X-TudoTudo


2300 ANOS DEPOIS...

 

PLATÃO – Vê no que se tornou minha República. De fato, o projeto entrou em execução. A virtude dos filósofos foi empregada para governar o povo e tudo que se tem agora é a concupiscência desses senhores, a corrupção generalizada... Eu as produzi! Como lhes ensinei o desinteresse, e subestimei a vontade de poder humana, hoje eles ainda se afirmam desinteressados, porém eu vejo através da demagogia...

 

ARISTÓTELES – Que monstro produzistes! É chegada a hora, mestre e sobretudo leal amigo, de que luzes se tornem trevas e sombras matéria. Tua alegoria da Caverna é o que restou de mais preciso sobre a milenar natureza humana, e é um retrato perfeito de como os valores se invertem de era em era, de modo que o Bem se torne o Mal e o Mal se torne o Bem; e, claro, produzam-se essas figuras indefiníveis, fronteiriças. Sócrates foi o demônio antes de ser santo, e hoje é apedrejado novamente. Todas as épocas, apesar de toda alma ser livre, apresentam esses mártires, cuja liberdade se resume em atender uma necessidade universal: transvalorar o animal político! Meu inestimável professor, é tempo, já vês, de fusão de classes. Na morte de Deus já não há mais heróis, déspotas, escravos, o divino, o depauperado, um estamento infinitamente distanciado do outro, esta vocação de berço... Vês que todos esses homens treinados para a guerra, para os cálculos ou então para o comércio ou para bem servir os demais são atualmente um só? O querer sempre mais, a seleção que impusestes aos atenienses, este instinto de competitividade estranhamente alimentado pela ascese, isso gerou o corpo burocrático, isso centralizou todas as atenções no dinheiro. O nivelamento extirpou a nobreza.

 

PLATÃO – A areté é uma coisa que vai e que volta, nada deixa de ser... Hípias, Górgias... Vejo que o século XX será a reprise dos sofistas. É um movimento decadente, se bem que necessário, estímulo para uma ulterior ascensão. Vês como a Idéia atingiu sua exuberância máxima em Hegel? E não obstante foi com este alemão que meus ensinamentos principiaram a degenerar. Quando Glauco rebate Sócrates e diz que a Música não pode conduzir o intelecto porque é arte, sensível, ele está refutando Schopenhauer. O Homem ainda vai navegar por estas curiosas águas do tempo, meu amigo, até reencontrar Homero! Ressurreição do Olimpo!

 

ARISTÓTELES – Que a nova era dos poetas dure três mil anos e que até lá joguemos e dancemos, porque não será mais necessário tanto falar... O logos fica em segundo plano, coagulado.

 

PLATÃO – Aristóteles, apólogo de Sófocles, vamos indo que aí vem a caduca mas invencível mulher chamada Esperança...



Escrito por wormsaiboty às 15:36
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VONTADE DE (EXERCER) PODER

 

A Goethe

A Weber

E aos bons estrategistas

 

Por que o ser humano – jamais vi um caso – se recusa a fingir de modo que consiga as coisas fácil, que ganhe um atestado de que não é responsável sobre si e de que necessita de cuidados especiais de terceiros para sobreviver? Em outras palavras, de vez em quando me vem a idéia: e se eu fingisse que fiquei retardado de repente, com vistas a escapar de trabalhar, estudar ou de ser dono de qualquer coisa no mundo da propriedade privada? A fuga perfeita da burocracia que engole todas as consciências vivas, o resguardo em uma casa de loucos com cama, comida e roupa lavada (ou só os dois primeiros). Por que não? Ou a estadia em casa numa cadeira de rodas com a cabeça para o teto, a baba escorrendo sem-fim, os pais baqueados, sem alternativa a não ser servir? Algo aí não cai bem, e não é a desconfiança de que alguém não iria engolir o teatro ou a inexistência de planos paralelos (um deles seria cometer um crime hediondo para viver o resto dos dias numa jaula custeado pelo Estado).

