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ÊXTASE E AUTO-GLORIFICAÇÃO

 

 

Interrompi minhas leituras para narrar o que considero um dos episódios mais belos de minha vida: o dia de ontem. Certamente poderia resumi-lo como a constituição de uma divina obra-de-arte. Algo passível de justificar a existência de todas as criaturas, dos fracos e dos fortes, per si!

 

Há alguns meses venho percebendo que nas noites de álcool e durante as ressacas produzo cenas das quais muito me orgulho, afastadas que estão de qualquer ingenuidade pueril de adolescentes e do modo humilhante como os brasilienses se comportam. Escapismo? É necessário admitir que, a despeito do lamaçal, venho provando que este não é o fim do homem. É preciso confessar que o mundo moderno e a escravidão produtiva tornam maioria dos dias deploráveis, o que no entanto não obscurece alguns deles, pontos esparsos, espécies de ondas de um mar subitamente revolto, explosões dionisíacas, pelas quais assumo inteira responsabilidade. Talvez o Brasil seja mesmo um lugar privilegiado, de onde provém a vendeta do espírito trágico sobre o espírito burocrático. Estas ocasiões especiais de que falo, mais comuns em fins-de-semana, distantes daquela fétida universidade, longe da rotina asquerosa, parecem mesmo uma luz de Tieta, uma glorificação do momento típica do país do carnaval – difícil de ser imaginada na insossa Europa.

 

A primeira vez que tive consciência da alteridade peculiar que uma ressaca me provoca foi quando, em outubro de 2007, decidi sair para outro lugar, sair pelo segundo dia consecutivo, em que pese estar quase sem dinheiro. Enquanto caminhava em direção ao ambiente escolhido – um show ao ar livre – meditei inesperadamente acerca da questão do namoro. A concepção enraizada entre meus convivas é a de que isso constitui algo normal. De repente, e sem motivo aparente, pus abaixo esses valores: não há coisa mais bizarra do que se integrar, quase que contratualmente, a alguém! Nasceu em mim, desde aquele dia, um invencível repúdio pela idéia de namorar, quem quer que fosse, a vizinha ou a Madonna. O que também promoveu um ódio automático pelos pombinhos arruinados, todos dessa “sociedade do namoro”. É importante ressaltar, aliás, o quanto tais caminhadas se converteram em algo imprescindível para mim. O jeito mais apropriado para refletir. Jamais gostei de carro, mas recentemente me veio esta implicância até com ônibus. Aonde eu puder chegar a pé, assim irei. Fato é que este novo hábito parece ser a interferência de alguém em minha vida (logo, neste relato, isso ficará mais claro). O efeito flashback me dominou: sempre que estou bêbado, ou de ressaca, e sempre que estou caminhando em qualquer dia “normal” eu diria que destruo tudo a meu redor, filosofo com o martelo. Não há valores arraigados que eu não tenha descascado e derrubado, como fizeram com aquele muro na Alemanha. Uma vez se disse (Jair Ferreira dos Santos disse) que Nietzsche, um viciado em marchas, que não parava até se exaurir, se vivesse entre nós, andaria por aí com um walk-man (notar a data do texto) mudo, ou seja, refletiria sem música, tão-só pelo prazer de caminhar. Fato é que há seis meses meu MP3 player queimou... mais tarde no relato eu dou seguimento a esta história...

 

Está na hora de retomar aquilo a que me propus no primeiro parágrafo: dia 19 de abril de 2009, véspera de eu completar 21 anos de idade, a maioridade em alguns países e em algumas épocas, uma perfeita demonstração de tudo o que eu disse. É quando minha natureza mais hercúlea fica evidente para mim. Sinto – e se sinto faço – que moldo a realidade conforme meu gosto e me enquadro no chamado “comportamento trágico”, e peço mais paciência ao leitor para entender por quê. Primeiro, vamos à descrição despretensiosa de ontem:

 

