EMBURRADO COM A IMPRENSA
Nesse reveillon, tive uma idéia: vou usar minha traquéia para, com eloqüência, melar a estréia da nova senhora gramática, que já lanço de antemão como candidata a mais precoce das viúvas - seja por falta de quem a pratique, seja porque não se pode entender o que deriva do que já não se compreende. Ao contrário de revistas luso-francas como a MONET (também, com um nome desses, como poderia ser fiel aos sub-trópicos?), não fico embevecido com obra-tampão (obra? Lei. Status inferior. Não é coisa de artista - não daqueles mais chiques que palhaços). Ainda falo o bom Português de Camões. Este Blog não aceita as novas recomendações ortográficas que começam a viger em 1º de janeiro de 2009. Algum problema com isso?
Já que toquei no assunto projeto de lei, ficam aqui minhas palmas para a figura plenária que teve a capacidade de engendrar uma votação para dar cabo de uma comunidade do orkut que veicula a discografia de vários grupos musicais em formato mp3. Agora sim, a pirataria vai acabar! A pobreza só não se esgotou porque nenhum gênio teve ainda a idéia de transformar riqueza em lei!
Um 2009 de mais sabedoria para quem não me lê - o tipo político, o tipo que tem vergonha do seu idioma.
(quem enxergou minha infração ao idioma estrangeiro? Minha retaliação doce como um vinho branco)
Escrito por wormsaiboty às 02:23
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TRANSCENDER 14
MAX WEBER apresenta:
A ÉTICA PROTESTANTE E O "ESPÍRITO" DO CAPITALISMO
APRESENTAÇÃO
Logo no primeiro parágrafo (p. 7) eu vejo como o Guilherme é burro!
Explicação das aspas (retiradas na 2.ed) na palavra espírito - cautela e destaque. Capitalismo no sentido amplo (o progresso).
"Rascunho" da Sociologia da Religião de Weber.
São praticamente dois livros, um de 1906, o outro de 1920.
TÁBUA DE CORRESPONDÊNCIA VOCABULAR
"Prisão/gaiola de ferro" se torna "rija crosta de aço" aqui.
Um sem-número de alterações fúteis (trocar "absurdo" por "sem sentido").
NOTAS DO AUTOR começam na p. 169.
GLOSSÁRIO (277)
Três igrejas protestantes a se considerar:
- anglicana (inglesa)
- luterana (germânica) (1546-)
- calvinista (sub-ramos esmiuçados ao longo do documento)
Afinidades eletivas: ler verbete; citação de Goethe.
Anabatistas: ana - outra vez; de novo um batista (protestante). Vertente radical, atiçava camponeses a se revoltarem e pregava um retorno ao cristianismo primitivo, considerado pagão. O "Ana" foi acrescido pejorativamente pelos rivais, uma vez que esta seita extrema se caracteriza por permitir o batismo de - e só de - adultos. Como um adulto é um bebê que um dia fora batizado classicamente, tem-se um re-batismo.
Anglicanos: protestantes ortodoxos ingleses. Se o dado principal é que todos na igreja puritana são pastores, teoricamente "iguais na tarefa de evangelizar os fiéis", aqui é diferente: há uma vertiginosa hierarquia, como nos domínios católicos.
Arianismo: originado no padre Arius de 3 a 4 d.C. (séculos), é contra a Santíssima Trindade. Jesus é como qualquer outro humano. Implica - talvez, desde já? Não apurei - numa redução do conceito de humanidade irrestrito cristão (Simmel)? Testa-de-ferro do anti-semitismo... Embora se possa direcionar a mesma crítica aos próprios judeus: eles se crêem "o povo escolhido", assim como o ariano crê que justamente o não-escolhido e funesto é o semita. O porquê de esse instinto repulsivo não se levantar de forma tão incisiva contra os católicos ortodoxos (ou não ter havido isso episodicamente, na Alemanha de Hitler)? O Cristianismo não é coerente, como nenhuma religião apresenta elevada coerência interna fundamental.
Ascese: basicamente, voto de castidade e submissão ao jejum. Ligado etimologicamente a "cuidar do corpo", é a mais clamorosa antinatureza! É o espírito apolíneo. No Budismo, forma mais avançada de niilismo, ocorre um combate às dores deste mundo pela fuga (Schopenhauer). No Protestantismo, ocorre o engano da função do desprazer, o que gera o fosso sujeito-objeto e a falta de senso do mundo, posto que há inconteste sujeição à moral uma vez estabelecida (dogma). Os impulsos do indivíduo são canalizados para o trabalho; uma ética do não-saber mandar e do obedecer. Álibi da fugacidade hedonista (fenômeno não coberto pela obra).
Batistas: preferiam autonomia provincial para seus templos, sem necessidade de prestação de contas ao Estado. O espectro das religiões (mesmo intra-ocidental, mesmo intra-calvinista) é vastíssimo, de modo que naturalmente o despontar de uma crença em definidos parâmetros instiga o aparecimento de diferentes configurações circunvizinhas. Tenderam, no entanto, a seguir as diretrizes da Confissão de Westminster (1647). Também chamados de "os independentes" ou "congregacionalistas" (detalhes no verbete puritanos).
Calvinismo: predeterminação do destino da alma. Calvino condena de antemão um sem-número de almas. A seita mais importante.
Confissão de Augsburgo: do rompimento com o Papa.
Confissão de Westminster: "compacto completo da fé calvinista".
Crematofobia: medo de dinheiro. E plutofobia?
Metodismo: afeiçoados em parte a Lutero - florescimento tardio nos EUA.
Pietismo: submodalidade ou derivação luterana, de 100 anos depois. Com ênfase, claro, na capacidade de interpretação das Sagradas Escrituras. Pietismo vem de piedade. O próprio indivíduo deve se auto-policiar (super-moral).
Presbiterianos: calvinistas sem hierarquia da Grã-Bretanha.
Puritanos: apólogos do "cristianismo puro", sem interferência vertical (artifício da Igreja invisível - os calvinistas ortodoxos estão neste barco, embora os quakers tenham levado esta prática a extremos por eles desconhecidos) e apoio às Escrituras. Prega-se a liberdade individual, mas a própria nomenclatura evidencia o moralismo. "Para Weber, o puritanismo é cria do calvinismo" ("cria nem sempre direta", acrescenta o verbete) e ele utiliza o vocábulo claramente como coletivo para vários dos grupos já pormenorizados que resumam o "protestantismo ascético", posto que englobam congregacionalistas, anabatistas... A maior crítica em relação à Igreja da Inglaterra: ostentações cerimoniais em excesso.
Quakers: protestantes radicais (movimento Reino Unido - Escócia - EUA). Advogam o direito de não ir à missa, de não haver batismo e a consciência como parâmetro último de todas as soluções de problemas e o silêncio. Parecem ser o cume do niilismo nietzscheano, pois reúnem características pragmáticas que os filiam ao que há de mais capitalista, ocidental, dado o enaltecimento do indivíduo e o "culto a Apolo" (de fato, atrelo-os fortemente aos republicanos contemporâneos, estes perdedores de eleições!). Pudicidade e vergonha recrudescem.
Rabinismo: judaísmo tardio.
Seitas: o intuito - voluntário ou não - puritano (suicídio do templo).
Septuaginta: Velho Testamento, traduzido para o grego em Alexandria - Egito - três séculos antes de Cristo por cerca de setenta eruditos. Sócrates teria visitado o local décadas antes.
Esclarecimentos (parciais) relacionados a Calvino e Lutero e aos anglicanos também:
Ambos são reformadores e até determinada altura dos anos 1600 sustentavam esta alcunha, que depois se tornou bandeira específica dos calvinistas. Calvinistas lembram quakers, batistas e congregacionalistas porque eles são anti-hierárquicos. Resta saber qual a grande novidade luterana, haja vista a própria capacidade de interpretação e piedade dos anglicanos! Resta asseverar: na Inglaterra não há após o século XVI nenhuma igreja católica formal, ou estas desempenham papel irrisório para o espírito do tempo. Os anglicanos são rompidos com o Papa; não obstante tenham mantido uma forte hierarquia. Talvez isso os diferencie não só dos calvinistas mas também dos luteranos, que pregavam igualmente elevada autonomia individual (anglicanos = flexibilidade mínima), com a diferença de que queriam se fazer ouvir por todos os cantos (ética universalista, o que explicaria o mundo moderno), enquanto os calvinos são provincianos (aristocráticos, "seitistas"). (Basta lembrar: Lutero rebaixa o homem, destrói o elo com o sagrado; ao passo que, no calvinismo, há ainda uma aura nobre que se intenta buscar, ainda que no coração do indivíduo, sem a mediação eclesiástica.) (Anglicano-luterano no Google aparece 268.000 vezes - acho que isso já denota por si mesmo o que quer dizer. Só quero deixar claro que isso não cancela o dito acima: está certo.)
PROBLEMA DA TEODICÉIA (CENTRAL NA ARGUMENTAÇÃO) - A barca furada do monoteísmo:
O Direito Divino. A tentativa infeliz de explicar a injustiça infindável do mundo que emana de um deus todo-poderoso, todo bondade. A confusão ocidental por excelência. É um problema de lógica bem simples de se resolver. Os gregos viviam sem o contrato social e ainda hoje paira sobre eles a aura da imortalidade. O culpado pela maldade que nasce da infinita bondade é esse "bom", Deus. Caso haja a fusão com ele nestes termos, esse é o preço a pagar. Porém, antes, é retirada a onipotência desse Deus para que o livre-arbítrio seja possível (situação da morte de Deus). Falta, meus amigos, rasgar o contrato. Deus, o autor de todos os crimes. Poder-se-ia agradecê-lo, sendo trágico! Não há forma concebível para findar com a Tragédia, com ou sem contrato. Basta apenas um pouco de cinismo e inocência! O mundo é uma luta que jamais finda.
Lutero é muito produto da mística cristã alemã cujo auge do movimento panteísta-monoteísta foi no século XIV. Explica-se esse híbrido pelo seguinte: há a formulação do amor universal à humanidade, mesmo à natureza, todos obra de Deus, que co-habita em tudo. Portanto, é uma forma de transcendência-imanência que influenciou o protestantismo (a reforma). Paradoxo: essa atitude de piedade aparta cada homem do outro indefinidamente.
A unio mystica ou simplesmente mística é o contraponto weberiano do conceito de ascese. No que poderíamos então substituir ambos por Baco e Apolo. Como esclarece Frazer, em "O Ramo de Ouro", Jesus é o ponto onde as duas divindades antagônicas se tocam. Eis que a religião cristã é anticristã! A tendência gaia não pôde vencer o processo de socratização/atomização do mundo. Ao pretender unificá-lo, estilhaçou-o. Se o deixasse como andava, homem-com-mundo seriam vitral intacto.
CHAVE: a iconoclastia protestante - abolindo a imagem dos imanentes-transcendentes Papa e Jesus - impulsiona o deus-dinheiro (hipertrofia do indivíduo). Latour: somos imanentes demais ou transcendentes demais. Hoje estamos na barriga do "U" e o indivíduo vai perdendo a força... (fusões no horizonte: Deus e Alá, Ocidente e China)
Obs.: Agora entendi o "a música é arte decadente" - é agora, por ser chave da transição. Será, então, majestosa. Artes clássicas = cume apolíneo. O dia da LUZ DE TIETA se aproxima... Universidade é o silêncio rotundo. Contemplação: imagem. Participação: música. Obrigado, Dimitri.
Obs. 2: Reler todas as notas "polêmicas".
CRONOLOGIA
Max Weber - Max, o tecelão.
Simmel e tantos outros se reuniam em sua casa!
O mundo religioso do amanhã: politeístas no topo da pirâmide; monoteístas na base (subdivisão monoteísta: ateístas).
Escrito por wormsaiboty às 23:38
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LIVRO
PARTE I
O PROBLEMA
1. CONFISSÃO RELIGIOSA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL (p. 29)
Weber embarca em um pensamento redundante: tomados em lato sensu, os dois hemisférios de seu título, "ética protestante" e "espírito do capitalismo", adquirem uma impressionante tautologia - "compulsão para o progresso gera (gerou historicamente) uma sociedade voltada para o progresso" (claro que a tal compulsão é, para os efeitos aqui estudados, "vontade de salvar a alma"). Essa é a mensagem principal: a ÉTICA PROTESTANTE é a morte de Deus mediante a hiper-valorização do indivíduo, o enceto de um ciclo esquizofrênico (o ideal asceta); o "ESPÍRITO" é o mundo desencantado, sem Deus e POR ISSO sem indivíduo. A pergunta DEUS EXISTE? Não tem sentido sem um acréscimo de dimensão valoral. Tal binarismo sim/não é apenas uma peculiaridade do sistema. Há outros tipos de deuses do lado de fora... Mas claro: pertencendo à época a que pertenceu, M. Weber descortinava uma faceta até então inimaginada a não ser por uns poucos.
Pode-se dizer que Lutero foi o assassino de Deus, ao torná-lo transparente com a tradução das escrituras, universalizar o transcendente, ferir letalmente essa essência, rebaixar o intérprete. Há que haver pelo menos duas castas.Calvino não rompe tal laço. Condena tantos para salvar uns.
INÍCIO DO FICHAMENTO DO LIVRO PROPRIAMENTE DITO
Considerem-se dois aspectos: 1) Weber já inclui uma auto-crítica de seus postulados ANTES de desarrolar a tese. Ou uma "resposta antecipada" a previsíveis contestações. Relata que se pode verificar no Capitalismo moderno incipiente mais famílias protestantes ricas e que boa parte disso decorre mesmo por herança; 2) mas, seguindo pela serpente causalística, depara-se com um handicap educacional entre os dois núcleos familiares em estudo - protestante e católico. Esta diferença é que há mais estudantes de nível superior de pais de Igrejas reformadas. Obviamente, o fato de possuir um capital mais elevado nisso ajuda. Contudo, rebuscando ainda mais fundo estas origens, vê-se que em geral o católico é enviado para formações humanísticas (o típico "desinteressado", culto), que por si são incapazes de multiplicar patrimônios. Já o evangélico costuma ser aluno de formações tecnicistas (administração, economia, direito...), o que de uma geração a outra irá indicar a mais forte razão da defasagem de riqueza entre os adeptos da primeira e da segunda religião.
Mas claro: Weber devia ter enxergado que no proto-capitalismo esse quadro viria naturalmente à tona - necessidade de competição, especialização, ganho. Exatamente como na Autogestão Iugoslava, em que a burocracia renasceu das cinzas devido à acirrada disputa entre operários e políticos (classe que havia sido abolida, não por muito tempo...).
P. 33 - os judeus são ricos porque são párias aonde vão (voltam-se para um aporte material).
O protestante é aquele que remotamente era o CHÃO cristão? Talvez inconformado com seu estado de miséria - e veja as condições do proletário inglês*! -, tenha se lançado num esforço reformador para que enriquecer não fosse malvisto. Bingo: novo ethos.
