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“EXISTENCIALISMO AOS 7” – AS ABELHAS, OS HOMENS E A ESPINHA METAFÍSICA

Hoje minha mãe me apresentou uma pequena reflexão minha – de quando eu nem sabia o que era reflexão, e leria a palavra sexo como se lê “seixo” –, na altura da 1ª série, sobre a vida. Apresentar-me é bem o termo, já que a gente se esquece com facilidade. Talvez tenha sido o passo inicial desta minha verve literária; impossível saber, mas é o que a arqueologia nos permite resgatar. Dizia mais ou menos assim: “Vida – Eu tenho 7 anos, meu irmão mais velho tem 14 anos, uns são mais novos, outros são mais velhos, e assim a vida vai... A mulher mais velha tem 124 anos, a criança quando sai da barriga da mãe é a pessoa mais nova e tem 1 segundo”. Deve ser a segunda vez em período recente que minha mãe remexe em suas caixas repletas de recordações e vem me mostrar – como eu disse, a gente esquece, até as coisas de ontem –, não só esse tipo de protofilosofia como cartõezinhos de dia das mães e meus dentes-de-leite...

 

Não parece estranho que nossa vida comece aos 7? O que é o primeiro segundo? Talvez condiga em importância com os seis primeiros, a infância clássica. Que ela deve haver, disso não há dúvida. Que hoje reproduzimos aqueles sonhos, ou melhor, rememoramos o grande sonho, ainda mais certo. Os anos de jardim-de-infância são inconscientes. O pediatra moderno é um fraco. A força da criança reside na impossibilidade de abraçá-la no humano – ela é tão autêntica como um inseto. Azar dos homens, que hoje são menos do que insetos... Uma mosca ou uma abelha, por mais filosóficas que sejam, não possuem uma morte impactante. Seu pathos voador passa fulminante. Um cisco de poder que facilmente perde a autonomia. Uma palma da mão enfezada transforma uma perspectiva no zero, puro tecido em decomposição, nada de drama em câmera lenta. Considerar a infância sagrada já é um sinal... O bom velho é o menino...

 

A dor ou o prazer, seu antípoda o anestésico, nada representam para o precoce. O importante é seu reflexo no consciente mais tarde. O trauma torna-se desumano e criminoso quando a história do indivíduo realmente começa e ele toma suas escolhas baseado naquilo que ele nunca foi, a fim de ser o que é agora! O inconsciente. O inconsciente e a abelha verde. Esses foram meus principais amigos dos meus anos pré-existenciais. Talvez fossem as duas únicas entidades conhecidas! Todas as vezes que ia brincar no parquinho da escola, perto da gangorra ou do carrossel, ou da amarelinha pintada no chão, eu via uma abelha verde. Ela batia as asas como um beija-flor, deixava um rastro para meu olho incompetente adivinhar o que seria. Um bicho que nunca se cansa; e as abelhas verdes estão sempre no mesmo lugar. Aqui em Brasília posso encontrar diversas delas. Todas as vezes cruzo com uma, na ida e na volta, desde que faço o caminho para a Universidade. Retorno. Àquele tempo eu sabia – premeditava com bastante frieza – que chegaria o dia (utópico?) em que essa abelha seria o tema de um texto. Quem sabe não é a mesma abelha? Qual é a magnânima resistência de um ser vivo desses? Se a persistência com que se sustém no ar for a mesma com que enfrenta cada primavera... Ah, claro: primavera, época de flores (embora as estações não sejam bem-definidas no Cerrado), ela aparece bem mais. Parece que para uma abelha, 50 dias são 50 anos. Elas começam a viver no sétimo dia? Não, ela não se perde como o homem...

 

Na nossa Odisséia, o significativo é a volta. A guerra o tornou herói, mas parece que não foi você. Está na hora de protagonizar de fato o roteiro. Hoje tenho o triplo daquela idade. O quanto o número 14 é emblemático para mim? O quanto eu desejaria viver 124 anos? A escola parece eterna. A substância cotidiana permanece intacta. Imaculada rotina, transfigurada em novo linguajar. Consciente. Dolorosa. Mas sensível. Sempre pensei no meu inconsciente como um deus caprichoso. Direitos Humanos se preocupando com a saúde divina, quanta perda de tempo! Não é que não se deve mexer com crianças porque elas são sagradas; tabus mundanos... O sagrado é imexível, os costumes só existem para ser quebrados. Invertendo o axioma, elas são sagradas, daí não é possível a mediação humana. Atena não poderia ser prejudicada por Ulisses. Tolices!