Acordei, vi um filme excepcional sobre a vida de um ex-soldado premiado por heroísmo na Guerra do Vietnã e sua família arruinada, do qual, porém, não pude obter o nome, comi dois pães redondos com hambúrguer, manteiga e queijo, despedi-me dos meus pais, que como de praxe se dirigiam ao sítio, e reservei duas horas para a leitura do começo da grande obra de Montesquieu, Do Espírito das Leis. Em seguida, iniciei os preparativos para receber um amigo, para assistirmos juntos ao confronto dos nossos times rivais. Preparativos que consistiam na compra de não mais que dez cervejas e na “ritualização” da casa, quer seja, espalhar coisas do São Paulo por aí, principalmente no cômodo da tevezona, deixar no canal certo e no volume máximo, escancarar a janela para a hora de gritar gol e trazer as cadeiras para a frente da TV – só faltava cobrar ingresso para o espetáculo. Ok, o Felipe chegou na hora combinada e, ao que parece, intimidado e sem confiança, pois não trajava seu manto alvinegro (manto com patrocinador é ótima!) e tecia elogios ao meu time (manda o protocolo? Não sei).

 

O primeiro tempo foi de domínio da minha equipe, embora sem resultar em gols (e o São Paulo precisava vencer). Lá pelos idos dos 30 o interfone toca: é um amigo vascaíno com quem iria sair mais tarde, que já aportava no Plano e se auto-convidou para subir e assistir ao jogo uma vez que, em contrário, teria horas ociosas. Foi melhor assim: me sinto mais à vontade entre outras duas pessoas que ao lado de apenas uma – deve ser porque dissipam-se as atenções. E não era nada ruim o fato do novo conviva ser neutro na disputa: dois torcedores de times paulistas e um de carioca que não estava envolvido na final de seu estado, Flamengo x Botafogo. O clássico não foi belo; antes eu diria que foi embelezado por duas figuras: meus sábios comentários táticos e aquele jogador extraordinário (puta jogador!) chamado Ronaldo Fenômeno (por que será? Num mundo que navega no vazio ele é uma das poucas coisas que é concreta, impossível de passar batida). Meu time saiu de campo derrotado, Morumbi lotado, 2 a 0 no placar: o segundo tempo havia mudado os rumos da partida, o Corinthians emendou dois contra-ataques e foi o Felipe quem usou o maldito parapeito da janela para gritar e troçar dos coitados (sei de ao menos três são-paulinos no 3º andar). Um dos gols foi de gênio, R-9 tocando por cobertura ante o goleiro Bosco, lance rápido e preciso. É necessário aplaudir. E se conformar. Depois o jogador foi entrevistado e disse que “dos dirigentes do São Paulo às vezes sai muita... merda”, com um “r” bem carioca. A Band, parcial, enaltecia o feito do Timão com exclamações na tela, e foi a única a reprisar sem censura o desabafo feito ao vivo. Ronaldo teve razão: haviam dito que ele era um ex-jogador em atividade. Para variar, o Fenômeno concreto calou as bocas de quem não consegue subverter realidades adversas. Rapidamente restabelecido do fracasso esportivo, levantei e como bom anfitrião ofereci nhoque (ou inhame? Nunca sei) aos visitantes. Felipe, o vencedor, comeu. Brayner, que depois se arrependeria disso, repeliu o prato.


(continua abaixo)

 



Escrito por wormsaiboty às 02:16
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Marchamos rumo ao evento na Torre de TV (um dia, enganosamente, dedicado à televisão!) ao meu gosto, quer dizer, a pé e sem firulas... até que eu me dei conta de que, sabe-se lá por quê, saí de casa com duas chaves ao invés de uma, pondo em risco o chaveiro do Cristo Redentor sem necessidade, além de a dada altura, sem que nenhum dos três percebesse, ter sumido minha carteira de Carlton, quase cheia. O isqueiro e todo o resto estava lá no bolso. Praga do Brayner, que vinha dizendo que cigarro mata. Brayner é um bebedor compulsivo (alcoólatra) de 31 anos. Tivemos que parar a meio caminho para que ele comprasse uma micro-dose de conhaque, da qual aliás bebi mais que ele. Ao longo daquele dia aquilo ocorreria várias vezes. Nesse preciso momento fez mais ou menos 24 horas que comecei a ler Montesquieu, enquanto escrevo a palavra palavra. Ah, é claro! Olvidei-me de algo no relato cronológico: Tartas (como eu chamo o Felipe) me ensinou a pegar batatinhas no lixo do McDonald’s. Ensinar não é bem o termo – ele me lembrou que eu poderia fazer isso. Genial! Maravilhas do mundo capitalista, o dinheiro e as mercadorias circulam e os lascados se viram. O Brayner não parecia faminto, nem tocou naquela comida amarela deliciosa. Curioso notar que às 19:20 o relógio de ponteiro do Tartas parou. Deixe-me fazer um breve intercurso: como conheci essas pessoas?

