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ORIGEM ETIMOLÓGICA DOS MEUS SIGNIFICADOS NO DEVIR

Uma coisa que sempre me intrigou: quando era pequeno achava que era judeu. Não há nenhum traço judio em minha família. Nada concreto a respeito...

 

Mais uma: aos 5 ou 6 anos, quando da primeira vez que a Globo exibiu aquela novela, A Viagem (um grande sucesso, reprisado duas vezes no Vale a Pena Ver de Novo, num espaço de menos de meia década), eu sentia um prazer imensurável em acompanhar o protagonista, Alexandre, rastejando no Inferno, ao passo que aquelas “rodinhas espíritas” de pessoas vestidas de branco no Paraíso eram não só o ápice do clichê mas uma situação deveras desagradável, incômoda, suscitadora da – inicialmente – dúvida – depois provocação segura – de que não seria entediante ser um pecador irresoluto para no fim escapar àquilo. Fogo, trevas, inimigos, aventura... Eis aquilo pelo que minha infantil mente já clamava. Uma curiosidade é que Alexandre significa “altruísta, justiceiro”.

 

Eu tenho um primo bem mais velho chamado Alexandre. Sempre disseram que eu fui muito parecido com ele, que quando mais novo poder-se-ia julgar que sou seu clone. Com efeito, “puxei” muito essa minha tia, Socorro, a mãe de Alexandre. Meu pai tem irmãs loiras e míopes. Eu nasci loiro e tenho quase 10 graus de miopia no olho esquerdo. Não é de se estranhar que, na idade de “Pequeno Príncipe”, eu fosse comparado ou confundido com o justiceiro.

 

Quase me batizam como Hugo, de origem alemã, conotando “espírito, razão”. Espírito que é uma coisa de que o homem moderno, o alemão anti-semita, principalmente, que é o non plus ultra deste, prescinde. Curiosamente, dir-se-ia que um hebreu é alguém de espírito. O judeu tem espírito, é bem-humorado, sagaz e tem dinheiro. Por isso é tão odiado. Independentemente de não me chamar Hugo, eu tenho espírito. O que é estranho é eu ter pensado durante algum tempo que eu fosse judeu sem pistas claras.

 

Meu irmão Diogo, “conselheiro”, aconselhou meus pais a me concederem o nome de Rafael. De raiz grega, “curado por deus, aquele que é paciente, perseverante”. Além do mais, faço alusão específica ao termo TEIMOSO. Não foram poucas as conversas e as madrugadas reflexivas em que pensei nesta palavra como a minha sina: teimosia é o melhor de tudo para me descrever. Minha vida é a apresentação sob bilhões de formas do que significa um espírito teimoso diante de incessantes obstáculos. Também é dito nos dicionários de nome que Rafael é aquele que se esforça por ser observado, chamar a atenção, sobressair em relação aos demais. Não sei se estou falando da acepção genérica do nome Rafael ou então de mim mesmo, agora! Em 2002, quando dei minha largada mitológico-filosófica, exteriorizando minhas convicções no papel, produzi um compilado de teorias fundadoras da minha concepção de mundo e de eu, As Teorias Supremas. Nelas a característica da teimosia e a necessidade de retomar uma espécie de realeza que eu possuía na infância e que alguém ou várias coisas me furtaram são a tônica. Entendo que meu egoísmo é o puro altruísmo e ninguém percebe: ao ter alma de artista, eu estou presenteando a todos com meu super-talento, e cada vez mais atingindo minha própria essência. Nem que a custo de ser um pecador.

 

Minha mãe se chama Nadir, que significa “o contrário de zênite”. Zênite é o ponto mais alto do céu. Nadir, por extensão, implica decadência. Eu sou filho da civilização em estado putrefato, decadente. Meu pai se chama José de Jesus. Ao mesmo tempo, José é o pai de Jesus. Eu posso ser considerado um mártir. Mas filho de Nazareno já vem a calhar. Eis o ícone supremo do cristianismo e da moral que nos infecta, que torna o homem do século XX o extremo da miudeza.