 

A jogatina de dados de Deus deu no que deu(s)! Mortes inconscientes são não-mortes. 0 a 5 anos, latência. Esquecimento, imprescindível ferramenta. O fundamento do mundo é coisa para ficar debaixo do tapete. Aí inventarão as câmeras; e monitorarão todos os passos. Aí partirão numa máquina do tempo, só para testemunhar o primeiro momento. Que revelação, voltar e pisar... na mesma sala! A vida é a máquina do tempo... Você foi o primeiro, antes disso foi só o que seu consciente ainda não conscientizou e vai pegar de empréstimo – só para ter o gosto sem-fim de esquecer.

 

Abelhas não saem na chuva. A chuva dissipa os pensamentos. Sol sim; trovão não (o cachorro late ao raio – sabedoria ancestral?). Tenho a soberana impressão de que os céus são a extensão do meu estômago. Lubrificação aquosa. Palavras são águas... Não se apresse para viver hoje o que você pode viver amanhã... Uma idéia que escapa é só uma idéia que ainda não estava pronta... O mais importante é a trama. Homo sonambulus? Non-sapiens? A trama acaba como a teia de uma aranha de um recinto reaberto e devidamente higienizado...

 

Assinado,

 - A Mosca Filosófica

 

E se a qualquer momento... Reaprender a ler, reaprender a ler, mocinho! Nós esquecemos seletivamente, nós esquecemos de propósito, nós só nos esquecemos do que queremos pensar que não escolhemos. Você lembra que não sabia regular o esfíncter? Você vibrou no primeiro gol? Você lembra da primeira mulher pelada? Liberdade – palavra mágica da consciência trágica. Do que todos sabem rapidamente se esquece. Por que o Bozo aqui é teimoso? Por que eu desaprendi a andar de bicicleta? Poder da escolha, poder da escolha... Você precisa do poder da escolha... Coca-Cola, Coca-Cola... Isso é gente adulta, desmembrada, duas-cabeças... eu voltei a ter uma só cabeça – SÓ COM UM PEQUENO DELAY ENTRE AS METADES. Mas nem tudo é escolha nossa – as secreções que nos enchem de espinhas justo no momento em que mais precisávamos da pele de bebê é o instinto do artista adolescente – quer um pulo mais intenso que o blasé das gentes... Duelo com o mundo, quando uma cabeça brota da testa. Quem acha normal um ser bicéfalo? Sua capa não esconde a outra boca que chora debaixo do casaco. Para uma que ri, um lamento profundo, você esconde 50% de você do mundo! Descompasso. Cuidado para não ser traído por si mesmo! Não peça o divórcio, [j]unte os casais... Até sair uma f[r]icção. Escolha fazer o que o ressentimento da cabeça cega antevia... Cansei de cumprir ordens. Só cumpro ordens quando escrevo. Sempre fui eu. Eu e a brisa fina. Uma história para um corpo. Você não acredita em você? Depois de tudo, continua ignorando o que está latente... Aprendizado peristáltico. Respira!... Expira!... Inspira!...! Esqueça que mandei que esquecesse... Qual foi o último carneiro cardinal ordinário da sua véspera do sono? Andar de elevador no torpor da madrugada. Sempre vem à tona...

 

Que cara é a minha? No espelho.

 

Assinado

 - A mo[s]ca humana



Escrito por wormsaiboty às 21:18
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IMBRÓGLIOS DE DOMINGO À TARDE

 

Faz três anos: “O fim do monopólio nas transmissões de futebol: ano que vem a Globo dará tchau à exclusividade” e papos assim rondando... Uma das melhores notícias que o fã do futebol poderia receber. Promessa é dívida: até agora, nada. Se o pay-per-view irrita, ver a fórmula do campeonato brasileiro voltar ao mata-mata só pra poder ver os jogos decisivos e aumentar os pontos ligados na emissora irritaria mais ainda. E, olhe bem, já fiz muitos amigos em mesa de bar... Tá certo que não gosto de ver jogo com chiado, chororô e cabeças se intrometendo na frente, mas é bom nos acostumarmos com o “clima de Copa”...