 

Mas ninguém faz isso. É por culpa do transtorno que acarreta o simples pensamento de que se é um demente, um idiota. A humilhação instantânea. Todo ser humano vive para se esforçar e fazer seu melhor, mesmo que este melhor esteja muito abaixo do desejável. Prefere-se as dificuldades do “mundo lá fora”, o mercado de trabalho, o emprego insalubre, a existência sem sentido e o cotidiano enfadonho a qualquer enclausuramento mental. Talvez bata também (como me aconteceu), quando se reflete detidamente sobre o tema, o medo de se tornar um deficiente mental de fato, como resultado do hábito da dissimulação. Quem finge que é possuidor de um outro caráter há muito tempo frente a certas pessoas sabe do que estou falando. Uma coisa é parecer ser para angariar vantagens, outra é se converter na vítima do próprio golpe do baú. O que um completo incapaz poderia fazer? Nem que pedir esmola no sinal, o ser humano exige o direito de fazer alguma coisa. Quando penso que se tudo desse errado eu poria tal plano em ação, logo emanam dois impedimentos: o que eu poderia fazer? Talvez nem assistir televisão, ou ao menos não mudar de canal, porque não saberia mais contar, ou associar botões, controles, aparelhos, cores e cliques a movimentos coordenados do meu corpo. Não comemorar os gols do meu time. Não rir do que tem graça. Nunca mais. Tal perspectiva é apavorante. Não se está ganhando nada com isso. O sujeito mais convicto desta “saída” sofreria recaídas em menos de uma semana. Meu segundo obstáculo pessoal seria: nunca mais escrever, o pior dos interditos. Eu, que venho tentando emudecer, não aceitaria essa estaca no meu coração (onde afundaria, se entrasse pela mão destra), esse silêncio ainda mais fatal. Não acredito em loucos voluntários. No fim, em termos de sanidade, não tem como nos imaginarmos mascarados.

 

Tudo que cada um quer é aquele arrepio, aquela tensão, aquele sentimento de mover montanhas, que só se afiguram entre os poderosos. Ou entre as formiguinhas orgulhosas e persistentes que até o último instante têm esperança e apostam as surradas fichas nos seus sonhos.

 

(*) Para aqueles que consideraram ser este o ensaio mais ingênuo até então, se comparado com a série anterior, pense a respeito da doutrina da Contemplação de Platão e Aristóteles: em busca da Felicidade, viver a vida conforme as disposições de um débil mental. Recusar-se a qualquer tipo de afronta aos deuses! Ironicamente, tanta vontade de paz gerou “o mundo lá fora” desprezível que conhecemos. Mas nosso papel é aceitar a responsabilidade de combatê-lo, e não se esconder atrás de preces. Quem quer danar, vai salvar... ...e o verbo continua...



Escrito por wormsaiboty às 16:11
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O SONHO-PARÁBOLA PERFEITO

 

Proletários de todas as idades – falo de crianças e idosos, como no século XIX – e dos dois sexos, e uma voz que ecoa pela escadaria como se por um alto-falante ou por um sistema de rádio. Todos em trapos e inclinados à rebelião, exceto este austero homem da voz, devidamente engravatado. Firme, seguro. Ele representa o Capitalismo. A massa representa não o marxismo, a democracia ou o mercado de trabalho, abstrações: trata-se do homem, da condição humana. E os homens, em bloco, se bem que caóticos, descem as escadas. O ricaço – este anti-próton, antípoda da existência, que se aglutinou a nós, que se tornou desde tempos imemoriais nosso pastor – contempla, maravilhado. A escravidão em sua modalidade mais explícita me foi mostrada neste sonho-espelho. Não faz muitos dias, ou semanas, que ando tendo essas incursões filosóficas até mesmo na esfera inconsciente. É sinal de alguma coisa: essas questões se apoderaram da parte mais funda do meu espírito, da minha essência.

 

É como se o prédio se incendiasse e fosse posto em prática nesse exato momento um plano de evacuação, orquestrado pelo sujeito polido. Uma crise do sistema, uma desordem social, que logo será contornada, para que tudo volte a se assentar, como antes, ou mais que isso: em bases mais sólidas. As pessoas parecem saber disso, mas não há alternativa. Alguns, mais insurgentes, crêem que depois de hoje nada será como fora, a verdadeira revolução se aproxima. A exploração sepultada? Meu sonho penetra no verídico devaneio de bilhões de homens no decorrer da História.