* antes ou depois da reforma? Lutero apareceu cedo, mas Calvino vem de um contexto já semi-industrial! Em que pé andava o processo de industrialização inglesa em 1546 (da alemã nem se cogita que existisse algum traço)? Em rápida navegação, não encontro indícios. O sistema-mundo ainda é capitaneado pelos holandeses em seu capitalismo de companhias de comércio, e até Espanha e Portugal ainda encabeçam a lista dos centros de acumulação.
Salto idêntico não foi dado pelos cristãos não-protestantes em países tardios que já "nasceram" protestantes, tal qual a Alemanha.
Ou seja: o protestante, o tipo-ideal cristão, é inclinado à racionalização na "saúde e doença" - a exceção judia não está em foco.
Troca de farpas entre católicos e protestantes sectários: "ascético!" (indiferente ao mundo), grita o 2º ao 1º; "materialista!" (desencantado), é a pronta-resposta. Um mundo sem espaço para COMER E DORMIR, ao mesmo tempo. Só que: o quadro anterior deixa subentendido um certo apreço do evangélico pelo mundo. Não é bem assim. Ele é que é o ascético, espécie de hipocondríaco.
Weber deixa sempre visível que hoje o espírito é autoguiado. Trata-se aqui de uma GÊNESE, de uma história.
ENGENHOCA: P. 36 - mecanismo: PIEDADE à (senti-la leva à) MAXIMIZAÇÃO DOS LUCROS, que criará, ampliará, o fosso social entre abastado e miseráveis, fato que... à (gera a) PIEDADE à ... (recomeça)
Colchetes 37: os calvinistas eram mais racionais que os luteranos (sublimavam as fronteiras nacionais).
39 - Montesquieu
Calvino e Lutero criaram um Frankenstein.
Um esforço causal hercúleo nas próximas páginas...
NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 1
(quase) sempre obedecerei a notação "número da nota (página entre parênteses)", o que quer dizer que abaixo disponibilizo comentários sobre as notas 16, 19 e 23, nas páginas 172 e 173 (quando omito a numeração da página, a nota se encontra na mesma página ou muito próxima da anterior). Como metade do livro são notas, isso facilita muito a consulta (o exemplar é a 2ª edição da Companhia das Letras).
16 (172): a relação de banqueiros e igrejas protestantes: Banqueiros sempre transportam riquezas pelo mundo; nada de mais ele não ser deste credo (auto-resposta a TREVOR!). Todavia, quando é, e se é pastor, há(via) controvérsia sobre a possibilidade de cobrar juros. O interesse era não misturar este par de funções. Weber toca neste assunto muitas outras vezes.
DA DIÁSPORA
19 (173): o sul dos EUA era católico? Sim. Weber não dá crédito à tese dos "países mais ricos" estarem ligados ao Protestantismo (resposta a TREVOR). Caso contrário a França seria mais pobre que países como a Polônia. Na Polônia a elite financeira era de reformados. Não obstante, sempre há uma brecha nacional que seja, como é o caso dos huguenotes.
23: uma assertiva digna de um clássico: os efeitos provocados são divergentes das intenções primevas. Contextualmente, acerca da reação protestante frente ao capitalismo tardio.
Escrito por wormsaiboty às 23:36
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2. O "ESPÍRITO" DO CAPITALISMO
Delimitação tosca provisória do objeto de pesquisa (o tal "espírito").
"Filosofia da avareza" de Benjamin Franklin - o objetivo da vida é poupar e render; dinheiro não deve ser DESPERDIÇADO com diversão - ou qualquer coisa que o não multiplique - mas afinal, para que serve o dinheiro? Este é o espírito moderno em carne viva, pois o dinheiro cresce cada vez mais e mais rapidamente, no entanto nada ainda foi feito... pelo homem.
Mais do que isso: não é questão de uns serem lobos e outros cordeiros: é o inculcamento, na massa, dessa moral esdrúxula.
"Dinheiro é pra se gastar!" é um pensamento corrente que parece ser o início de uma virada. Eu, por mim, não me sujarei na bolsa. Orçamento apertado em prol do hoje: não porque ECONOMIZE, mas porque não tenha dó de me livrar do meu pouco!
A tal ethos, basta PARECER. Mundo da mentira e de Platão. Mulher cesárea.
P. 46 - entre "felicidade" e "utilidade", obviamente a "virtude" protestante (Nietzsche diria cristã, e é uma neo-configuração inerente ao cristianismo, esta sua reforma - EXATO, PEDRA-DE-TOQUE da idéia de epifenômeno e dilatação do conceito!) fica com o segundo.
O pano-de-fundo dessa ética é desvelado: o contrário de ser-se materialista! E o contrário (a acusação é católica) de "desencantado": aos olhos protestantes, está-se seguindo os desígnios de Deus. Franklin quer apenas se sentir digno PORQUE TRABALHA. Não-raro percebo este fenômeno na juventude (Débora Schuab, o protótipo)...
Norte-EUA x Sul-EUA: a prova de que o MERCADO - por si, sem a religião - não basta para pôr em movimento o processo. O Norte não tinha intuitos comerciais, apenas pregadores: logo se tornou "próspero". O Sul, de finalidade mercantil, estagnou. Dir-se-ia que apresentava o chamado "capitalismo irracional" ou "amador", da ótica protestante.
P. 49 - citação da "superestrutura".
A Itália, país de artistas, apresenta um capitalismo deficitário.
Sempre houve, pontualmente, representantes dessa ética (Franklin), nas mais diversas sociedades. Na época moderna, entretanto, afigura-se como fenômeno de massa (e é isso que Weber aponta).
massa/mediocridade/democrata/"sem Deus" X Aristocracia/Sangue-azul/Privilégio da transcendência/Mensageiro de Deus
Quem segue a palavra da Bíblia lê o mandamento "com isso me contento" e segue "sossegado". Produzir mais seria pecar. A interpretação da palavra divina (Lutero, maldito!) DEMOCRATIZOU a livre-interpretação. De pecado a virtude.
P. 54 - Weber refuta a característica do progresso enquanto provinda de um arrocho ou (muito menos) aumento salarial. Não tem a ver com Economia ou patronato neste aspecto: é um processo de inculcamento a longo prazo.
CALVINO NÃO É BENJAMIN FRANKLIN
Há - e era a regra - empresas capitalistas tradicionalistas. Adotavam a política do "lucro suficiente", que não precisa ser aumentado. A antítese disso: Franklin dizia que cada cinqüenta centavos num café poder-se-iam tornar 100 libras se não fossem gastos (o mesmo que jogar os centavos - e, por tabela, 100 libras!, ao mar). Esta é a prova cabal de que o capitalismo moderno veio das agruras, de uma modalidade de comportamento (o proto-especulador), não de repentinas benesses materiais. Ressaltar este ponto na prova: classes outrora subalternas em ascensão monetário-ascética.
P. 60 - surgimento de uma das causas periféricas de Weber: o achatamento do mundo, via aperfeiçoamento dos meios de comunicação.
Auxilia nisto o fato da perseguição e coerção moral que sofreram à época: naquilo que de modo algum eram venais era na persistência desta moral em um quadro adverso. Só a religião possibilitaria esse tipo de "incursão funesta" em algo, contra tantas intempéries e tanta gente.
Ademais, o próprio Tocqueville diz que a razão do sucesso inglês/norte-americano advém da ininterrupta religiosidade das elites (do homem médio, no caso do Novo Mundo). Já na França demonstrava-se, principalmente no topo, uma aversão tremenda pelo não-imanente, era-se tremendamente irreligioso, o que não combina com o papel social de um nobre. Logo, os burgueses barganhadores, no início paupérrimos, foram se agigantando e reivindicando este espaço. Tal descoberta é uma inversão da idéia comum que se faz - senão do mundo do dinheiro - da gênese da burguesia.
"Impulso perverso: a auri sacra fames" p. 63 - provavelmente o em latim quer dizer "o ethos ascético [do dinheiro]".
Daí provém o dito: VOCAÇÃO PARA GANHAR DINHEIRO, como outros são metafisicamente situados no mundo para descobrir a verdade e ainda outros para governar, e outros para SENTIR.
P. 64 - mais uma vez, a ruptura: o Capitalismo no piloto automático. Qual o momento certeiro da cisão? Não há, assim como a semente cristã e a semente protestante são difusas na História...
DA USURA À OBRIGAÇÃO
Transição do PECADO ao DEVER MORAL (e pontada em Marx):
"Querer falar aqui de um 'reflexo' das condições 'materiais' na 'superestrutura ideal' seria rematado absurdo"
Igreja pede dinheiro e visa ao lucro para ampliação de seu poder temporal! O que é feio é o catolicismo hoje, ainda "fiel" às escrituras...
NOTAS DO CAPÍTULO 2
31 (175): racional/irracional - questão Valdyr.
34 (175-79): longa tergiversação acerca de contenda com Sombart: verossimilhanças ou não entre Battista Alberti e Benjamin Franklin. No final, algo que tange o que falei de Tocqueville: os reis passam a agir de forma "pagã", a espécie de cristianismo mais remoto. (outro fragmento anti-ROPER)
35 (180): Brentano e meu comentário inicial (abre-alas) sobre a tautologia weberiana.
40 (181): sobre o "ópio do povo" como fator periférico em Marx.
44: a ética protestante não é universal, mas traga quase tudo para seu mundo, feito um buraco-negro. Gusmão na lona. É imprescindível ressaltar sempre o caráter DE MASSA DO FENÔMENO em Weber.
50 (182-185): outra longa digressão, agora sobre a proibição eclesiástica da usura e do causalismo fulcral de Weber - defende-se, nas linhas derradeiras, que o cristianismo pré-reforma já era essencialmente capitalista (citarei pela última vez que Weber repele o póstumo TREVOR-ROPER sozinho e sem esforço...). Há aqui ainda a citação das ordens jesuíticas, o "catolicismo mais capitalista". Veja-se que o Papa, no século XIX, já sabia que a Terra não era mais o centro do universo: a Igreja não reconhecer um erro emanando de suas fileiras não implica que ele não tenha existido e que não tenha se dado naquele espaço-tempo específico.
52: justiça/injustiça, caso em que vale o lucro e ocasião em que não é próprio. Isso sempre houve e vai sempre haver, vide ultra-especuladores da bolsa acusados de não serem éticos - pelos seus pares, já um tanto suspeitos (ora, se a função de todos no pregão não é primar pela anti-ética!)! Para tentar fechar esta questão, o lucro é sempre permitido quando "está a serviço da glória terrena de Deus".
3. O CONCEITO DE VOCAÇÃO EM LUTERO. O OBJETO DA PESQUISA
História do verbo "chamar", o Beruf, e do substantivo "vocação".
O nascimento da demonização do período de ócio. O trabalho é que é a vontade de Deus (influências deterministas).
Ódio às cerimônias difundidas no "calendário pagão-cristão", cheio de dionisidades... O país pára no Carnaval... mas quer saber? Tem mesmo é que parar! Carnaval e futebol são a chave para uma vida mais artística...
P. 75 - "O pão nosso de cada dia nos daí hoje" - não amanhã, o amanhã que nunca chega... Por isso o evangélico "já não reza".
Paulo e Lutero como tradicionalistas. A que serviço... Verdadeiros Édipos!
"indiferença paulina [ao mundo do trabalho]", p. 77
LUTERO à DESENVOLVIMENTO DE à a) luteranismo ortodoxo; b) luteranismo heterodoxo.
Catolicismo x calvinismo à parece ser mais explícito
Mas Calvino e Lutero se complementam (finalmente algo A FAVOR de Roper).
A Divina Comédia (p. 79): é benquisto ser expulso do Paraíso para contar o que viu a alguém - de nada vale a contemplação muda, é esta a verdade! Se não me engano, despejo a mesma coisa em SIMMEL AVENTUREIRO, dia 5/12/08. Se não despejo, trata-se de um comentário do autor ou de seus comentadores. (*)
P. 80 - dura crítica à idealização de um povo em cultura nacional, como se homogêneos fossem: "os ingleses, os alemães..."
P. 81 - a tragédia em Weber, dialética bruta(l):
"programas de reforma ética não foram jamais o ponto de vista central para nenhum dos reformadores (...) A salvação da alma (*), e somente ela, foi o eixo de sua vida e ação (...) os efeitos culturais foram conseqüências imprevistas e mesmo indesejadas do trabalho dos reformadores"
(*) Quem disse que o homem quer ser salvo, quer ser FELIZ? Esse sim é um questionamento filosófico que não se costuma fazer.
NOTAS DO CAPÍTULO 3
53 (185-188): sobre a história lingüística de Beruf (vocação). Provavelmente, no Português [não-citado na obra] o sentido hodierno se dissociou muito dessa origem divina. Weber aponta para o fato de Lutero ter modificado o alemão para ensino de sua doutrina (processo que se poderia batizar de racionalização da língua) - deste empobrecimento do idioma nós, além-mar, escapamos, e Nietzsche o saberia bem (o que não quer dizer que o Português seja perfeito para um poeta-filósofo se expressar).
P. 190 - certamente há uma metafísica nas ações! Uma razão (entenda que degenerativa, apenas uma de tantas próximas e passadas) para tudo! Vide este texto clerical: "Se alguém foi chamado já circunciso, não dissimule sua falta de prepúcio. Foi alguém chamado com prepúcio? Não se faça circuncidar". Assim como dia 17 de outubro na biblioteca compreendi eu ser o centro não-sendo, essa dissimulação eterna entre unidade e caos, me veioà tona um passado que eu não pude escolher que me torna o que eu quis. É uma consonância cósmica. Ao mesmo tempo há metafísica e não há: afinal, é um anel!
Afinal, o que é a literalidade bíblica?
Calvino veio depois de Lutero e secularizou, intramundanizou Beruf (no horrível dialeto da tradução da Cia. das Letras).
Pascal, 193: objeto de desgosto e do mais alto apreço - simultâneos - de Nietzsche.
58 (194) - da teodicéia - Adão peca porque foi impulsionado por Deus, que vê nisto a perfeição de seu próprio mundo.
65 (196) - de como foi vantajoso para o Reino Unido manter "satélites", Irlanda, Escócia, ao invés de POSSUÍ-LOS de maneira irrestrita.
-FIM DA PARTE I-
Escrito por wormsaiboty às 23:33
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PARTE 2
A ÉTICA PROFISSIONAL DO PROTESTANTISMO ASCÉTICO
1A. OS FUNDAMENTOS RELIGIOSOS DA ASCESE INTRAMUNDANA (cotidiana/imanente)
4 "seitas" ou portadores da ética protestante:
- CALVINISMO
- METODISMO (neo-ascetismo, ver p. 87)
- ANABATISMO e correlatas (provincianas tendentes a Calvino)
(ascetismo de tipo pleno)
(sobras místicas)
(obs.: o pietismo inicialmente não queria se desvincular da igreja católica-mística; o metodismo não pretendia romper com o puritanismo clássico - percalços da história)
ISMO's "parecidos mas diferentes" ou, antes, heterogêneos mas semelhantes - a semelhança é mais forte na consideração do espírito ascético.