 

Data da edição da Veja de 7 de junho de 2006 a matéria “Torcedor em Festa”. Diziam que, se o futebol nacional continuasse sob os auspícios dos Marinho, ainda assim outras operadoras de TV a cabo como a MAIS TV, pobrezinhas e coitadinhas, poderiam contar com os canais elitizados da Globosat, passando os melhores programas para mais alguns milhões de telespectadores ao redor do país, sem que eles tivessem que pagar mais de 100 reais para contar com a benesse dos jogos de São Paulo, Vasco, Cruzeiro, Grêmio, etc., mais do que duas vezes por semana (conforme na TV aberta – ó, a quem estou enganando, os marajás transmitem apenas Flamengo e Fluminense, a comédia e a tragédia do futebol tupiniquim!)... Isso era lasanha podre para gato, já que indigesto mesmo são os 400 reais para ter tudo ao alcance dos botões, sofá, pipoca, 24h de partidas decentes... O pior é que, estragada ou não, a comida não vem; e continuamos vendo o restaurante funcionar ao lado, alguns cuspindo em seus pratos.

 

Mas hein?! Que papo é esse de campeonato brasileiro em mata-mata? Quando já nos achávamos europeizados, o complexo do vira-lata nos assalta novamente. Se a CBF sucumbir à tentação tribal e transformar o certame de turno e returno em Copa do Brasil II – A Missão(*), pararei de acompanhar futebol. Perderei o tesão. Ou voltarei a fetichizar a liga italiana, sensata em suas marmeladas rodada a rodada... Já ouvi falar de muitos velhos morrendo do coração nos estádios, mas esse negócio de “emoção” é pra quadrúpede fazer a sesta... A Globo podia passar jogos internacionais, se o problema é a incompetência dos brasileiros nos torneios eliminatórios sul-americanos... Aí vem o velho papo da bandeira e do hino, que ninguém, afinal, sabe... Como se doletas e merrecas não falassem a mesma língua... Só que nessa Babel a plim-plimzada carioca não manjou que campeão nacional é o maior somador de pontos, não o time “das cagadas”...

 

(*) Já que Corinthians só ganha de novo se contratar outro juiz corrupto; flamenguista se acha o valentão das decisões, sem saber que em campeonato sem final qualquer batida em bêbado já é um clássico imortal; os poderosos estão se cansando da hegemonia são-paulina; os pequeninos quererão um pedaço da pizza – com 8, vai dar: é impossível chegar ao topo da tabela, mas quem sabe aos 33%! Ou quase metade, 8/20, insólitos 40 por cento, percentual digno de um Naútico –; e a Globo é a “paladina do povão”...

 

O Brasil tem sempre que ser diferente de tudo e de todos – por que não inventam uma bola com pontas? Ou uma bola-melancia? Ousaram até um pijama para árbitros... Tá na hora de reabrir a fábrica de craques, pois o melhor do brasileirão já foi um argentino e agora é um sujeito que nasceu num país que nem existe mais... Sem dindim, sem “aquele meia”... A TV Bobo faz questão de ficar com toda a verdinhada, os clubes que se danem, não dá nada! Só tem igreja na televisão, e eu achando que o futebol era a saída dos pagãos.

 



Escrito por wormsaiboty às 17:27
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O DEUS QUE DESCEU À TERRA E QUE SE MISTUROU COM OS HOMENS

As três fases na vida do filósofo Friedrich Nietzsche:

 

1ª FASE: não ouça o que os comentadores dizem. Bom, talvez você devesse parar de ler agora! Fato é que o disse justamente à guisa de prevenção – para não ser contaminado. Eu ainda não tive contato com mais do que dois textos dessa época, não irei analisá-lo a fundo e conclusivamente (como se eu fosse capaz de ser hermético em a relação a ele!). O que tenho a dizer é que aqui ele se comporta mais do que nunca como filólogo e epistemólogo que respeita as regras...

