X-TudoTudo


O BRASILEIRÃO DOS ATACANTES [post originalmente publicado em maio]

[Só UM POUCO] diferente!

 

Pedrão (Barueri, artilheiro do campeonato paulista com 16 gols [Val Baiano já estava no elenco]); Rafael Moura (Atlético-PR, artilheiro do campeonato paranaense com 14 gols); Taison e Nilmar (Internacional, respectivamente o artilheiro e o vice-artilheiro do campeonato gaúcho, com 15 e 13 gols [e dá-lhe Nilmaravilha na Seleção!]); Maicosuel (Botafogo, artilheiro do campeonato carioca com 12 gols); Fred [Fluger] (Fluminense, ex-Olympique Lyonnais e Seleção Brasileira); Adriano (Flamengo, ex-Internazionale de Milano e Seleção Brasileira) [o artilheiro insosso de um campeonato tão emocionante!]; Dodô (???) [???]; Kléber (Cruzeiro, vice-artilheiro do campeonato mineiro com 13 gols) [o mais palmeirense dos cruzeirenses]; Diego Tardelli (Atlético-MG, artilheiro do campeonato mineiro com 15 gols) [eu canso de dizer que o campeonato mineiro é tão parâmetro quanto o é o maranhense]; Washington e Borges (dupla ofensiva do São Paulo, juntos possuem 23 gols na temporada) [na realidade eles nunca fizeram nada juntos]; Kléber Pereira (Santos, 11 gols no Paulista) [vaiado, vaiado, vaiado...]; Keirrison (Palmeiras, 19 gols na temporada, vice-artilheiro do Paulista e atual vice-artilheiro da Libertadores) [o melhor jogador de todos os tempos da última semana]; Ronaldo (Corinthians, ex- e futuro jogador da Seleção Brasileira) [projeto 2010].

 

O cardápio promete. Mas se algumas das defesas não forem queijos suíços, vários destes nomes não vingarão. Resta torcermos para que o menor número possível saia desta lista no decorrer do campeonato e revelações dêem o ar da graça [que tal Bruno Mineiro do Náutico? Maxi Lopez também não foi nada mal... E tem o veterano Marcelinho Paraíba, patinho feio dos “chuteiras engraxadas”].

 

O Campeonato Brasileiro, que já era mais divertido que qualquer nacional europeu, agora tem também os melhores jogadores do mundo e, ao contrário da distribuição de renda do “país real”, há considerável isonomia entre os participantes: oito clubes ou mais com status de “favorito ao título” [altamente comprovado!] e belas peças distribuídas pelos 20 elencos da disputa, ao contrário das badaladas oligarquias inglesa, espanhola, alemã, francesa e italiana, em que três ou quatro times até podem vencer uma equipe brasileira em final de Mundial FIFA, mas onde os pequenos são sacos de pancada e fazem feio diante do nosso glorioso Ipatinga. O Cruzeiro é melhor que o Bayer de Monique. O São Paulo é mais time que o Sevilla. O Barcelona perdeu uma vez e perderia outras tantas para o Inter de Porto Alegre. Adversários mais cascudos, como o AC Milan, são não-raro capitaneados por brasileiros. [>>>]Finalmente, um aviso ao Robinho: se não voltar, vai ficar desprestigiado na Seleção (e vai continuar na capa dos tablóides ingleses por coisas que não fez). Não sei se diante dessa virada econômica que trouxe o Fenômeno e o Imperador o Pato já se arrependeu [creio que sim, e o que você acha, Ronaldinho Gaúcho?], mas o Mineiro e o Breno tenho certeza que sim [Mineiro e quem?]!

 

Arriscarei prognósticos quanto aos rebaixados deste ano: 1) Barueri; 2) Santo André; 3) Avaí (é, o mar da Série A não está para peixes pequenos...); 4) Atlético-MG (vai e não volta nunca mais!). [O Galo deveria mesmo ir e não dar o ar da falta-de-graça tão cedo entre os melhores... Mas se eu tivesse trocado de Atlético, acertaria dois nomes da zona!]



Escrito por wormsaiboty às 22:10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


OS NATUREBAS E OS DIGITAIS – L’ART, O PORNÔ, O GAUCHE, O BLASÉ... O que ser?

Me divido atualmente entre dois grandes vícios. Quis dizer: a humanidade se divide atualmente em duas grandes necessidades: atender a demanda irresistível pelo novo, diferente e mais bem-acabado tecnologicamente, ampliando o abraço orgiástico de todos com todos na malha digital; manter a fisiologia sã nos imprescindíveis momentos de (auto-)desligamento (desse gigante mecânico-biótipo, maníaco-depressivo, ambivalente, dentro e fora de nós), com práticas contraditórias como fumar, beber, repousar, contemplar, dançar, dissipar ou simplesmente se esconder. O perfeito blasé se acha um idiota no espelho. A crise do palhaço, começar o discurso (de que se vai arrepender depois), é intrínseca a esse comportamento, uma reação ao embotamento das sensações. À super-excitação, a máquina sofre solavancos que sabemos não serem fatais, embora desgastantes e, retroativamente falando, “evitáveis”.

 

O correto – ou impossível – está em idealizar o natural ou o digital? Em contra-atacar improficuamente com a alopatia ou a homeopatia? É sempre ineficaz. Mas ainda assim, somos artilheiros. Atacar com o quê? Isolar-se e adoecer encolhido diante do verme familial, tentando tecer um futuro finalmente não-monótono nem embaraçoso (de quantas drogas fazemos uso sem sequer nos darmos conta?)? Não dar atenção a ninguém – mas contar com o melindre embutido de que eles também o apagaram do mapa. Ou ter possibilidades, só que completamente amarradas pelo exército com ilimitadas reposições das pessoinhas? Desativado ou excessivamente ligado? Não se destrói afetos, mas é preferível concentrá-los diante dos punhos ou insistir em pisar em baratas? De qualquer jeito, com este arranjo, somos sempre abertos apesar de sermos entrópicos. Ninguém nunca sabe com quem vai topar amanhã na calçada enquanto divagava de cabeça baixa. Desgoverno como chance de governo? E a intolerância pesa no momento em que a troca seria o mais válido. Dar. Cooptar? O que levar aos olhos? O que chega aos meus ouvidos? Tateio alguma coisa.

 

Em suma, não preciso de tantas perguntas. Tendo perdido um bocado de viagens, efetuado várias recapitulações, saldo – finjamos – meio que zerado... Embarcar ou não?

 

Nossa alma é grande e cabe um pouco de tudo. Até um meio-termo.



Escrito por wormsaiboty às 17:25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


15 MINUTOS DE FAMA (DOS NINFOMANÍACOS DA UNB)

Abaixei as calças, deixei-me fotografar, tornei-me uma celebridade. A vida andava meio... entediante. Mas salvei o dia! Amanhã eu penso em outra traquinagem boa o suficiente para interessar a um jornalista. Tarefa essa cada vez mais capciosa, uma vez que os jovens estão “botando pra quebrar”. E há jovens de todas as idades...

 

Terei eu logrado a eternidade, com um pequeno espaço no pior papel do mundo (aquele que desmancha quando chove)? Me impressiona as pessoas ainda terem olhos para penetrar nesse preto borrado depois de três séculos! Borrado por borrado, prefiro pagar para lerem meu destino no fundo da xícara de café.

 

E não somos uns carolas reacionários puritanos? Até aqueles à flor da pele acham histriônica a idéia da nudez. Uns ridículos de reitoria desfazendo os anos 60...

 

Pergunta: por que só tem mulher horrorosa nesses “atos”? (Sobre o ATO – como vulgarizar peças de teatro: chamando o burburinho dos rebeldes sem-causa de AÇÃO. Muito fácil ser ator!)

 

Unindo o útil ao agradável: quem luta pensa que “sofre pelos outros”. Sofrendo estou eu, nesse calor, com vontade de tirar a roupa mas guardando lá minha dignidade e inocência – quando fico pelado, não é para causar sensação, mas para lembrar que ainda sou gente.



Escrito por wormsaiboty às 14:51
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


MINHA IRMÃ E EU

Alemães: Nietzsche é o deus da guerra.

Aliados: Nietzsche é o demônio da guerra.

Anos 10, 1ª Guerra.

 

Transcrição absoluta deste livro inédito escrito já no asilo! Do primeiro filósofo dos animais

 

Informações coletadas na Internet:

 

Elizabeth Förster morreu aos 89 anos, em 1935, em Weimar (no regime de Hitler). Seu wagnerianismo redundou nisso!

 

Walter Kaufmann – “farsa”. Filósofo séc. XX.

 

O original teria sido queimado na sede da polícia nova-iorquina, subdivisão de combate à pirataria.

 

O livro realmente trata de incesto.

 

Finalmente um paralelo com ele que eu não atingirei. Mas será difícil PROVAR. Havia tantas correspondências, e nada substancial... O ciúme doentio contra Lou é, com efeito, suspeito.

 

Atraso na publicação: medo da irmã lobista.

 

CHAPTER 1

 

Sonha que a mãe morre. Acontecera o mesmo com o pequeno irmão. Ela morre antes de 1900.

 

23: “Para o odiador, a Alemanha é o lugar. Em primeiro lugar, há o kaiser, que se pode detestar a vida inteira”.

 

Carta – se ela ainda existe e for igual... [de fato, este livro dá muitas pistas sobre registros reais, como por exemplo – e já veremos amostras disso – as correspondências entre Nietzsche e George Brandes]

 

A iniciativa era toda dela. Incomodava-o.

 

“Eu tinha 19 quando fiquei bêbado pela primeira vez” 28. Eu: 15

 

“Quando penso nas mulheres, é o cabelo que vem à mente primeiro”

 

“Tenho mãos e pés pequenos como os de uma mulher. Teria sido eu destinado a ser mulher? Sou acaso um descuido de Deus?”

 

Nota 27: hilariante, sobre brigas. Sentimento meu: por que freqüentemente esquecemos o motivo por que brigamos ou então o modificamos completamente em nossa cabeça? Agora, Nietzsche: luta-se para valer com um amigo. Refletir em cima. Da arma: por que não se jogar violinos e pianos ao invés de desembainhar espadas ou disparar canhões?

 

Escrevendo no parapeito da janela.

 

N. 32: acusação de loucura da irmã.

 

33: “ser o segundo? Nem diante de Deus” [frase de César]

 

“Não há nada em Ecce Homo que já não tenha dito uma vez nos outros livros. Só que neste eu fui tão claro como jamais!”



Escrito por wormsaiboty às 19:13
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


CHAPTER 2

 

“Nenhum evento me interessa mais, exceto o grande acontecimento da minha morte iminente.” Ele realmente deveria durar 56 anos. Nem mais, nem menos.

 

Seu destino: ficar famoso numa democracia global – nada mais paradoxal.

 

Tolstoi (n. 2, p. 36).

 

Lisbeth – Lama

 

Comovente auto-retrato da decadência física – “meu cérebro vai se tornando pedra”, assim como a tinta dessa caneta vai se esvaindo...

 

P. 38 – Brasil.

 

“Como uma múmia egípcia que esqueceu de morrer por inteiro eu sou o expectador da minha própria morte, sentindo meus olhos se tornar poeira” – até nisso é um divino, que viaja além de tudo.

 

Ouço Megadeth – metaforicamente – enquanto leio palavras como “dust”. E Black Sabbath. Void, Sympton of The Universe... Triste e feliz viagem cósmica.

 

“Esse é o paradoxo da minha existência: eu amei a vida ao máximo, mas não pude direcionar essa paixão do modo clássico” (amar o estranho)

 

Não houve nada carnal com Salomé.

 

O incesto é endógeno, não há riqueza nenhuma em um sistema fechado.

 

“Eu cortei a história do mundo em duas ao escrever o Ecce Homo”

 

14/01/09 – sonho em que torturo cães. Essa é uma longa série...

 

“Essa grande mente, a maior desde Aristóteles, está sendo dissolvida na imbecilidade da massa”

 

45 (9): “Se a Vida nos ofende, nós de algum modo também ofendemos a Verdade. Nossos erros básicos se constituem no esforço das sucessivas gerações para reduzir a verdade a uma unidade, Deus, ou as idéias correlatas de Justiça, Amor e Poder. Meu Deus era Poder, e prostrado agora sem poder algum eu chego à conclusão de que construí minha filosofia em fundações de areia.” Será que sempre há vingança? Todos partem quitados? [A resposta é Homero!] Aqui se fez, e aqui se vai pagar? Que esse balanço, no entanto, não seja chamado de justiça. Não é de todo verdade... Ele se sente punido, mas ser teórico do poder é ser teórico da luta eterna, da “jamais-unidade”. Ser um super-homem é compreender esse pathos. Como me castigar?

 

Pedra é só uma areia mais dura. Vide RUÍNAS, Simmel.

 

“Antes de mim os filósofos guerreavam em trincheiras contra o Cristianismo. Eu promovi uma guerra total, e isso me deixou sem amigos.”

 

“Sócrates e Schopenhauer são eunucos [castrados] que perderam a capacidade de amar [quando dizem que a vida não faz sentido]”

 

CHAPTER 3

 

O erro da mãe: ter trancado a vagina após a viuvez (50).

 

52-3: guerras se fazem em segredo; presentes são honrarias públicas. A guerra nasceu com o homem do Oriente; os africanos sempre foram ricos na arte de dar.

 

A beleza da guerra é diferente... chama-se força.

 

Sobre o historiador – Plutarco, pp. 54-5 – para Gusmão.

 

“Na Grécia Antiga a riqueza do homem era avaliada por seu número de filhos – em correlação positiva”

 

Voltaire foi a França respirando aquele ar de liberdade ideológica inglês”

 

57: “Todo pensador socialista falha ao não entender que a distribuição desigual de sabedoria, poder e talento é essencial em uma comunidade, para o contínuo exercício, ali, de sentimentos como piedade, compaixão, generosidade e proteção, que são os ingredientes das únicas civilizações que tiveram qualquer tipo de duração” – Para Thomas.

 

“Talvez a autêntica tragédia na história do homem tenha se dado, não quando o homem se viu pela primeira vez pelado com sua comparsa, mas quando ele percebeu que era necessário sair de si para mostrar tributo à divindade. Ele não sabia que tinha sido expulso do Paraíso até se ver do lado de fora do portão.”

 

“É difícil de acreditar que aqueles pés das estátuas gregas precisavam mesmo da interferência de sandálias. Se tivéssemos pés tão fortes provavelmente iríamos arruiná-los com pedicures!”

 

“Uma nação que tenha abdicado do sonho da conquista já abdicou há muito tempo do sonho de viver”

 

59: “Estamos excedendo as contas em tudo. O universo não é, para começar, tão grande quanto se relata. O mundo como um organismo é tremendamente importante para si mesmo, mas da mais banal significância para o sujeito. E, com todas suas perfeições creditadas, o homem é uma criatura extremamente imperfeita! Sendo assim, poderíamos deixar de lado o sentimento de extravagância sobre o que não temos, ou de angústia pelo que possivelmente deixamos de fazer ou experimentar. Tudo humano que valha a pena está contido em alguns prédios em Roma, Paris e Londres, e eu não trocaria o resto do universo pelo conteúdo de uma delas. Ainda assim, no momento em que escrevo pode ser que as forças armadas da humanidade estejam se preparando para devastar esses prédios para começar uma briguinha de homens, cuja real potencialidade é tal que se fossem estes os últimos e únicos homens sobre o globo toda a raça teria de morrer sem deixar herdeiros.”

 

61-62~ considerações sobre o Direito.

 

Envelhecimento das leis – ciclos de cada nação – finalmente, é o caso dos EUA, que há 200 anos vinham se mantendo firmes com a mesma carta. A democracia não está mais nos corações dos homens.