Segundo me parece, não há uma relação de correspondência entre anglicanismo e calvinismo, porém me soa claro que todas as igrejas inglesas efetuaram a cisão com o papa - e não poderia deixar de ser: com tolerância religiosa ou não no país, fato é que houve uma contenda/queda-de-braço entre o Papa e o Estado britânico como um todo, e qualquer templo devia "obediência" a ele: OBEDIÊNCIA lato sensu, ou seja, apenas para resumir que Estado-Igreja, no ato de governar e de representar o divino, muitas vezes são um corpo só (a Igreja também mandava no Estado). De fato, os perseguidos da diáspora americana foram aqueles que recusavam a ode ao templo (intensa hierarquia).
Não houve "revolução" nas casas de Deus. Uma ia se distanciando da outra conforme os séculos.
Barafunda:
Historicamente, há tese e antítese. Anglicanismo é o que de mais católico poderia haver na Inglaterra (cf. 88). Sua oposição inicialmente se aglutinava no rótulo "puritanismo" (portanto sem Martinho Lutero), que ainda não era um calvinismo devidamente modelado.
CONTRA GUSMÃO
O papel de Lutero é anterior e se circunscreve à compulsão pelo trabalho. Estranho híbrido formado: sinal da predestinação ao paraíso na vocação temporal enriquecedora! Roper não pode contestar Weber se este reconhece as exceções mas constata - habilmente - que de qualquer modo foram as famílias progressistóides que "elevaram" a condição da Grã-Bretanha e espraiaram a configuração Europa e América afora. Tampouco faz sentido jogar no começo de uma aula a afirmação de que Weber atribui à ética protestante somente o início da expansão capitalista, tornada automática depois, se logo em seguida se vai evocar que os budistas também convivem com o lucro - não é esta a questão: ascese extemporânea alguma seria capaz de gerar "homens práticos" (eles são o contrário da denominação - ver RACIONAL X IRRACIONAL em Weber!), e ele (o professor) sabe que o que é "flagrado" nestes países é posterior à onda de acumulação inglesa, o que faz deles VÍTIMAS e não CRIADORES. Vítimas de um processo já automatizado que não exigia mais a conversão religiosa.
CONTINUANDO, outros templários importaram o costume do trabalho duro que não herdeiros legítimos de Lutero.
P. 91 - Coroa x puritanismo
O "dogma perigoso"
Pp. 91-92, transcrição da Confissão de Westminster; a predestinação é um enigma parcial, uma engenharia diabólica do comportamento humano: sempre haverá a dúvida, o que é natural nosso, doxa, e sabendo-se disso se determinou que o PREDESTINADO é aquele que apresenta a fé, CERTEZA. Mais: eficácia (funcionalismo) e anti-hedonismo (ordem, austeridade, Apolo).
Calvino: aristocrático, em que pese anti-hierárquico! Revogar seu dogma seria ferir a onipotência de Deus. Justiça, culpa ou mérito, como valores humanos, não se comparam ao juízo todo-poderoso.
Luteranismo e calvinismo, não obstante, são iguais. Não saem do lugar. Debate infrutífero entre determinismo e livre-arbítrio.
P. 96 - Gusmão - o mundo moderno com a continuidade da religião - porém, com o rompimento com o mundo mágico - religião pagã!
Interiorização promovida pela esquizofrenia do indivíduo: o esperado. Resultado: abolição da confissão com o padre.
Uma atmosfera tão nauseabunda só podia fabricar doentes mentais!
P. 99 - Kierkegaard e a fissão ética (o fosso latouriano) + teodicéia (uma vez compreendida esta palavra, compreende-se a tese).
P. 100 - Gusmão - calvinista: "ferramenta" (de Deus)
cristão/místico/em parte o pietista: "receptáculo"
P. 103:
"o virtuose religioso pode certificar-se do seu estado de graça, quer se sentindo como receptáculo, quer como ferramenta da potência divina. No primeiro caso, sua vida religiosa tende para a cultura mística do sentimento; no segundo, para a ação ascética. Do primeiro tipo estava mais perto Lutero; o calvinismo pertencia ao segundo."
Ilustrativo
Resumo até aqui: ambos (LUT/CAL) tratam da virtú cristã. No entanto, a de Calvino é mais policialesca, uma venalidade da alma MAIS EFICAZ.
O católico "podia ser perdoado infinitas vezes". Romper com o tradicional não deixa de ser irreligioso. Calvino e Lutero são dois irreligiosos. O Cristianismo é profano par excellence! Lutero DEMOCRATIZA; Calvino INTERIORIZA (não que Lutero não interiorize e que Calvino não demonstre preocupações para com aqueles que não serão perdoados, já que "é preciso acreditar"!). Claro, ainda há sagrado em cada - a sua guisa.
P. 107 - Descartes, a separação do corpo e da mente/alma e a correspondência com a fé calvina.
Ao ler a 110 não posso compreender mais por que o Pietismo não é mero catolicismo!
111 - a faca suicida de Calvino: "como Vossa Santidade sabe que é uma alma salva?"
115:
"A grantia amissibilis luterana, que a todo instante podia ser recuperada com o arrependimento e a penitência, não continha em si, obviamente, nenhum estímulo àquilo que aqui nos importa como produto do protestantismo ascético: uma sistemática conformação racional da vida ética em seu conjunto."
No tempo de Lutero (ou "antes de Calvino", ou "seus adeptos em qualquer tempo") ainda havia a presença entrecortante de Baco. O confessionário era a garantia de sua sobrevivência. Ocorre como hoje em que o fim-de-semana é uma religião. A EXPIAÇÃO cotidiana do "semi-reformado" (pietista) salvava qualquer um... Era um resquício mágico.
-interrupção na 117 para...
NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 2 (CALVINISTAS)
4 (202): relato de como é difícil uma etnografia se não há um respeito na Alemanha pela própria história dos dogmas das seitas provinciais. Mais adiante, o que Tocqueville não viu em Democracia na América: a transformação secular do povo americano.
5 (203): desculpas pelo excessivo número de notas de rodapé!
13 (205): esclarecedora sobre o "deus-de-chave" de Latour e o casamento entre a tendência luterana do "deus bom" e a tendência calvinista do "deus velhaco" (Novo x Antigo Testamento, o crossover moderno p. excell.)
20 (206): judeus são protestantes de outrora, anti-mágicos. Daí a suspeita nietzscheana de que Sócrates esteve em um reduto judio no Egito. O convênio/pacto da (des)razão!
23: o individualismo para Weber - analogia com o duelo racional x irracional. É simples lembrar que são proposições simétricas e de ponta-cabeça, a depender do acusador.
26 (207): do amor ao inimigo, do eremitismo e de outras disposições em Zaratustra.
35 (210-11): a comicidade das missões puritanas para recrutar fiéis - massa de manobra de predestinados à condenação, inclusive na China!
37 (211): Cromwell e sua aliança com a doutrina da predestinação.
Na mesma nota: ensaio de distinção católicos/pietistas.
48 (214): divertido; gosto quando Weber "conversa conosco" e utiliza exclamações. Citações de Pascal: o trabalho é a distração da dor que é estar no ócio, ou seja, um sub-ócio! Volição para a morte...
49: "Como posso ter certeza eu da minha bem-aventurança?", a pergunta-cerne das religiões, segundo Weber. Referente à "brincadeira" dos reformistas com uma pobre alma sempre em DOXA.
50 (215): mais uma vez - da proximidade entre as condutas mística (unio mystica) e pietista.
66 (217-19): menção de Nietzsche. Questão daquela burra, Luiza Rossi (na aula de 21/10): a conseqüência lógica de se enunciar a predestinação é recair no fatalismo (niilismo passivo pessimista); o efeito psicológico, no entanto, à época, foi a compulsão pelo trabalho, a certeza da seleção/eleição ao Paraíso. Obviamente, tal ÂNIMO não perduraria por mais de QUATRO séculos... e seus sintomas de derrocado são desde sempre perceptíveis... "o último limite lógico" do Ocidente, o próprio fatalismo - único resultado cristão a longo prazo (Der Wille Zur Macht).
UM "CAUSO" (25/4/2008)
Viro a página na mesma nota. O que leio me recorda cena do meu último aniversário, saindo da realização de uma prova de História Geral em franca ressaca - na espera pelo atendimento no guichê da xérox, ouço diálogo entre professora e funcionário em que a primeira arremata: "Há que se ter muita coragem para colocar alguém no mundo hoje". Não sei se foi o conhaque do dia anterior ou o sentimento exasperante inevitável de "entrar em contato" com cristãos. Aquela frase me ficou marcada e agora faço registro. É um problema típico de responsabilidade verificado nas índoles fracas, que elaboram autores para cada ação. Mas, seguindo o ditame nietzscheano, é bem melhor que não procriem! Aqui está o trecho que me remete a uma mãe niilista:
"Por razões de princípio análogas [psicologia calvinista querendo acumulação em que pese a danação; logo, em face da Tragédia, amo-a! Nietzsche teve de amar a II Guerra como se se tratasse de obra sua tanto quanto o surgimento antitético de pessoas como eu!], os adeptos de Nietzsche reivindicam para a idéia de eterno retorno, como todos sabem (?), uma significação ética positiva. Só que se trata aqui da responsabilidade por uma vida futura com a qual o SUJEITO DA AÇÃO não guarda nenhuma relação de continuidade de consciência - enquanto para o puritano o futuro queria dizer: tua res agitur {Problema teu!}."
(?) Talvez o círculo letrado que freqüentava a casa do autor - em meu contexto ninguém sabe o que é.
Concluindo a nota, ainda sobra para a coitada da Ciência, a religião do proletariado contemporâneo de Weber!
68 (219): abertura de precedentes para a SANTIFICAÇÃO OBRÁRIA [ética da recompensa] calvina. "Esmolas são um meio de evitar penas temporais."
77 (221): a repulsa dos pietistas pela filosofia de Aristóteles.
80: outra tirada de sarro para cima de Brentano. Weber evidencia a transição gradual de uma ética transcendental dos mosteiros para a cotidianidade.
82: influência da ascese na configuração do ethos militar moderno (precursor, apud. Weber: Maurício de Orange).
91 (223): gênese da secularização americana - o cancelamento da primogenitura. Na Inglaterra este é um direito imemorial cuja "atualização" pode ser considerada o dogma da predestinação de Calvino ("o eleito para herdar").
105 (225-227): "o grande fundamento dogmático (sola fide!)..." - só pela fé se alcança a salvação... Logo a seguir, pesada crítica à passividade alemã.
-fim das notas (parte I) deste capítulo.
Escrito por wormsaiboty às 23:33
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1B. RETOMADA DA LEITURA LINEAR
Pietismo mais próximo de Calvino do que aparenta. Serve aqui a pecha de puritano.
Sabe-se que luteranos/místicos são assistemáticos, enquanto que calvinistas são sistemáticos (ordenamento, ascese, vida privada desregrada). O pietismo, aqui, se subscreve na segunda categoria. Isso porque, lembrar-se, o que fala mais alto é o mandamento calvinista - que lembra a ferramenta - de que obras terrenas são executadas com o fim de ampliar a glória de Deus. Os homens existem para Deus. Seria uma lição de egoísmo herege inverter o axioma. Os pietistas, ainda que coligados ao sentimento, tinham essa idéia em mente: a de que os desígnios da divindade sequer precisam ser compreendidos para se fazerem valer. Weber reconhece a dificuldade de distinguir o calvinista pietista e o não-pietista. A piedade está lá, mas podia muito bem não estar. Não "serve". É apenas uma característica alternada do puritano, uma tendência mais "humanitária".
O calvinista clássico (item A) acredita na auto-prova de que se é um eleito. Esta postura de se antecipar ao julgamento divino - necessária para uma vida de dúvida - é interpretada como soberba pelos católicos. Eis que os protestantes pietistas atenuam essa "arrogância", típica dos eclesiásticos, que sempre se arrogam o título de salvos, de santos. A certitudo salutis provém de mecanismo divergente. Não muito.
Há uma democratização do sentir-se santo e todo um método interiorizado de pacificação da alma, ligado ao trabalho. Obviamente, reside aqui a verve excludente da maioria. Deus abrirá as portas do sucesso só a vocacionados. Ademais, diferencia-se do "mais místico", o católico, por se distanciar da idéia de que o santo era alguém envolvido por certa pobreza material. Pelo contrário: no novo ethos, aquele que não aumenta a graça de Deus pela disciplinação diária é um réprobo.
Um "empregado" é visto como mais adequado ao inculcamento pietista. O calvinista ortodoxo costuma ser o empresário, burguês clássico. Há gradações delicadas aqui, um crescendo de atividade. O pietista é conformado à ética do progresso mas é mais passivo; o caudaloso homem de negócios ou irrepreensível jurista é quem "leva a Economia nas costas", transforma o mundo, moderniza-o, com efeito. O pietista também possui um sub-elemento em sua doutrina conhecido como terminismo: ganha a salvação uma vez, súbita e indefinida, em sua vida, mas pode perdê-la se não fizer por onde.
Metodismo: também "pietista", menos aferrado ao dogma; quer apenas chegar ao seu intuito de salvação de modo mais esquemático. Típico do Novo Mundo.
A certitudo salutis tem chance, por essa doutrina, de se manifestar ainda nesse mundo. Um calvinista diria em represália que também acredita nisso, exceto que seja algo que venha de súbito, alegando ser um processo contínuo até a morte e que um pecado na velhice pode pôr tudo a perder (alegoria da conta corrente), enquanto que o metodista diz atingir o estado de graça em dada altura de sua vida, para supostamente não mais a perder e viver, dali em diante, levemente. Até este dia, no entanto, ele é um puritano como o tipo-médio.
OS DOIS PERIGOS DESTA FUSÃO
Trata-se de um estranho híbrido. Há incoerências poderosas no metodismo - claro que em todas as correntes as "falhas psicológicas" ora vêm à baila. Obviamente, elas estão atreladas ao dogma central da predestinação. Se a certitudo salutis podia aparecer antes, então ou neste momento o indivíduo se desligava da ascese ou se tornava um ultra-calvinista porque sua certeza (de uma coisa perenemente duvidosa!) fazia de si um santo. Aqui cito Weber: "uma exacerbação do tipo puritano pela via do sentimento". É preciso lembrar que a glorificação da santidade é manifestamente condenada por Calvino e por isso a prática de algumas igrejas de auto-legitimar-se era um incômodo calvinista irresolvível. Pois há iconoclastia nestes adeptos (todo puritano em geral), já que não se é "santo por acaso", nem é bom tê-los em alta estima, afinal não se sabe se Deus os absolveu! No espectro da reforma, dir-se-ia que:
- há o luterano, um "reformador inconsciente", místico e crente incipiente na vocação;
- o pietista, já algo concretamente voltado para o dogma da predestinação;
- o metodista, tipo um pouco pietista mas com teor pragmático palpável;
- o calvinista, ideal para descrever a ética da ascese em Weber. É verdade que as fronteiras são difusas e maleáveis, mas geralmente dir-se-ia que o metodista está entre o 2 e o 4, com arroubos conservadores e/ou emotivos (irracionais) em torno do que lhe é peculiar (o "momentum" da consagração/revelação).
