X-TudoTudo


ACERCA DA AUTO-IMAGEM

Sobre o incômodo de ser filmado, fotografado, gravado e exibido por aí. Essa “Síndrome de Glauber Rocha” (que declarou que quem se sentia à vontade na frente de uma câmera segurando um microfone deveria ter sérios distúrbios mentais) sentida na carne por quem, após o momento de aperto, pergunta ao amigo mais próximo: “Como me saí?”.

 

“Esse constante mal-estar, que é a captação da alienação de meu corpo como irremediável, pode determinar psicoses como a ereutofobia; tais psicoses nada mais são que a captação metafísica e horrorizada da existência de meu corpo para outro.” SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada, p. 443 [negrito meu].

 

Quanto mais amor-próprio, mais náusea (a nomenclatura é sartriana) diante dessas representações “objetivas”. A prova de que eu não estou equivocado é que me gosto no espelho. Talvez já não me goste no espelho do elevador, acompanhado. Talvez deteste essas minhas extremidades anti-Popeye. Gostava de ser tão maior que minhas namoradas – estilo protetor. Outrossim, o beijo é sempre belo. Não cheguei à louvação do sexo-espelhado do Dimitri, no entanto!

 

Deve ser a natureza da lente viscosa do equipamento, que tira meu brilho e minha luz. O Sol é meu amigo! Os lixos se sentem coesos entre si. Mas basta ver uma mulher para saber que ela se detesta quando acorda.

 

“Diz-se comumente que o tímido se sente ‘embaraçado pelo próprio corpo’. Na verdade, esta expressão é imprópria: eu não poderia ficar embaraçado pelo meu corpo tal como o existo. Meu corpo tal como é para o outro é que poderia me embaraçar.” Ibid.

 

Ninguém tem vergonha de sua voz idiossincrática. Minha neurose-platônica: quem sabe os outros me percebam como eu realmente sou! Desses trastes, quem é que consegue se ler imaginando um ser brônzeo como eu detratando aquilo tudo, aquele castelinho de areia? De pavão a verme num segundo.

 

Narcisista? Eu diria que esse mundo da super-exposição é o contrário! Álbuns do orkut: como alguém gostaria de ser visto. Luciana, a magra. Thomas, o sério. Eu, o melhor. Melina, a mulher. Byanca, a sedutora. Michelle, a misteriosa, psicodélica, elegante. Thay, a audaz. Iza, a mínima. Tarcila: ainda mais bela e irresistível. Deborah: suprema e centro do universo. Saulo: o eterno boêmio. Flávia: a despojada. Mas eu... eu matei meu alter-ego, me tornei o alter-ego dos outros. “Que foto horrível” “Obrigado pelo elogio, sem tonsilas!”. E aí vem a tendência das fotos de banheiro, das fotos de chupeta...

 

Concluindo: não se trata de uma lei “quão menos satisfeito consigo, mais o sujeito se apreciará em terceira pessoa”; o artista é a refutação disso e é o meu ideal. Ele se exprime bem. Um texto meu é o ápice da beleza. Devo maximizar isso corporalmente. Creio que vim tendo o êxito que é possível... E, aliás, quanto à lei, pelo contrário, eu até exagero nesse desagrado. Uma gorda horrorosa seria realista. São “sem conserto”: a vantagem da graciosa. O fraco: desenvoltura que parece maior na foto (“sou ela!”).

 

Outra coisa: por que sempre me decepcionava com as fotos dela? Se já a via assim! Fusão de essências?

 

Explicação do meu ideal e síntese do meu dilema amoroso:

 

O que se sucede é que meu tipo de arte vai CONTRA toda a estética. Só mulheres esquisitas podem vir a gostar de mim. Mas minha carga já é forte demais para eu ter o mesmo tipo de preferência... Eis o impasse! É como se houvesse dois Rafaéis: o jovem hedonista de 21 e o mestre trágico par excellence. Eu quero a bela, harmônica, simétrica, sensível a minha assimetria.

 

“jamais encontro meu corpo-Para-outro como obstáculo; ao contrário, é porque nunca está aí, porque permanece inapreensível, que tal corpo pode ser importuno (...) Eis por que o empenho do tímido, após constatar a inutilidade de suas tentativas, consistirá em suprimir seu corpo-Para-outro.”



Escrito por wormsaiboty às 22:04
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NINFOMANIA É ENCARCERAMENTO CORPORAL!

UnB ampliando a devassidão... Ressaca: estranha sub-consciência... É como se fosse um bêbado com tino para escrever...

{ um brinde }

Quarto autômato mãos escrito tela MEGAPIX  Ah! POESIA CONCRETA, AGORA? Pé dedo mão joelho – barriga – CABEÇA

 

 Cigarro, stress... livros, economia, surrealismo, futurismo menos ismo, sonambulismo!

 

Copo d’água que me salva. Chocolate caspa borrachudo ai picada gordura superfície frigideira lata-velha lar patriarcal

Marinês Lispector!

 

Quando um amor explode? Acho que nunca por decreto.

Desconto – e não é de loja! Só isso já vai me fazer não sonhar com o Super Mario.

Pelotão anti-concentração. Gênio louco e tarado, é o que eu sou! Por que me olham de lado? Metal – fluxo. CANTAR, ah sim! Como posso com tanta facilidade me olvidar? Um bom papo, um bom teatro... Em falta, e nem com Harry Porta. Esforço final – já estou no ½. E há 4 meses eram planinhos autômatos estúpidos – tempo para digestão e para ver televisão. Está claro, de mais a mais, que um tour de résidence é insuficiente, Patrícia! Já visitei um hospício... mas nada como meu quarto. Correndo a rabo feito cão. Being a cheerleader is always good! “2h de Ódio” VOLTAMOS AO PONTO NEGRO!

Eu sou um Zaratustra pontual. Cada vez menos pontos na guerra naval...

 



Escrito por wormsaiboty às 16:20
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MEU PENSAMENTO-MOR

A verdadeira compreensão do eterno retorno (datada de 20 de maio deste ano):

 

Nunca houve um Adão nem tampouco haverá Apocalipse e adeus. Tudo transcorre na mais perfeita naturalidade e ininterrupção: a humanidade é perpétua. Aliás, é o próprio universo. Um casal dá origem a seus filhos e os filhos a netos... isso nunca começou e não terminará, e o caso é que tal idéia soa muito complexa dada a finitude da vida e a noção de expansão-retração do cosmo. Mas eia! Logro a explanação pelo posterior:

 

“O meu filho mais distante é meu próprio pai”

 

O que eu fiz? Trouxe o eterno retorno da Física ingênua até os estertores da consciência, daquele-que-percebe e sem o qual nada há!

 

Dada a configuração paroxista do devir, há sempre o embate de duas macro-forças: a anelídea e a cristã, da qual sou o elo perfeito. Nasci em 1988 e sou meu próprio neto, descendente mais distante e mais próximo! Esta é a máquina divina da procriação e auto-louvor! Incomensurável momento dos momentos, esta linda linha. Por causa do cristianismo, da temporalidade irrevogável e da linha reta, temos mitos de origem e desfecho. Porém do ângulo da minhoca – vê-se que minha extensa ligação com este animal não é vã – há um singular mito-sendo do retorno. O que é não deixa de ser mesmo quando deixar – seria a forma concreta de relatar o fenômeno, irrepreensível, mas estranho à lógica que é a mãe de minha escrita. Por isso eu sou os dois, o pecador e o dançarino invicto. Eu mesmo me contei e inventei toda a narrativa.