 

2ª e 3ª FASES: ah! Essas muito me interessam! Este homem foi um pássaro, atingiu um novo campo com sua arte, sublimou todo o progresso com pés de anjo, pureza e classe. Alcançou um novo status, do qual mal se começou a falar, produziu estilo grandioso já no ocaso dos estilos. O caso é que como homem do futuro ele não podia ter platéia e afetar nada nem ninguém com quem coabitava... Seus amigos e a Alemanha de então simplesmente ignoraram seus volumes, Gaia, Aurora, Zaratustra. Quando alma dedicada que fosse abria um deles, não passava da folheada, pois não podia se enganar, afirmar que entendeu! Era inevitável que, além do mais, Nietzsche recuasse de seu mundo olímpico para, digamos, torná-lo possível. Ligar o céu à terra com uma torrente final de produções mundanas. Emitir pistas que fossem do homem que ele fora, a fim de que depois não duvidassem de que ele era falível, fraco, na verdade precário. Tudo dependeu de um acaso imenso! Após refundar a linguagem em um novo nível, ele voltou negro como piche para suas últimas bazucadas memoráveis: descascando tudo que era possível divisar de ruim, de fétido. A breve e densa ação de um niilista negativo, passivo, se formos desconectar esse esforço louco do resto de sua obra. O mundo e o NADA PRESTA. Ranço, falta de perdão e fúria desmedida à flor da pele. Isso decerto não implicou em ausência de gargalhadas para quem o capta um mínimo. Ótimo passatempo dos mal-encaixados, inadaptados a este modo de produção que soube mesmo esterilizar, ainda que sem a vasectomia! Rabugentos se dão! O mundo cão (ainda vou especular sobre esse batismo) e suas leis de Darwin encaradas olho-no-olho como na Pena de Talião, que não aceita um... fica para você concluir.

 

Do que eu falava mesmo no texto anterior?

 

Alegria na decadência. Um prazer sádico de agravar o niilismo.

 

Ele desceu do tamanco por nobreza, soube se despedir de sua época! É, ele facilitou bastante o nosso trabalho. Aos 20 a vida começa, podemos ir direto para nossos contributos e peculiares artismos...

 

Ser um homem de época em pleno século XIX, intervalo dos DOIDOS METAFÍSICOS! O super-homem é metafísico, mas ele existe, justamente porque ele não é desse mundo, não pode ser deste mundo... BÁ! Isso é que é desfecho com dignidade sem chave de ouro, que ele deixou cair do bolso em algum percalço da (romântica) viagem...

 

MORAL, repito: PULAR a 3ª fase, meus caros, que em nós viria ANTES...



Escrito por wormsaiboty às 16:32
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O POETA ESCATOLÓGICO – A MORTE NÃO É PARA SER CHEIROSA

DECADÊNCIA – Não é este o GRANDE PONTO? Não parece perfeito que quanto mais a vida se torna feia mais bela fica esta obra em execução? PESSIMISMO E EXCITAÇÃO E TERNURA PELO ACRE, PELO BOLOR, PELO DESAFINADO, PELO TILT, pela minha própria derrota, pela decomposição, pelo desmembramento, esquartejamento e decapitação e funeral, vontade de homenagear tudo isso com um prato de gozo e troça... Os pais morrem, o grande amor o abandona, as contas chegam, você se vai incapacitando e tendo cada vez mais saudade e mais tesão do próprio estado patético atual, que promete denegrir-se ainda mais. As obras que você completa são cada vez mais sábias e profundas e o vão manchando de carvão, até você ser menos do que um cocô vivo. Tudo isso é a meta; livrar-se dos amigos e da piedade coletiva, pretender ser o sofredor, frustrado com mulheres, cada vez mais só, doente e desprotegido, alvo de espinhos invisíveis... Feliz, no fundo feliz! Agradecer a Eline de todas as formas (doentes) mentais por ter me oferecido isso! Não importa a consciência, é questão instintiva e contínua, mas sabemos a intervalos. Baratas, mosquitos e suor, todos se juntam numa festa, você é o anfitrião! Morrer de fome como o banquete principal, ovelha negra da família, cancerígeno, mal-compreendido e malvisto, se é que ainda reparam em você, bactéria humana! Cada vez menos leitores, mais verdades, menos paciência e mais singularidade! Ferir a mão de quem ousar ajudar. Cair na armadilha de quem quiser empurrar. Não reclamar, não reclamar! Apenas se amar.