 

Meu nome completo é Rafael de Araújo Aguiar. Aguiar deriva provavelmente de águia, que é a ave mais aparentada à figura lendária da fênix, Ouroboros, que remonta à sociedade egípcia e que foi transmutada para diversas civilizações até chegar ao Ocidente. A fênix implica a confirmação do princípio de eterno retorno de todas e de cada uma das disposições do sempre-transitório universo. Trata-se do único imortal factível, que renasce das próprias cinzas: tem uma vida finita, embora inesgotável. Rafael de Araújo Aguiar é uma denominação especial, porque eu consigo vê-la em círculo, se fechando em si mesma: Rafael de Araújo AguiaRafael de Araújo Aguiarafael de Araújo AguiaRa... Ra é o deus-Sol, o mais poderoso elemento dos cultos no Antigo Egito.



Escrito por wormsaiboty às 20:49
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ÉTICA DO CARONEIRO E IDIOTICE AO LONGO DO TEMPO

Quase três meses se passaram e eu não recebi a resposta a um e-mail que emiti a um amigo meu, ex-professor de Sociologia (ele continua dando aulas, eu é que não sou mais seu aluno) do CEUB. Observei que o blog anda às moscas e que a mensagem provavelmente jamais será respondida, o que é uma pena. Mas, se eu mantiver a identidade do destinatário em sigilo, aposto que a transcrição desse recado eletrônico é um poço de cultura e promoverá belos debates... Sim, vou publicá-lo na íntegra! É revelador acerca da minha própria vida ultimamente, como verão...

Absolutamente nenhum corte foi feito!

 

Pois é, agora eu também tô na correria, mas só pra não perder o hábito...

...escrevo mormente por conta de um lampejo meu de hoje:

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antes um parêntese:

Casou-se esse ano ou ano passado? Felicidades. Curiosidade mórbida: foi na igreja, no cartório ou no quê? Haha.

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A ética do caroneiro (você está dirigindo, aparece um transeunte, você deve parar o carro) - On The Road -, a ética do potlatch, enfim, essa naturalidade em conceder um favor -- certamente os que choram de saudades da propriedade privada já antes de seu fim não se sentirão incomodados ao dormirem na gruta "dos outros" (ética de acolher o visitante estrangeiro em seu palácio, A Odisséia) ou ao compartilharem um milho, uma maçã ou um veado morto (hoje um caçou e o outro amargou jejum, porém sentará à mesa com o primeiro; como amanhã pode muito bem se dar o inverso - mesmo o homem que deseja superar a si mesmo, o Zaratustra, não se faz de rogado, e ao invés de cair de fome por orgulho bate à entrada da choupana pedindo comida, não sem a costumeira altivez).


A postura de mendicância seria socialmente reprovável (como é neste mundo), outrossim a da ganância também, num futuro vago. Certamente pedir não seria constrangedor ao aventureiro que se visse conjunturalmente necessitado. E no entanto o ímpeto desse novo homem é tão amplo que amanhã mesmo aquele que teve de ser amparado estará retribuindo com um banquete homérico. Só não posso afirmar que haverá essa circularidade e o vetor obrigatoriamente horário ou anti-horário (como nas tribos estudadas por Mauss - aliás, principalmente por Boas, já que Mauss não "etnografava" - e nos trobriandeses de Malinowski). Não é curioso? Talvez não haja dívidas de gratidão: pague-me quando puder, um dia nos veremos de novo, faça de conta que eu sou o próximo que aparecer. Aliás, não tenho dúvida de que todos seriam no mínimo semi-nômades.