 

O Adão borrado deve ser meu filho, meu primeiro pai. Terá mesmo um nome grego? Como não há notícia de último homem, infiro que ele é cada um de nós. Somente eu como demiurgo poderia castigar alguém assim. Minha lâmina de tudo corta, sem cortar...

 

((Sol))

                    (Terra)             ((((((((mar))))))))

 

{de fato, não é um esquema inédito. Eu sou o gênio do detalhe!}

 

Essas coisas, e os quadrúpedes inferiores, por exemplo, nunca saíram daqui. Nenhuma Guerra Mundial ou Holocausto foi mais grave do que envergonhar. Nenhuma intempérie esfriou temperamentos. Alakazan, LEGO. Moléculas e coacervados: puro jogo de cena! Nunca houve bárbaro com cordas vocais se esperneando e urrando para aprender palavras. Todos tiveram pai e mãe humanos e uma série de circunvizinhos. E, com efeito, são 5, 6, 7 mil anos e nada mais! Ninguém trouxe o fogo, me desculpe! Ou, para cada pessoa, foi um sujeito alternativo o gestor.

 

Adormecer esse pensamento significa torná-lo verídico, pois preciso esquecer do círculo para formá-lo. E conformá-lo ao meu eu.

 

Nunca houve um Adão nem tampouco haverá Apocalipse e adeus. Tudo transcorre na mais perfeita



Escrito por wormsaiboty às 20:22
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RETROCEDER-11 – 14/03/09-presente

[epílogo] VIDA NOTURNA E OUTRAS CONSIDERAÇÕES

 

Ao som de Pantera

 

1) Sair ou não sair?

Para uma vida como a minha creio ser impossível se aproximar muito dos extremos. Admitamos uma saída a cada duas semanas como uma média razoável para não embotar. Um super-homem não se contentaria com uma resolução definitiva, nem é possível que se opte entre uma existência ascética e outra cigana, como acreditei por uma noite...

 

2) Com quem? Para que lugares? É possível sair só?

Novamente a questão dos extremos: não existe o divertimento e o momento inesquecível a que se visa sem que se trave ao menos um diálogo. A catarse não se cumpriria, seria como um passeio pelos arredores para fumar ou meditar. Porém minha natureza é veementemente contra “panelinhas”. É uma encruzilhada dificilmente transponível. Ao mesmo tempo, mesmo o mais digno eremita não poderia se blindar em uma cidade como Brasília: aparecerão conhecidos. Mas há problema em andar sozinho e se deparar com essa gente? Parece meu mundo ideal e no entanto aparenta a conduta de um desviado social. Não fora um desviado social e eu seria um demente! Devo encontrar um equilíbrio entre essas situações. Posso beber estando isolado num ambiente não-metal? Receio que nunca fiz esse TESTE. Compro umas cervejas, assisto ao show. Parece monótono.

 

Pessoas me invadem e me arrependo de me abrir, mais tarde. No entanto, de que vale, também, a porta toda fechada? Nem as imbecilidades de 2007 nem a quietude soberba de 2008. Salvo excepcionalidades, não devo ir a esses “eventos dos jovens medíocres”.

 

Meu terreno é o METAL, devo fincar raízes nele e isso não significa ser de tal ou qual grupelho. Freqüentar esses concertos por si só me contenta e revitaliza, além do que sempre há conhecidos ou então haverá, já a curto prazo. Oferecer cigarros é meio caminho andado...

 

Blackout, Blues Pub: vale a pena virar uma noite pelo metal e por essa sensação de “refresco”? Só o devir dirá se não se tornará tão-somente um filosofar ainda menos grato – tudo que é freqüente se transmuta em aborrecido [embora a melodia de Cemetery Gates me invada de tal maneira que clamo por reviver essas lembranças sem pestanejar!].

Bem, talvez eu seja forte para evitar. E então o quê? Eu não dei chances para a única pessoa que atualmente me chama: Heliane. Não são programas-metal e se trata de uma panela – que nos brinda com muitas ressacas [terríveis...]. Não devo perder contato, é meu único porto e meu orgulho se ressente. [Só o futuro pode confirmar o apagar das luzes.]

 

E daí se não houvesse mais porto algum? Não é o que eu mais quero?

 

[Aqui se reacende meu conflito primordial: quando me afasto do rebanho – não há como ser gregário sendo tão sábio – me aproximo das não-pessoas – a tecnologia –, da qual vim tão temerosa e bravamente me afastando nas últimas férias. É impossível um duplo adeus, e creio que diante do meu atual humor me aproximar demais de um é cortar tempo reservado ao que sobra. Certamente esta é a ponderação mais árdua dos meus 20 aos 24 anos. Sair e beber implica, além do mais, a manutenção do problema da saúde. Meus intestinos precisam de Apolo; mas sem Dioniso até os Jardins do Éden se afeiçoam a um ferro-velho tóxico. Parece que eu nunca estou suficientemente numa rota. Nem suficientemente administrando as duas rotas! Este drama de personalidades é severo. Um dia ainda vai provocar minha calvície. Por que não encontro Anti-Édipos com quem acoplar? De dinheiro também não disponho. Estou condenado a ser um cata-vento no vórtice de vários vendavais. Sociedade do dor-prazer. Mais do que sociedade, posto do dor-prazer. Lar privilegiado. Sinuca de bico como nunca vi noutro lugar. Ócio ou trabalho? Trabalho que eu escolho e no qual consumo minhas forças em reserva ou simplesmente um desperdício incessante e ritmado? Cheiro de morte. Não obstante, inútil “ficar cheirando”: como se o-eu-cotidiano escolhesse alguma coisa!]

 

Para ser forte, devo sofrer. Sofrer desse tanto. Não obstante, me sinto um tolo com deficiência de aprendizado – qualquer coisa que se assemelhe ao rato de biblioteca me é degradante.

 

Não posso deixar de ir – tornou-se minha pele. Além disso, como ignorar os grandes eventos? Mudo de idéia sobre a Heliane muito depressa. Ela tem algo que indica paralisia, e não movimento, regressão nos meus instintos.

 

Bares são amáveis, mas não há bar sem quórum. Mas nada de se lamentar! (última rodada – na primeira rodada do Paulista...) Até as festinhas de centro acadêmico são caras a minha memória, será que esse movimento de cultuar o passado interrompido não cessa? Não lembro de me dar por satisfeito em algum presente. Mesmo no primeiro amor, eu fazia sempre planos ambiciosos... Dos males o menor: prefiro ser um sujeito prestes a fazer grande negócio do que uma alma deprimida. Plano “D.”, Plano “N”... de nada?

 

 

Poderia debater indefinidamente...

 

À beira de um colapso, de uma deterioração irrevogável do sistema nervoso.

 

Cadê meu ÓPIO?! O opiato sempre estará aqui?