 

Algo, no entanto, paira insondável. Aliás, ao invés de estático este algo talvez seja dinâmico, fluido, movimentado, eficiente, faceiro, sábio, sério e brincalhão na medida – uma entidade que opera com conhecimento total das circunstâncias, cujos propósitos até escapam à cena, algo que consegue enxergar além, uma origem e um destino do processo em curso – o momento da correria pelas escadas é o Ocidente, o mundo moderno. Esta criatura invisível, onisciente e observadora, o que é? Deus? Não, óbvio demais... Sou eu! E afora alguns detalhes meu sonho – eu diria extraordinário vislumbre alegórico – não avança mais do que isso...

 

Vamos aos detalhes: o grande proprietário, a burocracia de carne, rosto bem-aparentado, sorriso elegante, bom porte, enseja organizar seus soldadinhos em batalhões de diferentes tamanhos, de acordo com faixa etária e gênero. Há, como já mencionado, um burburinho, um mexerico, uma espécie de pólvora que promete comprometer essas fundações e que, depois, venha o que vier. A taça cheia precisava derramar seu conteúdo. Antes que as filas se organizassem como pedia a voz, tudo se desvanecia e eu acordava...

 

Às interpretações: o que é que diferencia os planos da massa dos meus diante desse “filme”? E o que faz de mim um antagonista invencível para este homem, enquanto só os operários com suas vontadezinhas imediatistas não passam de brinquedos sob rígido controle do dono? Eu sou a perfeição, diviso até uma das aparências ocultas desse homem engravatado: não é mais esbelto e galante, mas um gordo de cabelos encrespados, uma figura feia e áspera daquelas ante as quais se deve cuspir no chão ao se lhe dirigir a palavra, ou engolir em seco, caso seja seu patrão. O semblante de um obeso que promove o escárnio, ri sozinho e mata com suas piadas: o inimigo da sociedade há dois milênios.

 

O que vai acontecer é que eu vou combater este centro de poder com o único contragolpe à altura: ele mesmo. Os homens que rolam escada abaixo não podem tentar queimar suas fábricas, destroçar o Capitalismo: este último sempre triunfa. Eles devem sê-lo. Devem se fundir com a figura sebosa do capitalista: milhões de homenzinhos iguais, com a testa engordurada, um sorriso doloroso, o terno passado e justo, a conta no banco tão gorda quanto a própria silhueta. Isso traz à tona um diálogo – mais para lição, nada amigável – que tive há meses com um estudante de Serviço Social, engajado na promoção da  “justiça social”. Agora sim, com todos se comportando de modo pragmático, lucrando e lucrando... tudo vai desmoronar! Essa é a função atual do sindicato: ser burguês. Tornar-se a burguesia (um estranho crossover, é verdade), a classe unificada, a última habitante deste planeta. Para então se auto-destruir. Nenhum Aquiles escapa à sua sina. Clones em marcha: logo o senhor Narciso se enfastiará da própria imagem.



Escrito por wormsaiboty às 16:56
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MINHA INTEMPESTIVA III – DAS VÁRIAS METÁFORAS QUE EU ENCARNO

 

“Eu me arrependo de tal coisa.” Essa é uma frase corriqueira em nossas vidas. Mas tão comum quanto perecível. Quando se tem maturidade suficiente para se aperceber dos jogos de ação-e-reação que nos constroem e do papel do sentimento de culpa em cima de nossos atos, enfim, quando o sujeito apreende a “irrevogabilidade do crime” e enceta a direcionar seus erros a seu favor, tem-se finalmente autoridade para proferir a frase: “Todo arrependimento tem uma data de validade”. Se nem todos têm, é melhor embarcar na ilusão de que determinada ferida irá cicatrizar – ou não se consegue viver uma vida. Atente para meu exemplo: pelo menos um ano me arrastando em sonhos para ser readmitido no Colégio Militar. Mas eu engolia o dissabor com meu orgulho de leão (e não de pavão, que é um ser belo porém fraco) e não contava a ninguém – muito menos aos pais. Eis que quando a oportunidade se insinuou, piscou, tremeluziu... eu já me havia apoderado dela. Bingo! Todo arrependimento é vencível – seja pela ação do tempo, seja pela labuta individual (obviamente, essa é uma categorização como todas as outras: falsa, pedagógica).