 

CRISE ECONÔMICA (COMO CRISE PERMANENTE DE QUALQUER ESTADO E MORAL QUE NÃO É INSTITUÍDA POR UM POETA LEGISTA)

“Como resultado da mistura dos economistas com leis científicas puras, sem legislação, certos princípios de Economia aparentemente adquiriram um caráter duplo – o da generalização científica e o das regras que serão impunemente desobedecidas.”

 

“Você já viu uma jovem com a metade da beleza do mais abandonado dos gatos-de-rua?”

 

“Se eu puder voltar a minha casa de novo, lerei o Livro dos Mortos egípcio”

 

“O europeu aspira a uma sinceridade cristã no viver, mas treina sua consciência de modo que solte uma risada sempre que cruza uma igreja”

 

Os judeus nos bastidores do pensamento europeu – 68.

 

“Decidir o destino da comunidade via voto igualitário é tão razoável quanto escolher a mulher pela loteria” – danem-se o debate público e os malditos referendos.



Escrito por wormsaiboty às 19:12
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


CHAPTER 4

 

“4 mulheres em minha vida: duas, prostitutas, me fizeram feliz. Felicidade de momento.”

 

O mais importante em uma mulher: ser jovem (isso inclui a beleza) e ter pernocas.

 

Talvez o insucesso amoroso seja assim explicado: são débeis demais para suportar uma natureza forte.

 

Schopenhauer: “acima de tudo, um (bom) escritor”. Hegel era muito “desumano”, Kant nem sempre sabia se expressar e Fichte era por demais pomposo.

 

“Já fui tão maior que Schopenhauer que duvido que terei um sucessor”

 

“Vitória militar, se por algum engano for nossa, não vai nem ao menos curar nosso jeito azedo e turrão”

 

P. 75, n. 16 – metalinguagem sobre suas complicações – “Pode o mecanismo do nosso pensar ser danificado sem no entanto comprometer os pensamentos em si?”. Ele pode organizar suas idéias por escrito, mas não pode mais responder que horas são. Aterradora esquizofrenia.

 

77 (22): “Eu passei um bom período de amadurecimento em Leipzig, um vasto número de masturbações, e nem perto do tanto de traquinagens que eu deveria ter feito”.

 

“Eu preferia ser um psicólogo do que o Deus do Gênesis”

 

“Como a Alemanha é a negação da França, a Rússia é a negação da Alemanha. A Rússia tem duas vantagens em relação a nós: tem mais salas onde se lutar e mais judeus com quem lutar.”

 

“Só em contingências como sua carne sangrando ou ossos quebrados é que um doutor é realmente útil”

 

80: “As pessoas erradas chegam a esta casa e as pessoas erradas recebem autorização para partir”.

 

“Nada do que eu amo me é benéfico. Mesmo cerveja. Um único copo e eu fico tão tonto que prefiro dormir que conversar.”

 

“Uma querela entre dois filósofos deve ser levada tão a sério quanto uma discussão filosófica entre dois pedreiros.”

 

“Você escreve alguma coisa aqui?”, Elisabeth perguntou. “Já escrevi o suficiente sobre o mundo. Agora que o mundo escreva sobre mim.”

 

Então deuses não cagam nem mijam?

 

CHAPTER 5

 

Enxerga Stendhal como seu igual (90).

Livro Lamiel: protagonista que lembra Lou.

 

“Toda mulher é uma prostituta no coração e até compreender isso um homem não pode conhecer a pureza virgem de seu ser”

 

Filisteus – a classe média.

 

Heráclito (92-3): um mestre e ao mesmo tempo espelho nietzscheano. Como todo espelho, apresenta simetria e inversão, é também um contraponto! Heráclito é racional, não se opunha à sociedade, seu rio que flui eternamente foi formulado em tempos de paz. A ocasião agora é outra. “Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida” fogo-contra-fogo

 

Goethe, Schopenhauer, Shakespeare: belas páginas. Diria que tratam satisfatoriamente do problema “dimitriano” da apolinidade de Nietzsche.~(92-3)

 

Iron Maiden e Slug também? Conscience stricken.

 

Sua mãe é a medusa.

 

Viver sem propósito, como que roubando ainda a luz do Sol, dia a dia.

 

99: três vezes a palavra “ass”: “Um dia eu devo ir à casa de Rousseau e quebrar todas as janelas”.

 

100 – a idéia do amor atrelada ao estômago (sentir-se com fome/carente/satisfeito). Anteriormente ele havia dito que no paganismo não havia a necessidade de Deus, o bem-estar se limitava ao comer, dormir, beber. Assim que o ser humano ingressa na era dos utensílios ele precisa expandir suas noções de bem-estar, afinal agora ele já tem colheres, todo tipo de louça e camas macias...

 

“Não só eu, mas os sofistas modernos estão em seu pôr-do-sol: por sofistas da modernidade quero dizer os humanistas, os empiristas, os relativistas, os utilitaristas e os individualistas.” 102

 

Nightwish! Gethersemane: a cena da traição a Jesus.

 

104-5: o estranho desmoronamento do vigor aristocrático em Nie., auto-referenciado como sua própria anti-partícula. Napoleão e César Bórgia não são mais do que efusões montadas pela “mob”, pelo gentio, pelas massas, as que fazem a História, aquela que vence à derrocada do Rei e instauração da democracia. Muito marxista. Mas Jerônimo no poder? Ele acabara de dizer “deixe quem manda, mandar”. “Nietzsche contra Nietzsche”: lúcido. “Fiquei louco porque descobri a verdade.”

 

Pascal

 

Macbeth – life is a tale told by and idiot – Faulkner.

 

“Um Aristófanes do século XX vai me taxar como um Demócrito, pilhando-me como este foi pilhado: Longa vida ao Deus Furacão que destronou Zeus!” Aponta nossa “solução de superioridade” na cerveja: rá, esses filósofos! [Aristófanes: o rei da Comédia / Wikipédia sobre Demócrito e Nietzsche: “Na verdade, segundo Demócrito, existe um número infinito de mundos, sendo que pelo menos um deles, e talvez mais do que um, é uma cópia exata do nosso, com pessoas como nós. O conceito de um universo infinito contendo inúmeros mundos diferentes foi também aceito por outros pensadores, incluindo Friedrich Nietzsche.”]

 

The Doors

 

Andrômeda – a cultura moderna em sacrifício. P. 106

 

Slayer

 

“quando eu vi um cavalo em Turim ser açoitado pelo cavaleiro eu corri da minha casa e abracei o animal, me preocupando com seu devir. § Essa foi a causa da minha ruína: a divisória entre minha pregação e minha prática, e isto foi parte também da grande linha entre o antes e o depois no pensamento ocidental, que como eu ficará louco.”

 

“Eu queria a paz, mas serei tratado como o apólogo da guerra”

 

“Atingimos o niilismo ultimado do sofista Górgias: ‘Nada é; o conhecimento não pode ser comunicado porque nada existe’.” Os pós-modernos de então?

 

Excelentes passagens sobre os grandes gregos ~110/11.

 

Sofrimentos não como os do jovem Werther (114).



Escrito por wormsaiboty às 19:11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


CHAPTER 6

 

“O muro de uma polis dividia os gregos e os bárbaros. Protegia do barbarismo”. Hoje (ontem) viu-se a pura loucura transfigurada num grande muro.

 

“migrane headaches” 123

 

123 – Wagner

 

125 – “Eu até traria felicidades às pessoas se achasse que isso poderia fazê-las algum bem”.

 

126: para Einstein: “Pena dos outros é auto-gratificação. Pena de si é a mais baixa auto-degradação. Se Deus tem pena de nós, ele está jogando com um dado interminável.”

 

“prince of darkness”

 

CHAPTER 7

 

131: Baudelaire.

 

A branca e a negra / a ocidental aristocrata e a plebéia do Oriente – 1ªs mulheres de Nietzsche fora da família?

 

A sífilis. As duas prostitutas. Uma surgia à noite, no dormitório-monastério, a outra era dos tempos de faculdade.

 

A Condessa – eterno retorno e super-homem?

Vênus – Wagner – Cosima

P. 139 – Hugo (?)

 

Acaso sofria Sócrates de lancinantes úlceras e cefaléias?

 

“O Deus cristão é uma máscara para Lúcifer; quem diria que o demônio acha seus mais ardentes súditos debaixo do teto das igrejas” 140

 

A única característica judia que é bem-vinda globalmente, a prova de que “o mundo é judeu” ou TRÁGICO (auto-deserdamento?): o dinheiro.

 

A conturbada relação Nietzsche-cavalos (142).

 

Um Rothschild roubou seu assento numa orquestra!

 

Zola – Nanah – o retrato da prostituta decadente.

 

As palavras mais repetidas no livro: filisteus e fariseus.

 

“A ‘angélica’ fêmea anda tão próxima dos animais mais ariscos da selva que me pergunto se  a raça humana poderia se tornar humana!” 146

 

CHAPTER 8

 

152: “Sobre o que filósofos escrevem livros eu escrevo parágrafos”.

 

“Anticristo: meu livro mais fluido”

 

TEORIA DO CONHECIMENTO: “Só desenvolvemos três sistemas numéricos – contra 1.000 línguas e 10.000 sistemas de raciocínio”.

 

“Kant teria sido um filósofo melhor se ele tivesse dado ao menos 10 anos de aula de filologia, o que teria aclarado para ele a importância de se fazer entender antes de ter certeza que é entendido”

 

“A democracia é de números e é sustentada diretamente pelos matemáticos anônimos cujas obras foram destruídas no incêndio da biblioteca de Alexandria. Que pena que a natureza humana não é delineada pelas simples linhas, vamos dizer, das proposições euclidianas!” (??? – em verdade, a geometria euclidiana é anti-aritmética! Perfeito...)

 

Como um homem pode ter tanta informação retida em si?

 

“Um sóbrio Parmênides com o fluxo poderoso de um Heráclito é a figura mais potente possível das legendárias águas dos Mares Filosóficos” 154

 

155: “Se você não é capaz de ler Platão pelo puro prazer de lê-lo, leia-o visando ao ensinamento que ‘grita’ nas entrelinhas de cada diálogo: há somente um mundo, o mundo da experiência humana”.

 

157 (34): Marx pela primeira vez, e seguem-se bastante comentários:

“Os egípcios nos deixaram uma verdadeira história de seu caráter nacional no Livro dos Mortos. Para caracterizar nosso tempo alguém deveria escrever um Livro dos Alemães Renegados – para incluir alguns que quiseram escapar mas não conseguiram – como eu. Se – os céus me proíbam – eu me tornasse o autor de tal obra eu abriria com uma dedicatória a Heinrich Heine [poeta, alguns de seus trabalhos ganharam ópera de Wagner] e encerraria com um comentário sobre Karl Marx, diante de quem os fins da criação teriam servido muito melhor se ele tivesse permanecido na Prússia [Alemanha], onde ele seria alemanizado ou levaria um tiro. Como se sabe, Marx encontrou resguardo do Germanismo na Inglaterra, de onde ainda nos dispara suas teorias pelo Canal da Mancha [está delirando: escreve em 1989 e Marx morreu em 1983!]. Nesse cenário, eu me desejaria qualquer lugar no centro, onde, aproximadamente, estou [manicômio de Naumburg].”

 

Mais adiante: “Quanto a Marx, ele escreve num Alemão não tão ruim, o qual ele adorna com copiosas citações do Latim e do Francês – línguas que ele parece não conhecer muito bem – a fim de impressionar a massa e confundir aqueles que esperavam poder entender”.

 

“Em Heine os judeus nos deram muito, em Marx muito pouco”

 

“Marx é para a Lei da Oferta e da Demanda o que Darwin é para a Lei da Sobrevivência do Mais Forte. Ambas as leis são o resultado de uma nova paixão produzida pelo século XVIII – pesquisa com ponto de vista.”

 

“A verdade ainda é ludibriadora. Mas já não é mais uma bela jovem, e sim uma puta velha sem nenhum dente da frente”

 

“Não quero ser mal-entendido: eu evito ler Marx tão apaixonadamente quanto enveredo por cada nova estrofe de Heine”

 

O Capital de Marx descobriu duas coisas que são os temas básicos dos congressos socialistas: 1) a mais-valia, pois o operário trabalha para gerar mais do que é vitalmente necessário para si, e até para si e para o capitalista juntos; 2) esse novo poder de exploração da classe trabalhadora é levado a um extremo tal que o burguês se torna, no mundo do dinheiro, tão poderoso e acima dos homens quanto era o divino senhor feudal.”

 

161, af. 49: previsão de que um Estado socialista ficaria mais pobre que o antigo, cedo ou tarde (URSS).

 

E a observação: no Comunismo, Artes e Ciência estagnam; a Inglaterra permitia a livre expressão no regime liberal.



Escrito por wormsaiboty às 19:11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


CHAPTER 9


Santo Paulo (165); “Beyond-Man” (final 164): dilema de tradução. Mas para-além-do-humano e ser-acima-do-humano não encerrarão sempre a mesma idéia contida em super-homem? O homem per si é um solene incapaz de descrever qualquer coisa inumana – mesmo as mais baixas, quanto mais as mais altas.

 

MONO

Fausto, o mago: reinício da crença na magia como única alternativa de nobreza no ser humano – eis a força do ideal romântico, em que pese “cheirar a décadence”, o que aliás é preciso (simultaneidade/cornucópia dos movimentos de ascensão e queda, ou do movimento e do contramovimento – Marcel Mauss já prega o dar, o criar artístico do Übermensch ao redor de 1900; Guy Debord ainda patina no desespero do ressentimento cristão pela vida ao não se dar conta de que o hiper-real é a busca pelo verdadeiro [isso nos 1960]. Nie. abre o capítulo com: “O que não conseguirmos pela fé conseguiremos através dos métodos mágicos”).

 

166: crítica antecipada a Freud. “John Stuart Mill cabeça-dura”. “confundir tudo com o erótico” é a confusão dos doutores, que dão a mentes geniais e cósmicas a mesma interpretação, os mesmos diagnósticos, concedidos às massas. Uma vez eu afirmei que o universo seria compreendido pelo ser humano – talvez o cientista – como um pênis. Retifico hoje seu formato para o invólucro da vida, womb, um útero. Mas ele já contém o sêmen da auto-fecundação.


“pig-worlds of outer sensation” – me recorda Black Sabbath – Under The Sun, “rat race”.

 

“the positive and negative energies in the soul” – “energy derives from both the plus and negative”

 

168: Wagener – cunhado Förster.

 

Nietzsche pensou por alguns momentos que poderia encontrar nas bibliotecas de Física uma prova científica da sua teoria do eterno retorno. Mas logo abandonou a idéia. No entanto, seu Ecce Homo deixa clara a irrefutabilidade: “este é o único fato que está demonstrado”, uma vez que o universo não coagula.

 

Fichte, Schelling, Schopenhauer, Hegel, Kant, Leibniz (o livro grafa ...nitz): maquiadores, ou “sombras” (Schleiermacher, XVIII Brumário e a tatralidade do Parlamento).

 

170: “Hegel é um Spinoza guiado pela velocidade da nossa idade industrial” Elisabeth: boa porque má, má porque boa.

 

Baudelaire: “a única maneira de permanecer sano é evadir da civilização burguesa e se trancar num hospício”.

 

“É melhor que o mundo não saiba – ao menos enquanto ela viver – que Elisabeth cumpriu o mesmo papel em minha vida reservado a Augusta frente a Byron [irmã mais velha deste].”

 

171: “eu me tornei o super-homem – o Monarca do Universo”. Eu era o Mau.

 

172: “Cinqüenta anos depois da minha morte, quando eu terei me tornado um mito, minha estrela vai brilhar no firmamento enquanto o Ocidente é eclipsado na escuridão, e pela luz que eu emito, minha filosofia-do-poder será reexaminada não como poder [bélico] mas como Providência”.