Há coisa mais curiosa e exposta a ataques que a fruição de uma sensação por meio de uma série de procedimentos burocráticos? Parece mais um condicionamento mental manjado.
Outro fato: o metodismo despontou realmente tarde, então ele não cumpre o papel que Weber atribui à ética protestante para o surgimento do espírito do capitalismo.
Reputa-se ao pietismo alemão a maior proximidade com o catolicismo, no quadro europeu. Huguenotes e puritanos diriam se tratar de bárbaros, magos retardados no mundo secularizado. No século XIX a Alemanha é o progresso em pessoa, e suas religiões não são vanguarda: ela adota a ascese tipicamente capitalista de outras partes.
D. Batismo e anabatismo
Tempo histórico: 1500's, 1600's, mesmos séculos do auge da influência de Calvino. Itens A e D os realmente importantes na tese. Quakers estão aqui.
Distinção weberiana recorrente: Igreja visível x Igreja invisível. A primeira é típica do mundo católico e proto-protestante (luteranos). Qualquer templo é um elo com a transcendência. A reforma interiorizou a ética e com isso enfraqueceu bastante as formalidades (sacramentos). Desejoso seria que só quem num templo pisasse fosse o predestinado à salvação, embora saibamos da utopia deste intento pastoril. Sucede-se que o próprio condenado cumpre um papel, "aumentando a graça de Deus" (chavão chato!). Ponto forte da nova ética, esta transformação da Igreja é, por motivos óbvios, também um baque infra-estrutural. Muitos são os puritanos reclamantes de uma maior presença espiritual do sacerdote. Resquício mágico - a crescente impessoalidade exige, para o calvinista, a "seitalização" do que era MASSIVO. Os batistas são notórios nesse processo de "almejar-se seita". Outros grupos que acabaram por se converter em seitas não o tencionavam - apenas foram expurgados pela autoridade central eclesiástica, como os metodistas.
Restrição: protestante x católico. Diz o 1º: "não basta conhecer, deve-se sentir" - uma das contra-reações aristocráticas à tradução e popularização das escrituras (ou seja, da vulgata gerada pelo próprio protestantismo, enquanto ainda fosse "católico" na acepção bíblica).
Estes templos municipais anabatistas seriam de culto pagão (sem confessionário; o segundo batismo era tão-somente a revogação do primeiro, era mais um "não-batismo" que batismo!) - o que é cúmplice do DESENCANTAMENTO DO MUNDO. O grande papel estaria no OFÍCIO (trabalho).
135: "a idéia de que Deus fala somente quando a criatura se cala"
Os anabatistas são uma miscelânea de todo o já visto. Claro que eles possuem algo de específico. Aqui vai: mais "afastados do mundo" que qualquer puritano, eram avessos à política e a cargos públicos. Seu interesse se centrou na pecúnia e na ascese intramundana.
Preponderância, já há algumas páginas, de citações como "regeneração" e "obra", interconectadas. A predestinação co-habita com impulsos conciliatórios de "vamos lá: grande perseverança nos redime ante Ele".
Weber promete indefinidamente aprofundamentos na abordagem que nunca chegam, e o livro está acabando...
Benjamin Franklin: um quaker, para o autor.
137-138 - FULCRAL:
"De caso pensado, não partimos das instituições sociais objetivas das antigas igrejas protestantes e suas influências éticas, nem em particular, da disciplina eclesiástica, tão importante, mas dos efeitos que a apropriação subjetiva da religiosidade ascética por parte do indivíduo estava talhada a suscitar na conduta de vida. E não só porque esse lado da coisa foi de longe o menos estudado até hoje. Mas também porque o efeito da disciplina eclesiástica nem sempre ia na mesma direção. O controle eclesiástico-policial da vida do indivíduo, tal como foi praticado nos territórios das igrejas estatais calvinistas, tocando as raias da Inquisição (*), podia ao contrário contrapor-se, por assim dizer, àquela liberação das forças individuais que era condicionada pela busca ascética da apropriação metódica da salvação, e de fato assim ocorreu em certas circunstâncias."
(*) Se a Contra-Reforma foi pesada, não devemos pensar na Reforma como algo mais brando.
139
"A ascese cristã, que de início fugira do mundo para se retirar na solidão, a partir do claustro havia dominado eclesiasticamente o mundo, enquanto a ele renunciava. Ao fazer isso, no entanto, deixou de modo geral intacta a vida cotidiana no mundo com seu caráter naturalmente espontâneo. Agora [séculos XVI-XVII] ela ingressa no MERCADO DA VIDA [açougue!], fecha atrás de si as portas do mosteiro e se põe a impregnar com sua metódica justamente a vida mundana de todo dia, a transformá-la numa vida racional no mundo, não deste mundo, não para este mundo."
Nas duas passagens acima os grifos são do autor.
NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 2 (PIETISTAS, METODISTAS E BATISTAS)
111 (229-31): contendas Estado-Igreja. O extremo dessa cisão entre vontade de sagrado e temporalidade reside nos aristocratas anabatistas. Impulso capitalista e tolerância religiosa não estão em absoluto associados.
115 (231-2): Weber critica a intromissão de termos da Psicologia.
119: mais contenda. Desta vez, não especificamente Primeiro contra Segundo Estado, mas contra o Terceiro (clero x burguesia).
146 (236-7): do percurso filosófico da idéia de piedade e da teodicéia, passando pelas ciências modernas, ao projeto pedagógico nefasto das escolas do Ocidente (a nefasta preferência protestante pela Física, a disciplina que "desencanta o mundo"). Citação de Descartes, Platão et al.
169 (240): religião e economia - qual é epifenômeno e qual é causa incondicional? Sabe-se a antinomia de Weber em relação a Marx, mas no fundo são dois "brincalhões da Grande Ciência", que não vêem moral ou condições materiais como sobredeterminantes - tão-só recíprocas, justapostas. É a minha aposta. Algo eles precisam eleger, caso contrário seria escusado não tergiversar sobre essas coisas, sem uma palavra. O próprio Nietzsche seleciona a sua: moral. São estas três palavras conotadoras de universos amplos o suficiente para descreverem a condição humana.
171 (241-2): os anabatistas, tais quais pietistas e metodistas, são secundários para o trato da ontologia da ética burguesa. Batistas, quakers e menonitas se encontram no foco dos problemas, ao lado dos calvinistas ortodoxos.
179 (243-4): consideração sobre a democracia no mundo moderno e seus dois diferentes tipos (porque de dois distintos precedentes): 1) a democracia radical dos povos de ascendência puritana - "radical" no sentido de que pendem a uma isonomia fundada na liberdade individual (Tocqueville) e na ausência de um chefe a que se deva obediência (Pai); 2) a democracia "latina", paternalista, instaladora de tensões - autoritária, igualitária, contraditória (França, Brasil, Portugal, Espanha - ditaduras equivalentes à militar brasileira - Alemanha - pois Lutero é um "protestante manso", o país é falso-evangélico, trata-se de um povo católico nos séculos XIX e XX -, Itália... Curiosamente, os dois principais pivôs da Segunda Grande Guerra, o "Eixo do Mal"). E então, o que há de novo? Ora, defasagem se explica pela ascese intramundana. É dito que entre os quakers o ataque às imagens foi tão aberrante que gestos de etiqueta como "tirar o chapéu" se tornaram sinônimo de submissão espiritual - e portanto razoáveis chances de não ser um eleito. Esta peculiaridade genial é oferecida por Weber como a explicação dos modos rudes do norte-americano, um caipira se comparado ao gentleman da Rainha.
189 (246): Veblen apud. Weber: "super-homem econômico", "acima do bem e do mal" - provavelmente se refere a figuraças esporádicas: de Rockefeller a Chateaubriand. Esses homens nunca deixaram de haver, mas não como fenômeno de massa até a era moderna, ressalte-se de uma vez por todas!
190: o "formalismo da ética puritana" e seu absurdo apreço pela honestidade em simultaneidade com o lucro - não, não há compasso...
Escrito por wormsaiboty às 23:30
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2. ASCESE E CAPITALISMO
Calvinismo ortoàheterodoxo. Era o 2º o de grandes nomes por trás das seitas protestantes: Baxter é o renomado puritano; o destaque pietista (alemão) recai sobre Spener; e ainda temos Barclay como porta-voz dos quakers.
P. 143 - na Baixa Idade Média já se tolerava a usura mesmo entre o clero. Na Reforma, pelos escritos de Baxter, houve grave recuo, a reprovação da riqueza. Como? O perigo da posse é o que ela carrega consigo - ócio e prazeres da carne... "Perder tempo é o pior dos pecados" - luxúria, preguiça à "tempo é dinheiro". Tempo é execução da ampliação da graça de Deus. Descansar? Só no domingo - e lá isso.
Tomás de Aquino ainda não enxerga no trabalho a "ferramenta de Deus".
Baxter não aceita sequer as exceções tomísticas, inclusive para os ricos: estes devem trabalhar mesmo que não dependam disso para a imediata sobrevivência.
É demandado obedecer a sua vocação - e nisto não está incluída a contemplação!
Baxter é smithiano em alguns pontos (nota 226: vantagem comparativa). Outrossim, defensor da especialização do trabalho, um ordenamento para as funções do indivíduo - artesão em xeque (ele é um "vadio").
ATUALIZAÇÃO: vê-se hoje que a carreira estável petrificou-se em mito. Sintoma de décadence.
"Não o trabalho em si, mas o trabalho profissional racional, é isso exatamente que Deus exige" p. 147
Abertura de precedentes: aceita-se a troca de vocação (que é metafísica!) e o acúmulo de várias delas sob a alcunha de um só, tomando por base, claro, que se está em crescente congraçamento com Deus - e isso é o que importa!
Baxter e os demais "engenheiros" selecionavam os trechos propícios do Velho e do Novo Testamento para seus sermões - enquanto qualquer fragmento tradicionalista era logo rechaçado. A propalada guerra com o mundo mágico.
P. 152 - ILUSTRATIVO à Carlos I e seu Book of Sports - afinal, o Protestantismo nasceu inimigo do corpo (escusa: "preservá-lo!") e só depois, vagarosamente, adentrou em mutações - emergência do homem trágico [ensaio e textos de Sociologia do Esporte]. As seitas calvinistas eram originalmente inimigas do esporte, pois seria uma "prática francamente irracional", pelo desperdício de energia física, além de estar sempre atreladas a "apostas e bebedeiras", nas próprias palavras de Weber. Era-se até contra banhos quentes!
WEBER PROFETA - P. 153 - o mecenato.
P. 154 - cultura de massa/indústria cultural à contra a "divinização da criatura" - roupas iguais - hoje - MODA - Olimpianos.
"(...) a ascese era a força 'que sempre quer o bem e sempre faz o mal'" p. 156. A benção de Deus é a semente do cúmulo da culpa.
"E confrontando agora aquele estrangulamento do consumo com essa desobstrução da ambição de lucro, o resultado externo é evidente: acumulação de capital mediante coerção ascética à poupança." - DIFÍCIL DE REFUTAR! Detratores, experimentem...
Holanda à Inglaterra, ciclo de Arrighi
Efeito trágico das normas: "A história inteira das regras das ordens monásticas é em certo sentido uma luta perpetuamente renovada com o problema do efeito secularizante dos haveres"; "O mesmo também vale em maior escala para a ascese intramundana do puritanismo" - metodismo tardio como uma das reformas dialéticas.
pp. 159-160: a auto-constatação do paradoxo cínico e da crise de valores.
Robinsonadas quer dizer: a idiotia do Homo oeconomicus.
Os primeiros efeitos da ascese só puderam ser sentidos em um tempo retardado, logicamente. O princípio do problema da mendicância em escala global. Os anglicanos se locupletavam com a presença de um - sua salvação era facilitada por intermédio de esmolas - DEPENDIA delas. Os puritanos, pelo contrário, trabalhavam por uma reforma constitucional que recrudesceu a indigência (o típico de proliferar o mal que se "enseja" debelar).
Emergência da questão trabalhista.
Rico à trabalhe para o lucro à (ele) amplia a glória divina
Pobre à venda sua força à (isso) é edificante
164-165: belo tratado da decadência. Rival de Marx? HAHAHAHA
(adaptado)
"Quis o destino que o manto do santo se convertesse em uma rija gaiola de ferro!"
(ipsis literis)
"Também a rósea galhardia de sua risonha herdeira, a Ilustração, parece definitivamente fadada a empalidecer, e a idéia do 'dever profissional' ronda nossa vida como um fantasma das crenças religiosas de outrora."
P. 166 - o neo-caráter agonístico-esportivo dos EUA.
O MAIOR PARÁGRAFO DA SOCIOLOGIA - p. 166
"Ninguém sabe ainda quem no futuro vai viver sob essa jaula e, se ao cabo desse desenvolvimento monstro hão de surgir profetas inteiramente novos, ou um vigoroso renascer de velhas idéias e antigos ideais, ou - se nem uma coisa nem outra - o que vai restar não será uma petrificação chinesa [ou melhor: mecanizada {comentário da 2ª edição de Weber}], arrematada com uma espécie convulsiva de auto-suficiência. Então, para os 'últimos homens' desse desenvolvimento cultural, bem poderiam tornar-se verdade as palavras: 'Especialistas sem espírito, gozadores sem coração: esse Nada imagina ter chegado a um grau de humanidade nunca antes alcançado'." [grifos meus]
DE ARREPIAR!
Depois: diretrizes para os pesquisadores sucedâneos.
E Weber admite o entrelaçamento irresolvível de causas à nota 307 - Marx.
-A cereja do bolo...
NOTAS DO CAPÍTULO 2 PARTE 2, AS CONSIDERAÇÕES FINAIS DE WEBER
Concepção forense de justificação - baseada em provas inexoráveis (inexistentes) à santificação, jogo da DOXA, interiorização.
198 (247): Baxter é anti-mamonista (mamona = dinheiro), o que REALÇA Weber ao invés de refutá-lo - o que importa é o efeito indesejado (impulso à parcimônia e autocontrole coincide com lucro; se ele não é gasto - não pode ser -, é reinvestido ou no mínimo poupado e os juros trazem mais dinheiro - aqui temos o clássico caráter trágico do dinheiro, Édipo-Frankenstein, que se deprecia a si mesmo ao se inflacionar - logo o limite do pecado se dilata - contrai, entendeu-se!).