Escrito por wormsaiboty às 17:14
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SOLA DO PÉ

A gente sabe muito mais do que a gente pensa que sabe – já tracei todos os planos para a “galerinha”. Seria óbvio dispêndio desmedido de energia tomar consciência de todas essas medidas profiláticas. Um sanitarista é o que eu sou. Lido com saúde pública, condições de higiene e remoção do lixo. Lixo: por definição, o indesejável. O que é lixo para uns não é lixo para outros. Pouco a pouco engatinha até mim o exército de Anti-Édipos. É preciso ter o lado cômico; e é preciso ter o lado perfeito. Se soubessem que tipo de verdadeiro tesouro se concentra neste magro – magro! – corpo!... E quão precárias são as fundações desse incalculável monstro sacro da engenharia. Me admira que os religiosinhos sejam os últimos a enxergar qualquer traço messiânico em mim! Quem está em ostracismo agora? Eu conto a história do meu tempo para todo bem-instruído do porvir que queira saber. A única perspectiva humana e que os trouxe – sim, a ponte!



Escrito por wormsaiboty às 15:08
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PIOR CENÁRIO, MELHOR PESSOA

Detesto o contraste promovido pelas visitas à casa dos outros. Entender minha superioridade é trabalhoso para mim. Não achar minha franqueza algo espantoso, só mesmo por estar na minha carne e saber o quanto eu sou constante. O viajante cansado parece um saco de bosta para os outros. Seu esforço não deixa de ser a regularidade da sua alma por isso. Imprevisível só para quem está longe de efetuar minha compreensão... Os jovens não percebem que sempre são mais burros que pessoas de 40 anos, por mais que se tenham por gênios. Acham que é fácil ser o que eu sou!

 

Querer só as vantagens de ser bem-dotado – já passei dessa fase. Se não posso acreditar o quão longe cheguei, as braçadas que dei, os canais e abismos que atravessei, as chamas que transpus... Meu instinto não falha quando me dou conta da facilidade da vida dos outros. Como são lisos e reclamões! Deveriam entender o que implica ser eu.

 

Bandejas cheias de uva, sala de estar abarrotada de balões, dias repletos de paparicos, família desprovida de dinamite. Carta branca para deitar e rolar, fazer da vida o que quiser. Não conviver com pressões. Não estar à beira de um colapso, não saber o que é conviver com a morte, fazer pouco caso dela (inúmeras vezes)!

 

A única coisa que deveria me deixar boquiaberto: estar vivo. E tão bem. Estou tão sozinho e em posição desprivilegiada em casa, acuado, o bode perfeito para o ataque, que até o irmão é apenas um episódio a mais, um algoz a mais. Não é outra vítima preferencial. Não se trata de alguém que atingiu a independência. Quem dirá um aliado. É um pai fracassado – no sentido em que é mais jovem, bruto, estúpido, preguiçoso, débil e imprevidente que o primeiro (mas o molde é o mesmo). Nem se pode dizer que essa vontade de ser golpista, essas espertezas irrisórias, cheirem a ambição. É antes de tudo um sujeito que quer passar a perna em meio mundo, mas é o primeiro a se dar uma rasteira. Em suma, um estagnado. Aquele tipo de membro, de zero, de estorvo, que não é “o primogênito”; fica até difícil de defender o ponto de vista de que os outros vêm tomar o que é dele. É uma existência tão mesquinha que eu, o caçula, posso dizer: a única função, a única característica de peso, o singular traço de relevo desta presença, é que ele me atrapalha. Por isso passa a ser considerado. O inexpressivo que consegue ser um incômodo. Idade de marmanjo, vivência de moleque. Um mau vigarista, conquanto experiente, porque não consegue encontrar outro ofício. Um corpo anômalo. Uma perfeita aberração. O lado da balança que deveria me favorecer, equilibrar a equação, nivelar a disputa. Mas esse empatar é diferente! Trata-se de um lixo que deveria ser removido. Só que é tão degradante, sem propósito, um amontoado de ridículo... Um sugador de energia, esta que é tão necessária!