Escrito por wormsaiboty às 17:58
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RETROCEDER-10 – 13/03/09

ADEUS VIDA BOA

 

Deve significar alguma coisa o fato de eu morar no quinto andar, ter 20 anos de idade e uma média normal de ascensos e descensos e nunca ter ficado preso no elevador. Qual seria a reação de um aparvalhado que se vê preso em uma caixa de metal? Chamar alguém, apertar botões, resignar-se? O celular deveria ser usado apenas de terça a quinta, se é que se me entende. Não sendo emergência digna do Corpo de Bombeiros, o telefone serviria tão-somente para avisar os pais. Descendo ou subindo? Indo ou voltando? Sozinho e faminto? O fluxo burocrático e estomacal também fazem a diferença. Se acompanhado, do sexo oposto? Quão íntima? O mais curioso é que nesses casos – sempre, aliás – o vizinho é o menos próximo. Sou muito mais vizinho dos mendigos e dos “inganados” (perdão, ingazeiros) que do Aloísio. Perder-se-ia uma prova ou um dia de trabalho? Ou um gol do Ronaldo...

 

Quando escrevo, explodo. É a única forma de “dopar” minha acelerada pulsação mental. Doutores indômitos receitariam drogas. Acho que não preciso de drogas receitadas...

 

Preciso ser contra atletinhas de futebol americano, namoradeiros e namoradeiras incipientes e, sem dúvida, universitários sem noção do ridículo e do vidro blindado. Por que não largo esta caneta soerguida por algo flácido e promovo gastos de energia melhores? Talvez eu devesse ouvir a fase pop do Metallica, ler meu trigésimo quinto livro – nessas férias – ou simplesmente filar alguns salgados... Durante todo o jantar de gala, quem riu de maneira mais franca de meu humor tolo foi a empregada. Aliás, é preciso que essa hesitação em hora de chamar o servo pelo nome seja pontuada. Ter vergonha de ter um subordinado – porque o real embaraço é não saber lavar os pratos.

 

Quanto ao iPod, ele é o novo cachorro: a equivalência em miniatura do dono, só que um pouco mais esperto.

 

Acabo de desentalar minha garganta – em tempos de inchaço. Maldita e derradeira estação.

 

Uma coisa que andei notando é que todos aqueles que precisam ser rivais eternos só não rescindiram o contrato – ou perfuraram o duelo – por ocasiões extraordinárias. Exceções das exceções, a exata probabilidade de uma molécula virar célula, é do que chamo:

 

  • Meu vizinho e amigo de infância e sua família tão elevada (“eles rezam muito, eu já estou no céu” – e eles têm três carros, eu sou Napoleão!) jamais terem encontrado referências negativas deles mesmos em mim – falo mal pelas costas e sobretudo pela frente, porém, quando mais seria necessário, para o blog leitor não há! Um mundo de malversações que se dissipa sem que o afeto pelo filho seja sequer ameaçado – talvez a mais grave ofensa por mim praticada, a seus olhos lívidos, seja meu cabelo grande. “Vais pegar uma pneumonia!”
  • Meu pai segue inabalável como herói e anti-herói da trama;
  • Aqueles que deviam ser esquecidos e deserdados voltam como bumerangue! E aqueles que, penso, estão no rol dos lembrados, estes são bumerangues falsificados. Luciana “do Bar” e tucano malvado prosseguem no jogo – peões. Mas não a prima do curitibano abobalhado. Priscilas e Patrícias diante das quais o melhor é não fazer nada.


Escrito por wormsaiboty às 22:23
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RETROCEDER-9 – 28/01/09

TRÊS ANOS DEPOIS...

 

O que aprendi? Que, vivos ou mortos, a luta nunca termina para nós. O cumprimento de um objetivo leva à instantânea miragem de outra meta. Se não tenciono mais a vida com qualquer arquétipo de mulher, me descubro num eterno labirinto, caçado por dois minotauros: pai e mãe. Não há um fio que me leve ao fundo ou me traga de volta. As paredes desses corredores são fugidias, cada dia brincam de estar num lugar. Após MAIS TRINTA E SEIS MESES DE SOFRIMENTO me dei conta de que estou numa rota dolorosa rumo à vitória. A vitória da existência, perpetuamente reprisada, com a queda sangrenta dos minotauros estúpidos. Se hoje eu opto pela minha auto-destruição, não será por outra coisa que a salvação da honra. O minotauro se dissolveria até mesmo com minha derrota! Caso a situação não chegue ao extremo dos extremos, meu êxito-fracasso dentro do labirinto a longo prazo ainda farão meu nome ressoar nas trombetas. Não podendo ser dobrado a nenhuma reivindicação, um estado de miséria material, irreconhecimento da sabedoria e falta total de amigos, preservarei minha altivez. A chama da minha teimosia terá reluzido sobre o brasão maldito da família, ainda que por outros meios. Se o minotauro-rei pensa em me atacar, apenas ofende o espelho com sua lança: a ruína de si! É a visita aquela que tem o direito de lucrar na festa – afinal, foi convidada com louvor. A jornada pode ser longa e cansativa, mas vale a pena se se pensar no lancinante perecer de uma bufona criatura solitária...

 

Suportar o anel, a minha lição de fanático!

 

Charles Dickens: é você quem semeia a própria infelicidade e projeta seus próprios fantasmas. Auto-crítica: é por ter medo constante da bomba que a dado momento ela EXPLODE. Poderia ser só um estalo, um ruído, um trovão distante. Modifiquemos esse comportamento. É possível viver sem música, a menos que se tente matar saudades, o que intensificaria o desejo. Abandonar algo exige uma ruptura traumática (de delegacias a tédios infinitos). Crítica dele: será sempre um péssimo pai por achar que tem péssimos filhos. E por se deixar analisar psicologicamente quando bebe. Alta vulnerabilidade. Talvez eu espere com excitação esses momentos de “jogo sério” em minha vida: um passo em falso e...

 

Não importa como termine, eu tenho a chave. Se eu vencer, posso compartilhar a premiação. No momento, não faria isso. E faço de derrota minha uma derrota mútua.

 

[Impressionantemente atual, meio ano depois...]

 

FIGURAS QUE EU MENOS GOSTARIA DE SER: Anderson “Tucano”, Weber [Véber] (“o desprezador do bom pai”), Gabriela e qualquer namorado da Gabriela (o tipo nefasto dos 20 aninhos; o casal nefasto de qualquer idade), Keene e publicitários do CEUB, são-paulinos ricos, metaleiros pobres e ex-punks.

 

ODE À VITÓRIA

 

Se ele não concede o queijo

não me pode ter na ratoeira

Num cenário de guerra franca

é melhor ter estômago fraco

do que coração fraco

Todos que lutam demais por tudo

e todo mundo

se esgotam rápido o bastante para esquecer

de si mesmos

Eu luto por uma pequena causa

que será enaltecida nos livros de História

Primeiro a sobrevivência

depois a liberdade criativa

Em questões fundamentais se joga pesado

O rato gordo não admite fazer dietas

E quando até o minotauro gosta de queijo...



Escrito por wormsaiboty às 21:17
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RETROCEDER-8 – 22/03/09

PERGUNTA: Como a história se divide em dois, ou melhor, como precisamente ela se desenrola, tomando por base os principais autores e idéias dos espectros trágico e cristão que conhecemos? O tempo retilíneo cristão dá sinais, pelo meu intermédio, de que não tem a mínima capacidade de contra-atacar. Uma segunda pergunta é: eu tenho uma repetição na História circular, assim como um antípoda perfeito? Na verdade dir-se-ia que tenho infinitos, mas só preciso de um (dois) exemplo(s), o igual e o imensamente diferente – as sociedades, por mais contingentes, também parecem obedecer tão-somente a uma dupla de deuses, que se revezam no trono (Dioniso e Apolo).