204 (249): a proibição do "falar sem pensar" - "em boca fechada não entra mosca" - e a recomendação de Nietzsche de que é preferível falar a escutar. "Economizar na fala". HAHAHA.
211 (251): o DESINCHAÇO da cidade grande é outro sinal de transmutação. Um dia compilarei a lista completa!
Mito do desenvolvimento zero (o progresso já não se dá crédito)
Fusão entre trabalho e lazer (flexibilização da rotina)
...
214 (252): pietismo x puritanismo
216 (252-3): "escalas de casamento" conforme prática do sexo / Simmel / o problema do médico do Ocidente (à Gaia).
224 (254): Soneca: Spener (piet.) avesso à troca de vocação + 232 (257) + 246 (260)
225 (254-5): sistema hindu x protestantismo e judaísmo.
233 (256): "Matarás [por vias indiretas, como o cultivo de tabaco]!"
235 (257): classe média, burguesia, o limbo entre a nobreza que OSTENTA (pecadora) e o miserável (vadio, pecador). Ciclo da poupança já referido duas vezes.
236 (257): catolicismo e protestantismo podem até concordar de soslaio, mas a questão vocacional e ascética era periférica no primeiro.
239 (258): Carlos I, o primeiro "estadista do bem-estar social", indignando os partidários do liberalismo puro (ainda que estatal).
244 (259-60): protestantes x judeus.
252 (260-2): mais QUESTÃO JUDIA. Kant ascético. Realmente esclarecedor sobre a ética judia. Aparentemente, espírito judeu + protestante compõem o capitalismo em seus ciclos D-M-D', fases de expansão materiais (M-D-M') e especulativas. (Na mosca com relação a ROPER.)
Judeus à capitalismo especulativo-aventureiro;
Ascetas à capitalismo burguês-burocrático.
Este é o esboço feito no fim da nota, só que o Protestantismo ALIMENTA o Judaísmo ao promover o lucro E a não-gastança. Parece uma alternância de bastão.
ARTES & HOLANDA (questão de teimosia de um docente):
258 (263): o "nada absoluto" da arte musical inglesa. Dêutero; Rembrandt... + 260.
"o que se ouve o mais das vezes a título de 'canto coral' é uma gritaria insuportável para ouvidos alemães" + notas na página e verso...
261 (264): configuração da Holanda ou Países Baixos. O mercenarismo e a fragmentação: "os pregadores ingleses evocavam o exército holandês quando queriam ilustrar a confusão babélica das línguas".
+ jogo moral/imoral (perspectivismo habitual weberiano): exércitos inglês e alemão.
262 (265): "em Shakespeare, ódio e desprezo pelos puritanos não perdem a chance de se manifestar a cada passo de sua obra"; "Ainda em 1777 a cidade de Birmingham denegou autorização para a abertura de um teatro sob o pretexto de que iria fomentar o 'ócio', sendo portanto prejudicial ao comércio [hoje teatro = comércio!]".
273 (267): o imperativo categórico e o direito à herança. "Quem se diverte em esclarecer uma idéia seguindo-a até suas últimas conseqüências, lembre-se daquela teoria de certos milionários americanos segundo a qual não se deve deixar para os filhos os milhões adquiridos só para não privá-los do benefício moral que só a obrigação de trabalhar e lucrar por sua própria conta e risco pode dar: hoje, evidentemente, isso não passa de uma bolha de sabão 'teórica'." à sabão em Brentano (mais um). Ou seja, a moralidade dos calvinistas enriquecidos não passa para os descendentes a longo prazo.
276 (268): "o quaker era (...) a 'lei da utilidade marginal' ambulante".
278: Bernstein e o Norte poupador.
289: autoconsciência sempre houve, difícil é cessar a impessoalidade: não pecar implica no chamamento do pecado; a religião se perdeu e Deus foi morto.
293 (272): "Como se vê, o interesse de Deus e o do empregador confundem-se aqui de forma suspeita" - patrão = Deus (Jesus tem pai mas não tem pai - eis o culto da imagem quando interessa) / a repelência aos gordos - para ver aonde os EUA chegaram...
298 (273): Marx... eles se amam!
303: o cosmos científico goethiano, o homem sem espírito pós-moderno. E a inversão cretina de Benedict, Ruth [antropóloga estúpida].
308 (275): epílogo: "Também não sou muito afeito a escrever livros mais grossos, desses que precisam se apoiar fartamente a trabalhos alheios" - para mais sobre a "igreja invisível" ele recomenda seu AS SEITAS PROTESTANTES E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO.
293: vender sua força de trabalho é "dignificante", é o recado para o proletário.
Escrito por wormsaiboty às 23:27
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TRANSCENDER 13 (E)
Ensaio sobre a Dádiva
Esta resenha será dividida em tópicos (as mesmas três partes, em 3 posts) e subtópicos correspondentes aos empregados por Marcel Mauss:
INTRODUÇÃO - Da dádiva e, em particular, da obrigação de retribuir os presentes
- a) Epígrafe - O antropólogo irá tratar aqui de um fenômeno batizado de "dádiva", a ser pormenorizado mais à frente. Por enquanto, basta a consideração de que em toda dádiva está embutida uma contradádiva, e nisto se poderia resumir por enquanto a espécie de contrato social que vigora em várias sociedades "primitivas" (outro intuito de Mauss é demonstrar o quanto este termo está equivocado, pois o sistema da dádiva é algo plenamente maduro do ponto de vista ocidental e, até seu tempo, isso era difícil de reconhecer).
- b) Programa - Mauss introduz os dilemas ou perguntas principais de sua tese: qual força misteriosa impele o receptor da dádiva à contradádiva? O que existe de direito real (arcaico) incrustado no direito pessoal, nome pelo qual nos acostumamos a chamar nossas garantias e deveres constitucionais (nos termos maussianos, "conclusões morais sobre (...) a crise de nosso direito", p. 189)? Analisando sociedades míticas, em que não existe a noção de indivíduo dissociado de um todo, pretende-se chegar a estas respostas.
- c) Método seguido - Há uma semelhança incrível entre o método comparativo de Mauss e o método histórico ensejado por Franz Boas, que será, aliás, enormemente citado em notas de rodapé. Objetiva-se o "acesso à consciência das próprias sociedades" (p. 189) e, para tanto, há a consideração do sistema cultural em sua completude, sem comparações fragmentárias entre instituições de um e de outro povo, o que "tiraria a coloração" delas, pela perda do contexto.
- d) Prestação, dádiva e potlatch - O número de sociedades ao redor do mundo descritas detalhadamente por Mauss - para comparação posterior - é razoável e será possível encontrar desde "sistemas parciais da dádiva" até "dádivas totais" ("prestações totais" ou potlatch, como Mauss emprega, que quer dizer nutrir ou consumir), esta última variante encontrada nas tribos do noroeste americano. Algumas destas culturas apresentam pistas de parentesco (uma adotou o sistema após contatos com outra que já o adotava e depois o suplementou a sua maneira), mas este fato não é uma necessidade absoluta (há casos de desenvolvimento autônomo das prestações e contraprestações).
- As dádivas trocadas e a obrigação de retribuí-las (Polinésia)
- a) Prestação total, bens uterinos contra bens masculinos (Samoa) - O próprio casamento se afigura como relação de prestação e de contraprestação: oloa é como são chamados os bens masculinos (móveis) e tonga os bens femininos (imóveis). A criança é tida como um bem uterino: ela é literalmente um bem que será fonte de contradádivas pelo resto de sua existência (parentes que o presentearão - regalarão, em conseqüência, o núcleo da família do menino ou menina - com oloas, bens móveis). Mas tal sistema samoano não é ainda um potlatch (prestação total), uma vez que fica faltando um pré-requisito essencial: a ocorrência da guerra caso a reciprocidade não tome lugar.
- b) O espírito da coisa dada (Maori) - O tema ganha em abrangência quando migramos, em pensamento, para outra sociedade, a dos maoris. Sucede-se a transição do conceito anterior "tonga" para "taonga". Cada taonga tem o seu hau (aqui, tonga ganhou em amplitude) ou mana, quer seja, espírito, alma, atributo sem o qual "não se está vivo", "não se está". Pois bem: quem infringe a regra da dádiva e da contradádiva tem seu hau destruído, a maior vendeta imaginável (vendeta = vingança - quando alguém comete um crime, supostamente será alvo de vendeta daqueles em comunhão com as vítimas). Eis a caracterização da violação às regras de troca como crime, "punido" e sentenciado de forma diversa do nosso sistema de justiça. Portanto, a coisa "tem poder sobre o ladrão". Se a coisa tem poder, ela não é inerte (a propriedade "resmunga", "grita", cf. p. 254 e circa). A interpretação das coisas terem haus é que sejam espíritos, antepassados, objetos que foram de antigos maoris e que ainda encerram suas atribuições, e jamais deixarão de fazê-lo, posto que circulam indefinidamente. Há um vínculo inseparável entre coisas e homens aqui: na própria linguagem nativa, seria impossível determinar o que é o quê.
- c) Outros temas (a obrigação de dar, a obrigação de receber) - Não consiste o potlatch apenas em retribuir, mas, por inferência lógica, em sempre oferecer e receber (afinal, a retribuição só existe com estes dois verbos a ela vinculados), e jamais recusar convites (exceções são enumeradas, mas creio que não seja preciso chegar a esse nível de precisão).
- d) Observação - o presente dado aos homens e o presente dado aos deuses - Estendendo as conclusões sobre o hau, tem-se que os deuses são os "verdadeiros proprietários das coisas e dos bens do mundo" (p. 206).
- e) Outra observação, a esmola - Alcunha-se aqui a teoria da esmola, uma eventual origem do nosso "Doces ou travessuras?" do Dia das Bruxas: "dádivas às crianças e aos pobres agradam aos mortos" (p. 208), em última instância aos deuses. Sendo assim, é demandado "dar" para não entrar em desgraça. Mauss precisa o momento em que os termos hebraicos da Bíblia passaram a significar esmola ao invés de outra coisa menos clara, o nascimento da doutrina cristã como adequada para aqueles que viviam em penúria material.
Escrito por wormsaiboty às 15:38
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2. Extensão desse sistema - liberalidade, honra, moeda
- a) Regras da generosidade. Andaman (obs.) - Os antropólogos desta escola racionalista francesa não priorizam a história (apesar de levarem em alta consideração as metamorfoses do Direito nas diversas sociedades) - fogem do difusionismo puro e também do "independentismo puro e simples das descobertas de um povo" (neste aspecto lembram muito Boas, ao se situarem em uma escala intermediária, de moderação na explicação das "invenções culturais").
- b) Princípios, razões e intensidade das trocas de dádivas (Melanésia) - Por diversas vezes, ficamos sabendo que o "comércio circular ou de retorno", de taongas ou bens, o potlach ou kula (em Malinowski), costuma ser realizado intra-chefia, ou seja, entre os chefes de fratrias e tribos. Eles - e o povo que mediam - estão sujeitos a sanções como o banimento do indivíduo ("O esquecimento tem conseqüências funestas", p. 246). Correspondente a essa noção e não menos importante, temos as classes sociais destas sociedades. Pensava, por noções antropológicas anteriores à leitura deste livro, que as sociedades australianas "primitivas" careciam de divisão social em estamentos. Porque fica transparente em Mauss (e Malinowski, no kula) a presença de um ethos nobre, à maneira hindu, no tocante às relações de trocas entre os indivíduos. Os presentes da troca são supérfluos no que se refere à subsistência, mas nisto reside sua importância e sua nobreza (para não deixar margem para dúvidas, está é uma questão que, exteriormente, varia: tais presentes podem muito bem constituir filhos e comida, bens claramente de subsistência, tomados sem um contexto definido, no entanto é requerido observar a função desse tipo de honraria. É escusado dizer que aqui se trata de dádivas sem as quais, em tese, ainda é viável uma vida - só que não é suficiente tê-las só para si ou não tê-las, é necessário haver essas relações de troca entre os nativos, como se sem isso, com efeito, viessem a morrer. Prova cabal disso é o costuma ancestral esquimó de presentear o visitante - e não o nativo, o que é uma peculiaridade - com sua própria esposa, ao menos na primeira noite em que o estrangeiro é recebido em suas dependências: sem isso sua existência se tornaria vexatória, indigna). Há um distanciamento soberano entre a dádiva e o econômico/cotidiano: não pode haver barganha, pois isso denegriria o processo. Há inclusive a idéia do juro, mais moral que material (qualitativo ao invés de quantitativo, exato, matemático): em um mês se viaja sem mantimentos e se é acolhido; pois no próximo a intenção é receber aqueles anfitriões de outrora com ainda mais luxúria e opulência. Talvez por isso haja um impulso de "dar" inicialmente: dar sem ter recebido indica honra e significa um grande presente ou banquete vindouro.
Na nota número 29 entra em jogo o complexificador do sistema: a moeda. Mauss lista algumas etapas de consolidação do sistema financeiro até o presente. Antes de a moeda ser um equivalente universal de todos os bens e que não é um bem por si (o que ocorre em nossa sociedade - uma nota de 10 reais não pode "ser vendida" por 2, ou então por 25 reais, pela sua beleza ou para qualquer tipo de consumo final, se seu valor ainda está em curso e não estamos falando de colecionadores), ela era também qualidade, estava atrelada à magia, ao hau. Ou seja: apesar de envolver algo de impessoal, a moeda arcaica não o é de todo (aliás, disso está distante). Tanto é assim que Malinowski e Simiand contestam a classificação de Mauss, que atribui ao cobre, conchas, gado e a tantos outros talismãs das sociedades estudadas o título de moedas. Sua defesa é de que apesar de não haver uma arregimentação fixa do valor de troca, este existe, pode ser expresso em números, e isso basta. Tampouco há um centro burocrático emissor da moeda ou que a estipula por lei; mas para as considerações em mente do antropólogo francês a lei escrita é banal: basta que seus efeitos se verifiquem, e parece realmente ser uma instituição de uso universal nas fratrias e clãs. A relação do indivíduo local com a moeda é curiosíssima: "Os proprietários os manipulam [os pedaços de cobre] e os observam durante horas. Um simples contato transmite suas virtudes. Colocam-se os vaygu'a sobre a testa, o peito do moribundo, eles são esfregados em seu ventre, balouçados diante de seu nariz. São o supremo conforto dele" (p. 219). O contraste com nossa situação chega à comicidade: apesar do alto apreço pelo dinheiro e de eventuais demonstrações de "fruição do poder", como o milionário que "se banha de notas e moedas" ou que "joga o dinheiro para o alto", contentíssimo (o personagem ficcional Tio Patinhas, que mora num cofre, seria o absoluto disso), tanto o dinheiro de plástico quanto o dinheiro de metal estão mais associados à sujeira; lavamos a mão depois que entramos em contato com cédulas - elas "passam pelas mãos de todo mundo", não servem para nada que não seja "comprar aquilo de que se necessita", seu uso é "pontual e metódico".