 

Brayner: show do Alceu Valença aqui na Asa Norte há dois anos, um sujeito (ele) apareceu esmolando vinho. Eu estava com um amigo, Eduardo Maniax, e na verdade eles já se conheciam, então a garrafa virou propriedade de nós três.

 

Felipe Tartas: meu veterano na universidade, cursou História Econômica Geral comigo. Se Brayner é alcoólatra, Felipe T. é sua antítese social, e aficionado por automobilismo.

 

Os dois parecem ter – não muito tarde, mas tarde o bastante para não haver remédio – se arrependido da locomoção A PÉ. Almas simplesmente fracas. O Brayner despencou com 5/6 da trajetória cumprida. Disse que jogara bola de manhã e não comera direito. Agora o nhoque faz falta! Alguém inconseqüente feito moleque de 5 anos. Deu para ver que não era fingimento, o suor lhe banhava. Encontramos um bebedouro emporcalhado num posto, isso o susteve levemente; já meus músculos estavam sedentos por exercício, desperdício de energia. Assim que completamos a rota o maldito coroa devorou três cachorros-quentes e nem tinha dinheiro para pagar. Sujeito embaraçoso, além de alcoólatra que mente para si que não o é. Tartas nos acompanhava quieto. Logo encontrei duas amigas, que aliás vim a conhecer no primeiro dia em Brasília após um mês fora (em Fortaleza), há um ano, quatro meses após aquela ressaca em que questionei de súbito OS NAMORADOS. Eu havia chegado ao CONIC – mesmo lugar para o qual eu me dirigia na caminhada daquela grande ressaca – atrasado, com o show terminado, e fui comprar um hot dog e uma cerveja, quando as duas, bêbadas de cair, me abordaram. Adoro essas contingências urbanas. As duas, ontem, não me serviram para muita coisa, nem para alugar um baseado de maconha. Fiquei na base da vodca e da Antarctica noite adentro. O monstro comilão Brayner não tinha o menor respeito por si próprio ao se aproximar de mulheres. Degradante. Embaraçava o coitado do Felipe. Eis que surge em nosso horizonte o Eduardo Maniax, a razão de nos conhecermos, e provavelmente a razão de eu ter conhecido as magrelas a que acabei de me referir.

 

Muita coisa me aconteceu por causa desse sujeito, mas hoje não somos mais amigos. Logo se verá razoavelmente por quê. Um acidente, um desgraçado, esse cara de 28 ou 29 anos, o oposto das meninas, dezessetinhos virgens nas costas. Brayner observara ontem, mais cedo, que eu, aos 20, era um rei antológico da maturidade, artista do viver no mais alto grau – não com essas palavras de gênio. Lembrem-se: mesmo se tudo isso eu não fosse, mentir para si mesmo é um modo DIVINO de pensar... Responsabilidade criacionista: cada um é seu próprio demiurgo, existências precedem essências. É impressionante como uma pessoa reluzente pode justificar a existência de seis bilhões delas: eu. Se Brasília não existisse, eu não haveria, o que me deixaria muito triste! Esses vermes existem para que eu efetue minha self-glorification catártico-semanal. Olhar o outro e vê-lo baixo. Repugna mas acende. TODOS TÊM QUE APRENDER A CHAMAR AS COISAS PARA SI. Maniax é um bagulho humano, ou um homem bagulhado, estrupício. Não há pseudo-jornalista mais burro. Vou colar a URL do blog dele para vocês tirarem a prova: http://revolutionx.blogspot.com/ (mensagem do servidor: “O blog foi removido” – por que será? Um imbecil com um certo tipo de atitude frente à vida não consegue fazer nada direito – a menor coisa que faça, estará fazendo fora das regras estipuladas). Nefasto. Um sujeito desses é o limite do quanto um deus pode errar na criação dum universo. Todos somos deuses, mas uns não deixam jamais de ser patéticos. O safado ainda trabalha no PT e ganha cortesias para eventos caros. Molecote que apesar da idade usa bandanas na cabeça, munhequeiras de punk e parece um colegial. Além disso, sanguessuga deslavado, um miserável da sola do pé até o cálcio do (simiesco) crânio. Tomara que um dia ele encontre essa comovente descrição por uma googlada.