 

CONSIDERAÇÕES AMBÍGUAS A RESPEITO DAS PERSONALIDADES NA HISTÓRIA

 

Se temos Nietzsche e Sócrates, as duas pedras-de-toque do movimento da roda, resta uma indagação: se o alemão está “na base” do círculo, Sócrates está a 360° dali – ou seja, ALI, num novo círculo –, a 180° dali (no ponto mais distante do primeiro no perímetro da roda)...? E uma segunda indagação: se Nietzsche e Sócrates se encontram em opostos, o caminho de um a outro é uma “marcha-ré” ou uma seta de mão única? Se o primeiro for verdadeiro, é um semi-círculo e não uma circunferência. Além disso, os primeiros pensadores que vêm depois de Sócrates são “iguais” aos primeiros depois de Nietzsche (embora de sinal trocado) ou iguais essencialmente aos últimos antes de Nietzsche (decorrência da dúvida do fluxo)?

 

Obviamente, não existe alguém idêntico a mim depois de Cristo, tão-somente um perfeito anti-eu. Meu próximo eu, assim como meu eu anterior, são impossíveis de encontrar em registros históricos e estão, respectivamente, no fim da próxima era cristã e no começo da era grega [aqui eu ainda não havia desenvolvido o pensamento circular completo!]. A questão não aborda, portanto, dois Nietzsches (espaço de 5000 anos, do que nada sabemos), mas um Nietzsche e um Sócrates e como essa dicotomia se constituiu. Se os pós-modernos são sofistas, parece que a roda está girando em sentido contrário [exatamente!]. Então, retrocedendo [talvez o leitor mais atento já tenha entendido por que escolhi o termo acima para batizar esta série de resgates de artigos], encontraremos o legado de Sócrates: Marx é Platão, Hegel é Aristóteles. São Tomás é Agostinho.

 

Operação inversa: se os estóicos e os eudemonistas são os existencialistas, Zenão e Epicuro seriam Camus e Sartre [retificação póstuma: Zenão é posterior a Sócrates (séculos IV-III a.C.)!]. Homero seria Shakespeare. Cristo estaria vindo... Ou quem sabe já veio... Quem seria meu antagonista ideal [eu já me fiz essa pergunta infindáveis vezes]? Alguém lutando por ordem antes do surgimento de Sócrates faz mais sentido que depois... Do lugar onde estou não posso analisar, dados os pontos cegos? [Ou talvez eu não queira analisá-los; ou não se pode tirar conclusões; ou as conclusões que se podem tirar são que “as peças não se mexem após esse acréscimo de sabedoria”.]

 

Inconcluso [intensa pesquisa histórica dos séculos VI a.C. a III a.C.? Se eu tiver descoberto uma lei do cosmo eu terei sido implacável na minha busca pela Verdade. O que um gauche aspirante a professor preocupado com seu futuro de longo prazo teria feito para se resolver?].

 

“Prever quando um gênio irá nascer e o que ele terá para dizer”

 

“Comte ficou datado muito depressa” – corrobora a contra-mão

 

[Três dias depois desse manuscrito durante uma aula na universidade eu teria a idéia de escrever “Hegel, Marx e Nietzsche: Aristóteles, Platão e Sócrates de cabeça para baixo”, como se anteviu pelo fim do penúltimo parágrafo – vide arquivo –, o que responde algumas das dúvidas listadas acima (já “proto-respondidas”, em negrito). O “pulo do gato” foi ter lido a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de autoria do jovem Marx.]

 

 



Escrito por wormsaiboty às 20:15
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RETROCEDER-7 – 04/01/09

REFLEXÕES (SOBRE TOLSTOI OU NÃO)

 

”Exprimia uma vontade de sentar-se debaixo de uma árvore no meio do nada e nunca mais ser encontrado”

 

Escrever um livro: só quando eu tiver o meu espaço, os meus pensamentos, o controle sobre as coisas e, o principal, poucas coisas.

 

Pensei em alguém com um colchão e um conhaque [quanta obsessão por uma bebida!] em um cômodo – cubículo – de paredes descascadas. Havia ainda um lavabo mínimo e uma “louça de cozinha” – na verdade outra pia simples, no próprio quarto. Seu hábito preferencial é caminhar sem trajeto fixo enquanto fuma e pensa. Pensa cometer um crime. Está desempregado e seu dinheiro se aproxima do fim. Não pensa em pedir auxílio para a família. Retraiu-se, escondeu-se de todos os amigos, desde que está alojado ali. Fará uns bicos por alguns fins-de-semana. Lavar carros, atuar como garçom. Mas não pensa em converter mais nada em rotina. Pensa na prostração que o levaria à morte por inanição. Mas se julga de índole fraca para isso – acabaria desistindo. Talvez um crime banal e a reclusão com subsistência subvencionada pelo Estado? É branco e sua família acabaria por interceder. Um jovem de berço ligeiramente nobre já não pode pensar em uma vida de cárcere... A não ser que fizesse da fuga sua única constância. Que matasse alguém que não podia matar e tivesse de se considerar um foragido irrecuperável. Matar o pai! Brilhante, porém nada inédito. E agora tudo não passava de idéia mal-resolvida... De sua vida pregressa, nada se sabe OU não se trata de alguém demitido, mas de um professor que declinou do magistério – e que antes disso se envolvia com alunas, estabelecia rixas com seus colegas e adulterava provas. Tinha toda a capacidade normal a um jovem recém-egresso de um bom curso de Sociologia. Dir-se-ia que suas leituras complementares até excederam sua formação superior – ele sentia que sabia até demais. Fosse por relativa insegurança na transmissão do conteúdo em sala, pela falta de sentido disso ou por não encontrar público real para suas palavras [eis aqui a crise do remetente esquizofrênico da dádiva!], o mérito é de difícil julgamento, recusou-se a respeitar as normas de seu ofício. Uma catarse? Uma vingança! Decidiu não mais simular indiferença em relação às cantadas das garotas. Teriam quinze anos, assim como todos os meninos. E nenhum entendimento da vida que os espera em dez anos. Muitos pegarão em revólveres, farão supletivos por desistirem hoje de estudar ou irão conseguir, eventualmente, uma bolsa para se formar. Mas não seria comum. Não seria interessante. Melhor pensar que todos os alunos não passam de imprestáveis, lixos sociais. Assim convive-se melhor com quem não o entende. Foi então que seu apreço pelo ser humano já havia decaído tanto que automaticamente matou. Acasalou com a pupila e depois sentiu nojo – decidiu ignorar que tivesse pais ou a obrigação de ir à escola no dia de amanhã. OU como cometer um crime? São muitos eventos, mas nenhum dignificante para um escasso grande homem. Seu dever autorizaria sua morte, seu ingresso no anel, seu infinito, sem um grande ato? Decidiu amealhar fundos para conseguir exibição nacional: excesso de cocaína e invasão do congresso? Não, bobo demais. Talvez se tornasse um traficante e com isso se comprazesse. Os objetivos se tornaram pequenos demais. Nada de ser pássaro-apolíneo-solitário.