E para atestar a "tese da moeda", Mauss lança mão de analogias com um corpo de nomenclaturas com o qual estamos acostumados, ainda que não torne essas ilustrações explícitas. É o caso, por exemplo, da menção ao basi, que funciona nitidamente como "entrada" numa "compra a prazo", uma espécie de "fiado"; e dos "bancos" (nota de rodapé 37). Uma associação do sistema de dádivas com o mundo ocidental é, então, viável: o dinheiro ou capital (forma acabada do dinheiro) é onde nossa potência e sua elevação reside. Onde se concentra o ímpeto cultural de criar. Seu cunho inflacionário, os juros sobre juros e as casas financeiras garantem que amanhã ele será mais que hoje. Assim como o "primitivo" retribui amanhã mais do que lhe foi oferecido hoje. O que é nossa poupança senão um enorme potlatch?
É preciso apenas deixar claro que a dádiva não compreende toda e qualquer transação (o potlatch é entendido como essa totalização, mas mesmo ele carrega cadeias secundárias). Há, acessoriamente, no cotidiano das famílias, trocas meramente comerciais ou o chamado escambo, onde os dois pensam estar fazendo um "negócio lucrativo", trocando algo de um quantum menor por algo de um quantum maior. A essência do escambo é divergente do princípio do potlatch: o impulso do primeiro se direciona ao ganho material, enquanto o segundo, de significação mais profunda e mítica socialmente, é motivado pela moral e pela honra, onde o mais importante é dar. As ilhas Trobriand, onde esteve Malinowski, e suas considerações sobre a enorme variedade de comércios existentes serve de base ao meu comentário.
b.2) outras sociedades melanésias - Chegamos aqui a uma demonstração viva (comprovada pela língua) da "confusão" existente entre "pessoa" e "coisa", indissolúvel nestes povos: "As operações 'antitéticas são expressas pela mesma palavra'" (p. 231), referência à ignorância do nativo quanto a "estar emprestando" e "tomar emprestado": para ele, são uma coisa só. Tal peculiaridade ainda reside parcialmente em dialetos correntes, no Ocidente e na China (notas de rodapé 116 a 118).
c.1) a honra e o crédito - Na página 236 nos deparamos de novo com aquilo que se poderia chamar de bancos, entre os índios americanos (nota de rodapé 131: se todos fossem sacar ao mesmo tempo aquilo a que tem direito por "crédito", haveria uma "quebradeira geral"! Vê-se que apesar de serem sociedades ágrafas, elas possuem tantos elementos especulativos quanto a nossa, e sequer se poderia dizer que nelas estes são "informais", porque há um sem-número de ritos que envolvem os atos de empréstimos, concessões e pagamentos). Aliás, a preponderância do potlatch no noroeste americano é tão patente que uma das tribos se chama Kwakiutl, "rico" no dialeto local. Pode-se concluir, por conseguinte, que o tema da destruição e da guerra ("dar é destruir", p. 239; ato bélico que é, aliás, equiparado a "jogar um jogo") está presente com força nessa região. O banquete cumpre uma importante função social, outrossim. Normalmente, os nativos passam uma estação inteira "dizimando" sua moeda, toda a riqueza, o excedente do restante do ano, em tremendas festas. E Mauss defende que "complexidade jurídica" e "complexidade do fato social" não estão necessariamente em compasso: aqui as normas são mais simples que nas ilhas do Pacífico e no entanto o potlatch é ainda mais ostensivo (ou melhor: se há um potlatch, ou algo que mais se aproxime de um potlatch puro, eis o exemplar). Sobressai, também, a conclusão de que a própria dádiva talvez seja o fenômeno econômico mais fundamental, e quer dizer muito sua configuração como evento complexo: significa que as instituição humanas atuais não vieram linearmente de relações simples que iam se complexificando com o passar do tempo. O autor até acha que o escambo, bem como a compra e venda contemporâneas usuais, é que derivaram desse estado de coisas de prestações e contraprestações, afinal pedir uma mercadoria no balcão de uma loja e dar uma certa quantia monetária por ela é uma espécie de síntese do fenômeno fundamental da dádiva, duas etapas de um fato social camufladas de uma só!
c.2) as três obrigações: dar, receber, retribuir - Reiterando, o axioma máximo descoberto por Mauss em sua pesquisa etnográfica (a despeito de não-presencial) é: "melhor dar do que receber". Mas "receber" não é visto como vexame. O vergonhoso seria apenas receber. Recebe-se com austeridade e polidez e desde esse ponto a ética demanda a retribuição gloriosa e mais rica do primeiro presente.
c.3) a força das coisas - Mauss se escora em inumeráveis mitos das diversas sociedades para ilustrar a importância da dádiva e da contradádiva. Apresentam um enorme poder explicativo alegórico, mas não é necessariário falar em nomes neste resumo - suas idéias se encontram diluídas nos outros tópicos.
c.4) a "moeda de renome" - A partir da página 260 podemos averiguar a extrema relevância do cobre entre os kwakiutl. Já ficou claro há muito tempo, mas finalmente o autor comenta o assunto nestes termos: a dádiva é um fato social total (abrange toda a existência - ou no mínimo muitos, quase todos os, elementos, em uma singular troca - dos povos tratados, do ethos exigido aos nomes com que chamam as coisas, da política à religião, passando pelos preceitos econômicos, pela moda, pela família e pela vida sexual, entre inumeráveis outras minúcias).
Escrito por wormsaiboty às 15:36
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3. Sobrevivências desses princípios nos direitos antigos e nas economias antigas
- a) Direito pessoal e direito real (direito romano muito antigo) - Um sistema jurídico parcialmente mágico e no entanto reconhecedor da propriedade privada (alienação dos bens). A questão é que no nexum romano o escravo ainda é um bem móvel, o que deturpa (em relação à nossa sociedade) a relação sujeito-objeto. Somente na época de Justiniano haverá uma reformulação que torne a "coisa" mais afeiçoada ao que se pode chamar de "inerte". Os antigos romanos são muito similares aos kwakiutl no tocante a bens inamomíveis de uma família, porque eles são a família (é só lembrar da relação dos melanésios e dos índios norte-americanos com a moeda - e transferir automaticamente essa relação afetiva para objetos ancestrais do clã).
a.1) escólio - Na página 272 verifica-se a explicação da nomenclatura reus, de suma importância quando se vai considerar a relação diferenciada que povos mágicos mantém com os objetos - sua relação sujeito-objeto que se afigura, inicialmente, estranha a nós. Os contratos e a punição do furto nos remetem às tribos já estudadas por Mauss: réu - aqui - é o acusado e o acusador! Outras figuras jurídicas comuns a vários tempos e sociedades: o leilão, onde compete-se para dar mais.
a.2) outros direitos indo-europeus - Aos gregos tardios e aos semitas atribui-se o fato da primeira divisão conhecida entre direito real e direito pessoal (modernidade). Mas Mauss é breve por não tê-los estudado a fundo.
- b) Direito hindu clássico (teoria das dádivas) - O Código de Manu é uma extensa lei que trata em grande parte da moral da dádiva. As associações não param por aí: "O Mahabharata é a história de um gigantesco potlatch" (p. 279, grifo do autor). Há variações de hau verificáveis, adaptadas, por exemplo, à doutrina da reencarnação: "O alimento dado é (...) ainda o mesmo alimento na série de seus renascimentos", cf. p. 281. Além disso, "a terra canta", assim como "a casa fala" nos kwakiutl. Há, para se ver, a figura do poeta jurista, evidenciada em uma das notas. O Ocidente é o típico lugar da abertura incomensurável do fosso entre o jurista (técnico) e o poeta (irracional). E é com este poeta do direito que Mauss encerra o capítulo: "Aqui há somente uma roda (girando de um lado só)", é o que o primeiro diz.
- c) Direito germânico (a caução e a dádiva) - A noção que merece ser citada é a de caução, não-ausente (apenas levemente diferenciada) no Império Romano Arcaico: trata-se da garantia contratual que pesará sobre o infrator, e que diz respeito naturalmente à contraparte, também. Eis o velho conhecido (das linhas acima) vínculo entre sujeito e objeto, uma espécie de hau.
- d) Direito céltico - Vizinho do folclore alemão (sabe-se que o Direito se funda nos mitos - tanto isso que autores como Max Weber irão denunciar que apesar da coexistência entre burocracia e Direito, trava-se perpetuamente uma luta neste campo: aquela entre os especialistas, que são sempre reformadores da sociedade, apólogos do progresso, e os juízes clássicos, "sacerdotes", os porta-vozes da vontade divina, que são os representantes dos mandamentos mais arcaicos e tentam "conservar" a sociedade, evitar sua secularização técnica).
- e) Direito chinês - O Direito Chinês também está permeado da noção de "perigo" ou "risco" de se "aceitar um presente". Terras para onde se migra, uma comida que se aceita, podem encerrar maldições, feitiços, de espíritos remotos - os mortos estão nas coisas, são as coisas, as coisas são gente. Este é um país de tradição camponesa em que a terra é considerada parte da família e dificilmente é abandonada. Mesmo na China Comunista não houve a alienação total das terras pelo Estado, como se há de pensar. Um sistema milenar dadivoso não rui facilmente: nas comunas rurais a gerência continuou sendo autárquica e um dos mandamentos de Mao lembra a questão do dom: "Aprender a andar com as próprias pernas", que ensina a recusar favores o quanto for possível (evitando assim o mau agouro de espíritos ruins). Grande parte das informações deste tópico "e" foi complementada pela etnografia de Henrique de Sousa Filho, Henfil na China.
4. Conclusão
- a) Conclusões de moral - Marcel Mauss nos oferece, então, em seu balanço final, ricas páginas. Alerta para o perigo do Homo oeconomicus engendrado pelo projeto moderno, que passa a enxergar tudo como relações venais. Mas na verdade a mágica sempre subjaz em nossos atos, não é possível escapar dela! Os exemplos da aplicação da dádiva em nossa sociedade são vastos. Por mais que se o omite, as coisas ainda têm alma e superstições cotidianas não nos poderiam fazer olvidar. O que dizer de dar três toques na madeira depois de dizer algo de ruim? E o que uma escada haveria de ter a ver com nossa sorte? Há uma luta constante, nos porões da arena social, entre os valores tradicionais/humanistas e a inumanidade (objetividade) de nossos códigos. Receio estar sendo parcial ao criticar este mundo? Não o receio porque estou apenas dando eco à atitude de Mauss. As passagens do francês são, aliás, soberbamente atuais. Ele dá saltos e comenta da lei francesa de proteção aos artistas, do sistema de previdência social, dos movimentos assistenciais (de ONGs, por que não? Ele anteviu bastante coisas...) e proletários - enfim, de tudo que tem uma acepção "anti-mercado" hoje, um quê de comunitarismo. "A sociedade quer reencontrar a célula social", é seu recado exibido na página 297. O perigo, assinalará mais adiante, é quando o pequeno grupo se considera o porta-voz de toda a sociedade.
- b) Conclusões de sociologia econômica e de economia política - Nas páginas 304 e 305 encontramos um belo resumo de todo o percurso delineado até aqui. Na 306, a mensagem de que quão mais alto é o teor mágico de uma sociedade, mais a característica da beleza estará atrelada à da força - o mais belo é o mais forte (invertendo a frase a compreensão pode melhorar), o que mais tem para dar. Ainda na mesma página: se "[a palavra] interesse é recente", conforme o texto, é indubitável que chamar os nativos de "desinteressados" (ou justamente "interessados"!) para caracterizar o potlatch é desprovido de sentido - a linguagem cria essas ambivalências. Está claro que para os nativos da etnografia maussiana não existe nem uma coisa nem outra. Afinal, no mundo mágico a roda gira para um só lado...
- c) Conclusões de sociologia geral e de moral - Enxergo a Sociologia e Antropologia de Mauss como bastante atuais, e um grande serviço epistemológico para as Ciências. Apesar de citar Durkheim em seus escritos, de ser co-autor de livros com ele e de ser constantemente emparelhado com o mesmo, sinto que o sobrinho superou o mestre, porque seus questionamentos não envelheceram, pelo contrário, como os postulados objetivistas de Durkheim. A escola francesa é um interessante esforço de guinada antropológica, pois ensaia a tão necessária crítica ao Ocidente, o que vejo de forma mais acabada em autores contemporâneos como Bruno Latour. São capítulos fundamentais, portanto, da história da disciplina no século XX. Imprescindível leitura para a compreensão da "circularidade da cultura".
Escrito por wormsaiboty às 15:33
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TRANSCENDER-13 (D)
O IDIOTA - Dostoievski
Contém revelações.
1ª PARTE
O idiota é, naturalmente, aquele que ama. A mulher quer a insídia e o desvario.
O que representa, na instância fundamental, o dinheiro, afinal de contas? Nada. Não significa nada para uma vida humana digna.
2ª PARTE
207-8: o Eterno Retorno do Príncipe Míchkin! O estupor e a existência supremos.
Estado febril recorrente nas mentes de grande gênio, também verificável na personagem Raskólnikov de Crime e Castigo.
O ataque epiléptico, segundo o narrador, é "um homem gritando dentro de outro homem".
CAPÍTULO VIII/IX: a discussão-espelho: o Príncipe, acusado por um suposto filho bastardo de "milionário idiota", rebate em exímia exposição que o idiota é o acusador - ou, senão, há no recinto pelo menos dois doentes da cabeça.
3ª PARTE
Teoria similar à de Raskól: CIDADÃO ORIGINAL X GENERAL (aquele que destoa da carreira de funcionário público, o genial, era um tolo, um idiota social). E, afinal, a despeito do atraso do czarismo russo, fervilham naquele país-mundo os tais "homens práticos". Nada mais inglês...
P. 372 e circa - a "convicção suprema" de Ipolit.
P. 409 - do sonho.
4ª PARTE
P. 490: "O Catolicismo romano (...) não chega nem mesmo a constituir uma religião; é, para falar com propriedade, a continuação do Império Romano do Ocidente".
"O ateísmo saiu do próprio Catolicismo romano!"
"(...) tudo foi trocado por dinheiro, por um miserável poder temporal"
"O russo passa muito facilmente ao ateísmo, mais facilmente do que não importa qual outro povo do mundo." Míchkin é sem dúvida alguém à frente de seu tempo.
P. 555 (última) - a edição de capa-dura rubro-negra da BCE possui marcações
"E toda a sua Europa (...) não passa de fantasia" Lisavieta Prokofiévna, uma bela previsão dostoievskiana. Um fim tão mais niilista que o de C&C. Gostei bastante do narrador, em constante interlocução com o leitor, como se fosse, e isso se cita na própria obra, um artigo de revista. Concede leveza à loucura desmedida das personagens, equilibrando a trama.
