao mundo a cada instante, este é seu real senso...

 

Mini-glossário

 

Solipsista é o egoísta (o sexo é solipsista, por exemplo); eudemonista é aquele que parte em busca da felicidade (em Simmel, num sentido trágico).

 

ANEXO A – Simmel e a Modernidade

 

“As figuras do cínico e do blasé lembram o especialista sem espírito e o sensualista sem coração, assinalados por Weber como os tipos ideais produzidos pela sociedade moderna. No entanto, a inspiração maior de Simmel, parece-me, nesse particular (ao contrário de Weber que usa várias vezes a linguagem nietzschiana, seguindo no essencial, entretanto, no que diz respeito à teoria da personalidade, J. W. Goethe), Friedrich Nietzsche.” Jessé Souza, Simmel e a Modernidade (p. 15)

 

ANEXO B – Outras temáticas inspiradas pelo “Filosofia do Amor”

 

P. 86

 

O Socialismo foi a tentativa ainda equivocada de suprimir o individualismo moderno (esta semente do mal plantada por Sócrates e regada por Platão). Por não ser trágico, acima do bem e do mal, ele não logra êxito. Há culpa e ausência de responsabilidade. Não se soube o que fazer com o CRIME.



Escrito por wormsaiboty às 20:44
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