 

Dando prosseguimento à história linear, ele aparece e nos cumprimentamos friamente. A grande apresentação da noite, a Plebe Rude, se avizinhava. Cortarei pormenores destas horas até que chegasse o momento de todos se reunirem para deliberar o que fazer, após a última música. Mais de meia-noite, os fracos resmungavam ter de ir a pé e não haver ninguém com carro. Maniax, sempre esperto (demasiado esperto, o cristão), tenta abocanhar três mulheres de uma vez “alugando” meu apartamento. Aluguel compulsório, por constrangimento ao locador. Quem mesmo ele pensa que é? Ele sofre da síndrome de “meu filho”. Se direciona aos outros com um repertório de conselhos inúteis que refletem uma experiência que ele NÃO possui. Por isso ele acha que todos são seus filhos, e se considera também o proprietário da minha casa. Claro que as lindas meninas escapuliram, deram uma rasteira no “tiozão xarope”, e então, sem mulher no jogo, ele sabia que não tinha a mínima chance de pernoitar na minha casa (opção melhor que madrugar de olho vivo na rodoviária), ha-ha, como se eu fosse aceitar que ele viesse de brinde com qualquer mulher. Mulheres que não sejam suas amigas só servem para procriação, e ninguém procria duas fêmeas simultaneamente. Não haveria acordo nem se ele tivesse sob seu controle, digamos, a pessoa que eu mais desejaria comer. Talvez para comer alguém EU precise estar no controle, não um terceiro, cafetão, candidato a ser estampado na capa do NA POLÍCIA E NAS RUAS, esse Chaplin involuntário e horroroso, síntese do ridículo! E eu nem sei se quero comer alguém – alguém factível. Falando em comer é aí que chegamos ao impasse principal:

 

Maniax de repente se dirige ao Tartas e diz que foi ele que “me botou na fita da Mirian”, uma mulher que eu comi por causa dele. Nada a desmentir por enquanto. A segunda parte é que eu seria “cabaço” antes desse momento, ou seja, só “me tornei um adulto”, um “homem”, graças a ele! Instinto de pai em estado bruto. Mas o nome do meu pai não é Eduardo, e sim José, e o sobrenome não é de louco, embora Jesus fosse uma personalidade bastante controversa! O sentimento de repugnância foi tão elevado que me despedi de todos ali – dei um cascudo nele ou coisa assim, não me recordo (a reação do elemento foi patética, aliás) –, seguindo de volta para casa com meu orgulho. Isso eu chamo de HONRA, ou auto-respeito, e o que decorreu disso eu chamo de ASTÚCIA SUBLIME.

 

Voltando à metáfora das ondas do mar revolto, pode-se dizer que a ola arrebenta quando aquele mundo d’água atinge um ponto crítico: não pode segurar mais seu ímpeto, e se lança contra a praia, os arrecifes, as rochas. Eu sofro desse processo com uma freqüência incomum, rompo com as pessoas. E em muitos casos me esqueço, pouco tempo depois, do real motivo da briga. Não era a briga, o em-si, a baixeza do tratante, a motivação do cascudo, a galhofa sexual. Eu sou um brigador nato. O importante é que a briga saia, não interessa mais o motivo. Poderia sem medo de ser taxado de covarde me referir a esses instantes como pretextos. A essência do indivíduo me incomoda tanto que eu espero a oportunidade, a brecha... e ela sempre surge, a imundície sempre vem à tona. Não executei nada de caso pensado, mas a forma como isso vem acontecendo permite que eu elogie meu temperamento explosivo com os adjetivos “frio e calculista”: se eu meditasse por 1000 anos, teria feito exatamente o mesmo. Na noite passada em específico, essa ruptura com as pessoas que estavam na festa pública me possibilitou livrar-me de qualquer obrigação para com hóspedes, me deixou livre para caminhar e monologar (o que é muito melhor do que entabular conversa com fracos das pernas) e para me recusar a futuras conversas moles com o infame Eduardo. É como se num golpe de astúcia tirado da cartola (coroa) o Príncipe se visse liberto de tudo o que o ameaça; por ora.