Outro fato curioso a observar: apesar de ambientar-se na mesma cidade do outro romance, "O Idiota" nos brinda com uma Petersburgo, quereria saber por quê, diferente - nem mais nem menos sombria, tão-somente uma urbanidade paralela. Ao menos é meu testemunho visual - pode não equivaler a outras apreensões.
Escrito por wormsaiboty às 15:06
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DE ARREPIAR A RAIZ DOS CABELOS
Acordei assustado. Eram quinze e um. Porém, os relógios do microondas e do rádio, as únicas referências, estavam piscando. Sinal de que a hora não está certa. Deve ter chovido e um raio resetou o horário durante a noite. Ansioso por saber o verdadeiro momento em que acordei, liguei a televisão. Está passando Domingão do Faustão, nada mais cotidiano (digo, para um domingo). Na RedeTV, um estranho programa de auditório com a Eliana que nunca vi na vida. Apesar da novidade, nem me interesso muito: a TV perdeu a capacidade de mexer com a gente; perdeu nosso respeito; a gente se sente anestesiado diante da caixinha, "anestesia" é bem a palavra. Mas e o jogo, e o jogo? O Domingão do Faustão é uma atração tão gigantesca que não sabemos se é 4 da tarde ou se pode ser 8 da noite... Claro, a Globo nunca vai deixar de mostrar futebol, acaba "cortando em dois" o programa... Mas sei lá, um dia poderia ser que... Bom, para checar se não estava atrasado, mudei para o SporTV.
E foi então que me desesperei de vez. SPO 0 COR 1. Sim, isso mesmo. São Paulo Futebol Clube, placar vazio. Sport Clube Corinthians Paulista, um gol anotado. É segundo tempo, começo, ao que parece. O Rogério Ceni faz como o Marcos outro dia: parte atabalhoado pela intermediária, tentando evitar o segundo desastre. Quem diria que a decisão do campeão por pontos corridos ficaria para o clássico paulista? O Grêmio poderá abocanhar o título se o SPFC tropeçar no arqui-rival... "Segundo desastre"? No meio de semana, quarta-feira, o Corinthians havia curiosamente eliminado o São Paulo da Copa do Brasil... Acordei assustado. Eram nove e um...
Escrito por wormsaiboty às 10:06
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TRANSCENDER-13 (C)
SIMMEL AVENTUREIRO
Resenho Simmel em mais duas ocasiões (já havia sido bastante pormenorizado na análise de A FILOSOFIA DO AMOR e defendi uma curiosa tese a respeito da prostituição contemporânea em ensaio posterior), uma em um riquíssimo livro-coletânea (Simmel & A Modernidade) e outra em Fenômeno Urbano, capítulo "A metrópole e a vida mental" (mais breve).
Fenômeno Urbano
Na página 24 o autor cita o ódio pela metrópole costumeiro dos adeptos de Nietzsche e o quanto, na realidade, esse tipo de profeta obscuro é personalidade amada, diante do quadro de uma humanidade falida que quer ouvir sobre uma possível redenção.
Enxergo uma verossimilhança de abordagem entre quatro grandes gênios, pois observei que 4 de seus respectivos conceitos convergem:
- Durkheim e sua anomia (quando vai descrever o suicídio anômico, fala em termos que poderiam ser atribuídos a Nietzsche no famoso prólogo de seu Vontade de Potência, antecipando-se à crise do Ocidente);
- Bordieu e sua distinção (conceito trabalhado em livro homônimo, a ser investigado);
- Nietzsche e seu emergir do niilismo, a última conseqüência lógica do Ocidente cristão;
- Simmel e seu cidadão blasé.
Simmel e a Modernidade
(26/09/08 a 16/10/08)
INTRODUÇÃO
P. 12 - o nivelamento democrático-monetário percebido como degradante por Simmel.
P. 13 - muito boa à o Deus moderno - CAPITAL.
P. 14 - os dois tipos básicos de homens modernos, o blasé e o cínico:
CÍNICO: quantificação de qualquer valor. Venalidade máxima.
BLASÉ: indiferença; ar sensaborão, insípido; apático, anômico.
Um representa a vontade voltada para a falta de escrúpulos e extinção da dignidade. O pragmático, modelo de advogado, empresário e deputado. O outro é a manifestação do beco existencial produzido. Um sujeito que seguiria sobrevivendo na ética do dinheiro como seus ancestrais cavernosos, embora isso se deva apenas a uma inércia e falta de qualquer alternativa. Assemelham-se muito, tais padrões, ao andróide melancólico e ao hedonista, os dois pós-modernos típicos descritos por Jair Ferreira dos Santos (num plano mais econômico). Eis que no parágrafo seguinte o próprio Simmel se refere à questão da busca do prazer.
P. 15 - sociedade doente (mais um ponto de contato com Émile Durkheim).
Os tradutores apontam para a seguinte faceta simmeliana: enquanto Marx é um teórico dos modos de produção, Simmel concentra-se no mercado, onde o dinheiro "pode ser visto". Seria o andar basilar(*) da pirâmide braudel-arrighiana. Não há um "papa" da sociologia que nos tenha brindado com os três patamares em uma teoria concisa. (**)
(*) No sentido de que sem indivíduos que precisam subsistir não haveria qualquer ciclo de acumulação.
(**) Pois basilar mesmo é o modelo estrutural de Giovanni, no sentido de que ali estão os tentáculos históricos das riquezas das nações. Marx está no "meio"; a fábrica e o trabalhador, instâncias urbanas fundamentais (ainda "homens", mas em inter-relações mais tácitas que em uma feira).
P. 15 - veredicto do parentesco com Nietzsche (o prefácio é de Jessé de Souza).
P. 16 - distinção como única saída. A Publicidade sabe bem explorar o fato.
No quadro destas páginas a pós-modernidade parece apenas um acirramento da modernidade - ou antes o contrário, dado o engrossamento do volume do dinheiro.
Jessé finaliza com a assertiva: "cada vez mais atual". Na mosca.
1. O DINHEIRO NA CULTURA MODERNA (1896)
A purificação moderna (ver TRANSCENDER-11, JAMAIS FOMOS MODERNOS, 23 de setembro).
O ser era a associação.
A sociedade anônima: o dinheiro se INTROMETE (interpõe) entre a instância subjetiva (a personalidade) e a objetiva (a técnica).
O dinheiro JUNTA pessoas de interesses DIFERENTES.
A "tara da troca". Apesar do alheamento das individualidades, a contradição é que se amplia a necessidade de estabelecer relações! "Laços entre os homens" - não seriam laços por demais esvaziados?
Lição de vantagem comparativa e compressão espaço-tempo (economistas e David Harvey - apresento um extenso resumo das conclusões de CONDIÇÃO PÓS-MODERNA, deste autor, em, se não me engano, fevereiro deste ano, vide páginas retroativas do Blog).
Em prol da liberdade? E da restrição da mesma liberdade! Leia-se: tanto o homem pré-moderno quanto o moderno adoram correr riscos. Somatório das vontades de potência = ZERO. (Imagine-se, num exemplo absurdamente cotidiano, que toda a medicina ocidental não é capaz de produzir uma relação satisfatória de "sobrevivência", uma vez que a paixão por carros substitui o animal selvagem e outras intempéries como fonte mortífera e de controle populacional, a seleção da natureza para o que vive e o que não mais viverá.)
P. 31 - belo exemplo: o camponês na transição entre os dois mundos: há, ainda, um quê de insubstituível na terra, embora ela possa ser cedida em troca de um reembolso proporcional (aí está: proporcional à quantidade). Havia, portanto, decisões binárias: uns, mais modernos, se compraziam por reter a remuneração e sair dali; outros não podiam abandonar esta base/tradição milenar.
O que torna Simmel um "pequeno Nietzsche"?
- seu perspectivismo;
- seu caráter trágico (lato sensu);
Nesta segunda categoria enquadra-se a aventura ou "eterno desafio de si mesmo - amar a desgraça. Sísifo (vide posts de julho e agosto). O fim do bode expiatório cristão, a responsabilidade por todas as coisas.
O hegelianismo do mundo moderno: a ansiedade cortante e a esperança - cada vez mais dolorosos - por um FIM: "o tempo moderno e, especialmente, como parece, a situação global vivem num sentimento de tensão, de esperança de pressão não-solucionado como se ainda fossem chegar à coisa principal" p. 34 - grifos do autor.
"O dinheiro é o estado permanente da alma" - o Homo economicus não possui uma "chave de desliga".
P. 37 - parece D. Harvey!
P. 39 - autonomia dos campos. O exemplo que Weber deu para a religião e o impulso capitalista. Poderia - e é, ao mesmo tempo que a hipótese anterior - ser o inverso; está tudo entrelaçado. E nosso caro Max jamais o negou, basta ver a última página de seu livro clássico!
Escrito por wormsaiboty às 23:57
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- CONTIGÊNCIA E PESSIMISMO NÃO SE TOCAM -
Individualmente, pouco importa o contexto espácio-temporal de alguém na consideração de sua propensão à auto-realização, suas chances de terem impulsos tais e tais - isto é, de ser menos ou mais tráfico, de existir "psiquicamente" pior. Mesmo situado como estou em um tempo de stress e de inclinação ao erro e ao ato falho, considero-me em condições de vida análogas a um indigente paquistanês de hoje ou a um mecenas do Quatrocento. Não existe "não nascer fortuitamente". Eu não sou um desgraçado por nascer entre dois tempos que se desmancham. Talvez isso aconteça com todos, nas épocas, mais austeras. Não sofro mais, ou menos. Não vivo mais. Não "perco" coisas, não sou mais arrependido. Pertenço a um limite mas sei que ele não permitiria nada de diferente, somaticamente falando, caso fosso transposto. A vontade de transvalorar e o não conseguir tampouco! O certo é ser uma exceção e viver este lindo Evangelho! Não existe cansaço acumulado. Tudo vale a pena, até quando parece que não. Sou de natureza tal que se não me viessem problemas eu os criaria. Por enquanto esta arte/verdade está assim. Até o próximo rodopio... Se há qualidade na quantidade é essa das 'vitórias sucessivas", quando me venço em todos os tempos e efetuo um registro - um querer cristalizar. O Vontade é águas porque ele é meu e escorre novo a cada dia!
2. (capítulo sobre o mercado de trabalho - Marx é um analista mais completo e não entrarei na descrição simmeliana)
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3. O CONCEITO E A TRAGÉDIA DA CULTURA
"o processo infindável entre o sujeito e o objeto" p. 77
"o sujeito vivencia incontáveis tragédias"
"Esperança". Creio que sejam as mensagens complementares de Marx e Nietzsche. Somos voltados para o futuro (Camus - O HOMEM REVOLTADO).
Cultura: perdida entre o indivíduo e sua sociedade.
O ponto ideal é "o crime que dá certo": um Napoleão.
Alerta para o perigo do Idealismo.
Ele vem depois de Nietzsche para "aclarar" um pouco as coisas, ser um mediador entre o imoral e outro imoral (de 2000 anos atrás), Platão. Acompanhe: "Na formação do conceito sujeito-objeto como correlato, no qual cada um só encontra seu sentido no outro, já há a nostalgia e a antecipação de uma superação deste último e rígido dualismo". p. 81 (fragmento de alguém não menos que gênio). F. N. fecha o fosso exposto por Latour.
85: "Um nascer do sol que não é visto por nenhum olho humano não acresce absolutamente valor ao mundo, nem o torna mais sublime, uma vez que sua facticidade objetiva prescinde dessas categorias; mas tão logo um pintor reproduza a atmosfera, o sentido da forma e da cor e a capacidade de expressão deste nascer do sol em um quadro, passamos a considerá-lo um enriquecimento, uma elevação de valor da existência em geral; (...) a existência do mundo nos parece mais digna, e seu sentido nos parece mais próximo."
P. 87 - é Nietzsche? Vejo termos inconfundíveis de um "niilista perfeito": "estranha indiferença", "formalidades e refinamentos da vida que apenas parecem ser valores culturais, que ocorrem em épocas decadentes, pois, onde a vida em si tornou-se vazia e sem sentido, toda a vontade e potencialidade de desenvolvimento até o seu ápice constituem apenas um desenvolvimento esquemático"; "corpo doente"; "desenvolvimento sadio".
O egoísmo não-decadente jamais se preocuparia só com o ser, refutando o objeto. Cultura é síntese, não antítese.
P. 89 - um manifesto pós-nietzscheano contra as figuras do cientista e do padre.
90: "Para o sentimento de vida moderno, a antiguidade tem muitas vezes esta coerência auto-suficiente e acabada que impede sua recepção em nosso ritmo pulsante e ininterrupto de desenvolvimento". Incomparável distância de pujança. Discussão semelhante ao meu texto célebre, DA CULPA - o rabo da cobra!
91-92: "Nós nos tornamos (...) mais 'cultos' - mas nossa cultivação não avança, pois, em verdade, passamos de uma posse e de uma capacidade inferior para outra superior, mas não de nós mesmos como inferiores para nós mesmos como superiores". Genial.
"A cultivação é uma tarefa situada no infinito" - em quebrar todas as verdades. Evoca-se-me Sísifo, que nunca acaba de empurrar a pedra, em que pese sua ação poder ser considerada não só breve como irrepetida, singular. Perenidade na "vanidade". TRAGIK DIALETIK.
(pequena pesquisa: Sísifo, o mais ardiloso entre os mortais, segundo o mito grego. Enganou Tânatos, a Morte - não menos de duas vezes -, deixando Zeus Hades e Ares furiosos. Morrera apenas de velhice - pois não conseguia ser apanhado - e recebeu sua punição ao lado de figuras lendárias como Prometeu, Títio, Tântalo e Ixíon.)
Tragédia como superlativo - conseqüência última do PARADOXO.
95: "Pode ser que a fenda se abra mais ainda" profético
& "realidade histórica [que] pode perder sua continuidade"
P. 96: "não tem nenhum produtor", sujeito/predicado, bode expiatório.
"destino espiritual humano geral" - o segredo de sermos profetas.
O caráter trágico da cultura (101): "as forças aniquiladoras dirigidas contra uma essência brotam das camadas mais profundas desta mesma essência".
102: vocábulo nihil, finalmente.
103: ideal ruskiniano: o resgate do artesão.
A soma das partes e o produto "diferente" (essência nova).
4. O INDIVÍDUO E A LIBERDADE
Origem de individualidade em Sócrates ou na Renascença?
Ânsia por distinção social é seu impulso primordial...
...até a primeira crise da razão européia, que no Iluminismo elege a liberdade como princípio pelo qual lutar.
Liberdade e democracia: universalização do conceito de homem. (modelo platônico de homem)
Todas as fichas na Política: sobrecarga de responsabilidade. (alargamento do fosso sujeito-objeto)
DISCUSSÃO AULA 10/10 (Tocqueville) - 111: "Parece-me que foi o instinto que propiciou o acréscimo da exigência da fraternidade ao de liberdade e igualdade, posto que apenas a renúncia eticamente voluntária, que esse conceito expressa, poderia evitar que a liberdade fosse acompanhada do oposto da igualdade". Devia ter mostrado ao Rodrigo, o "falador da classe".