 

Eu não me arrependo de descartar amigos. Talvez eu me arrependa de não descartar mais... Tenho de reconhecer que meu lugar jamais foi fora do reino burguês. Apesar de jamais ter sido dentro. É hora de cortar os laços que ainda restam para ser cortados. Não tenho mais amigos ricos e frescos. Sou tão estranho no ninho que ainda que com um bom porte, roupas adequadas e um celular da moda, não me confundiriam com um deles. Portanto, as badaladas do relógio hoje indicam: é tempo de se desfazer de quem te olha com estranheza não por estares de fora, mas por estares intrometido. Ou quem seria o intrometido de uma história que começa na minha casa com convites constrangidos? Desde o início fui montaria de um grupelho que me olhava como detentor de benesses especiais – de caráter financeiro. E que outro seria? Qualquer outra afinidade no meio do caminho é fachada. Como disse, arrepender-se é ou precipitado ou vão. Claro que se trata de figura de linguagem – todo ser humano se arrepende e ponto. Resta saber, contudo, o que se faz a respeito dessa angústia de não poder alterar o passado.

 

Minha vingança é atroz porque me vingo de mim mesmo. E quando reconheço o erro, resta muito pouco para os idiotinhas fazerem. Quem sabe já se conformar com o prejuízo seja a melhor saída para eles. Um ex-amigo que está indo para o saco nesta temporada chama-se Eduardo, o adolescente de meia-idade, o Peter Pan ébrio e urbanóide que se dedica ao ofício de ser o contrário do que a cara estampa a cada finalzinho de semana, para descontar a frustração existencial. Evidentemente, a cada criancice, faz questão de propagar sua moral antípoda: “aprenda com os mais velhos”. Precisa de um Cristo a cada sexta-feira porque a mão está cravejada de calos demais para que dê outros três passos adiante com a cruz nas costas. Talvez a madeira deste Pinóquio esteja tão podre que ele não se vê mais capaz de pressentir o mal que devém. Ele espera que um terremoto o avise, sem embargo o tremor de terra é o próprio mal do qual ele deveria ter sido alertado...

 

Um pobre diabo desses, quando cair em si, vai notar o bilhete premiado que lhe escapou pelas mãos graças ao vento e que, quando estava prestes a reaver, escorreu pelo bueiro. Por um acaso um bilhete se arrepende de não ter sido de algum vencedor? Se não se está com o bilhete, a vitória é só um sonho perdido. O bilhete faz o vencedor. Nem que passe a ser benquisto, para o próprio gozo de si, o destino de se colocar fora de qualquer alcance no submundo, e deixar a mesquinhez lá em cima se acumular. Se todo o ouro volta ao dono, o único dono é o fluir ininterrupto, porque nesta aventura não há retorno – e se houvesse o dono já não seria o mesmo.

 

É chegado o momento, em suma, de singrar por novas águas, o que implica a deserção de marujos saudosistas em excesso. Nada de velhacos com manias de meninice, nada de bufões. Daqui em diante, que o capitão prepare o convés, a proa e o casco – e, porventura, se algo der errado, o bote salva-vidas.

 

Ficam registradas algumas dúvidas pessoais: 1) passarei meu segundo ano consecutivo sem me apaixonar? 2) quantas recaídas eu terei naquele campus? Vou me sujar de novo com aquela patota? Me sentar de novo naqueles sofás comidos por traças?

 

Aos parasitas: aqui estão as chaves, mas é bom olharem para o chão antes de entrar, porque esqueci de dizer que moro numa imensidão. Uma imensidão que para pequenos praticantes da punga não tem nada de inteligível, é só uma queda no vazio.

 

Eu sou perigoso. Não ofenda o solitário. Eu não tenho absolutamente nada a perder, em nenhuma transação termodinamicamente cogitável. Um espírito como o meu -- possui a sabedoria de cem deuses, e o conhecimento do veneno específico de cada um que tem o azar de me surgir como pusilânime. Principalmente os outrora outra coisa. Eu emito sinais claros de que estou prestes a fazer uma “burrada”. Como não se precavem, os vizinhos indômitos levam um caixote: do cimo da onda – domadores do mar! – aos arrecifes. Se ter Napoleão como escada é o ideal, a meta máxima, tombar dessa escada deve ser o que deixa o cotovelo mais roxo: e se alguém nunca está tão elevado quanto quando sobre um lance de escadas, também nunca esteve em maior risco. Eu sou o homem-dos-riscos. De que me importaria o juízo alheio, se só eu me leio?

 

O trapézio que eu era, o palhaço que eu fui, viraram o fogo dos arcos, as facas dos alvos e as luzes do palco. Sem mim vocês não são nada. Mas comigo estarão mortos ou ofuscados.