 

Preciso continuar o relato linear, tão entrecortado que se desfigurou. Mas não carecerá, este desfecho, de qualquer esmiuçamento como as partes anteriores: houve uma insistência do par Brayner-Tartas, via celular, para que eu os esperasse em algum canto, ou para que eu atendesse o interfone, quando já estava em casa. Neguei absolutamente esse “socorro”. Por que eles deveriam ser punidos pela infeliz circunstância de estarem acompanhados de um bufão? Não é necessário um porquê. Os cristãos sofrem demais com finalidades. Que aqueles circunscritos ao que você quer punir paguem o preço de estar na hora e no lugar errado, sim senhor. Outra lição deste meu dia de destilação de sabedoria é que devemos assumir a inevitabilidade de bodes expiatórios.

 

(continua abaixo)



Escrito por wormsaiboty às 02:15
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Sendo generoso e fazendo uma concessão aos teimosos famintos por motivos “racionais”, ainda suponho que estes poderiam ter existido, e o justifico... Por que uma sensação de ofensa tão grave diante de algo aparentemente tão frívolo? Não seria imaturidade do autor do texto, quem se julga tão sábio apesar da pouca idade? Não se trata aqui de uma imagem arranhada de garanhão, mas da ruptura trágica com alguém que é exatamente o inverso do seu reflexo no espelho. Pode alguém honrado não se sentir DESPREZADO como se sua descomunal exuberância fosse reduzida a lixo? Minha primeira meditação, no meu entender, desde que pratico longas e assíduas caminhadas, foi quanto ao ato moderno de namorar. Eis que me deparo novamente com o verbo. Tudo faz parte de uma grande cadeia, e este artigo, em sua unidade final, o demonstrará. Obviamente, já passei pela experiência supracitada. Foram muitas gotas de suor, lágrimas e outras secreções que eu tive de vivenciar, para me fortalecer, em um longo relacionamento, quando tinha dezesseis; foi alguém – indiferentemente do juízo que eu faça dela hoje – com quem dormi mais de cem vezes; para depois de tudo isso brotar um MANÍACO da terra seca do cerrado e relatar aos outros coisas que desconhece acerca de mim? Não, não vivi aquilo tudo em vão, eu tenho uma história, história essa que é melhor que a dele em todos os sentidos, pulverizando nesta afirmação qualquer chance de relativismo. Além disso, selecionei esse caso em particular porque considero-o a vilania perfeita – MANUAL DE COMO SER ATROZ – devolvida do modo mais prometéico. Como tudo se desenrolou ontem minha memória segue viva a respeito e registro tal dia de domingo aqui como a demonstração par excellence de que uma vida bem vivida pode ser uma obra-de-arte apesar de (ou, aliás, justificada pelo fato de) vivermos no mundo moderno.

Durante todo o dia me senti poderoso, alguém sem virtude, mas com honra. Por vezes Montesquieu é bem nietzscheano. O engraçado é que eu vivo minha teoria. Os imbecis das Ciências Sociais não sabem o que fazem, vivem à deriva. Viver o que eu estudo é o único estímulo restante, o que faz da vida de universitário suportável, de modo que não largue tudo e vá ser serial killer.

Finalmente, vou retomar aspectos do início do texto. O leitor que não é de fixar muito bem assuntos pelos quais passa apressadamente talvez tenha de subir a tela novamente. Quase nada do que eu disse era sem propósito, mesmo quando parecia sê-lo. Quando falava do vício pelas caminhadas extenuantes, da necessidade de se afastar da quase totalidade das pessoas, provocando – se preciso for – cisões abruptas e escoradas em “motivos fúteis”, do walk-man e do MP3 e das nuances trágicas, eu estava preparando o terreno. Com todas as variáveis do meu dia dissecadas, chegou o momento de efetivar a unidade do pensamento da vez, revelar o princípio moral que é meu imperativo absoluto, minha diretriz-base.