 

“Mulheres são a única propriedade privada que tem total controle sobre seu proprietário.” Eva: espécie de Frankenstein.

 

Aspásia, a grande mulher nos eixos horizontal e vertical!

 

“Eu nunca disse que cervejeiros e salsicheiros venais eram bons soldados”

 

175: o melhor para “fierce” é VALENTE. A valentia do leão de Zaratustra. Confessa  que havia esboçado envenenar sua irmã, como eventualmente Cleópatra ou a primeira-dama cesariana.

 

“A idéia da transmigração da alma não é tão parva como parece, e meu conceito do eterno retorno é meramente a ressurreição moderna do credo pitagórico. Uma vez fomos cães e ainda vamos regressar ao domínio primata dos caninos.” Torturando-espremendo-cães. Qual foi o último que eu vi? Hoje sonhei de novo. Meus sonhos agora se relacionam a estar preso com os pais em algum lugar que não é a minha casa, e algo sem forma me tortura, algo de que eu não podia me esquecer. Foi o cão da Connie o último que toquei. Eu beijava a Rosilda e de alguma forma me ocultava dos anfitriões indesejados. E por que tantos banheiros? Super-homem Bill Lunch. “I spread disease like a dog...” Ter vivenciado caninamente a Idade Média não é absurdo, mas nada seria sem a CONDIÇÃO HUMANA, esse pathos que olha para baixo e para cima das cadeias com seus próprios olhos. Também já fui pedra e fui estrela. O pequeno príncipe me revive um tipo de consciência cósmica longamente entalada. A National Acrobat. Raul Seixas. Engraçado... o que eu estava fazendo dia 19 de janeiro de 2008? Tianguá e o demente. Surpreendente auto-controle. E interesse pelo tio-avô tão camponês. Moscas malditas e Rosilda. Eu sou a bomba atômica e sou a flor.

 

176 – Schopen., Carlyle, budismo.

 

A mãe de Schopenhauer, se parecia a de Nie., ao menos não era hipócrita como filho, pois era patentemente uma Messalina, ainda que patrocinasse uma biblioteca. Schopanhauer abominava as mulheres em seus livros, mas era dissimulação: entregava-se aos prazeres da carne.

 

“Anus” em latim é velha. Anos e ânus: passagem do tempo, expiração.

 

“Rousseau, a tarântula da moralidade”

 

“Hegel incorreu num sexto sentido – o senso histórico” 177

 

“O Homem do Esgoto de Dostoyevsky [grafia do Inglês] e o meu Supra-Homem são a mesma pessoa”

 

“Talvez os pregadores de Alá me inscrevam em suas memórias como o único cristão honesto na Europa – um cristão honesto demais para aceitar a escravidão moral paulina e que preferiu, como Jesus ele mesmo, se cremar no relâmpago do Velho Testamento.”

 

“Rei Salomão, o único judeu com ganas de imperador, promotor da Pax Judaica no mundo bárbaro. Seu império poderia se esticar até o fim do mundo, paraíso e terra sob a propaganda de Jeová.”

 

Mulheres e sua apropriação indecente da suprema doutrina: infinito orgasmo, depravação de Dioniso.

 

É, eu também fui Nietzsche. Agora eu sou outra coisa.

 

Voltando...

DEMOCRACIA               X            EUCLIDES

Estatísticas                               Forma

Redução ao ideal                        Não-números

Paradigma do hospício                Potências

Controle da maioria                    (Eu sou um círculo maior)

Razão                                       Desprezo das minorias

 

Candillac (181): “Há dois tipos de bárbaros; aquele que precede séculos de iluminismo e aquele que os sucede”. Basicamente um. Hoje, os petrodoleiros donos de clubes.

 

182: “Idealismo moral não pode suplantar a compulsão econômica de nossa era: Ruskin, Carlyle e outros britânicos obsoletos, especialmente John Stuart Mill, não aprenderam o básico sobre a modernidade. Se eu não fosse César eu seria Cristo, o Socialista, montaria um traseiro e cavalgaria até Jerusalém com Karl Marx. A ambição de poder dos Marxistas complementa a ambição de poder dos Nietzscheanos, mas eu prefiro chegar a Jerusalém num cavalo de batalha árabe, ao invés de no lombo de um burro proletário.”



Escrito por wormsaiboty às 19:10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

“Brandes me chama de um anarquista aristocrático – e é exatamente o que eu sou. Quem, senão um judeu, para me desmascarar e contemplar esta face de Disraeli, o radical Tory? O radical extremado e o reacionário extremado são irmãos debaixo da pele: ambos têm inclinação para demagogias liberais e humanitárias, e só conhecem um caminho rumo ao triunfo – a vontade de Poder.”

 

Nietzsche + Marx = colapso do Ocidente, oficialmente reconhecido por Nietzsche. Eles são teóricos de um futuro, são dois profetas, sabem o quanto são impraticáveis aqueles enredados com soluções entrópicas, salvacionistas do Capitalismo. Homens de sensibilidade trágica. Apenas que Marx está mais para um happy end e Nie. penetrou ainda mais fundo e até desenhou o homem do porvir. Foi TOTAL, por isso sua mente se destruiu. Weber: mais para a omissão.

 

“As pessoas precisam ser governadas com mão-de-ferro, e eu profetizo uma época de Césares proletários [Lenin e Stalin?] que agirão como Rousseaus, enquanto Marx acaba construindo e sendo a vanguarda ideológica de ditaduras democráticas onde as iniciativas da companhia de água e esgoto e do fabricante de calças [!] são identificadas como a vontade de Deus e codificadas em leis draconianas escritas em letras de sangue.” – Dracon foi o primeiro legislador grego – mas a graça com Drácula aqui é patente.

 

“Dizem que por tomar o lugar do Senhor no meu sistema filosófico eu provei minha egomania. Mas na verdade eu sou extremamente modesto. Para mim, ocupar o lugar de Deus é um rebaixamento e humilhação, não uma rara promoção aos picos do Monte Sinai! § Ao invés disso, eu sequer deveria ter falado em deus na minha obra, deixando esse problema para os ingleses – Carlyles com mania de grandeza – resolverem.”

 

CHAPTER 10

 

“Não há lugar que não fique tedioso a longo prazo” 185

 

“Me pergunto o que seria de Kant se tivesse sido induzido a viajar de navio”

 

“Eu gosto de crianças...”, mas parece que ele não gosta de vê-las crescer.

 

META: escalar uma montanha durante o pôr-do-sol.

 

Nie. queria que o manuscrito fosse levado exatamente para seu editor Fritz, provável.

 

193: “A Alemanha é o único país do mundo em que eu teria a necessidade de pagar eu mesmo a impressão da quarta parte do Zaratustra”.

 

E pensar que em meio a tantos distúrbios de saúde este homem achava que Humano, Demasiado Humano seria “o livro de sua vida”...

 

CHAPTER 11

 

“Monarch of the Musical World” – Wagner – 196

 

Insinua que Wagner era traído por Cosima. E como ele se estimava – sem dúvida sem razão – mais do que o Augusto César, jamais desconfiaria.

 

Mas o pior: diz que ELE chifrou Wagner (?)! Platonicamente, talvez...

 

201 (12): finalmente a voz de Luciana? Desculpas por não ter priorizado a política a e a economia [contudo, é exatamente por isso que ele “evita ler Marx tão apaixonadamente”]. Ficou no reino da moral, da condução espiritual do homem, quanto ao que leva à condição aviltante da democracia, não se debruçou sobre a tecnologia (como o infame Heidegger). “O niilismo não pode ser superado quando... 1) não se descobriu o meio; 2) o modo de produção ainda não maturou.” – essas aspas não são exatas, mas em linhas gerais está em Vontade de Potência. Weber também afundou no pântano burocrático...

 

“O super-homem não é uma fantasia privada: é nossa realidade biológica e transcendental” 204

 

“Se Deus estivesse mesmo vivo ele não deixaria o século XX acontecer” 205

 

Stendhal disse que Deus morreu de morte natural, de uma parada cardíaca!

 

213: “O mundo vive de si mesmo, se alimenta do próprio excremento (...) Eu me tornei inferior à barata na parede”.

 

“go up in smoke”

 

“há mais segurança na caverna de Platão” 215

 

“minha fé no super-homem foi mera ilusão”

 

“eu sou o fulcro da história (...) ainda que o encontrem no Príncipe de Maquiavel”

 

O reformador Erasmo (219).

 

Quando chegará o momento em que o eterno retorno será propagado em massa? Não pode ser por uma via kardecista.

 

“o veneno anti-semita que cada alemão bebe do leite da mãe” 222

 

Imperador Nero – filho de Agripina que conspirou contra Messalina.

 

“fire must be thought with fire”... 227

 

“espero não viver o suficiente para ultrapassar esse século”

 

CHAPTER 12

 

Várias citações amistosas de Santo Agostinho (232).

 

“seek to destroy”

 

In madness you dwell...

 

“Eu nunca imaginei o fim da raça humana porque eu tenho uma visão trágica da vida” 240

 

Berlioz – o super-homem da Música.

 

“Em menos de cinqüenta anos ser chamado de ‘wagnerete’ vai provocar um processo por calúnia e difamação contra o autor da ofensa, e quando uma ópera wagneriana for mencionada em companhia nobre vai haver um mal-estar na sala.” Hoje R. W. não é tão popular entre os “sofisticados” amantes da Música Clássica.

 

“O que nós perdemos, nós possuímos para sempre” Eline Me |ssa| lina

 

Gaia-Ciência e Humano (...): os dois livros mais positivistas de Nie.

 

“Penso, logo existo” é a carruagem na frente dos bois (248). No fundo, o nascimento do existencialismo.

 

E Nie. reconhece o valor supremo da raça judia: seu “eu existo” equivale a seu deus Jeová. Eles podem ser massacrados em campos de concentração, mas sua conversão é de fato algo próximo do impossível (forte moral, os primeiros transmutadores de valores).

 

Fecho: “Vamos impregnar nossas vidas com a impressão da eternidade! Vamos viver de modo que desejássemos sempre viver de novo: esse é meu credo, ontem, hoje, amanhã, e nos ontens que sucederão o amanhã”.

 

Live your life, and live it well / there is not much of me to tell / I just got back up each time I fell

 



Escrito por wormsaiboty às 19:09
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


MY SISTER AND I – surgimento

“Durante seus primeiros dias no asilo (sanatório) em Jena [Basiléia], tendo determinado em seu coração que sua mãe e irmã eram condutores imperfeitos de sua paixão pelo mundo, Nietzsche se convenceu a escrever outro trabalho autobiográfico, não para substituir aquele que seria suprimido ou adulterado [pela irmã e pela mãe, provavelmente], mas para complementar seu conteúdo e para permitir à opinião pública compilar seus manuscritos e contrastar os teores das duas autobiografias, a fim de que qualquer distorção de sua obra perpetrada por terceiros fosse devidamente corrigida. Mesmo no novo embaraço em que estava imerso (*) ele sentiu que poderia escrever com a clarividência e o estilo de costume. A maior dificuldade seria como preparar e preservar tal trabalho antes que o mundo (e, principalmente, suas parentes) pudesse estar por dentro de tudo (afinal tudo que era seu seria enviado para os consangüíneos). Nietzsche encontrou a solução para esse problema no próprio asilo.

 

Havia entre os internos do estabelecimento um mercador que, de acordo com o falatório do lugar, receberia alta em breve. Esse homem se apegou de maneira visível a Nietzsche. Foi o filho mais novo dele que trouxe papel, caneta e tinta com os quais as novas memórias foram elaboradas. Foi a esse novo amigo que Nietzsche confiou seu último trabalho, na manhã do dia de sua dispensa, com a recomendação de que o levasse a um editor que pagasse pelo achado.

 

O homem com quem Nietzsche estabeleceu esse extraordinário acordo era pouco mais que um semi-analfabeto, no entanto, mesmo se ele tivesse o equivalente alemão a um diploma de curso superior, seria razoável que jamais tivesse ouvido falar em Nietzsche àquela época. Ele não cumpriu a prometida visita a um editor, e quando mostrou o manuscrito à família foi só para comprovar a história de um cômico senhor professor que andava para lá e para cá no hospício se comparando a figuras ilustres, como Napoleão ou Deus. As anotações de Nietzsche poderiam ter se perdido para sempre se o referido filho do comerciante, ao migrar ao Canadá vários anos depois, não as tivesse levado consigo por pura sorte. Na América, depois de saber que seu empregado (um ex-clérigo) era especialmente interessado em livros e manuscritos antigos, vendeu o último livro de Nietzsche por 100 dólares, imaginando ter feito um grande negócio.

 

‘Mas como o clérigo poderia saber que se tratava de um manuscrito nietzscheano?’, eu perguntei.

 

Ex-clérigo’, o americano mais uma vez me corrigiu. ‘Havia um detalhe importante. No momento em que seu chefe alemão mencionou Jena e o professor louco, nosso ex-clérigo exercitou a curiosidade e a capacidade de duvidar típicas de um verdadeiro clérigo! Ele comparou o manuscrito com os exemplares publicados da caligrafia de Nietzsche – e pensou que poderia ser algo forjado, porque era idêntico. Mas ele leu e releu – e o estilo, a substância, a personalidade de Nietzsche, tudo estava lá. Quem poderia imitá-lo assim? De fato, quem se atreveria?’.

 

‘Mas como alguém – clérigo ou ex-clérigo – guardaria um manuscrito desses em segredo por tanto tempo?’, foi o que eu exigi saber.

 

‘De acordo com os fatos, ele foi dono do manuscrito por algo em torno de um ano’, foi a resposta. ‘E você se esquece que nas circunstâncias excepcionais do seu primeiro vôo para a Inglaterra [na parte anterior desta pequena história o manuscrito é descrito como estando na Inglaterra, na mão de um ex-clérigo – ao que parece ele estava trabalhando no Canadá e voltou, finalmente, à terra natal, mas só em uma viagem rápida, para cuidar de trâmites legais da sua mudança definitiva], não tendo tempo para receber toda a imprensa, o que seria natural após sua revelação, mas tendo entabulado relações comigo e me julgado confiável, ele me concederá o manuscrito [como vemos, esta pessoa viajará em breve para a Inglaterra para se encontrar com o ex-clérigo], permitindo-me ajudar numa missão tão preciosa e, ao mesmo tempo, poderá voltar com a desejada agilidade para o Canadá, onde um prêmio infinitamente mais elevado aguarda este homem, sua linda e jovem esposa! A questão agora é: quando eu tiver o manuscrito, na hora de voltar para cá [este quem fala é um jornalista norte-americano], devo cedê-lo para a tradução [e está conversando com um famoso tradutor de Nietzsche para o Inglês] e a tão necessária edição da obra – nos seus tradicionais métodos, é claro?’ [a história era tão inacreditável que poderia receber uma negativa do interlocutor].

 

A essa altura eu já não sabia se acreditava nessa aventura e nesse negócio da China que traria o manuscrito para as mãos do correspondente do Times, e, portanto, para as minhas. Mas o que eu estaria perdendo em pedir para dar uma olhada no documento? Claro que eu estava excitado, bastante curioso, apesar de cético.

 

Mais de dois anos haviam se passado nos quais eu já tinha praticamente me esquecido do jovem jornalista e seu manuscrito. A dada manhã ele chegou. Eu o li com crescente entusiasmo. Só Nietzsche poderia tê-lo escrito!

 

(*) Sua deterioração cerebral prejudicou seriamente a capacidade de Nietzsche responder as pessoas, mas seu fluxo de pensamentos não tinha sofrido alterações significativas, e ele não verificava, ao despejar suas idéias no papel, a mesma hesitação do contato falado.”