 

Essas idéias são boas, mas o ideal é “normalizar” o personagem e elaborar um elenco que interaja bem.



Escrito por wormsaiboty às 16:15
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RETROCEDER-6 – 05/08/08

Algo me aflige. E não é como antigamente. Subitamente sinto-me atrofiado: faz tempo que não utilizo polegar e indicador para escrever (a dupla dinâmica). E já há um tempo o ruído do ônibus da madrugada me seduz. NÃO É COMO DAS DEMAIS VEZES!

 

Não quero mais compartilhar esse excerto – como faria em janeiro, em julho, dia 4 de agosto...

 

Do que eu preciso? A solidão é a companhia pela qual meu coração neste segundo bate forte. As asas libertadoras da moral dos pais.

 

Estou farto de não caminhar, fumar e ser livre. De escrever o que devia FAZER.

 

Pouco valor tem a forma. E o conteúdo – se mentira. Passemos à natureza:

 

Rotina, tempo, submissão – 3 problemas.

 

Contingência, desamarrar-me, voar.

 

Neste verbo há algo de encantador: na minha insônia, muito mais. Quero a bem-aventurança – e nada de herança. De que me vale a avareza?

 

Ninharias. Eu, podendo, atirava fora a TV. Lembrei-me há 10 minutos do Carlos Gomes. A cibercultura – outrossim a Morte de GAIA (o que fazer?).

 

Quero caminhar até saber o que fazer. Já NÃO DEPENDO DE NENHUMA PARAFERNÁLIA, NEM STRICTO SENSU... Que diabo é o latim?

 

Eu sou, de fato, MANÍACO?

 

Vêm meus surtos piorando?

 

Poderá ser uma virilidade extrema que a sociedade mata. Mas encontro chaveiros esparsos, se as portas estão trancadas!

 

Ludibrio... com a linguagem.

 

A resposta da RUA está na CASA.

 

Uma geladeira dispondo de conhaque; tênis e meias sempre embotados. A esquina, moradia. EU DEMANDO SOLIDÃO. SOLIDÃO INCLUSIVE OBJETAL.

 

[Exuberante época de um auge a-tecnológico do meu ser; não deixa de ser trágico este post.]



Escrito por wormsaiboty às 15:37
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RETROCEDER-5 – 03/03/08

PAIDÉIA, Werner Jaeger – “leitura dinâmica”

 

Introdução (pp. 3-16) – Atribui à Grécia Antiga um ar superior e – não por acaso – afirma serem os alemães os principais herdeiros destas concepções de mundo.

 

IX (pp. 150-180) – Xenófanes de Colofão como o previdente pensador pré-socrático a discursar talvez em caráter precursor: “Deus é uma criação do gênio humano”. Tudo que podemos concluir advém de leis naturais. É dele a frase “se cavalos tivessem mãos como as nossas e pintassem, nos mostrariam deuses-cavalos, sua divindade genuína, assim como nós imaginamos um humano excepcional em vestes maravilhosas; o negro pensa num negro-deus; o nórdico em uma criatura onipotente de cabeleira loira e olhos azuis”. Heráclito: fundador da idéia do vicário na Política (vida na polis).

 

Pp. 243-247 – Prometeu de Ésquilo e Édipo-Rei de Sófocles. Equivalência do mito de Prometeu Acorrentado à representação contida em Ecce Homo (Eis o Homem; Ele mesmo).



Escrito por wormsaiboty às 15:19
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RETROCEDER-4 – 05/11/06

Antropologia da Infância

 

LARROSA, J. & LARA N. (org.). Imagens do Outro. Petrópolis: Vozes, 1998.

 

A idéia central do livro é transcender a visão negadora das alteridades, tendência majoritária dos “normais”.

 

Por “normais” entenda-se basicamente aqueles que não são loucos, crianças, silvícolas, criminosos, homossexuais, idosos, prostitutas, mendigos, negros, deficientes físicos... Louco seria aliás a nomenclatura mais abrangente para definir essas minorias. Um mendigo ou uma criança são considerados patológicos ou desprovidos da razão em algum grau.

 

São os adultos normais que definem o que é ou não maduro.

 

A falta de identidade no/do outro reforça nossa identidade, nossa arrogância. Sentimento real: sentimo-nos fortes quando próximos aos mais novos, aos excluídos, a um estrangeiro desorientado, a bandidos sem força para a ação infratora, a “loucos”, em suma, de qualquer tipo.

 

Dedicar-nos-emos à parte do livro que trata do estágio de “loucura” pelo qual todo “normal” teve de passar um dia: a tenra infância.

 

O Enigma da Infância

 

A fase da infância constitui-se num enigma. Um enigma pelo seguinte: há duas perspectivas – 1) a objetiva; e 2) a subjetiva. De acordo com a primeira o ser humano (o adulto, o cientista, inicialmente, que depois transmite suas descobertas à sociedade) já entendeu a infância. A segunda nasce não dos próprios olhos, como o termo subjetivo sugere, mas justamente do inverso: posicionar-se não observando esses “outros” em precoce desenvolvimento, mas sendo observado por eles. É daí que surge o estranho, o incognoscível, nesta segunda esfera.

 

Na Psicologia, na Sociologia, na Literatura, na televisão, nas revistas, nas lojas, nos clubes, nos parques de diversão e na escola vemos claramente até que ponto evoluímos e até onde ainda podemos avançar na “compreensão” da fase infantil e no auxílio a ela prestado. Sabemos exatamente como proceder diante das crianças (PERSPECTIVA 1).

 

Porém, que ser arredio é este que acaba sendo abarcado pelas instituições mas “sem ligar” para elas? Tememos tanta inquietude e poder de questionamento.

 

“Transgridem” a ordem social pré-estabelecida mas diante de sua condição neurofisiológica não podem ser punidos legalmente. São chamados de “mentalmente incapazes” ou “em formação”.

 

A infância, com efeito, não é o que já se tenha aprendido nos “manuais”, tampouco se poderá apreendê-la cientificamente. Vamos pensar o que somos para as crianças...

 

Infância e novidade

 

O recém-nascido ainda prescinde do livre-arbítrio. Ele “acatará” tudo que decidirmos. O local do berço, os brinquedos, as roupas. Nosso poder, saber, desejos, expectativas e projetos sempre falam mais alto. Nesta fase o novo ser vivo do lar parece uma extensão da vontade dos pais, tão operável quanto o controle remoto.

 

Simultaneamente, o “outro”, além do previsível ou desejável. Nascimento = interrupção.

 

Tudo, portanto, é uma questão de educação. A idéia de filhos continuístas tira a alteridade do bebê apenas para envolvê-lo numa identidade copiosa e sem-graça.

 

O nascimento precisa trazer a sensação de estranheza de quando topamos com algum “outro” na rua. “Quem é ele? Não se trata de uma extensão da minha personalidade, difere bastante de mim!”

 

Não fosse assim poderíamos dizer que quando os primeiros homens surgiram toda a História já estava escrita, porque as próximas gerações só iam reproduzir sua moral – e, claro, reproduzir-se, no sentido mais biológico do verbo. Acontece que cada cabeça no mundo é uma chance de mudança, renovação, revolução...