 

Sinto-me à vontade, então, para definir a expressão que utilizei entre aspas no princípio do ensaio, comportamento trágico. Entendo que o homem trágico é aquele que molda seu destino. Mas não tome por esta expressão uma espécie de amo do gênio da lâmpada. Não é “sou aquilo que quero”; é “sou aquilo que consigo ser”, mas o que eu consigo é na verdade aquilo que eu queria. Daí concluo que nunca ajo de modo escapista, como uma Alice e seu ácido. Pelo contrário: eu chamo os embates, eles me transformam, e “o que não mata fortalece”. Sagro-me um ser brônzeo, um Hércules, semi-deus, herói, legendário, e o fato de desencadear a ira dos que se irritam facilmente com o sucesso dos outros (ainda que eles sequer entendam o conceito de sucesso, mas basta notarem que eu sou feliz comigo mesmo) só agrava o mesmo quadro: fico cada vez mais forte, daí o emprego do termo trágico: no fundo meu inimigo sou eu, e amo meu inimigo.

 

O ideal seria ser PROMETEU ou AQUILES. Como não podemos, resta-nos enganarmo-nos a esse respeito.

Mês passado tive uma aula de Teoria Política Moderna em que o professor Paulo Kramer citou algo curioso: a tendência de haver “profetas” na História. Menos pelo talento do próprio enunciador e mais pela capacidade de uma personagem futura moldar a sua maneira a vida de forma que se torne exatamente aquilo que foi descrito que deveria acontecer. Uma espécie de fatalismo; porém esta palavra não retira a responsabilidade e o livre-arbítrio que cada um teve na construção da “coincidência”. Do que estou falando, em termos menos obscuros? Kramer disse que Napoleão Bonaporte foi o exato Príncipe maquiavélico, três séculos depois da publicação da obra-prima; Nietzsche, quando ficou irreversivelmente louco, surtou ipsis literis como o protagonista de O Idiota de Dostoievsky. O romance foi escrito na metade do século XIX, enquanto o homem real foi internado em 1889. A cena do santo epiléptico que perdia a razão devido aos pecados incessantes dos homens e a incapacidade de apreender seus corações era permeada de detalhes que se repetiram sem-falhas na tragédia-realidade nietzscheana. Um capataz desumano que açoita um cavalo, as lágrimas que brotam, a corrida por um descampado, o beijo na boca do animal. O mundo está abarrotado de Édipos. Vou ser o mais direto possível aqui:

A cena da ruptura, o desenlace da noite de ontem, quando tomei a resolução de evadir o local, me vingando das ofensas recebidas, me evoca a última gesta de Zaratustra no livro-poesia de Nietzsche. Os detalhes biográficos, as semelhanças entre eu e o autor, já estiveram evidentes o suficiente. Mas o alter-ego do filósofo do martelo e da dinamite, o sábio persa, mistura de eremita com tirano redentor, sou eu. Depois de abrigar todos os governantes que foram de estatuto nobre no passado e que estão no seu ocaso, ofertando-lhes vinho, deleite e conversas agradáveis, Zaratustra pede licença, sai de sua caverna e se depara com o leão. Zaratustra fala com os animais. Não ordena explicitamente que destroce seus hóspedes, mas exorta a fera a entrar, pois é bem-vinda em seu lar. Acaricia sua juba imponente. Sua atitude astuciosa só lhe vem à mente depois que o rei-da-selva já sumiu na gruta: havia sido ato inconsciente, uma dionisiedade, um arrebatar instantâneo – fenomenal. Se pensasse por 1000 dias, teria feito a mesma coisa. Não há pusilanimidade no feito: apenas não há virtude; mas há honra. A correção de Zaratustra, a dignidade e a sinceridade, o protocolo, a cerimônia, a pureza e a desenvoltura com que se dirige a qualquer um sem meias-palavras e semore de frente não precisam ser a regra; ou, antes, é uma regra como qualquer outra: comporta suas exceções. Aquele que quer algo mais impõe a jogada mirabolante que ninguém no tabuleiro pode retribuir, ainda que eventualmente a possa prever. Que subjuga sem resistência. Maucaratismo, não. Golpe de mestre, sim. Àté o vinho da caverna lá estava, na noite candanga (transfigurado em conhaques e vodcas – Zaratustra concedeu as últimas risadas aos compatriotas falidos)! Eu reprisei a epopéia. Porque ao longo dos últimos anos forcei minha rotina a acompanhar o movimento daquele homem. Os contornos-gêmeos são atingidos assim: com extrema labuta. Depois de relegar os convidados às dentadas, Zaratustra parte para novas peregrinações, e não mais é visto. O que reserva o destino à ponte para o super-homem?