 

Traduzido de forma livre do Inglês – correções como o nome da cidade Basiléia inspiradas na autobiografia de David Halévy. Este diálogo aconteceu por volta de 1927 e nos permite entrever como, por facetas tão belas e capciosas, nosso “herói” Friedrich Nietzsche manteve vivo e inalterado seu pensamento original (e final!) – uma série de desventuras que tinha mesmo de ter um final satisfatório. Hoje sabemos o que ele realmente disse e o que colocaram em sua boca para pervertê-lo. Outra coisa que não fica clara é se os 100 dólares exigidos pela aquisição das anotações estão corrigidos para a época de publicação do livro (e isso já deve ter algumas décadas) ou se o valor real seria algo em torno de 1000 dólares, ou até mais! Caso a segunda hipótese seja a verdadeira, independentemente de ter sido vendido por engano, sem que se levasse em conta o autor, àquela altura persona anônima, foi indubitavelmente um grande negócio, tanto para os bolsos do filho do comerciante que entabulou relações com Nietzsche em Basiléia, que não ligava muito para sua herança de antiquário, quanto para toda a humanidade posterior!



Escrito por wormsaiboty às 19:32
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A PESTE, Albert Camus

(01/09/08)

 

P. 53 – menção ao crime na praia de “O Estrangeiro”!

 

P. 55 – Menção a “O Processo”, de Kafka!

 

P. 63 – análogo a Hamelín. (distanciamento e balanço dos casos de amor pelos segregados.)

 

A vida ganha novas cores quando se conhece a doença de perto – mesmo se não for propriamente o doente.

 

Albert Camus tem alguma fixação por árabes.

 

Rio muito. Será normal?

 

Eis que até a morte se torna monótona. Sobretudo a morte. É aí que se produz a necessidade de novas coisas. Há a impressão de que a peste não vai acabar. Que sempre sobrarão cidadãos sãos e doutores – estes são homens e também vítimas em potencial!

 

A duração do exílio deve ser a mesma de Hitler apossado de Paris. Esta cidade é Oran. Argel é a cidade do outro romance.

 

P. 93 – metalinguagem – o personagem que se satisfaria com a boa recepção do eventual editor de seu futuro livro.

 

A única coisa que não pára é a burocracia!

 

Por que nestes escritos de minha predileção seus protagonistas não costumam ser falantes ou evitam por demais polemizar? A velha temática do blasé.

 

Sim, Camus é muito engraçado! Agora me lembro do acesso de riso com a cena do cão. Ah, a força do hábito! Compartilhei minha exaltação com a dona “Fúlvia Balloon”.

 

O corpo de detalhes que Camus não deixa faltar é um exemplo para o esforço que eu desejo empreender: clientes que esterilizam sua louça, navios que permanecem ancorados em quarentena... Assim como uma epidemia, o definhamento econômico, a derrocada de uma velha ordem, exigem uma descrição minuciosa. No fundo, os dois casos são iguais: é tudo questão de economia, como é alocado o que resta.

 

As perspectivas antagônicas do médico e do padre – p. 113. E a convergência: o problema da onipotência de Deus!

 

É o segundo romance francês estrelado por um médico. Que quer dizer? Eles são mais intensos que os próprios filósofos? Que um artista?

 

A resposta: porque todos nós somos algo médicos. Ambicionamos saúde, o corpo, somos aprendizes e professores de uma ciência medicinal milenar e cotidiana que é a todos nós tão familiar e antípoda da ciência de consultório, a que hoje tem o respaldo, a da especialização.

 

Grand é o Quixote camusiano.

 

P. 158 – os bondes de mortos se assemelham profundamente às incinerações dos judeus em campos de concentração.

 

Narrativa bruta!

 

“nunca se viu um canceroso morrer de desastre de automóvel” p. 172

 

Orfeu e Eurídice – 175

 

216 – o réu no julgamento em que o pai de Tarrou era o acusador. Não um réu comum – o condenado à degola! Ares de Míchkin. Condenado à degola ou infectado pela peste do Estado. A imoralidade organizada.

 

O exercício do “querer tudo de novo” e o do “revólver munido agora”: sim, eu afirmo a vida! Sou, hoje, Pandora. Amanhã, Sísifo – ele não morre. Ela, não recua.

 

P. 229 – “É preciso recomeçar” – o Joe Gould da obra: Grand, já apontado como quixotesco. Um rico personagem. E é, ainda, Jesus Cristo!

 

Tarrou é a repetição do Estrangeiro: o infectado solitário após o debelamento da peste.



Escrito por wormsaiboty às 19:15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


“EXISTENCIALISMO AOS 7” – AS ABELHAS, OS HOMENS E A ESPINHA METAFÍSICA

Hoje minha mãe me apresentou uma pequena reflexão minha – de quando eu nem sabia o que era reflexão, e leria a palavra sexo como se lê “seixo” –, na altura da 1ª série, sobre a vida. Apresentar-me é bem o termo, já que a gente se esquece com facilidade. Talvez tenha sido o passo inicial desta minha verve literária; impossível saber, mas é o que a arqueologia nos permite resgatar. Dizia mais ou menos assim: “Vida – Eu tenho 7 anos, meu irmão mais velho tem 14 anos, uns são mais novos, outros são mais velhos, e assim a vida vai... A mulher mais velha tem 124 anos, a criança quando sai da barriga da mãe é a pessoa mais nova e tem 1 segundo”. Deve ser a segunda vez em período recente que minha mãe remexe em suas caixas repletas de recordações e vem me mostrar – como eu disse, a gente esquece, até as coisas de ontem –, não só esse tipo de protofilosofia como cartõezinhos de dia das mães e meus dentes-de-leite...

 

Não parece estranho que nossa vida comece aos 7? O que é o primeiro segundo? Talvez condiga em importância com os seis primeiros, a infância clássica. Que ela deve haver, disso não há dúvida. Que hoje reproduzimos aqueles sonhos, ou melhor, rememoramos o grande sonho, ainda mais certo. Os anos de jardim-de-infância são inconscientes. O pediatra moderno é um fraco. A força da criança reside na impossibilidade de abraçá-la no humano – ela é tão autêntica como um inseto. Azar dos homens, que hoje são menos do que insetos... Uma mosca ou uma abelha, por mais filosóficas que sejam, não possuem uma morte impactante. Seu pathos voador passa fulminante. Um cisco de poder que facilmente perde a autonomia. Uma palma da mão enfezada transforma uma perspectiva no zero, puro tecido em decomposição, nada de drama em câmera lenta. Considerar a infância sagrada já é um sinal... O bom velho é o menino...

 

A dor ou o prazer, seu antípoda o anestésico, nada representam para o precoce. O importante é seu reflexo no consciente mais tarde. O trauma torna-se desumano e criminoso quando a história do indivíduo realmente começa e ele toma suas escolhas baseado naquilo que ele nunca foi, a fim de ser o que é agora! O inconsciente. O inconsciente e a abelha verde. Esses foram meus principais amigos dos meus anos pré-existenciais. Talvez fossem as duas únicas entidades conhecidas! Todas as vezes que ia brincar no parquinho da escola, perto da gangorra ou do carrossel, ou da amarelinha pintada no chão, eu via uma abelha verde. Ela batia as asas como um beija-flor, deixava um rastro para meu olho incompetente adivinhar o que seria. Um bicho que nunca se cansa; e as abelhas verdes estão sempre no mesmo lugar. Aqui em Brasília posso encontrar diversas delas. Todas as vezes cruzo com uma, na ida e na volta, desde que faço o caminho para a Universidade. Retorno. Àquele tempo eu sabia – premeditava com bastante frieza – que chegaria o dia (utópico?) em que essa abelha seria o tema de um texto. Quem sabe não é a mesma abelha? Qual é a magnânima resistência de um ser vivo desses? Se a persistência com que se sustém no ar for a mesma com que enfrenta cada primavera... Ah, claro: primavera, época de flores (embora as estações não sejam bem-definidas no Cerrado), ela aparece bem mais. Parece que para uma abelha, 50 dias são 50 anos. Elas começam a viver no sétimo dia? Não, ela não se perde como o homem...

 

Na nossa Odisséia, o significativo é a volta. A guerra o tornou herói, mas parece que não foi você. Está na hora de protagonizar de fato o roteiro. Hoje tenho o triplo daquela idade. O quanto o número 14 é emblemático para mim? O quanto eu desejaria viver 124 anos? A escola parece eterna. A substância cotidiana permanece intacta. Imaculada rotina, transfigurada em novo linguajar. Consciente. Dolorosa. Mas sensível. Sempre pensei no meu inconsciente como um deus caprichoso. Direitos Humanos se preocupando com a saúde divina, quanta perda de tempo! Não é que não se deve mexer com crianças porque elas são sagradas; tabus mundanos... O sagrado é imexível, os costumes só existem para ser quebrados. Invertendo o axioma, elas são sagradas, daí não é possível a mediação humana. Atena não poderia ser prejudicada por Ulisses. Tolices!

 

A jogatina de dados de Deus deu no que deu(s)! Mortes inconscientes são não-mortes. 0 a 5 anos, latência. Esquecimento, imprescindível ferramenta. O fundamento do mundo é coisa para ficar debaixo do tapete. Aí inventarão as câmeras; e monitorarão todos os passos. Aí partirão numa máquina do tempo, só para testemunhar o primeiro momento. Que revelação, voltar e pisar... na mesma sala! A vida é a máquina do tempo... Você foi o primeiro, antes disso foi só o que seu consciente ainda não conscientizou e vai pegar de empréstimo – só para ter o gosto sem-fim de esquecer.

 

Abelhas não saem na chuva. A chuva dissipa os pensamentos. Sol sim; trovão não (o cachorro late ao raio – sabedoria ancestral?). Tenho a soberana impressão de que os céus são a extensão do meu estômago. Lubrificação aquosa. Palavras são águas... Não se apresse para viver hoje o que você pode viver amanhã... Uma idéia que escapa é só uma idéia que ainda não estava pronta... O mais importante é a trama. Homo sonambulus? Non-sapiens? A trama acaba como a teia de uma aranha de um recinto reaberto e devidamente higienizado...

 

Assinado,

 - A Mosca Filosófica

 

E se a qualquer momento... Reaprender a ler, reaprender a ler, mocinho! Nós esquecemos seletivamente, nós esquecemos de propósito, nós só nos esquecemos do que queremos pensar que não escolhemos. Você lembra que não sabia regular o esfíncter? Você vibrou no primeiro gol? Você lembra da primeira mulher pelada? Liberdade – palavra mágica da consciência trágica. Do que todos sabem rapidamente se esquece. Por que o Bozo aqui é teimoso? Por que eu desaprendi a andar de bicicleta? Poder da escolha, poder da escolha... Você precisa do poder da escolha... Coca-Cola, Coca-Cola... Isso é gente adulta, desmembrada, duas-cabeças... eu voltei a ter uma só cabeça – SÓ COM UM PEQUENO DELAY ENTRE AS METADES. Mas nem tudo é escolha nossa – as secreções que nos enchem de espinhas justo no momento em que mais precisávamos da pele de bebê é o instinto do artista adolescente – quer um pulo mais intenso que o blasé das gentes... Duelo com o mundo, quando uma cabeça brota da testa. Quem acha normal um ser bicéfalo? Sua capa não esconde a outra boca que chora debaixo do casaco. Para uma que ri, um lamento profundo, você esconde 50% de você do mundo! Descompasso. Cuidado para não ser traído por si mesmo! Não peça o divórcio, [j]unte os casais... Até sair uma f[r]icção. Escolha fazer o que o ressentimento da cabeça cega antevia... Cansei de cumprir ordens. Só cumpro ordens quando escrevo. Sempre fui eu. Eu e a brisa fina. Uma história para um corpo. Você não acredita em você? Depois de tudo, continua ignorando o que está latente... Aprendizado peristáltico. Respira!... Expira!... Inspira!...! Esqueça que mandei que esquecesse... Qual foi o último carneiro cardinal ordinário da sua véspera do sono? Andar de elevador no torpor da madrugada. Sempre vem à tona...

 

Que cara é a minha? No espelho.

 

Assinado

 - A mo[s]ca humana



Escrito por wormsaiboty às 21:18
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


IMBRÓGLIOS DE DOMINGO À TARDE

 

Faz três anos: “O fim do monopólio nas transmissões de futebol: ano que vem a Globo dará tchau à exclusividade” e papos assim rondando... Uma das melhores notícias que o fã do futebol poderia receber. Promessa é dívida: até agora, nada. Se o pay-per-view irrita, ver a fórmula do campeonato brasileiro voltar ao mata-mata só pra poder ver os jogos decisivos e aumentar os pontos ligados na emissora irritaria mais ainda. E, olhe bem, já fiz muitos amigos em mesa de bar... Tá certo que não gosto de ver jogo com chiado, chororô e cabeças se intrometendo na frente, mas é bom nos acostumarmos com o “clima de Copa”...

 

Data da edição da Veja de 7 de junho de 2006 a matéria “Torcedor em Festa”. Diziam que, se o futebol nacional continuasse sob os auspícios dos Marinho, ainda assim outras operadoras de TV a cabo como a MAIS TV, pobrezinhas e coitadinhas, poderiam contar com os canais elitizados da Globosat, passando os melhores programas para mais alguns milhões de telespectadores ao redor do país, sem que eles tivessem que pagar mais de 100 reais para contar com a benesse dos jogos de São Paulo, Vasco, Cruzeiro, Grêmio, etc., mais do que duas vezes por semana (conforme na TV aberta – ó, a quem estou enganando, os marajás transmitem apenas Flamengo e Fluminense, a comédia e a tragédia do futebol tupiniquim!)... Isso era lasanha podre para gato, já que indigesto mesmo são os 400 reais para ter tudo ao alcance dos botões, sofá, pipoca, 24h de partidas decentes... O pior é que, estragada ou não, a comida não vem; e continuamos vendo o restaurante funcionar ao lado, alguns cuspindo em seus pratos.

 

Mas hein?! Que papo é esse de campeonato brasileiro em mata-mata? Quando já nos achávamos europeizados, o complexo do vira-lata nos assalta novamente. Se a CBF sucumbir à tentação tribal e transformar o certame de turno e returno em Copa do Brasil II – A Missão(*), pararei de acompanhar futebol. Perderei o tesão. Ou voltarei a fetichizar a liga italiana, sensata em suas marmeladas rodada a rodada... Já ouvi falar de muitos velhos morrendo do coração nos estádios, mas esse negócio de “emoção” é pra quadrúpede fazer a sesta... A Globo podia passar jogos internacionais, se o problema é a incompetência dos brasileiros nos torneios eliminatórios sul-americanos... Aí vem o velho papo da bandeira e do hino, que ninguém, afinal, sabe... Como se doletas e merrecas não falassem a mesma língua... Só que nessa Babel a plim-plimzada carioca não manjou que campeão nacional é o maior somador de pontos, não o time “das cagadas”...

 

(*) Já que Corinthians só ganha de novo se contratar outro juiz corrupto; flamenguista se acha o valentão das decisões, sem saber que em campeonato sem final qualquer batida em bêbado já é um clássico imortal; os poderosos estão se cansando da hegemonia são-paulina; os pequeninos quererão um pedaço da pizza – com 8, vai dar: é impossível chegar ao topo da tabela, mas quem sabe aos 33%! Ou quase metade, 8/20, insólitos 40 por cento, percentual digno de um Naútico –; e a Globo é a “paladina do povão”...

 

O Brasil tem sempre que ser diferente de tudo e de todos – por que não inventam uma bola com pontas? Ou uma bola-melancia? Ousaram até um pijama para árbitros... Tá na hora de reabrir a fábrica de craques, pois o melhor do brasileirão já foi um argentino e agora é um sujeito que nasceu num país que nem existe mais... Sem dindim, sem “aquele meia”... A TV Bobo faz questão de ficar com toda a verdinhada, os clubes que se danem, não dá nada! Só tem igreja na televisão, e eu achando que o futebol era a saída dos pagãos.