Pueril? A verdade é que olho ao redor e vejo apenas "idiotas", no sentido grego, isto é, os politicamente nulos e interesseiros da polis, pessoas que são ensinadas a recusar caronas para estranhos, jamais dar moedas por aí (Nietzsche diz: "é preciso acabar com o mendigo, porque frente a ele fica mal dar esmola e também não fica bem não dá-la") - o engraçado é que há uma camaradagem fora do comum quando se trata de cigarros (aliás, a droga de balada anos 2000 é consumida sozinha, enquanto a maconha ou os chás costumam ser ministrados em roda, grupos, essa é uma evolução comportamental notável) - e comer seu quinhão antes que abocanhem primeiro (exemplo habitual de professores em Introdução à Antropologia: o índio, chegando à cidade, consideraria o sumo do absurdo o egoísmo do homem branco, "pagar para comer!", e ao contar isso aos seus semelhantes, na volta, seria tratado como aquele que saiu da Caverna de Platão e viu a luz - louco ou mentiroso).

Tudo isso para dizer que o helênico desconhecia o homem estranho, era o antípoda da loucura, em sua loucura: o exato oposto da esquizofrenia pós-moderna do quarto com PC. O que podemos fazer? Certamente que nós somos apólogos da liberdade negativa, "cada um no seu quadrado" (talvez eu esteja ferindo a sua ao aborrecê-lo com um verso de funk). Idiota, em 2 mil anos, se tornou aquele que participa. O que não está claro é a conseqüência trágica (auto-mutiladora) de uma solidão que adora se expor (Orkut - não quero ser tocado, preciso ser observado, por 10 mil olhos, quiçá). Talvez o pessimismo seja apenas um disfarce do otimismo: quem nada espera lucrará com o que passar - e uma coisa tão grotesca e sedentária está devolvendo a interação com o estranho!

A propósito, a tese que pretendo defender é quase o que falei, só que com relação à televisão. Quem diria, a caixinha é tecnológica, não é magia, mas está ensinando modos alternativos de vivência para quem não desgruda a bunda do sofá. Se quem assiste o personagem morre com ele, nós estamos começando a gostar da idéia de "arriscar a vida". Obviamente, os esportes radicais são uma outra derivação do homem cansado de ser ascético...

Curiosidade: meu professor de Política disse que Dostoyevsky escreveu certa cena em um romance seu, um homem que ficava louco ao ver um cavaleiro açoitando seu cavalo, corria em direção ao animal e o acariciava. Nunca mais voltou ao estado normal. Pois bem, o que é divulgado é que, ANOS DEPOIS, Nietzsche veio a se tornar clinicamente insano da mesmíssima forma... O nome do livro é O IDIOTA. Eu já o li, mas sinceramente não lembrava dessa cena, por isso só me toquei com a menção direta da coincidência/previsão. Seria o mesmo com Maquiavel e Napoleão, aquele que veio a ser o "Príncipe empírico". Conhece mais casos?

A história é circular...

Rafael



Escrito por wormsaiboty às 21:23
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NIILISMO CANDANGO

 

Alexandre, que cursa o terceiro semestre de Ciências Sociais na Universidade de Brasília enquanto escrevo esta mensagem, e que faz Teoria Política Moderna às segundas e quartas comigo, é minha escolha para ícone do niilismo. A modalidade européia da descrença absoluta no homem parece já ter chegado aqui. Este jovem hedonista e seus comparsas representam o sumo da imundície e da vergonha. A elite brasiliense abraçou o nada com ímpeto. Seus corações econômicos desde já batem e se debatem por essa nova “verdade”. Não há nada pessoal na citação. Nenhum ato de Alexandre me pareceu particularmente abjeto. Mas um pintor que olha um quadro entende tudo. Apura a catástrofe que emana daquele retrato sem culpa. Sem culpa e sem dignidade, uma figura prosaica do cerrado, passível de ser encontrada em qualquer entrequadra (o Plano Piloto não possui esquinas) num dia de semana, bebericando um chopp. Alguém até bacana, sorridente... Mas isso borra ainda mais sua imagem.

 



Escrito por wormsaiboty às 17:29
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