Previsões divertidas – Quiçá dessa teia de fatos decorra que a morte que eu aguardo para mim, definhar de fome, pode não ser a mais provável. Penso, agora, que terei um fim tranqüilo de alguém que enlouquece depois de mandar todo o seu recado, ou parte do seu recado com grande propriedade. O que será de mim a longo prazo? Serei professor, como o idealizador de Zaratustra. Amigos fiéis e duradouros? Creio que só tenha um, Thomas Edson. Espero que ele não seja meu Richard Wagner. Essas possibilidades de repetecos já começam a me assustar! Quem será minha Lou Salomé? Até agora não conheci uma mulher esperta - talvez a Patrícia?  E claro! Grandes livros virão, quanto a isso não há sombra de dúvida. Se puderem ser paridos sem tanta enxaqueca eu agradeceria... E eu gostaria de viajar pela Itália, respirar o ar veneziano, sentir a atmosfera florentina, rever, caso ainda exista (rever porque já a vi, num momento que não posso mais resgatar!), a pedra pontiaguda à beira do lago em Sils-Maria. Se sonho muito alto, quem sabe me contente com nossa Itália sul-americana, a Argentina! Não seria nada mal, na mesma toada, acompanhar algumas óperas: ambiente decadente, mas desfrutável.

Alguns aforismos deste ensaio foram retirados, até esta linha sem os devidos créditos, de outro homem, Jean-Paul Sartre. Também suprimi as aspas, intencionalmente. A existência precede a essência é uma delas. Somos livres para tudo, ou somos deuses, o que é uma tradução livre das suas implicações, é uma outra. Tratei com menosprezo este pensador mas repararei esta miopia em pouco tempo. Nunca havia dado uma chance a ele até perceber a importância da auto-responsabilidade nos séculos XX e XXI. Se digitar CTRL + F e procurar pelo nome do filósofo francês, o leitor deverá encontrar críticas severas. Vejo aqui que a dilatação do conceito de liberdade me incomodava. Mas a culpa não é de quem o cunho, é do rebanho que não o suporta!

Tréplica que já imagina a réplica – Ao leitor mais arrogante que retrucar que sou louco: loucos não escrevem tão bem.

A propósito, melhor do que me resumir em uma palavra, DOIDIVANAS, PSICOPATA ou sei lá – melhor o leitor me enxergar pelo prisma dessas três: APAIXONADO PELA VIDA. Acho este até aqui o post mais importante e trabalhoso do blog – hipertrofiou minha mão, tive que parar, escrever menos que o previsto, deixar as idéias descontínuas, devido à paralisão completa dos nervos do membro direito. Sempre acho, nessas horas, que não lograrei resultado melhor, como no DA CULPA E DA AUTORIA DOS ATOS E TEXTOS, ou, retrocedendo ainda mais, DA PASSAGEM E DA CONTINGÊNCIA DA ESTADIA NO VAGÃO, duas grandes publicações do blog, campeãs de comentários, aliás. Mas a espiral segue, incrivelmente!

 

Gostei dessa linha pessoal de postagem. Talvez relegue o PROJETO TRANSCENDER a segundo plano em prol de auto-análises similares. Talvez eu faça remendos e novas incursões baseado no que escrevi, principalmente a fim de que o leitor conheça mais a fundo a origem de várias das citações e personagens que eu busquei, mormente na literatura, e com os quais projetei paralelos. Ou seja, prometo desde já uma espécie de REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA deste ensaio. Isso poderá fundamentar inclusive pesquisas que enriqueçam meu próprio panorama, com informações que, conforme for conveniente, eu revelarei ou não a vocês!

 



Escrito por wormsaiboty às 02:13
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A MAIOR TOLICE: ESCREVER PARA PRESERVAR!

Dedicado a um amigo que jamais lerá

 

Frases minhas:

 

“Precisei de uma cicatriz para entender o ferimento”

 

“Sísifo suplantou todos os deuses”

 

“Eu sei por que leio tão devagar! Mas demorei a descobrir!”

 

“Um dia vou tatuar nas costas: o único cristão morreu na cruz”.