 



Escrito por wormsaiboty às 17:27
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O DEUS QUE DESCEU À TERRA E QUE SE MISTUROU COM OS HOMENS

As três fases na vida do filósofo Friedrich Nietzsche:

 

1ª FASE: não ouça o que os comentadores dizem. Bom, talvez você devesse parar de ler agora! Fato é que o disse justamente à guisa de prevenção – para não ser contaminado. Eu ainda não tive contato com mais do que dois textos dessa época, não irei analisá-lo a fundo e conclusivamente (como se eu fosse capaz de ser hermético em a relação a ele!). O que tenho a dizer é que aqui ele se comporta mais do que nunca como filólogo e epistemólogo que respeita as regras...

 

2ª e 3ª FASES: ah! Essas muito me interessam! Este homem foi um pássaro, atingiu um novo campo com sua arte, sublimou todo o progresso com pés de anjo, pureza e classe. Alcançou um novo status, do qual mal se começou a falar, produziu estilo grandioso já no ocaso dos estilos. O caso é que como homem do futuro ele não podia ter platéia e afetar nada nem ninguém com quem coabitava... Seus amigos e a Alemanha de então simplesmente ignoraram seus volumes, Gaia, Aurora, Zaratustra. Quando alma dedicada que fosse abria um deles, não passava da folheada, pois não podia se enganar, afirmar que entendeu! Era inevitável que, além do mais, Nietzsche recuasse de seu mundo olímpico para, digamos, torná-lo possível. Ligar o céu à terra com uma torrente final de produções mundanas. Emitir pistas que fossem do homem que ele fora, a fim de que depois não duvidassem de que ele era falível, fraco, na verdade precário. Tudo dependeu de um acaso imenso! Após refundar a linguagem em um novo nível, ele voltou negro como piche para suas últimas bazucadas memoráveis: descascando tudo que era possível divisar de ruim, de fétido. A breve e densa ação de um niilista negativo, passivo, se formos desconectar esse esforço louco do resto de sua obra. O mundo e o NADA PRESTA. Ranço, falta de perdão e fúria desmedida à flor da pele. Isso decerto não implicou em ausência de gargalhadas para quem o capta um mínimo. Ótimo passatempo dos mal-encaixados, inadaptados a este modo de produção que soube mesmo esterilizar, ainda que sem a vasectomia! Rabugentos se dão! O mundo cão (ainda vou especular sobre esse batismo) e suas leis de Darwin encaradas olho-no-olho como na Pena de Talião, que não aceita um... fica para você concluir.

 

Do que eu falava mesmo no texto anterior?

 

Alegria na decadência. Um prazer sádico de agravar o niilismo.

 

Ele desceu do tamanco por nobreza, soube se despedir de sua época! É, ele facilitou bastante o nosso trabalho. Aos 20 a vida começa, podemos ir direto para nossos contributos e peculiares artismos...

 

Ser um homem de época em pleno século XIX, intervalo dos DOIDOS METAFÍSICOS! O super-homem é metafísico, mas ele existe, justamente porque ele não é desse mundo, não pode ser deste mundo... BÁ! Isso é que é desfecho com dignidade sem chave de ouro, que ele deixou cair do bolso em algum percalço da (romântica) viagem...

 

MORAL, repito: PULAR a 3ª fase, meus caros, que em nós viria ANTES...



Escrito por wormsaiboty às 16:32
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O POETA ESCATOLÓGICO – A MORTE NÃO É PARA SER CHEIROSA

DECADÊNCIA – Não é este o GRANDE PONTO? Não parece perfeito que quanto mais a vida se torna feia mais bela fica esta obra em execução? PESSIMISMO E EXCITAÇÃO E TERNURA PELO ACRE, PELO BOLOR, PELO DESAFINADO, PELO TILT, pela minha própria derrota, pela decomposição, pelo desmembramento, esquartejamento e decapitação e funeral, vontade de homenagear tudo isso com um prato de gozo e troça... Os pais morrem, o grande amor o abandona, as contas chegam, você se vai incapacitando e tendo cada vez mais saudade e mais tesão do próprio estado patético atual, que promete denegrir-se ainda mais. As obras que você completa são cada vez mais sábias e profundas e o vão manchando de carvão, até você ser menos do que um cocô vivo. Tudo isso é a meta; livrar-se dos amigos e da piedade coletiva, pretender ser o sofredor, frustrado com mulheres, cada vez mais só, doente e desprotegido, alvo de espinhos invisíveis... Feliz, no fundo feliz! Agradecer a Eline de todas as formas (doentes) mentais por ter me oferecido isso! Não importa a consciência, é questão instintiva e contínua, mas sabemos a intervalos. Baratas, mosquitos e suor, todos se juntam numa festa, você é o anfitrião! Morrer de fome como o banquete principal, ovelha negra da família, cancerígeno, mal-compreendido e malvisto, se é que ainda reparam em você, bactéria humana! Cada vez menos leitores, mais verdades, menos paciência e mais singularidade! Ferir a mão de quem ousar ajudar. Cair na armadilha de quem quiser empurrar. Não reclamar, não reclamar! Apenas se amar.



Escrito por wormsaiboty às 17:14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


SOLA DO PÉ

A gente sabe muito mais do que a gente pensa que sabe – já tracei todos os planos para a “galerinha”. Seria óbvio dispêndio desmedido de energia tomar consciência de todas essas medidas profiláticas. Um sanitarista é o que eu sou. Lido com saúde pública, condições de higiene e remoção do lixo. Lixo: por definição, o indesejável. O que é lixo para uns não é lixo para outros. Pouco a pouco engatinha até mim o exército de Anti-Édipos. É preciso ter o lado cômico; e é preciso ter o lado perfeito. Se soubessem que tipo de verdadeiro tesouro se concentra neste magro – magro! – corpo!... E quão precárias são as fundações desse incalculável monstro sacro da engenharia. Me admira que os religiosinhos sejam os últimos a enxergar qualquer traço messiânico em mim! Quem está em ostracismo agora? Eu conto a história do meu tempo para todo bem-instruído do porvir que queira saber. A única perspectiva humana e que os trouxe – sim, a ponte!



Escrito por wormsaiboty às 15:08
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


PIOR CENÁRIO, MELHOR PESSOA

Detesto o contraste promovido pelas visitas à casa dos outros. Entender minha superioridade é trabalhoso para mim. Não achar minha franqueza algo espantoso, só mesmo por estar na minha carne e saber o quanto eu sou constante. O viajante cansado parece um saco de bosta para os outros. Seu esforço não deixa de ser a regularidade da sua alma por isso. Imprevisível só para quem está longe de efetuar minha compreensão... Os jovens não percebem que sempre são mais burros que pessoas de 40 anos, por mais que se tenham por gênios. Acham que é fácil ser o que eu sou!

 

Querer só as vantagens de ser bem-dotado – já passei dessa fase. Se não posso acreditar o quão longe cheguei, as braçadas que dei, os canais e abismos que atravessei, as chamas que transpus... Meu instinto não falha quando me dou conta da facilidade da vida dos outros. Como são lisos e reclamões! Deveriam entender o que implica ser eu.

 

Bandejas cheias de uva, sala de estar abarrotada de balões, dias repletos de paparicos, família desprovida de dinamite. Carta branca para deitar e rolar, fazer da vida o que quiser. Não conviver com pressões. Não estar à beira de um colapso, não saber o que é conviver com a morte, fazer pouco caso dela (inúmeras vezes)!

 

A única coisa que deveria me deixar boquiaberto: estar vivo. E tão bem. Estou tão sozinho e em posição desprivilegiada em casa, acuado, o bode perfeito para o ataque, que até o irmão é apenas um episódio a mais, um algoz a mais. Não é outra vítima preferencial. Não se trata de alguém que atingiu a independência. Quem dirá um aliado. É um pai fracassado – no sentido em que é mais jovem, bruto, estúpido, preguiçoso, débil e imprevidente que o primeiro (mas o molde é o mesmo). Nem se pode dizer que essa vontade de ser golpista, essas espertezas irrisórias, cheirem a ambição. É antes de tudo um sujeito que quer passar a perna em meio mundo, mas é o primeiro a se dar uma rasteira. Em suma, um estagnado. Aquele tipo de membro, de zero, de estorvo, que não é “o primogênito”; fica até difícil de defender o ponto de vista de que os outros vêm tomar o que é dele. É uma existência tão mesquinha que eu, o caçula, posso dizer: a única função, a única característica de peso, o singular traço de relevo desta presença, é que ele me atrapalha. Por isso passa a ser considerado. O inexpressivo que consegue ser um incômodo. Idade de marmanjo, vivência de moleque. Um mau vigarista, conquanto experiente, porque não consegue encontrar outro ofício. Um corpo anômalo. Uma perfeita aberração. O lado da balança que deveria me favorecer, equilibrar a equação, nivelar a disputa. Mas esse empatar é diferente! Trata-se de um lixo que deveria ser removido. Só que é tão degradante, sem propósito, um amontoado de ridículo... Um sugador de energia, esta que é tão necessária!

 

Caso semelhante eu não averigüei. Uma mortalha que arrisca me assombrar até a hora da minha partida, “outro pai”, dessa vez um que necessita ser sustentado, espécime mais aproveitador, vil, dissimulado, que o anterior. Vendo o quanto eu produzi, os picos em que finquei bandeira... E o pensamento de que se não tivesse tantas camisas-de-força para me desperdiçar eu não poderia sonhar com as coisas que faço sobrevém – o supremo consolo!

 

Nos céus límpidos ao lado... Nada perturba, nada machuca, nem existem marimbondos sobrevoando. Apenas uma cegueira disfarçada de azar. A culpa é sempre dos outros, eles próprios não precisam melhorar, maturar, insistir, eles só têm de esperar... Eu sou o que vocês chamam de milagre. Mas não passo de um acontecimento tão banal quanto as suas lamentações. Uma condição óbvia, embora diferente.



Escrito por wormsaiboty às 15:00
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A SOCIOLOGIA E A SUA VIDA

 

Sob o que paira tão alto, sua casa e sua família. Contornos mais nítidos, mas coração mais apertado. O que é sensível para nós seria falável, se não fosse doloroso falar do que mais se conhece! Quanto ao insensível e incorpóreo, tanto faz que tenhamos imparcialidade, ele é obscuro e distante mesmo... Claro, até voltar a ser familiar; digo, familial. E o quanto das cabeças dos nossos pais não é absolutamente indecifrável, por mais autômato e robótico?

 

Escrevo para tentar parar de pensar sem cessar no mesmo corpo de problemas todos os dias, o que vem me atrapalhando a manter minha rotina de leituras. Não me importam a sociologia e seus entreveros entre autores, todos corretos e todos errados ao mesmo tempo. Chega!

 

Só me importam alguns pontos, tais quais: se um sujeito bem gordo completa a travessia de uma ponte de madeira sobre um rio, envergando-a para baixo, e um segundo sujeito, magrinho, apenas pele e osso, tenta passar e racha a madeira, caindo na água quando estava justamente no meio do caminho, de quem é a culpa? O cristão instaurará um inquérito de imediato. Estes ocasionaram o Estado, a polícia. Se o gordo não é ricaço, a culpa é dele, ele vai preso. Ou, se não houver provas de que alguém passou ali antes, o ônus vai todo para o magricela. Bodes expiatórios são unidades carnais. Cristo era um homem. Nesse nosso mundo não é costume a partilha de responsabilidades. Vai ver é por isso que a Terra está assim, que a camada de ozônio...

 

Ninguém? Deus? Não falemos de vazios, sigamos no Mundo dos Homens falando de Homens, e não de Idéias. Afinal, em tudo que importa, só o Homem, o ato, a matéria, o tangível, é que entram na conta. E que se dane se o gordão fez de propósito ou o magro estava sendo coagido. O que você faz não é voluntário nem desinteressado.

 

Então por que eu aqui? Sinceramente, o que mais me preocupa no momento é dinheiro. Não dinheiro para a vida toda, não meu dinheiro, mas o dinheiro dos meus pais que vai pra mim. Atualmente, é assim que eu vivo, e até segunda ordem continuarei pedindo toda semana algumas notas, retirando-as da carteira do meu pai sob as vistas do dono. Ele ser murrinha e eu ser um universitário desempregado são duas coisas que não casam bem. Mas tem de casar, de alguma forma – é a vida. O chefe da família diz que não há conversa nessa casa, os filhos mondrongos são os responsáveis. Eu digo que ele é um bicho-do-mato escroto que não tem solução, é um daqueles casos perdidos.

 

Não importa quem tem a razão, nem qual é o lado fraco. Ele vai morrer como mau pai e sem conquistar os filhos. Vai viver cada segundo do resto de sua vida com o peso (será que o elefante sente?) de não ter conseguido estabelecer o mínimo diálogo inter-geracional. Se há um consolo – certamente ele pensa nesses esquemas –, é que ele acha que algo extraordinário irá acontecer e ele ainda poderá realizar isso (opa, nós – estranhamente ele não se encara como ator). A esperança morre só depois do defunto...

 

Eu engrandeço o trauma de ser rebento desgraçado a cada hora, sou um eterno perdedor, mas um dia, por bem ou por mal, hei de visualizar um horizonte azul. Aceito meu destino, e já basta. Há vezes em que o indivíduo percebe que há algo maior do que ele, não necessariamente uma entidade ou algo nominável, que simplesmente o impede de agir. É necessário esperar e se reorganizar... Ou será que o leitor já conseguiu tirar leite de pedra? Me explique!

 

Marx sofria da mesma dor que eu. Seu mundo burguês é calamitoso, mau, embolorado, nefando e invencível. Meu pai é assim. Tudo o que eu posso fazer é sentar e esperar. Tudo o que eu consigo amealhar nesse ínterim em que ele ainda é vivo é a resistência. O que não mata engorda, e eu estou dez quilos mais gordo em relação ao ano passado...

 

O Capitalismo é trágico: se auto-implodirá! O ser humano em geral, mas especialmente um espécime raro como o pai ortodoxo-edipiano, rá, nem preciso dizer... Quanto à parte do ator, todos menos os professores da Ciência Política sabem que Marx acredita em você e eu, não em um bando de engrenagens que está ali desde o sempre. O maior mérito do indivíduo é sobreviver para contar suas histórias... Quando meu pai morrer o mundo continuará aqui, cheio de patrões e cobradores de aluguel, então eu não vejo motivos para soltar rojões. Nenhum operário viu nem vai ver. Super-homens vêm, super-homens vão, ninguém morreu no seu oásis, apesar de ter nascido no inferno... A não ser que o próprio fogo tenha sido sua obra! Eu vivo para escrever, gostem ou não. Se meu pão é parco, se o bem-bom me vem sendo privado, não deixa de ser irônico eu ter engordado!

 

As pessoas sempre vão fazer o que elas tiverem de fazer... Alguns são efetivos, outros vivem décadas a enganar. A ludibriar, a empurrar com a barriga, a passar a perna na Dona Morte (aquela velha história de não atender a campainha, de dar uma escapadela pela janela...). É impressionante como o auto-engodo é uma Arte. Barrigas fomélicas ou barrigas estourando, todas elas têm de atravessar pontes, e uma hora elas vêm abaixo... Não se iluda com a sensação de que o tempo não passa (anti-Cazuza)! Rup-tura.

 

Um oportunista, é isso que eu sou.

 



Escrito por wormsaiboty às 17:34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


MERDA SECA

No hospital residem mais segredos que em todas as capitais das nações... É tudo uma questão de saúde!

 

Budismo: o grande inimigo.

 

A Europa TEME descansar... Mas descansar demais faz mal, não faz? Hobbes: quando cansamos, parece que o mundo inteiro está parando...