Escrito por wormsaiboty às 17:50
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MEA CULPA

Tive meus anos de 2005, 2006 e 2007 pautados pelo liberalismo econômico mais ortodoxo. Relacionei-me com veículos de comunicação, pessoas e defendi idéias que não queria – não quereria, é dizer, se pudesse medir as conseqüências hoje. Me defrontei com muitas instituições, programas, crenças e vidas. Gerei polêmica, gerei tumulto. Em sala de aula ou em ambientes de trabalho. É verdade que, receber, eu jamais recebi por isso um só tostão. Até em paradas de ônibus na calada da noite eu me engalfinhei com desafetos (nem que apenas imaginários). Claramente havia uma atmosfera que me infectava, um acontecimento político escandaloso, a desilusão do passado (do infrutífero século XX), um curso superior errado, o impulso por ser contrário ao vigente, personalidades de cuja paralisia eu precipitadamente me alimentava.

 

Poderia elencar as principais figuras vivas, e os principais projetos em que me engajei (me enredei, vi depois) neste período, plantando desesperança e querendo colher a realização da liberdade: Diogo Mainardi, e sua sedutora e espetacularizante retórica – hoje eu não sei quem é esse homem, o que ele escreve ou deixa de escrever; Gabriel Keene – que me achem, esses indivíduos, no Google, se puderem –, o “presidente inteligente popular amigão” que atualmente enxergo lá embaixo como tendo sido uma trava temporária (ele era presidente de uma limitada de adolescentes faz-de-conta, não se formava por incompetência, apenas puxava o saco de algumas patricinhas, era somente uma daquelas crianças rejeitadas que cresceram com seu amor pelos videogames e pelo Tio Sam sem saber o preço de uma amizade); Raphael Bruce, um antiquado um pouco mais genioso que a rede de amigos geeks (*) ao seu redor, que pensa em “entabular diálogo” como “impor o meu falo”; professores muito... pessimistas; blogs em que trabalhei “querendo raciocinar em conjunto”, mas em que descobri o sobrepeso da minha opinião pessoal, dentre os quais o Abrigo Polar, o Horário de Brasília, As Fantas, o Bicarbonato de Sódio. Michelle, talentosa mas desorientada, Rômulo, Martino, um maluco ou outro da internet, Peu Lucena, o adulterador de textos, Carmen, a chefe invocada, Melina Sales, a de humor contagiante, colegas de ex-faculdade (ou ex-colegas de faculdade), todos me passam batido. Tem ainda o demoro.com, os jornais em que estagiei como clandestino. Seria impossível lembrar de tudo de uma lapada só.

 

Este artigo não pode se resumir à modalidade acusatória. Também trago uma receita para um melhor entendimento de onde se pisa: 1) caminhar muito ao ar livre, se possível debaixo de sol forte e com roupas pesadas. Ou melhor: tentar os mesmos trajetos em diferentes horas do dia. Quando se está um pouco bêbado e se passa por uma cidade suja, escura, desolada e insolúvel não se acredita mais no capitalismo. 2) de vez em quando desligue a música e a TV e coma uma refeição em silêncio!

 

Continuando o que ia dizer, 2008 foi o ano da virada. E este texto é só mais uma pedra.

 

(*) Cabe aqui esclarecer por que utilizo geeks e não nerds, uma etimologia arruinada que confundiria meu leitor – enquanto ser pensante eu ser considerado na maioria dos círculos jovens como nerd, com ou sem óculos, é auto-explicativo o bastante. Meu conceito de nerd/geek é: aceitar o mundo adulto só no que ele tem de eufórico: o aumento de poder, o carro, a bebida, as mulheres, as festas, as compras, poder olhar de olhos caídos alguém na rua e rumar para casa. Mas recusar as responsabilidades. Às vezes o nerd lê quadrinhos demais e esquece que por trás de toda a tecnologia do fabrico e a aparência há o fator humano e que nem tudo é uma rodada no Outback. Como o tio Ben do Homem-Aranha já dizia... (a frase todo mundo sabe) Porém, ninguém aqui quer saber o que implica o trabalho. Quando você cresce e seus amigos não, fica essa dificuldade de definição: o que há com eles? É precisamente isso: um estranhamento inter-geracional, porque você amadureceu mais depressa.



Escrito por wormsaiboty às 18:18
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