 

“Tudo é como num jogo de futebol: ser diferente não é escusa para o fracasso; você escolhe onde se posiciona em campo e o gesto que executa. Tente o melhor antes de reclamar da sua condição. Aliás, só são toleradas invectivas ao árbitro após o apito final. E, como eu dizia, a vida é como num jogo, e isso é depois do jogo...”

 

 

 

É engraçado como Deus sempre participa das decisões temporais até a época lockeana ou um pouco além. “Deus interferiu pessoalmente”, é o que consta de uma passagem do capítulo VIII do seu famoso Segundo Tratado.

 

Eu só consigo pensar num contraste como sendo um duplo. Mas não poderia ser triplo, ou polimorficamente conjugado?

 

Cada um é absolutamente responsável pelo próprio destino. Esta a única das verdades práticas já enunciadas e que ainda não se consegue suportar. Sim, o Euclides estava certo: eu tenho sede de poder. Ser poeta é ser demiurgo, é dar uma sapatada na cara de cada um dos desafetos. É, eu simplesmente gosto desse jogo! Ninguém descreve verdades, apenas produz verdades. Soneca e bando: esfarelem-se! “Ois” e nada mais, o melhor para o meu corpo. Há riso demais para tão pouca graça entre os jovens. O que eu digo é verdadeiro com base na força do que escrevo, e não do que vinha antes. Persuasão? Não, não é só isso: eu convenço fisicamente, uma vez que a matéria não mais resiste a esse moto – que é matéria, impulsos nervosos e pigmento de caneta Bic (ou bits e bytes, placas integradas, mandando um sinal elétrico daqui e dali). E é verdade, não obstante, que o demiurgo também se alimenta (até vermes como o Luan se alimentam, de onde tiram energia para dizer as asneiras de praxe) para poder criar. Mas, tiranicamente, me despeço: demiurgo é demiurgo, criatura é criatura. O dia em que todo mundo assumir culpas sem crucifixos...



Escrito por wormsaiboty às 19:49
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Talvez a Grande Política se resuma a governantes que impõem as seguintes condições:

 

- não puniremos quem matar ou ferir. Cada homem deve saber se proteger e arcar com conseqüências;

 

- sancionaremos aqueles que furtarem, adulterarem ou destruírem obras-de-arte alheias. O ideal é que o artista divulgue seus trabalhos. Iremos acolhê-lo mesmo se for contra nós. Mesmo e sobretudo, pois para nós não há “mesmo”.

 

Etapas para a re-extensão do espaço-tempo:

 

- fim da Internet e das comunicações modernas;

 

- fim dos carros;

 

- fim da cidade como a conhecemos;

 

- destruição dos pastiches das épocas passadas (que nem são tantas assim, dados trimilenares desconfiáveis);

 

- isolamento de vários grupos humanos (como em O MESSIAS E O HOMEM RURAL);

 

- decréscimo da população (obviamente);

 

- para tanto, não a guerra, mas o desmantelamento dos Estados nacionais via desastres climáticos – Nova Era do Gelo – oh, isso é engraçado!

 

- ou seja, muito espaço por explorar e um tempo para criar, de novo.

 



Escrito por wormsaiboty às 19:16
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SAGRADA FAMÍLIA

 

Não estamos satisfeitos com aquilo que nós temos

a não ser quando o perdemos

e depois o reavemos

De certo modo,

é um querer viajar

até o ponto do saturar

para em seguida tecer o voltar

 

Eterna saudade

do que precisa ser superado

 

Enquanto eu quero viver

o cristão só pensa em morrer

para descobrir o que vem depois

A sina está feita

quando se descobre

que o rabo da cobra

era a cabeça!

 

Infância

Mil ressurreições

A deposição

do ressentimento

de qualquer cristão

 

Vingança

qualquer anti-semita delineia

mas a minha

não é contra o espelho

nem avessa a minhas veias

 

Onde corre sangue

e não a metafísica hobbesiana

do judeu exangue

Deus Mamon, deus-dinheiro

O umbigo mais profundo

O sofista mais infecundo

 

O carnaval da elite

é pagão

Faz ajoelhar até

o chão

Típico valor

de pedra

Esse de se curvar diante de

uma reza

 

Eu voo

Porque seus pontos cegos

são mais cegos que os meus



Escrito por wormsaiboty às 18:56
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