 

Wittgenstein: “Se uma proposição NÃO É NECESSÁRIA, ela é SEM SIGNIFICADO e se aproxima do SIGNIFICADO ZERO. E o que é mais DESNECESSÁRIO que a droga quando não se precisa dela?”

 

RAIVA E NÃO APATIA. Calor, o menor dos inimigos!

 

Quando o louco voluntário abre alas para o caso de internação? Estou vendo as coisas em primeira pessoa demais!

 

Ônibus, escapadela e desprezo – REPETIR. O que eu mais detesto é que por mais que eu banque o incendiário faz pelo menos UM ano e as chamas não terminaram de queimar o apartamento – ALEGORIA, SONHO, CÃES ME MORDISCANDO E EU OS AFASTANDO. Ponha um tempero novo no prato, seu demiurgo miserável! Nada é a resposta! Niilismo. Mestre-pai, fluxo vão, então por que ele existe? Não é como daquelas vezes, mas é igual, só que no espelho? Não consigo desencadear a evasão, a Danuza era um ponto de escape... Tecnologia, abre-te sésamo! Longe do Judas. Roupa de madeira. Estalo nuclear, ferida borbulhante... Mas vide que é melhor o claustro, antes só do que mal-acompanhado! Psicólogo e texto retomado. Saúde pública e médicos demais... e arquitetos – vão fazendo desabar o te(x)to.



Escrito por wormsaiboty às 19:20
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A VIDA DE FEDERICO

 

Halévy, Daniel

 

PARTE I) Anos de Infância

 

Pai luterano e também doente. Gosto pela música e pela solidão! Em alta conta dos reis, daí proviria o nome de seu filho. Curioso observar que na igreja protestante – mesmo ortodoxa – não há a restrição do celibato (Karl-Ludwig).

 

Nietzsche: desde sempre muito introspectivo. Só foi falar aos 2 anos e meio!

 

Famoso registro de um sonho aos 14 anos – presente no prefácio da Escala. O prenúncio da morte de seu irmão caçula. “José (...) murió en pocas horas”.

“el Señor de los cielos fué nuestro único consuelo”

“el pastorcito”

 

Quando se é dono de si mesmo, é-se dono do mundo.

 

Tocou o órgão.

 

Intensa produtividade já aos dez. Eu também tive esses impulsos, mas tratavam de jogar no lixo tudo o que eu fazia.

 

“Embriagado de si mesmo, escreveu a história de sua infância” em 14 dias!

 

19-30 – páginas perdidas do exemplar da biblioteca.

 

Era ruim em matemática!

 

PARTE II) Anos de Juventude

 

P. 37 – será que seu ódio pela cerveja tem origens em um embebedamento, que o fez se machucar a cavalo?

 

Participou de grêmio estudantil.

 

Brigão-duelista!

 

“Esta alegría infantil dura poco” – exato: o defeito do calouro.

 

O erro de Zaratustra de falar às massas – “proíbam a cerveja!”, parece até meu grito repulsivo, sem chance de vencer mas orgulhoso, contra a corja.

 

“A solidão dos vencidos”

 

Universidade sem especialização em Bonn?

 

Hiato poético – professor Ritschl.

 

Positivistas: “Nietzsche os leu... mas não os releu”!

 

Modismo acadêmico – Hegel, Fichte, Schelling: um outro tempo, ademais falava aí o nacionalismo. Triste e insignificante cenário é o meu. Nenhuma nobreza.

 

Eu abomino quase tudo, mas tenho este poderoso guia! Deve ter sido difícil para ele...

 

Já um anti-Cristo.

 

Fuga de Bonn. Destino: Leipzig. Na festa local, do centenário da entrada de Goethe na instituição, o reitor desaconselha ser como ele: um mau aluno. Um paradoxo: reconhece-se o fermento do grande homem, mas se recusa a produzi-lo.

 

Schopenhauer, 48: o primeiro vislumbre do eterno retorno, “este brônzeo monstro de força”.

 

Ésquilo, Byron.

 

“No princípio, era a ação”! O Mau, das Teorias Supremas...

 

Quem o influenciou? O pai de F. N.: se não tens um, deves arranjá-lo.

 

Esse apadrinhamento se dá mais ou menos a minha idade.

 

Desagrado com a limitante Filologia.

 

53-4: “Que uma multidão de cabeças medíocres se ocupem de coisas cujas importância e conseqüências são reais é um pensamento aterrador”, recadinho aos jornalistas.

 

Sempre as analogias com o mar. Hannah Arendt: a metáfora mais-que-perfeita.

 

Eu: “A onda se retrai, antes de vir ainda mais forte” “Para ser-se avassalador, deve-se ter um refluxo deveras extenso”

 

Míope. Aquartelado durante a guerra.

 

60: “Cai do cavalo e quebra uma costela”.

 

No início, desconfiança e ceticismo quanto a Wagner.

 



Escrito por wormsaiboty às 14:22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

PARTE III) Richard Wagner: Triebschen

 

 

 

R. W. é bem mais velho que N. – coisa de dobro da idade ou mais.

 

O problema da História, das civilizações, do destino humano: uma semente nazi em Wagner? 80.

 

Maquiavelismo piorado. Arte x vida.

 

R. W. queria ser o Rei.

 

Hoje não existe mais amizade.

 

87: “A sutileza socrática e a doçura platônica mostram já os signos da decadência”.

 

“O rio que teme refletir” ainda não era assim visto por N.

 

“Os gregos criam então, como hoje os europeus, na fatalidade das forças naturais; e criam também que o homem deve se criar a si mesmo suas virtudes e seus deuses. Um sentimento trágico, um valente pessimismo, que não os apartava da vida, animava-os.”

 

89: N. começa a ler Montaigne, a raiz da dissolução da amizade.

 

Eu: “O que eu sou? O eterno emblema do enigma”.

 

93: “Ciência, arte e filosofia crescem em mim tão bem-ligadas que creio que vou dar a luz a um centauro”.

 

“no leía nunca los periódicos”

 

1870: ventos da reunificação alemã engolindo o sul tradicional.

 

Os três abismos da Tragédia: Ilusão, Vontade, Dor.

 

101 – O Homem Trágico – O Estado Trágico – que livro é esse?

 

Se é uma ponte passível de se atravessar, a do super-homem, não se sabe, mas fato é que o homem do século XX se aventurou em um bom pedaço – tal qual o bobo do enceto de Zaratustra (aquele caiu).

 

“A Prússia é perigosa para a cultura”

 

Engraçado falar em cultura sem natureza! Havia muito que virar.

 

105, Jacobo Burckhardt: “as guerras modernas são supérfluas”.

 

107: a idéia da Ágora – projeto mais indigno seu. Cheira a reacionarismo e tiranização do homem.

 

PRIMEIRO PROJETO NIETZSCHEANO: infantil e escuso. A marca de seu tempo de utilitarismo arraigado em/de que só com muito custo o mais livre dos espíritos se solta.

 

Primeiro Montaigne, agora Stendhal. Será que a flor-gusmoniana, perfume de estrume, têm recantos mais brandos? Dois autores que Nie. admirou.

 

113: Kothe vagabundo: a escravidão é explicitamente defendida por Nietzsche. Porém, esse tempo em torno d’O Nascimento da Tragédia me soa como um hegelianismo travestido, achar uma finalidade na História e lutar por ela. É verdade que a finalidade é o fatalismo, banir todas as finalidades, mas trata-se de um projeto megalomaníaco, se se conhece a velocidade das coisas. O melhor é apenas vivenciar a tragédia dentro de si. OBS: Vê-se aqui, ao contrário de antes, propensão à repetição dos eventos, tal e qual dois milênios e meio atrás.

 



Escrito por wormsaiboty às 14:21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Aqui, ainda parece alguém com papas na língua que tenta se esquivar das reprovações morais das pessoas – característica eliminada em sua maturidade.

 

114: “E se é certo que os gregos foram destruídos pela escravidão, ainda é mais certa esta outra afirmação: a falta de escravidão é causa de que essa época nossa pereça”. Como negar? Criticar a democracia só pode significar apologia das castas. Os direitos humanos – que nunca legislaram sobre nada – explodem. O artista é automaticamente alguém que não trabalha nem pensa em dinheiro, correto, Mauss?

 

O direito à posse do escravo do vencedor na guerra é na Grécia Arcaica apenas a transferência da idéia que conhecemos aos indivíduos – ou será que a retaliação à Alemanha no século XX (as retaliações) são éticas do ponto de vista “soberania de um povo”?

 

Revolução Francesa devidamente enxergada como mal liberal.

 

116: o Estado é louvável apenas quando faz lembrar os ideais de outrora: a fome de vitórias em confrontos de vida e morte é um deles. Mas eis que por trás da máquina burocrática habita um gênero de sanguessuga inevitável (Estado moderno, entenda-se bem). O soldado, este é honrado. O general, o empresário obscuro (o general de gabinete, anti-herói), estes são a corja cujo sangue não têm valor. Tanto o Estado foi dirigido para o pacifismo que hoje ele não guerreia mais. Mas nem poderia, nenhum homem está sendo testado na era de ogivas! É como o rei: seria digno ter um, mas hoje isso está descartado. A Alemanha soltou, então, gritos de desespero – inúteis. Mas no fundo só não acontece outra guerra porque não seria LUCRATIVO – “lucro” é o único ser vivo do planeta “economista”. O que eu ia citar das concessões de sufrágio universal está aqui: mais do que recompensa pela bravura, é esterilização de instinto. Ou, como queira, pode ser uma vontade coletiva – claro que é –, o que dá na mesma.

 

Todos dizem que quando ele escreve está louco. Loucos são todos – é impensável uma conversa franca frente a burguezinhos escandalizados com a violência. Por que os grandes homens chamam o perigo e ele não vem? Enquanto houver crimes, ainda terei fé na liberdade do homem. Não é dizer que todos deveriam sê-lo, mas hoje a pessoa é tão débil que nem consegue escolher: para ela é só uma e a mesma rota da previsibilidade do “céu rosa”. Antonielle deveria saber que, quando narra em seu blog uma terrível e desesperadora cena de seqüestro sobre quatro rodas, ela acaba de explicar a degradação do espírito humano em micro-escala: seu corpo doentio queria se adaptar àquilo! As pernas tremem e já não suportam a idéia, ela está engessada. Mas gostaria de escapar dos ditames, transgredir e sofrer transgressões... Até eu esbugalhei os olhos e suei ao ler o relato, ah, não estamos preparados! Como dança uma nação – atrofiada. Tudo o que ela faz acaba por MATAR – favelados ou riquinhos.

 

“Quando um Estado não pode alcançar seu mais alto fim, cresce desmesuradamente. O império mundial dos romanos não tem nada de sublime frente a Atenas” – denúncia do perigo expansionista. Exemplar pulverização da Teoria do Espaço Vital, a Lebensraum alemã. Ainda se levantará alguma voz emendando a alcunha “arauto do Apocalipse” ao nome do filósofo?

 

Quantos e quais idiomas ele fala, afinal?

 

SAÚDE: preciso pisar na Itália!

 

Aos ~27 (?) já é um pensionista.

 

123: “[(...) Tragédia,] único verdadeiro livro que N. levara a cabo”. Esta afirmação simplesmente não procede! Há muitos outros escritos não-aforismáticos e “herméticos” no sentido tão prezado pelos eruditos...

 

128: início da murchadura do mar-de-rosas Nietzsche-Wagner.

 

PARTE IV) Nietzsche e Richard Wagner: Bayreuth

 

152: o que falta ao Ocidente e a sua Ciência? Ora pois, modéstia! Antropologia auto-referente: a machadada final? PRÓXIMO PASSO: O politicamente incorreto. É preciso algo como a ONU fechar as portas. Beligerância... A hecatombe climática... Esboço de um Messias.

 

153: discussão – “Será o filósofo sempre um ser inútil para os homens?”; “um lírico que não chega a ser artista”, não pode ser músico, não será pintor nem poeta, dramaturgo. Este sou EU! A chave é a posteridade. Zaratustra só não esperava nada das massas. O herói morre pelo anel, e não aceita ser agradecido. Se eu sou ou fui um herói, não vou saber...

 

E nem há artistas – de verdade – aqui! Precisamos destruir. Filosofar com o martelo...

 

155: “décimo tomo das obras completas” (?)

 

MONOGRAFIA – guia semi-pronto

“O instinto do conhecimento levado até seus últimos limites se volta contra si próprio para se transformar em uma crítica da faculdade de conhecer. O conhecimento a serviço da melhor forma de vida. Se deve até desejar a ilusão, desejo que constitui o trágico.” Perfeito! Ápice da cultura ocidental em Kant. A maior prova disso: na televisão não há masturbações intelectuais. O que me remete para as considerações simmelianas sobre a imagem e o cansaço da palavra... Ao contrário dos tempos paralisantes de MSN, entendo a roda não parar de girar: ela acelera o espetáculo. Uma necessidade. O novo precisa de um obstáculo: o velho (HARVEY!). Prisma anti-debordiano. + Do esquecimento. – O aforismo hindu das auroras remanescentes nunca fez tanto sentido diante desse panorama: a vida começa aos 20...

 

De 3 em 3000 anos as palavras se invertem, há também um esgotamento do homem artístico, um niilismo às avessas? Morre-se de sede e afogado.

 

Se Deus morreu e há agora 1000 fantasmas, eis que lhes começa a brotar a carne!

 

158: “Para mim é falso falar de um fim inconsciente da humanidade. Esta não é um todo, como um formigueiro. Talvez se possa falar dos fins inconscientes de um formigueiro; mas de todos os formigueiros da Terra!...”

 

“THALES – tudo deriva de um elemento único.

ANAXIMANDRO – a fuga das coisas é seu castigo.

HERÁCLITO – uma lei rege a fuga e a instituição das coisas.

PARMÊNIDES – a fuga e a instituição das coisas são mera ilusão. Apenas o Um existe.

ANAXÁGORAS – todas as qualidades são eternas: não há devir nelas.

OS PITAGÓRICOS – todas as qualidades são quantidades.

EMPÉDOCLES – todas as causas são mágicas.

DEMÓCRITO – todas as causas são mecânicas.

SÓCRATES – só o pensamento é imperturbável.”

Todos estão certos. Os germes mais antigos. Estavam há longo tempo à procura de um sintetizador... Agora precisam de um desmanchador... Contra Homero, por Homero...

 

“De vez em quando me sobrevém uma repugnância infantil pelo papel impresso; parece-me não ver nele senão papel manchado.”

 

David Strauss: um merda – “Federico ha encontrado al hombre que desea destruir”

E sua obra o matou! Diz-se que se arrependeu – mas posso ler mais críticas em Der Wille!

 

As idades do homem de Flaubert: paganismo, cristianismo e porquismo.

 

Paul Rée – 167

 

Abatido no leito, ditava seus trabalhos a amigos.

 

175: Nietzsche se dá conta do grande engano. Aqui se divide sua vida.



Escrito por wormsaiboty às 14:19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


“o Nibelungo” 192

 

O Parsifal, p. 195. Tema cristão.

 

198: “O wagnerismo desemboca no Cristianismo” N.

 

203: Dühring, aquele que quer o rabo e agarra a cabeça!

 

206: “Me alimento quase exclusivamente de leite”.

 

218: a fuga de Bayreuth – processo não olvidado na autobiografia. Ali, parecia apenas sociofobia. Em jogo, porém, o século XIX alemão e o destino de uma religião milenar.

 

220: “voz musical”; “falar lento”; “vista fixa”; “cabelos [curtos] escovados para trás”; “maças do rosto eslavas”.

 

“Sigfrido” 221

 

PARTE V) Crise e Convalescença

 

Peter Gast – 223

 

Método Peripatético: filosófico; maneira de aprendizagem horizontal de dois ou mais sábios – uma conversa no bosque, por exemplo; doutrina aristotélica.