 

Derrubada a noção temporal newtoniana de “linha contínua”, o tempo talvez sejam quadros, um para cada vida, sem que um necessariamente determine o estilo de pintura do vizinho. Como numa sucessão de quadros numa galeria.

 

Uma nota sobre o Totalitarismo

 

Herodes, governador de um pedaço do Império Romano, patrocinou o infanticídio (medo de que as crianças ali arruinassem o Império com suas “rupturas históricas”).

 

No totalitarismo tudo é estável e o futuro é planejado. A Propaganda regulará as crianças nascidas. Qualquer semelhança com o lado que “venceu o fascismo” não é mera coincidência... Na democracia, com um mecanismo ainda mais perverso: a exploração financeira das novidades (pense nas tribos urbanas, em suas indumentárias e demais bens de consumo favoritos...). Seja como for, o intuito é sempre fugir do enigma, submetendo o “outro” chamado criança a nossa lógica.

 

Infância e milagre, ou o que vai do impossível ao verdadeiro

 

Não se trata aqui de “corrigir” uma alteridade. O ser socializado não é “falso” antes de ser educado nem “verdadeiro” após a integração no todo coeso. O que acontece é um forçoso esquecimento. As Musas gregas cantarolavam as histórias dos heróis. Mas os cidadãos que não se destacavam eram olvidados após algumas gerações. Quem não faz por merecer estar nos versos viveu sua vida com verdades, tudo por que passou não foi um simples golpe da imaginação, uma aberração do cosmo; contudo, as canções não preservaram a memória desses infelizes. Mais do que a preocupação com o bem ou com o mal, o grego via sua fatalidade nas escolhas que o tornassem obscuro, impossível de ser rememorado outra vez, insignificante. Seria como um viver em vão. O espírito artístico da criança, a força criadora que conduz ao mundo, precisa ser resgatada. Ou, antes, apenas preservada!

 

A noção de “vivência errada” não é universal. Talvez gere incômodo a aceitação de que “a existência precede a essência”, antecede em muito a consciência. O ser-está-no-mundo muito antes de escolher-estar-no-mundo e como-estar-no-mundo. Nunca haveremos de lembrar de nossos anos mais precoces com a perfeição com que analisamos nossos atos a partir de certa idade. Mas a questão não é essa: é aceitar o passado, sem mágoas. O adulto da civilização ocidental está corrompido. Por isso não pode promover o (re)encontro com a infância.



Escrito por wormsaiboty às 00:50
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RETROCEDER-3 – 25/04/07

O belo grego x o belo cristão

 

Platão – Possui um padrão de beleza inatingível, embora pudesse ser manipulado. Todo o visível constituiria falsificações. Haveria um arquétipo de cada objeto escondido num “plano perfeito”.

 

Aristóteles – Harmonia, proporção e grandeza como basilares para a beleza máxima, associada dois milênios depois à raça ariana em um recorte deturpador. Ao contrário de Platão, não é tão esotérico. Reconhece, na melhor parte de seus escritos que sobraram (a Poética), a beleza no feio (comicidade ou tragédia).

 

Nietzsche, Baudelaire e o Movimento Punk – Põem a Estética, basicamente, de pernas para o ar. Seqüência lógica da parte sadia aristotélica. A beleza no “podre contemporâneo” (Baudelaire viveu na época em que o capitalismo era mais pujante e incontestável; só um poeta de tais tempos poderia levar a efeito uma sinestesia tão bem-acabada em revés, bem como o filósofo alemão diria que seria reconhecido postumamente pela sua grandeza, quando fosse comparado à pequenez de seus conterrâneos), a subjetividade e o impressionismo condizentes com nossa época. Eternizaram o banal (eterno retorno).

 

Qualquer arte não-representativa era considerada como o feio pelo regime nazista. Arte = subversão, o oposto de simulacro.

 

Não existe a anti-estética; como não existe o sujeito fora da moda, da política, da economia, da religião. Somos estetas. Tampouco há chance do “homem unidimensional” se manter muito tempo no topo.

 

A ciência estética não julga casos, ela só estipula generalidades (o que é o punk – você decide sozinho, por sua beleza ou feiúra). Alguns imbecis diriam que gosto não se discute; mas o mais forte e o mais belo tem sempre o direito de impor seu gosto. “O direito” significa: o poder. O poder é a legitimidade, ele cria a legitimidade, não existe justiça isenta, nem a cristã. Aliás, tanto menos a cristã. Hoje uma elite decadente estabelece os gostos. Depois de séculos sem alternativa moral à supremacia do bem” burguesa, a explicação platônica do mundo é flagrada em franco declive: muitos são os capazes de constatar que está em último lugar na hierarquia dos grandes valores.

 

Mas por que sempre nos detemos sobre o Nazismo, esse pedaço de calamidade do meio do século XX? Porque ele é o ícone máximo do que se quer criticar. Embora ainda não saibamos (no geral), o suicídio de Hitler foi o fim da Era Cristã!

 

As realizações pictóricas atuais

 

A arquitetura pós-moderna faz coisas que a arquitetura clássica não podia, como por exemplo uma pirâmide invertida com mais peso quão maior for a altura, todo esse “milagre” sustentado por um ponto de equilíbrio, que podia ser calculado ou cogitado pelos egípcios, mas para cuja execução não se encontrava suporte tecnológico satisfatório.

 

 

A Arte “termina” ou deixa de ser opaca (vira transparente) do momento em que a fotografia reinventa a modalidade “representação fiel do real”. Os quadros, as pinturas autorais, ganham novos significado e sentido. Nasce o abstracionismo, que a despeito das aparências, é muito mais funcional e diz muito mais que uma mera cópia do visível. Considera-se, aliás, realismo ou simulacro a idéia subjacente do quadro, ou seja, o fidedigno não se confunde mais somente com o sentido da visão.

 

Em suma: Impressionismo x Academicismo.

 

A pintura atual é representativa – que “representativa” é esse?

 

Tornar presente, significar, simbolizar, afigurar-se ao espírito, incutir a sensibilidade.

 

Representa na medida em que contradiz as limitações das dimensões espaço-tempo, eternizando o objeto retratado.

 

A pintura não é um processo meramente psicológico. Ainda que a concepção de um quadro nasça da psique, as tintas e o resultado final diferem da imagem tal qual no plano mental.

 

Ser Arte ou não depende do momento histórico. Cada um deles tem idéia diferente do que signifique “relevância”.

 

Crise da Arte deriva da complexidade do nosso momento histórico.

 

Somos bombardeados por imagens: não é só a televisão, repare que ninguém há algum tempo conhecia a vista de um trem-bala, do automóvel ou do avião. Velocidade, desmanchamento do sólido, sublimação.

 

Pintura representativa/realista, portanto, é aquela que mostra melhor no respectivo tempo no qual é pintada. A pintura realista moderna é tudo menos a “cópia visível” do passado (a pretensão do museu).

 

Neo-realismo italiano x Hollywood

 

Mortais contra deuses. Integridade contra calúnia. Rua contra estúdio. Sol contra luz técnica. Simplicidade contra armas hi-tec. Câmera tremida e queda da quarta parede contra isenção. Deformados contra botox. Idéias contra vacuidade. Recursos escassos contra...