 

Caso semelhante eu não averigüei. Uma mortalha que arrisca me assombrar até a hora da minha partida, “outro pai”, dessa vez um que necessita ser sustentado, espécime mais aproveitador, vil, dissimulado, que o anterior. Vendo o quanto eu produzi, os picos em que finquei bandeira... E o pensamento de que se não tivesse tantas camisas-de-força para me desperdiçar eu não poderia sonhar com as coisas que faço sobrevém – o supremo consolo!

 

Nos céus límpidos ao lado... Nada perturba, nada machuca, nem existem marimbondos sobrevoando. Apenas uma cegueira disfarçada de azar. A culpa é sempre dos outros, eles próprios não precisam melhorar, maturar, insistir, eles só têm de esperar... Eu sou o que vocês chamam de milagre. Mas não passo de um acontecimento tão banal quanto as suas lamentações. Uma condição óbvia, embora diferente.



Escrito por wormsaiboty às 15:00
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A SOCIOLOGIA E A SUA VIDA

 

Sob o que paira tão alto, sua casa e sua família. Contornos mais nítidos, mas coração mais apertado. O que é sensível para nós seria falável, se não fosse doloroso falar do que mais se conhece! Quanto ao insensível e incorpóreo, tanto faz que tenhamos imparcialidade, ele é obscuro e distante mesmo... Claro, até voltar a ser familiar; digo, familial. E o quanto das cabeças dos nossos pais não é absolutamente indecifrável, por mais autômato e robótico?

 

Escrevo para tentar parar de pensar sem cessar no mesmo corpo de problemas todos os dias, o que vem me atrapalhando a manter minha rotina de leituras. Não me importam a sociologia e seus entreveros entre autores, todos corretos e todos errados ao mesmo tempo. Chega!

 

Só me importam alguns pontos, tais quais: se um sujeito bem gordo completa a travessia de uma ponte de madeira sobre um rio, envergando-a para baixo, e um segundo sujeito, magrinho, apenas pele e osso, tenta passar e racha a madeira, caindo na água quando estava justamente no meio do caminho, de quem é a culpa? O cristão instaurará um inquérito de imediato. Estes ocasionaram o Estado, a polícia. Se o gordo não é ricaço, a culpa é dele, ele vai preso. Ou, se não houver provas de que alguém passou ali antes, o ônus vai todo para o magricela. Bodes expiatórios são unidades carnais. Cristo era um homem. Nesse nosso mundo não é costume a partilha de responsabilidades. Vai ver é por isso que a Terra está assim, que a camada de ozônio...

 

Ninguém? Deus? Não falemos de vazios, sigamos no Mundo dos Homens falando de Homens, e não de Idéias. Afinal, em tudo que importa, só o Homem, o ato, a matéria, o tangível, é que entram na conta. E que se dane se o gordão fez de propósito ou o magro estava sendo coagido. O que você faz não é voluntário nem desinteressado.

 

Então por que eu aqui? Sinceramente, o que mais me preocupa no momento é dinheiro. Não dinheiro para a vida toda, não meu dinheiro, mas o dinheiro dos meus pais que vai pra mim. Atualmente, é assim que eu vivo, e até segunda ordem continuarei pedindo toda semana algumas notas, retirando-as da carteira do meu pai sob as vistas do dono. Ele ser murrinha e eu ser um universitário desempregado são duas coisas que não casam bem. Mas tem de casar, de alguma forma – é a vida. O chefe da família diz que não há conversa nessa casa, os filhos mondrongos são os responsáveis. Eu digo que ele é um bicho-do-mato escroto que não tem solução, é um daqueles casos perdidos.

 

Não importa quem tem a razão, nem qual é o lado fraco. Ele vai morrer como mau pai e sem conquistar os filhos. Vai viver cada segundo do resto de sua vida com o peso (será que o elefante sente?) de não ter conseguido estabelecer o mínimo diálogo inter-geracional. Se há um consolo – certamente ele pensa nesses esquemas –, é que ele acha que algo extraordinário irá acontecer e ele ainda poderá realizar isso (opa, nós – estranhamente ele não se encara como ator). A esperança morre só depois do defunto...