 

230: o “afrancezamento” de Nie. E a descoberta, por Mazzini, de que os grandes heróis que mais devotam amor a seu país são justamente os banidos e rejeitados. Wagner é um farsante. Vide aqui: Tiradentes, nosso Jesus.

 

233: licença definitiva da Universidade de Basiléia.

 

“Não deves amar nem odiar o povo

Não te deves ocupar da política

Não deves ser rico nem indigente

Deves evitar o caminho dos ilustres e poderosos

Deves desposar uma mulher estrangeira

Deves deixar a teus amigos o cuidado de educar teus filhos

Não deves aceitar nenhuma das cerimônias da Igreja”

De: Aquele que um dia tocou o piano apaixonadamente ao pé da cruz

 

234: Pascal, La Rochefoucauld – o estilo de aforismos incompletos.

 

235: Humano, demasiado Humano – para acalmar os ânimos da turba de Wagner. Projeto anti-idealista.

 

Fiat --> “faça-se”, em latim.

 

MUDANÇA DE DIREÇÃO: a Ciência está aqui acima da Arte por um nobre motivo: Sócrates, o vilão de O Nascimento da Tragédia, precisa estar presente, ao menos em sua retórica astuta. Um “compreendeis-vos, mirai-vos no espelho, wagnerianos: não sois nada do que quereis ser”.

 

Aqui, F. N. tem a idade de Cristo na cruz!

 

Pseudônimos – a salvação dos imorais!

 

1878: centenário de Voltaire.

 

“o caricaturista de Bayreuth” – de novo, “derrota pública”. “todos o temem” – até os jovens!

 

O próprio autor viria a confessar: em que pese tudo, Tragédia ainda é seu livro mais belo – ou melhor, para não rivalizar com Zaratustra –, seu favorito.

 

Doença: “envelhecido dez anos em uns poucos meses”.

 

A Elizabeth, a malversadora: “Sem missa!”.

 

247: “No fundo, experimentei minha maneira de viver; e muitos a experimentarão depois de mim”.

 

250: “um enfermo não tem o direito de ser pessimista”.

 

1881: Aurora – indicações autobiográficas:

“O espírito voltado para a oposição da dor vê as coisas debaixo de uma nova luz; e o indizível encanto que acompanha toda luz nova basta às vezes para vencer a tentação do suicídio, e para fazer a vida desejável. Aquele que sofre pensa com desprezo no mundo vago, tíbio e cômodo em que se compraz o homem sano; pensa com desprezo nas ilusões mais nobres e mais queridas em que se deixa absorver; este desprezo é seu gozo, o contrapeso que o ajuda a se defrontar com o sofrimento físico, contrapeso cuja necessidade sente então... Seu orgulho se rebela como jamais se havia rebelado: defende com deleite a vida contra um tirano como o sofrimento, contra todas as insinuações desse tirano que nos quis obrigar a blasfemar contra a vida. Representar a vida frente a esse tirano é uma tarefa de incomparável sedução.” Esplêndido!

 

“Não necessito da religião nem da arte”

 

Veneza: forte e instantânea impressão.

 

“...e a saúde recomeça seu jogo mágico”

 

Chorando ao som de Chopin, seu xará – 254.

 

“está em vésperas de um descobrimento, no umbral de um mundo desconhecido” --> o emergir da psicanálise

 

Gênova, a natureza e Rousseau – pp. 256-7.

 

N. cozinheiro! “il piccolo santo”, pela vizinhança.

 

Eu, ele e nossos “planos de morada e de cotidiano”.

 

“Uma independência que não moleste a ninguém; um orgulho doce, velado, um orgulho que, não invejando as honras e satisfações dos demais e se abstendo de burlas, não incomode a gente... Um sonho ligeiro, uns modos livres e pacíficos; ausência de álcool, de amizades ilustres ou principescas, de mulheres e de jornais, de honras e de sociedade – que não seja a de espíritos superiores e, à falta destes, de gente humilde (da que é tão impossível prescindir quanto da contemplação de uma vegetação poderosa e sã) –; os pratos mais fáceis de preparar, se possível preparados por mim mesmo, ou que mal tenham necessidade de preparação.”

 

Ter aprendido a nadar no mar – meu orgulho.

 

Aproxima-se o período dos Fragmentos do Espólio.

 

O elemento trágico dos obstáculos: a barcaça e a onda.



Escrito por wormsaiboty às 14:16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


PARTE VI) O Trabalho do Zaratustra

 

A) A Concepção do Eterno Retorno

 

264: Spencer, Spinoza.

 

“Por fim encontra Nie. aquela idéia cujo pressentimento o agita com tanta violência. Um dia em que caminhava pelos bosques de Sils-Maria, em direção a Silvaplana, sentou-se, não longe de Surlee, ao pé de uma rocha piramidal; naquele momento e naquele local concebeu o Eterno Retorno.”

 

Ruínas de uma sabedoria imemorial – pp. 248-50 DER WILLE II. Nota de rodapé 5: “a música e a nostalgia de um passado melhor” – Cabal – Senhorita – 2005 – uma sensação de potência desperdiçada – por quê? À época eu apenas queria ser o que sou hoje, VONTADE DE PODER. Porém iludo-me dalguma forma, querendo retroagir para reaver estas possibilidades perdidas. Porém, como minha cabeça era ali, só podia me levar até aqui – o INESPERADO, apenas agora verificável. Se eu voltasse no tempo com ESTA consciência, amadurecida, todas as cores imaginadas desbotariam em desprezo – não foi o mundo que piorou em 3 anos. Eu me tornei mais sensível em relação à essência deste mundo. Atenuante invencível: 2005 e sua sensação de estar no topo de um monte sagrado, isso se repetirá INDEFINIDAMENTE...

 

265-6: N. “O tempo, cuja duração é infinita, deve repetir, de período em período, uma disposição idêntica das coisas. Isto é inadiável, uma necessidade; logo é necessário que todas as coisas voltem a ser. Dentro de tal número de dias, número imprevisível, imenso, apesar de limitado, um homem, semelhante em tudo a mim, eu mesmo, em suma, sentado à sombra deste rochedo, encontrarei de novo esta mesma idéia [hipótese – o cânhamo possibilita esse vislumbre?]. E esta mesma idéia voltará a se encontrar com este homem, não somente uma vez, mas um número infinito de vezes, pois o movimento que repete as coisas é infinito. Logo devemos abandonar toda esperança e pensar firmemente: nenhum mundo celestial receberá os homens, nem os consolará nenhum destino melhor. Somos as sombras de uma natureza cega e monótona, os prisioneiros de cada instante. Mas não esqueçamos que esta tremenda idéia que nos proíbe de toda esperança enobrece e exalta cada minuto de nossas vidas; se o instante se repete eternamente em um monumento eterno, dotado de valor infinito e – se a palavra divino tem algum sentido – divino. (...) Ápice da meditação.” DER WILLE par. 286 para continuação da idéia.

 

“Sils-Maria 6.500 pés sobre o mar” – 1000m? 08/1881

Meu irmão nasceu na véspera do centenário.

“tudo que escreveu fora um ensaio torpe”, um preâmbulo! Estava esperando o despertar do “inalcançável”, aos 37 anos!

 

“Aurora não teve o menor êxito” 270

 

Cinco anos sem contato com a Música [tempos inconcebíveis!].

 

Da aurora à eternidade do meio-dia: e se dirigirá aos “homens da meia-noite”. Aquele que imergiu no niilismo, anteviu a imersão da massa, colocou o corpo de fora, voou, enamorou-se do tempo e então previu um pathos todo seu: sua condição seria o destino da humanidade.

 

Gaia-Ciência e o “Amor fati” p. 274

 

A Pablo Rée: “Eis aqui a pedra em formato de pirâmide, no lugar da qual em 600, 1000 anos, se erigirá uma estátua ao autor de Aurora”.

 

ESPÓLIO I – Salomé – 278. Ela escreveu um livro sobre F. N. Evita polêmicas – dados coletados no “bafafá do povaréu”, versões alternativas.

 

Sogra antipática.

 

Quando Nietzsche chorou – claro, um ser humano.

 

Zaratustra é o filho de N. e L. S.!

 

Schopenhauer como Educador: hino à solidão.

 

Peter Gast confunde um poema de Lou com um de seu poderoso par: uma mulher de gênio.

 

“uma amizade mais arrebatadora que um amor tempestuoso” 289

 

O triângulo – 291

 

A foto do meu artigo -- em verdade, a posição dominante-chicoteadora era sua e ele cedeu. Lou divulgara a foto, toda-prosa.

 

A ruptura – 293 – “Não li sua carta até o final, mas de todo modo já li demais”.

 

B) Assim Falou Zaratustra

 

“Superhombre” 296

 

“a impossibilidade de fundamentar em razão suas hipóteses [do e. r.]”

 

Super-Homem: mentira, artifício, atalho de seus ensinamentos? 297

 

No LIVRO I, não há elo ainda entre o ser-acima-do-humano e o anel [responsabilidade da afirmação – Halévy] – procurando a justificação da vida. Aqui seu pensamento desde a precocidade em Naumburg é um todo coerente, grande fio de Ariadne que estamos puxando – para nos perdermos na imensidão do espaço! Parsifal (sucesso de crítica) X Zaratustra

 

As páginas mais belas – 301

 

“Ricardo Wagner morria em Veneza”

 

Tudo na “hora certa”. É como se N. vencesse o inimigo (mesma coincidência de Strauss).

 

Cosima Wagner e o Caso Wagner...

 

“o editor Schneitzner é lento”

 

Cloral: droga do sono.

 

“ninguém se interessa por esse Zaratustra”

 

“Esta segunda parte é amarga”

 

A hora do choro frente aos discípulos é o da anunciação da doutrina suprema, o vacilo do persa.

 

Narração sinuosa entre a missão espiritual e os problemas pessoais.

 

319 – desenlaces do Z. que não vieram à tona? Enterro do alter-ego.

 

Os grandes temas não devem ser filosofados – nada sabemos deles e em verdade um projeto tentado, mesmo tão trágico, só poderá dar no recrudescimento contrário – sempre se quer a salvação da humanidade! Por que não nos calamos? Projetos individuais deviam permanecer individuais. Vida nenhuma é melhor e mais nobre!

 

N. proibido de lecionar em Leipzig: é ateu, ou ainda pior, um anticristo.



Escrito por wormsaiboty às 14:14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

C) A Visita de Heinrich von Stein

 

“me apetece que com este Zaratustra tenha levado a língua alemã a seu ponto de perfeição. Depois de Lutero e de Goethe, faltava um terceiro passo por dar.” O mais notável é como admira ao adversário ideológico cismático.

 

Stein: um inteligente filósofo, jovem cujos primeiros passos lembravam Nie., no entanto não soube se desvencilhar de Wag.

 

335: a tara do “claustro ideal” – como pode um desejo tão esdrúxulo e onipresente em sua idade adulta ter sido ignorado por mim em tantas leituras?

 

Últimos dias de extremo divertimento com a irmã.

 

339: “Uma quarta, uma quinta e uma sexta parte são inevitáveis”.

 

Paul Lanzky, da última safra de admiradores.

 

Gostaria muito de um dia poder ler as escassas resenhas publicadas àquele tempo.

 

Nie.: duas pessoas, o dos livros e o afável ao vivo.

 

341: “infatigável andarilho”.

 

“Dentro de quarenta anos serei ilustre na Europa”

 

Förster era também um wagneriano – múltipla dor da perda.

 

“Acabo de dar a luz!” 345

 

A parábola dos reis, do adivinho, do homem mais feio... e do leão.

 

Aqui estão os demais: o velho papa, o grande historiador,... toda sorte de figura decadente deste mundo. Tal metáfora pode muito bem decifrar estes 40 anos do autor: aspirantes a sucessores que lhe surgem, escalando sua montanha. E a gentileza de Zara... Mas por trás... A força talvez não dele, mas do acaso, da beleza contingente do devir. Não deixa de ser espantoso que se esteja no lugar e no tempo certos.

 

347: Zaratustra deixa a montanha, onde, à gruta, estão seus hóspedes que se deleitam no vinho. Quando aporta novamente, uma cena cômica: os homens superiores estão de joelhos ante o asno [do homem mais feio?], até rezam uma missa ao novo ídolo. Os verdadeiros discípulos são os animais.

 

Perdeu o editor. Os sete receptores do libelo ditirâmbico: Elizabeth, Rohde, Overbeck, Lanzky e Peter Gast. E a amiga? Maysenbug. E Burckhardt. Gersdorff talvez já tivesse morrido; Stein ficou sem o seu, embora o LIVRO IV seja bastante para si. Rohde foi bastante mal-agradecido.

 

N.: “o fim intermediário”.

 

PARTE VII) A Última Solidão

 

A) Para Além do Bem e do Mal

 

Unwethung aller Werthe, a transvaloração/transmutação de todos os valores (p. 354).

 

“Além do Bem e do Mal” são aforismos de arquivos, cuidadosamente selecionados.

 

B) A Vontade de Potência

 

Veneza – 374. “o título deve já assustar.”

 

378 – da auto-medicação.

 

380: Dostoievsky e o cristianismo revolucionário russo.

 

381 – nota de rodapé: exemplo de lacunas na montagem da biografia.

 

Jornais sobre “Mais Além” (389): “este livro é dinamite”.

 

Zur Genealogie der Moral – continuação formal. “pólvora ainda mais sonora”

 

“quando se começar a me entender, já não poderei obter benefício algum” p. 390

 

“absolutamente pessoal, sem empregar a 1ª pessoa”

 

399, SOBRE O PRÓXIMO PASSO: “As tendências humanitárias não são anti-vitais, pois convêm às massas, que vivem com lentidão; e, convindo a elas, convém à humanidade, que necessita da satisfação das massas. As tendências cristãs são igualmente bonacheironas, e nada é tão desejável como a sua permanência, pois convém a todos os que sofrem, a todos os débeis, e é necessário para a saúde das sociedades humanas que o sofrimento e as debilidades inevitáveis sejam recebidos sem rebelião, de modo submisso e, se é possível, amorosamente. / Diga o que diga do cristianismo, não posso esquecer que lhe devo as melhores experiências da minha vida espiritual, e espero não ser nunca ingrato com ele no fundo do coração...” -- reconciliação com a infância.

 

APEGO AO SERVIÇO MILITAR – o lado mais envelhecido da filosofia de N.

 

C) Até as Trevas

 

“Quando se estudam os últimos meses dessa vida, parece como se se assistisse ao trabalho de uma máquina de guerra que a mão humana já não governa mais” 411 – um senhor deus ex machina para a completude de sua obra.

 

A trinca da ira: CASO WAGNER, CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS e ANTICRISTO.

 

413: o portentoso Código de Manu – última leitura.

 

Inebriante Turim.

 

Ecce Homo: “quer que seu grito de agonia seja um canto”. Em vão, por que em vão?

 

Vêm reconhecimento tardio e doações gordas e anônimas para suas obras, mas se trata da “última estação”. O mesmo fim do imaculado Príncipe Míchkin.

 



Escrito por wormsaiboty às 14:13
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


ADENDO AOS FRAGMENTOS IMPUBLICÁVEIS

 

A amizade está acima do amor na escala dos sentimentos verdadeiros – ser amigo da mulher é o que se deve buscar no relacionamento. A pureza e a sinceridade, isso eu nunca tive.


Talvez o estresse da véspera do beijo seja inevitável, mas... Após o momento da conquista é realista trabalhar num projeto de aperfeiçoamento da relação. Volto a pensar no assunto quando achar que encontrei a “cobaia” ideal [ou muito antes].


Outro objetivo é achar amizade, qualquer amizade (entenda bem: amigo ou amiga), que me permita ser ainda mais rico e sábio e produtivo.