Escrito por wormsaiboty às 21:12
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RETROCEDER-2 – 21/05/07

Café filosófico com Gerald Thomas

A Arte está condicionada à realidade?

 

O teatro não tem o amor, é uma farsa. “Romeu e Julieta é sexo disfarçado.”

 

A questão da vergonha/interação – a personagem aponta para mim, o expectador, mesmo que haja a quarta parede ao mesmo tempo não há.

 

Amor na Tragédia Grega: mais brando que o shakespeariano (com exceção talvez de Orfeu). Na própria vida real o amor é um narcótico, uma pele narcísica, que logo será despida. Goethe sempre defendeu a importância desse efeito para estimular a criatividade e a vontade de viver.

 

O(a) ator/atriz que cansa do próprio trabalho é o único que poderia cair na cilada de se apaixonar pelo(a) companheiro(a) de palco. Isso não é desempenhar bem seu trabalho; estafa típica de quem não tem vocação para o teatro. Extensível à vida real: desgastes geram explosões.

 

“Odeio ser maniqueísta.” O que é necessário para combater o Pós-Moderno para Gerald? “Reunir os ‘estilhaços de Hiroshima’ e fazer algo. CHEGA DE RUPTURAS! Odeio esse teatro atual.”



Escrito por wormsaiboty às 18:17
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RETROCEDER-1

Em meio ao recesso do projeto TRANSCENDER – e até mesmo para encorpá-lo, e comemorar seu aniversário de 1 ano amanhã – tomo uma iniciativa contrária (complementar!): re-investigar meu baú empoeirado, que na maioria das vezes contém manuscritos de até 2 anos a 3 meses atrás. A compilação não resulta em um tema unívoco, mas a soma dos fragmentos será capaz de delinear um “projeto”, afinal estamos falando aqui da vida do autor. Apesar do nome passar uma sensação de “abdicar da caminhada para a frente”, este é um estágio das minhas reflexões e vivências em que necessito exatamente disso para suplantar as barreiras que bloqueiam a vista do horizonte norte. Nos próximos dias o leitor será brindado com algumas jóias do meu passado que estiveram esquecidas por um pequeno hiato, insuficiente para desgastar sua beleza. Principio com meus primeiros passos após a idade escolar, no Jornalismo.

 

ÉTICA NO JORNALISMO (1º/2007)

 

O público é a razão de ser do Jornalismo. Ele nasceu da necessidade de informação da massa e é, simultaneamente, um negócio (mesmo empresas públicas de jornalismo rivalizam com terceirizadas). Dessa dicotomia nasce o impasse: a imprensa existe para o povo e cumpre um dever que possibilita, em contrapartida, o direito individual à informação em uma democracia; mas a notícia não passa de mercadoria. Como atender o público (clientes), fundamentação democrática, e lucrar, respeitando o liberalismo econômico?

 

A questão, embora complexa, por limitações de espaço pode ser sucintamente dissecada: agradar (na realidade informar, o que pode desagradar) ao público e atingir confiabilidade (cifras) andam juntos. O público – que não deve ser subestimado – deixará de comprar o veículo caso perceba conflitos de interesse em suas páginas. Ainda que a verdade e a objetividade plena não existam, é compromisso do jornal persegui-las. Se fizerem isso o jornal será mais lido.

 

O inconveniente apontado é o do setor publicitário: os anunciantes atingidos por reportagens iriam fugir. Em primeiro lugar, os clientes dos anunciantes são os próprios leitores e as empresas precisam divulgar seus produtos e salvaguardar sua imagem. Em segundo lugar, se houver a separação dos setores de propaganda e redação no veículo, cessa qualquer possibilidade de anúncios determinarem pautas. Basta um leque diluído de anunciantes para que a receita publicitária continue existindo, a independência editorial prevaleça e o público confie no teor das matérias, num círculo virtuoso. Eis por que lucrar e ser democrático andam juntos: a postura ética, de tentar o jornalismo mais imparcial, traz ambas as coisas a médio e longo prazo.

 

Também por isso, o profissional da área deve devolver “cortesias” e presentes que vier a receber; conforme a longevidade de sua carreira aumenta e se torna um autor de reportagens laureadas, também terá mais liberdade de escolha quanto ao lugar em que trabalhar e o que escrever, em detrimento do jornalista entravado e inexperiente, que “veste a camisa (de força)” do seu chefe/empregador. Ficaram notórios o caso do recebimento, por vários jornalistas culturais no país, de iPods e as mais díspares reações. O remetente dos presentes foi a gravadora de uma artista, da nova geração da MPB, “afilhada” de cartas marcadas da velha guarda, que estava lançando seu primeiro CD e desejava receber “elogios da crítica”. Houve quem tenha resenhado o álbum com mais gratidão do que ouvidos.



Escrito por wormsaiboty às 15:03
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HOBBES E AS MULHERES

Uma coleção de grandes frases e de outras nem tão grandes assim...

“é bem verdade aquilo que Cícero disse algures a seu respeito: que nada há mais absurdo do que aquilo que se encontra nos livros de filosofia” Leviatã, (ed. Abril) – Thomas Hobbes (p. 33)

 

“os melhores homens são os que sentem menos piedade” Ibid., p. 40

 

“aqueles que discutem sobre questões incompreensíveis, como os escolásticos” Ibid., p. 54

 

“não existe o fim último nem o bem supremo de que se fala nos livros dos antigos filósofos morais” Ibid., p. 64

 

“posso atribuir todas as mudanças de religião do mundo a uma e à mesma causa, isto é, sacerdotes desprezíveis, e isto não apenas entre os católicos, mas até naquela Igreja que mais presumiu de Reforma” Ibid., p. 77

 

“a natureza dos homens é tal que (...) dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios como eles próprios” Ibid., p. 78

 

“os homens são naturalmente mais capazes do que as mulheres para as ações que implicam esforço e perigo” Ibid., p. 124

 

“homem (...) o sexo mais excelente” Ibid., p. 127

 

“quer o Estado seja monárquico, quer seja popular, a liberdade é sempre a mesma” Ibid., p. 136

 

“[escolásticos] argumentam tão mal quanto os selvagens da América”, Ibid., p. 205

 

“a multiplicação de palavras no texto da lei é uma multiplicação da ambigüidade” Ibid., p. 210

 

“quando vejo quão curtas eram as leis dos tempos antigos, e como a pouco e pouco se foram tornando mais extensas, penso ver uma luta entre aqueles que escreveram a lei e aqueles que pleiteiam contra ela” Ibid.

 

“a parte maior e mais ativa da humanidade nunca até agora esteve contente com o presente” Ibid.

 

“estou a ponto de acreditar que este meu trabalho seja inútil, como o Estado de Platão, pois também ele é de opinião de que é impossível desaparecerem as desordens do Estado e as mudanças de governo por meio de guerras civis, enquanto os soberanos não forem filósofos” Ibid., epílogo da parte II

 

“nem Platão nem qualquer outro filósofo até agora ordenou e provou com suficiência ou probabilidade todos os teoremas da doutrina moral” Ibid.



Escrito por wormsaiboty às 22:25
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MEU TIME É MICHAEL JACKSON MAIS 10

Algumas considerações sobre atualidades, coisa que tenho me preservado de fazer nesse blog...