112: restante da explicação incompleto! No século XIX a contradição liberdade-igualdade foi posta à prova. Afiguram-se os homens de letras que, até o alvorecer do século XXI, são os mais geniais já vistos, dos quais Simmel é cronologicamente a retaguarda, mas bem podia ser o carro-chefe (um dos). Há essencialmente, "espíritos fortes" e "fracos", de modo que inevitavelmente "uns são mais humanos que outros".
Remendo na "constituição moderna": acentuação das individualidades num mundo de "direitos iguais": germinação da cultura de massa, em que todos estão sujeitos ao mesmo sistema de escolhas, que no entanto se mascara como heterogêneo dado o vasto cardápio de recombinações. O equivalente universal é o dinheiro. Dinheiro traz a liberdade em vários níveis, mas normalmente cobra o mais alto preço (literalmente). Exceto em situações como loteria, a capacidade de adquiri-lo pode ser associada ao desenvolvimento de uma verve de especialização que estilhaça o homem (figura do especulador). Apesar de capital estar imbricado em trabalho, quem menos trabalha é quem mais lucra. O próprio lucro - necessidade automática - e a inerente inflação agem como eternos dilatadores do grau de liberdade - a busca compulsiva por ela mediante procedimentos anti-naturais torna-se escravidão.
113: o Idealismo alemão (o ideal romântico*) - "salvar pela moral". Individualidade: einzigkeit.
(*) E aqui está a chave: crê-se que este homem europeu situado entre séculos é um modelo "de todos os tempos", a GRANDE RESPOSTA. É já um esboço de força, mas em carne fraca, uma insinuação rumo ao acaso trágico. (Deus joga dados - o próprio século XX continuou sem entender...)
114: interessante cruzamento entre o XVIII e o XIX, entre respectivamente França/Inglaterra (Primeiras Luzes) e Alemanha (expoente: Goethe).
Primeiro, há um otimismo frente ao mundo, algo smithiano. Posteriormente, o apego a preceitos morais (recuo).
Simmel também adentra a Economia marxista como fiz acima (Indústria Cultural).
O autor é um Nietzsche que vacila, pois não se decide a atacar este mundo e prever um próximo... É, no entanto, reconhecidamente, um "filósofo dos conflitos", anti-apolíneo.
Escrito por wormsaiboty às 23:57
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PARTE II - SOBRE A ARTE E A PSICOLOGIA DO COTIDIANO
5. A MOLDURA. UM ENSAIO ESTÉTICO (1902)
Nota de rodapé 119: Simmel reconhece a existência como anel!
Brinca em torno do condicionado/incondicionado.
"Uma coisa só é igual à própria coisa" - sem causas ou efeitos.
Visivelmente um ensaio destoante do prévio no livro - denso (embora agradável), permeado de notas.
Para intenções de MONOGRAFIA, o capítulo é fundamental.
Patriarca do existencialismo - que Sartre vá às favas!
Doravante, sempre que o que estiver anotado já esteja no artigo TRANSCENDER-13 (B) ELEFANTES ACADÊMICOS, inserirei três pontos verdes (...).
...
Uma reta é um círculo quando observada em outras dimensões! Nossa vida linear é anel. Produzi-me exatamente tudo tal e qual de modo a SER tal e qual! Sem finalidades secundárias por baixo do pano! Eu quis minha própria desgraça para sair-me triunfal. Neste mundo socado, as desgraças são sempre inconscientes. Édipo se desgraçou para se serenar...
...
Alma = arte (ser-por-si-mesmo); corpo = "moldura do quadro".
Pega emprestado o conceito de fetichização de Marx e critica a "individualização do móvel moderno".
6. A ASA DO VASO
Como definir um elemento híbrido, funcional e estético?
É o vaso, já, o meio-termo entre duas modalidades de arte, a escultura e a pintura. A primeira existe espacialmente e interage com o que a cerca, embora não seja obrigatório nem comum "cutucar-lhe", entrar em contato físico com ela; a segunda é uma realidade fechada e inatingível, apenas contemplável e, como visto anteriormente, emoldurada. E o vaso, que cumpre um ideal de beleza tridimensional mas está ao mesmo tempo ali para ser tocado, para servir de transporte, como evidencia sua asa?
A asa "que se agrega" e a asa que é desde o princípio um membro do vaso (paralelo com o homem e seus braços)!
O vaso é muito parecido com o homem em sua dualidade: é para-si e para-o-mundo.
7. A RUÍNA
Arquitetura, o elo entre o imanente e o transcendente. Uma edificação que se ergue finca raízes no solo, obedece à gravidade, mas ao mesmo tempo que fixa o ser humano abrigado ali abaixo também sabe alçá-lo ao céu, ao divino, porque afinal a ele se eleva, figurativamente.
Justamente por erguer-se contra uma força, há nesse gesto um desafio. O que dizer da demolição, do perecimento do ideal arquitetônico?
Vejo tal caos em outras artes: na tela quebrada, na partitura incompleta...
A natureza combalir a obra e o homem findar com ela são duas coisas diferentes, embora a primeira tenha sempre a palavra final: se um exército inimigo destrói o palácio invadido, anulou-se o fator humano ao se evocar que a natureza "cumprisse seu papel": apenas se deixou que "a resistência" esvaziasse, é mais algo passivo que ativo. Atividade fática vem do meio ambiente, que sobrepuja o homem.
"Tudo que é humano vem do pó e ao pó retorna"; goethismo.
É como ver diante de si a fragilidade e o caráter perecível do projeto humano.
8. OS ALPES
Os Alpes pintados, por serem menores, não possuem o impacto do original.
Paisagem emblemática do caos: impossível ser uma unidade, pois seus vários picos destoam e não há um centro.
"O transcendente não tem forma" p. 146.
O mar, ali perto, é a vida em pleno movimento. Os Alpes não são morte: antes, são um retrato intocável desta mesma vida. Algo severo e invencível, que não sucumbe a intempéries.
A prova cabal deste absoluto é, para Simmel, o(s) topo(s) nevados que continua(m) intransigente(s) às estações.
P. 148 - a idéia de que "nada se repete", tudo são experiências inéditas e inexiste qualquer padrão.
9. A ESCULTURA DE RODIN E A DIREÇÃO ESPIRITUAL DO PRESENTE (1902)
"A história da escultura termina com Michelangelo (...) recomeça com Rodin"
Rompe com o paradigma clássico, a forma de arte greco-européia.
154: "Dentre todas as áreas de produção cultural, talvez seja a escultura a mais presa à convenção"
"a física desencantou o mundo"
Rodin perfaz a síntese do naturalismo e do convencionalismo - uma "subjetividade aceita", não-anarquia.
Simmel não é absolutamente o socialista imaginado pelo capítulo sobre a prostituição!
Michelangelo: "centrífugo", apresenta a unidade escultural, de onde o observador atual disseca a alma e o belo.
Rodin: "centrípeto", retrata alma e forma segregados, a la mundo moderno, a fim de que o observador efetue a união.
P. 157 - sobre a "arte esvaziada", arte politizada. Apenas MEIO.
Rodin fez "O Pensador" e "O Beijo". Há "movimento", drapeados novos, supra-clássicos. É algo dado apenas parcialmente, que o olhar do espectador finaliza.
10. DA PSICOLOGIA DA MODA: UM ESTUDO SOCIOLÓGICO
O paradoxo: moda é imitação e superação da imitação; é identificação com um grupo e reconhecimento social concomitantemente à diferenciação, atendimento da necessidade de distinção individual.
Essencialmente aristocrática. Antecipação da Indústria Cultural: "o guia é, na verdade, o guiado". "Daí porque seu ápice constitui também semente de sua morte e de seu destino que é desaparecer"
Nascida para as mulheres, este "corpo homogêneo".
"toda moda singular aparece como se quisesse viver para sempre" - e sabemos que sua lógica interna não é esta.
11. A AVENTURA
O que é?
"ela extrapola o contexto da vida" - análoga à descrição do amor.
"Todos sabem como os sonhos são rapidamente esquecidos" p. 170.
Rompimento com a linearidade, o despertar de um novo sujeito.
"a aventura tem começo e fim" - pergunta: desvendar este capítulo é uma aventura?
Aventureiro é artista.
...
Num ponto futuro xerocar este capítulo à BCE EDIÇÃO RECENTE, CAPA ILUSTRADA, GRIFOS A CANETA AZUL.
A volta da magia (infantilização e rejuvenescimento da humanidade) - o crescimento esotérico do mundo. Tendências previstas e hoje constatadas...
"o aventureiro profissional faz da ausência de sistema da sua vida um sistema de vida" p. 173.
...
Musa e léthe... memória (eternidade) e esquecimento (o pó, a ruína).
RESENHA DO TEXTO "OS MESTRES DA VERDADE", FILOSOFIA/CEUB - não me agradou muito...
Não existe arte pela arte porque vida é arte. Página 174: "[tanto a obra como a existência, na aventura] caminha[m] em direção à ALTERNATIVA DE UM GANHO MÁXIMO OU DA DESTRUIÇÃO" - conceito econômico de F. N. em Vontade de Potência - achar e referenciar a frase em que se diz que "se deve correr perigo de vida para merecê-la (esse livro será um grande xodó nos próximos anos - preparar um vis-à-vis bem calmo dele, aos moldes do ENSAIO SOBRE A DÁDIVA).
"o rápido aproveitamento das chances"
...
O excremento quando sai é o recado de que vêm mais aventuras. E o que é a ejaculação? O mecanismo biológico a garantir o prolongamento da aventura!
A prostituta-barroca como o objeto de desejo supremo do homem. Se por um lado a coquete é quem joga, o homem é o adivinhador frente à esfinge...
...
O que dizer do surgimento dos esportes radicais?
...
Assim como Marx promete o futuro idílico pelo sacrifício do presente, Nietzsche assegura a iminente conversão do que é mero sonho e ideal em vida de recriações contínuas. (comentário semelhante ao da esperança, logo no tópico 3, acima - e de que havia tratado em inumeráveis ocasiões, tais quais A ESPERA PELO SUPER-HOMEM, POR QUE VOCÊ NÃO LUTA? e neste balanço sem título logo abaixo.)
...
"a totalidade da vida ser sentida em um instante" - um "sim" traz infinitos "sins".
PARTE III - COMENTÁRIOS SOBRE SIMMEL E SUA OBRA
12. A MODERNIDADE ATEMPORAL DOS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA: REFLEXÕES SOBRE A CONSTRUÇÃO DE TEORIAS EM ÉMILE DURKHEIM, FERDINAND TÖNNIES, MAX WEBER E, ESPECIALMENTE, GEORG SIMMEL
A eterna crise das Ciências Sociológicas: texto do serdestac no Yahoo! Groups (ver link abaixo, em ELEFANTES ACADÊMICOS). Se o objetivo da Sociologia é sempre problematizar a parcialidade dos juízos de valor, sendo a Ciência do Erro ela cumpre sua função! Ciência de décadence... O engraçado dilema: impõe-se que os clássicos estão ultrapassados mas eles são a referência última no campo.
A superficialidade, pobreza intensa, dos espectros "esquerda" e "direta".
Auge do interesse em Marx: anos 70.
Tocqueville, Simmel e Weber: interesse atual (data do livro - 2005).
É um esforço de Novas Luzes (desfecho de HARVEY, 1989).
Proposição de subcampos (194): METODOLOGIA PURA (Gusmão/Beto - o preenchedor de formulários), TEORIA DO COMPORTAMENTO (neo-behavioristas?) e FILOSOFIA DA CULTURA (hipertrofia do próprio conceito de cultura = decadência). Que tal uma Sociologia da Natureza?
...
Redescoberta de Simmel: 80's.
211-12: nota de rodapé com mais um esclarecimento de vocábulo alemão e Nietzsche. A síntese simmeliana do fosso, a VIVÊNCIA. Há, por suposto, algo acima dela?
13. A PERCEPÇÃO DAS ESSÊNCIAS EM SIMMEL - UM ESTUDO METODOLÓGICO
A preponderância do olhar - da imagem e do sentido da visão. A anti-filosofia por excelência: só se pensa na superfície que se vê. Grande agenda-setting.
"O pensamento lingüisticamente ativo não agüenta a si mesmo, a longo prazo" p. 280 - eis quando mais nos acercamos dos animais. E seu contrário, o fosso: o conceito.
P. 228 - imagens-duais: velha/jovem.
P. 231 - O que é platônico e o que é nietzscheano em Simmel: "positivismo idealista", paralelo com Husserl, que se crê verdadeiro ao negar o mundo.
Simmel é um último esplendor da metafísica na Filosofia do século XX.
"A classificação de Simmel como atomista, psicologista, formalista, irracionalista, esteticista e pensador conservador-burguês, etc. parece já ultrapassada..."
14. O PARADIGMA ESTÉTICO (A SOCIOLOGIA COMO ARTE)
"Os originais geralmente foram nomeadores" Nietzsche, A Gaia Ciência
epígrafe do capítulo
"Talvez seja tempo de exigir para o sociólogo o direito de poetizar, de estetizar sobre o desenvolvimento social" Michel Maffesoli, trad. Berthold Öelze.
"tudo o que associar fenomenologia e poesia poderá achar seu lugar nas nossas disciplinas" p. 236
Ensaio delicioso!
Duvidazinha: nietzschiano, nietzscheano - por que o "i" ganha aceitação?
"após ter prevalecido o pensamento iconoclasta assistimos a uma revalorização dos modos de aparecer." O primeiro niilista perfeito é que superou o niilismo.
P. 240 - de Nietzsche a Guy Debord.
Ler McLuhan, este link entre tantos autores.
DA CULPA - p. 243 - lembra o rabo da cobra, ética trágica e contratualistas... O rabo da cobra evidencia minha habilidade de dar nome ao que não pode ser percebido pelos outros.
P. 246 - "A esse respeito...", um parágrafo para mim.
15. UNIDADE E FRAGMENTAÇÃO EM SOCIEDADES COMPLEXAS (Gilberto Velho)
Sua etnografia de um ritual de umbanda numa rua do Rio de Janeiro me inspirou a planejar duas coisas:
- UM ROMANCE
- UMA ETNOGRAFIA
A segunda eu faço quando puder: um dia de jogo no Maracanã - para algum espaço-resíduo foram os geraldinos! O primeiro haveria de ser o dia em que todos acordassem com o inconsciente para fora. Como que bêbados de falar coerente. Meu alter-ego seria o mais artista, terrível e engenhoso, sem dúvida.
Me vêm à mente as aulas de RMI, verdadeira Antropologia Urbana. Que tal o mendigo tocando num dia chuvoso em aeroporto americano? E Joe Gould?
Escrito por wormsaiboty às 23:55
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