 

Eu engrandeço o trauma de ser rebento desgraçado a cada hora, sou um eterno perdedor, mas um dia, por bem ou por mal, hei de visualizar um horizonte azul. Aceito meu destino, e já basta. Há vezes em que o indivíduo percebe que há algo maior do que ele, não necessariamente uma entidade ou algo nominável, que simplesmente o impede de agir. É necessário esperar e se reorganizar... Ou será que o leitor já conseguiu tirar leite de pedra? Me explique!

 

Marx sofria da mesma dor que eu. Seu mundo burguês é calamitoso, mau, embolorado, nefando e invencível. Meu pai é assim. Tudo o que eu posso fazer é sentar e esperar. Tudo o que eu consigo amealhar nesse ínterim em que ele ainda é vivo é a resistência. O que não mata engorda, e eu estou dez quilos mais gordo em relação ao ano passado...

 

O Capitalismo é trágico: se auto-implodirá! O ser humano em geral, mas especialmente um espécime raro como o pai ortodoxo-edipiano, rá, nem preciso dizer... Quanto à parte do ator, todos menos os professores da Ciência Política sabem que Marx acredita em você e eu, não em um bando de engrenagens que está ali desde o sempre. O maior mérito do indivíduo é sobreviver para contar suas histórias... Quando meu pai morrer o mundo continuará aqui, cheio de patrões e cobradores de aluguel, então eu não vejo motivos para soltar rojões. Nenhum operário viu nem vai ver. Super-homens vêm, super-homens vão, ninguém morreu no seu oásis, apesar de ter nascido no inferno... A não ser que o próprio fogo tenha sido sua obra! Eu vivo para escrever, gostem ou não. Se meu pão é parco, se o bem-bom me vem sendo privado, não deixa de ser irônico eu ter engordado!

 

As pessoas sempre vão fazer o que elas tiverem de fazer... Alguns são efetivos, outros vivem décadas a enganar. A ludibriar, a empurrar com a barriga, a passar a perna na Dona Morte (aquela velha história de não atender a campainha, de dar uma escapadela pela janela...). É impressionante como o auto-engodo é uma Arte. Barrigas fomélicas ou barrigas estourando, todas elas têm de atravessar pontes, e uma hora elas vêm abaixo... Não se iluda com a sensação de que o tempo não passa (anti-Cazuza)! Rup-tura.

 

Um oportunista, é isso que eu sou.

 



Escrito por wormsaiboty às 17:34
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MERDA SECA

No hospital residem mais segredos que em todas as capitais das nações... É tudo uma questão de saúde!

 

Budismo: o grande inimigo.

 

A Europa TEME descansar... Mas descansar demais faz mal, não faz? Hobbes: quando cansamos, parece que o mundo inteiro está parando...

 

Wittgenstein: “Se uma proposição NÃO É NECESSÁRIA, ela é SEM SIGNIFICADO e se aproxima do SIGNIFICADO ZERO. E o que é mais DESNECESSÁRIO que a droga quando não se precisa dela?”

 

RAIVA E NÃO APATIA. Calor, o menor dos inimigos!

 

Quando o louco voluntário abre alas para o caso de internação? Estou vendo as coisas em primeira pessoa demais!

 

Ônibus, escapadela e desprezo – REPETIR. O que eu mais detesto é que por mais que eu banque o incendiário faz pelo menos UM ano e as chamas não terminaram de queimar o apartamento – ALEGORIA, SONHO, CÃES ME MORDISCANDO E EU OS AFASTANDO. Ponha um tempero novo no prato, seu demiurgo miserável! Nada é a resposta! Niilismo. Mestre-pai, fluxo vão, então por que ele existe? Não é como daquelas vezes, mas é igual, só que no espelho? Não consigo desencadear a evasão, a Danuza era um ponto de escape... Tecnologia, abre-te sésamo! Longe do Judas. Roupa de madeira. Estalo nuclear, ferida borbulhante... Mas vide que é melhor o claustro, antes só do que mal-acompanhado! Psicólogo e texto retomado. Saúde pública e médicos demais... e arquitetos – vão fazendo desabar o te(x)to.



Escrito por wormsaiboty às 19:20
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