 

...sem esquecer do meu projeto filosófico

 

 

A década 2000 (estranho nome para uma década), todo mundo sabe, é a mais fraca em termos musicais, desde que ouvir e fazer (quem não tem ou teve uma bandinha ou quem não experimentou aqueles softwares que não exigem o menor conhecimento da escala musical por parte do operador?) Música se tornou natural, popular, descaracterizando, aliás, esse “M” maiúsculo de Música, provavelmente uma herança das Musas gregas, privilégio de poucas almas nobres...

 

“Geração banda-larga” é como apelido essa safra de adolescentes (de até 30 anos!) orkuteiros e usuários do Last.fm, a nova usina sonora do mundo. Obviamente, eu tenho conhecimento de causa porque possuo contas nos dois universos: estas redes são mais do que simples voyeurismo. Agora são sites os melhores termômetros para medir o alcance e o impacto de um artista consagrado ou de uma revelação.

 

Nos charts do Last, que não devem ter mais do que seis anos de rodagem – o que permite algumas distorções, como pensar que Green Day (64 milhões de execuções) e U2 (56 milhões de faixas até este momento) são melhores, mais influentes e mais importantes do que foram Ray Charles (8 milhões) ou Jimi Hendrix (25 milhões) –, os líderes incontestáveis são Radiohead e Beatles (173 e 171 milhões de captações, respectivamente). Completando o pódio, um sonolento Coldplay – o que salva um pouco é que o Metallica vem logo a seguir. Os Beatles, o único desses grupos que não está mais na ativa, é um caso à parte, já que o Last.fm adora entronizar os fogos-de-palha. E não tem outra pretensão, pois não passa da ponta de um iceberg de alguns séculos de História.

 

Esses números, lembrando, só crescem, pois vão da inauguração do serviço até aqui. Um golpe do acaso, semana passada, deixou bem claro o quanto esse tipo de ranking por contagem absoluta é falho: a morte de Michael Jackson, aos 50 anos. Ele pulou do sexagésimo sexto lugar para o primeiro, no recorte semanal. Imagine as estatísticas do “dançarino da Lua” se existisse o Last nos anos 80! Se ele vendeu quase 1 bilhão de discos, do que seria capaz no domínio virtual das coisas grátis?

 

Bastaria um pouco de senso crítico para notar o quanto o “soma” (narcótico pacificador, “anestésico mental”, do Admirável Mundo Novo do escritor britânico Aldous Huxley) radiofônico (falo do rádio na era da Internet) é o grande responsável por um certo cheiro de tecido podre no ar. O que estou dizendo é que a decadência da Música nasce da surdez dos ouvintes! Esse movimento de inércia – navegar nas estações e se deparar com os mesmos padrões (ou o mesmo padrão, sem espaço para nada diferente), abrir o perfil do colega e ver as desgraças culturais habituais –, essa falta de ponderação com respeito ao que se vai meter goela abaixo, fazem com que a esquizofrenia eletrônica martirizante de um Rádio-Cabeça qualquer esteja no topo de alguma lista que não “as principais causas da sua cefaléia crônica”! Me faz lembrar inclusive de uma passagem d’A Ideologia Alemã de Marx, que ataca seus conterrâneos afirmando que eles nada mais produziam que uma ansiedade verborrágica cortante pelo Apocalipse, cristãos que eram, prontos a marcar o compasso desse clímax chamado Juízo Final com as guilhotinas da Revolução Francesa. É bem essa a idéia da automação radioheadiana – um intuito fracassado apesar de qualquer número que deponha em contrário, deveriam admitir os membros da banda. Um som desprovido de humanidade.

 

Quando ocorre uma pequena fissura neste mecanismo “pastoral”, a nostalgia entra em campo: mas se foram feitas músicas sublimes e excepcionais nos anos 70 e 80, o que as impede de voltarem? “A tecnologia”; “a falta de inspiração”; “sorte”... Tudo balela. A despeito do caráter prometéico e irrepetível do Rei do Pop, o destino da música deveria depender estritamente de talento, discernimento (para não jogar todo o dom na privada – reparar que a noção que se tem de um artista é a de um gênio louco, alguém que vive perdendo as estribeiras e age sem coerência, engodo que precisa ser descartado) e CORAGEM, o que vem minguando de uns aninhos pra cá. Como o homem tem sempre a possibilidade da escolha, mas se tornou medroso demais para admitir, contenta-se com o “menos pior”, o pastiche cultural contemporâneo. “Inventar dói, vamos apenas testemunhar as infindáveis oscilações do pêndulo do relógio desse moto perpétuo chamado mundo.”

 

A década de 90 é intermediária entre essa fraqueza que reina hoje e a pujança que já se viu no Pop, no R&B, na Música Popular Brasileira, no Heavy Metal e nas demais searas da indústria fonográfica. Não faz três dias que vi um episódio dos Simpsons que é uma aula de História da cultura: Homer e Marge contam aos seus filhos, à lareira, as circunstâncias em que Bart veio ao mundo, os atribulados anos 90 (curiosamente, o desenho data deste período, mas a cada ano os personagens são apresentados com a mesma idade, repaginados para o contexto, como é o caso agora, dos anos 2000). Nessa “realidade alternativa”, enquanto Marge começava a faculdade, Homer dava um duro danado na loja de paintball do pai e ainda arranjava tempo para ser o líder carismático de uma banda, o Sadgasm (Tristorgasmo, na melhor tradução), paródia do niilista Nirvana. Uma época em que ainda havia um gênio criador, mas que, por não encontrar destinatários à altura para seu grunge, acaba se auto-destruindo. É um marco divisório: a negação da arte. O preferir-morrer anunciado pelo próprio Dioniso. A estética ocidental na sua agonia entrópica.

 

Está certo que não é “culpa” da Música: esta bomba de efeito retardado (sim, primeiro o relâmpago, depois o trovão!) só aterrissou na década de 90. O próprio Espírito da Música está fatigado, quer colapsar. Antes a moral burguesa já havia detonado muitas outras belezas. Arruinaram a Política, transformaram a vida num cardápio e tornaram onipresente a promessa de um Além. É sintomático que o próprio Kurt Cobain tenha batizado seu projeto de Nirvana: porque aqui é o insuportável reino da imperfeição. Mas querer a paz é justamente o motivo da decomposição do tecido. O que restaria para ser contado? Sempre que ouço uma boa canção penso em Homero: façanhas e proezas quase impossíveis, o desafio complicado e aterrorizante, a condição humana. Somos músculos e sangue, e, portanto, devemos usá-los e arriscá-los.

 

O que minha bola-de-cristal diz? Que viveremos as décadas de 10 e 20 na mesma missa cibernética, cheia de espasmos e espirros. Como ouvintes estamos doentes e não suportamos um olhar no espelho. Mas episodicamente um Dante ou Colosso nos visitará, como aconteceu em 2008 com o Death Magnetic, o literal re-despertar de um gigante.

 

Antipatia por pessoas é algo que faz bem! Não transfira ao mundo inteiro – não amaldiçoe tudo, procurando causas primordiais imaginárias – o ódio por conta de uma babaquice que só pode ser explicada pela própria vontade do autor de cometer a babaquice!

 

Alguém sempre transborda. Outros, sorvem.



Escrito por wormsaiboty às 18:22
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O grande sábio não quer convencer ninguém.



Escrito por wormsaiboty às 20:36
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