 

Eline é apenas o resquício inevitável de uma doença destes tempos insanos. Tenho de aprender a não ser mais uma caixa de fósforo. Olhar para a frente – como é possível se dar com, e imaginar para si, uma pessoa com a qual não conseguimos falar? Mas esta ainda não há: pessoas de intelecto brilhante – embora turvo – como a Michelle não me despertavam outro membro e outro sangue que não o que corria para aquele. Lamentável. Em vão, até agora? Vamos fazer esse balanço, Jair-Durkheim! O sentimento – não, a imaginação boboca – de que eu pudesse me casar com a Ranna no último ano do curso, só por capricho, sem amor, era já um sintoma disso. Voltar a ler O Pequeno Príncipe, idem. Não, não se tratava de capricho! Em verdade, hibernava, ou despontava timidamente, naqueles impulsos intra-aula, algo parecido com “ambição de amizade”! Mas se não é a coisa mais difícil e mais necessária do mundo, pois não depende de mim? Já fico feliz em saber que eu encaro como adoráveis as coisas que dependem de mim – há os que não suportam. E vede: falta agora o sabor do mar espumante, que me levará a algum sítio. Há muito ainda por viver? [Mas que pergunta!] E minha saúde e meus gostos? Quando foi que mais perto estive de aceitar a ingerência dos outros? 2006 foi um grande ano! Talvez o “ano da libertação”. Não vazia como a Rosângela imaginava... Eduardo, que conheci em 2007, é apenas um preconceituoso limitado – aquele diante do qual tu te maquias não é um bom comparsa! Fabiano tem mais caráter, mas é prisioneiro do mundo das “mulherzinhas” e da “ética do trabalho”. Alienígena, sigo meu caminho... Thomas e Bruno são antípodas que não podem se fundir, mas bem podem se complementar. Mas a universidade é exaladora de um miasma tal que não suporto discutir nada sério ali – sinto-me ridículo depois. O outro, também não sabe curtir como parece que sabe. Eu sou a única máquina perfeita, o Sísifo mais lapidado. Por que a melhor amizade é à distância? Mesmo a dos conhecidos. Invasão, que pecado! Gostamos de mostrar só o que gostamos de mostrar.


Talvez a mais sincera amizade seja aquela entre irmãos (o que eu de fato não tenho, se assim pensarmos)... Ou aluno e professor – de que lado estou? Eles já não me dão muita bola, dão? Mas eu sigo seus conselhos – também lembro dos breves chefes: Kerouac, tecnologia, perseverança, franqueza, olho-no-olho, Lynch, aprender com os próprios erros quando já se está no último degrau, o mais difícil! Carmen e Jabur, meus agradecimentos especiais. Déia, Paniago, Marco, Euclides, Claudia, Sidnei, Severino,... Acreditem, não é indolor tomar resoluções graves, não ser o que queriam que eu fosse. Devo superá-los – ou ainda melhor: superar a imagem de vocês em mim. Grandes decepções na vida nova... A serenidade me trouxe a certeza: devo romper com o último dos últimos “grupinhos”... Diretriz sexual: castidade com as próximas; eliminação de desgostos via “química tradicional”. Às vezes eu oscilo, mas só contemplar não é me desvirtuar...

 

Na amizade se sofre todo o ciúme e culpa, porém não se pode apagá-los com carícias (por isso a amizade feminina é falsa)... mas a vantagem é que as fissuras da relação são mais visíveis. Ora, se ando sofrendo tão pouco... Parece que vim ignorando muito esse lado da coisa – ou não?! Ao meu redor só há porcos, porque só porcos se habituam a viver na lama. Preciso com desespero de alguém de quem não enjoe, mesmo quando é mais débil. Quando eu estiver pronto para não “gozar para recomeçar”, aí então será esta minha mulher. Brigar, sim. Amigos brigam. Ser mais compreensivo, talvez. Demorou uma semana para eu enxergar meu mais recente erro – isso é bom! Há casos para o que uma vida não chega. Para o diabo! Nem sei se algum dia SENTIREI isso de novo. Se eu posso esperar 3 meses ou 1 ano para voltar a falar com a Liz e a Melina, não seria diferente neste caso... Feridas ou aborrecimentos não cicatrizam com beijinhos e jurazinhas... CRITÉRIO: não na frente de quem temos coragem de criar cólera, mas diante de quem, com toda essa nossa descoordenação habitual, poderíamos dançar e cantar! Não consigo imaginar, mais, ninguém assim. Eu dançando Ultraje? Que vergonha! Falso amor da bolinha amarelinha... Muito cuidado com isso de “sexo na primeira noite”. É no diálogo com possibilidades de embaraço que está a verdadeira afinidade. Harmonia carnal é uma palhaçada, ainda mais levando-se em conta a cartilha hipócrita de apagar-se as luzes. Qualquer um come qualquer um!

 



Escrito por wormsaiboty às 18:28
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


SANTOS, Jair Ferreira dos. O QUE É PÓS-MODERNO? Uma releitura mais madura.

 

(quando ler "à" e não houver contexto - uma seta que a diagramação do blog distorce. A numeração em tópicos também recaiu em erro - repetiu-se o "1" sete vezes; mas isso nem é um transtorno muito grande) 


  1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

 

Menos coisas do que parece mudaram desde os anos 80: o U2 ainda faz um estrondoso sucesso e tenho um computador a minha frente. Qual a razão? O autor é um visionário ou a História está desacelerando? A fase crítica, a da elaboração do manifesto, teria passado? Agora havemos de ver mais VIDA do que MORTE?

 

P. 9: “A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a próxima vez”. Sintomático dos ingleses, para Latour [dos franceses cheirando a merda, para Henfil!].

 

Alternativa diferente das anteriores: o Brasil sentiu isso mais tarde – o escritor capturou estas tendências no Primeiro Mundo. É só pensar nas manifestações pró-aborto: nosso espectro é defasado.

 

“Na cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em você.”

 

CONTRACAPA: “mescla de purpurina com circuito integrado (...) Um bem? Um mal? Quem viver verá”.

 

Acima do bem e do mal – “Por que o niilismo voltou (?) à boca dos filósofos?”.

 

(?) Quando havia partido?

 

Digamos que o dia agitado do urbanóide retratado equivalha a meu ciclo semanal...

 

“Nenhuma revolta. Entre a apatia e a satisfação, você dorme” – sono, este amigo da morte. Porém, sem ele, o homem teria declinado. Jair ecoa Nietzsche, no entanto suas palavras, mais sintonizadas com meu linguajar, machucam, menosprezam. No oitocentista há um vigor, uma espécie de redenção.

 

“A fábrica, suja, feia, foi o templo moderno; o shopping, feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno” P. 10

 

“Os modernistas (vejam Picasso) complicaram a arte por leva-la demasiado a sério. Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo.”

 

A CRIANÇA RADIOSA X O ANDRÓIDE MELANCÓLICO

 

“o fantasma pós-moderno (...) A rigor, nada tem a ver com o Brasil, embora já se assista a um trailer desse filme por aqui” – é preciso sofrer para enxergar algum sentido. Eu não paro de sofrer. Quando me torno forte e apólogo do devir, logo surgem vaidades econômicas dos pais, amigos paralisantes, universidade estressante e malditos insetos que não tratam de cessar – combinação explosiva. O clima neste deserto já está há um ano insuportável [quase dois!], e qualquer retiro imaginável é apenas para lugares piores. Não calculo a possibilidade dessa luta não dar em nada. Meu sonho é centrífugo à realidade jovem do celular-câmera-Orkut-baladas-funcionalismo. Eu quero apenas duas coisas: colchão velho e distância [paradigma do conhaque e da atmosfera puída e calada]. As fases passam (Connie e a reclamação na mesa)... O pior de todos os infernos sem dúvida é o Inferno Tecnológico. Ridiculerói na Terra da Música.

 

DO TRAILER AO LONGA – O que é não fugir, Jesus? O que é não consumir, Lúcia? O que é não tratar do cabelo no salão, Nadir? O que é ter um pobre na família, Aguiares? O que é não sair de casa no sábado, Eduardo? Todos estamos no mesmo barco – inclusive eco-chatos e maconheiros, não é, Guilherme Barreto? Você sai muito de casa e toma muito suquinho? O quanto isso o elevou? Ao anonimato num jardim mal-podado!

 

[O ruim de anotar as coisas é que a gente lembra das coisas! Inconscientemente, já havíamos nos vingado há muito tempo...]

 

MONOGRAFIA – P. 12 – “preferimos o (...) simulacro ao real. E por quê? Porque desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade.” [grifo do autor] – falta o passo trágico. A Grande Realidade. “Simular por imagens como na TV [caixa trágica de Platão], que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza; intensifica o real. Ele fabrica umhiper-real, espetacular, um real mais interessante que a própria realidade.” à esta realidade está sendo quebrantada em prol de uma meta mais digna. O perspectivismo, os multi-discursos... Um ensaio.

 

De quem é a expressão hiper-real? Baudrillard?

 

“Sua superfície é enorme, lustrosa, sedutora (...) O Danone verdadeiro é um alimento mixuruca” P. 13

 

INSIGHT DO TÍTULO

“O ser televisivo (. . .) de Edgar Morin (e Marshall McLuhan) como limbo entre o niilista cristão e o homem trágico (super-homem) de Nietzsche (nietzscheanos)”[melhorias entre parênteses]

 

  1. DO BOOM AO BIT AO BLIP

 

John Barth – The Floating Opera / Giles, o Menino Bode

 

Nathalie Sarraute

 

  1. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

 

Eu: quero fazer a história de uma nota de 2 reais.

 

John Fowles – A Mulher do Tenente Francês

 

Donald Barthelme – Branca de Neve [versão ninfomaníaca!]

 

William Burroughs – O Almoço Nu [a origem do termo “heavy metal”!] / Junky [Junkie], escrevendo sob efeito de heroína!

 



Escrito por wormsaiboty às 19:14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


(2ª parte)

 

  1. ANARTISTAS EM NULIVERSO

 

Schwarzkogler, dum grupo vienense de arte performática, “se matou em nome da arte”, em 1969 (p. 54).

 

O Nome da Rosa complementa trechos da Poética de Aristóteles. [obtive minha resposta!]

 

Kurt Vonnegut – Cat’s Candle (Cama de Gato)

 

Robert Coover – The Public Burning (A Execução Pública)

 

Robe-Grillet – La Maison de Rendez-Vous (Encontro em Hong Kong)

 

Itavlo Calvino – Cosmicomics / Se um Viajante numa Noite de Inverno... [interação – RPG]

 

Günter Grass – O Tambor / O Linguado

 

Jorge Luis Borges

 

Júlio Cortazar – O Jogo da Amarelinha

 

BRASILEIROS:

Osman Lins – Avalovara

Ivan Ângelo – A Festa

Rubem Fonseca – O Cobrador

Victor Giudice – Bolero

Sérgio Sant’Anna – O Concerto de João Gilberto no RJ

 

CINEMA:

Wim Wenders – Paris-Texas

Gogard – Salve-se Quem Puder

 

  1. ADEUS ÀS ILUSÕES

 

“Nietzsche entrou em moda nos anos 70 e continua no hit-parade” – terá ele funcionado ANTES do que previa? P. 74 – “happy end”. 75 – rachadura hegeliana.

 

O livreto possui erros de julgamento graves, que podem danar o aprendizado, a incursão niilista, do incauto.

 

“A pós-modernidade é o momento em que tais valores [Fim, Unidade, Verdade], ainda atentos e fortes durante a modernidade industrial, entram em decadência acelerada [necrose moriniana]. Se isso vai dar ou não na transvaloração, no Super-Homem, é outro papo.” Tirou as palavras da minha boca (p. 76) – início de VONTADE (...) à ou por falta de conhecimento do “como?” ou pela imaturidade dos meios de produção. “Esse profeta, que pensava durante longas caminhadas, usaria hoje um walk-man sem som para melhor enxergar na confusão da nossa época.”

 

O sistema-mundo é uma característica nova: não seremos como os gregos. [Rá!]

 

Derrida e a crítica ao Logocentrismo.

 

Guattari & Deleuze – O Anti-Édipo – “o esquizofrênico é o modelo para o revolucionário de nossos dias” – p. 82 – não obstante, estou só. É necessário um “exército” de Anti-Édipos (Revolução Molecular).

 

Lyotard – A Condição Pós-Moderna à a crise iminente, desencadeada pelas tecnociências.

 

  1. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

 

100-102... dissertação confusa, vacilante, débil.

 

Madonna como a CRIANÇA RADIOSA.

 

“A melancolia, sentimento frio, é o último grau da apatia – a doença da vontade – prevista por Nietzsche para o homem ocidental quando ele fosse o andróide programado pela tecnociência” [p. 103, grifo meu]

 

Woody Allen é o arquétipo do melancólico.

 

  1. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

 

Recomendações:

A Terceira Onda – Alvin Toffler

A Máquina de Narciso – Muniz Sodré à TELEVISÃO

A Viagem pela Irrealidade Cotidiana – Umberto Eco

A Cultura do Narcisismo – Cristopher Lasch

A Sombra das Maiorias Silenciosas (manifesto) - Baudrillard



Escrito por wormsaiboty às 19:14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


ANCESTRALIDADE EM CLASSE

 

Quando chegamos ao cume do tédio advêm algumas vontades esquisitas. À parte aquela de fuga do momento (estar em uma sala abafada, quase imóvel, a bunda doendo machucada pelo caráter tosco da carteira, exposição mecânica, dialética vã e vazia), quando o corpo se resigna e decerto se conforta com um tempo eterno (sempre foi assim!), começo a preparar tarefas, realizáveis sem sair do meu lugar. Exemplos: contar o número de pessoas alojadas, pensar detidamente sobre meu sábado, o que todas elas farão imediatamente ao ganharem a liberdade, do que meu corpo precisa, como ele se conforma agora, o deslocamento de cada sujeira da minha unha... Quando lerei os textos exigidos? O que o Douglas pensaria dessas elucubrações? É uma modalidade de estetização, um bricolage absurdo, abundante, num tal meio escasso – como seu maquinário faz nos sub-enredos (nas tramas em cascata) dos sonhos! Para quem o Thiago estava ligando? Será apenas para espantar o sono? Estou concretizando a meta minimalista de converter em narrativa cada momento (insight Pedro V.): essa vida de aluno, haverá algo tão agradável-no-melancólico para mim? Pareço um matusalém das salas de aula, sou um barbudo grisalho cheio de artimanhas. Quantas horas! Cada coçada de nariz, essa sensação de não estar em nenhum tempo, dissociado de pretéritos e destinos... Vício no ócio, não há outra explicação. E em expelir sangue (negro). Salas semi-desertas e de “fim de curso”: panorama parecido com meu parto do Andarilho T...

 

 



Escrito por wormsaiboty às 14:33
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Hoje foi um grande dia. Nesta quarta-feira, que já acordei confundindo com uma sexta, com azia no estômago devido a um rodízio de pizzas na noite pregressa, aconteceram muitas coisas, embora eu ainda esteja no meio de seu curso (16:28)! Os “três mandamentos” inusitados e provocativos logo abaixo são apenas uma amostra das iluminações e bons augúrios que me foram permitidos desde seis e meia da manhã quando fui rudemente despertado até esta calorenta parte da tarde.

 

Não sem relação com toda essa riqueza acontecimental, decidi aparecer de novo no blog em tempo recorde. Aqui, abro as portas mais uma vez para o túnel do tempo da minhoca-autor:

 

Terça-feira , 08 de Julho de 2008
TRANSCENDER-1

Dou hoje o primeiro passo do meu projeto TRANSCENDER (acaba de ser batizado assim). Trata-se do meu grande objetivo intelectual proposto no dia 14 de junho. Não obstante, decidi encorpá-lo: ele abrigará todas as minhas reflexões genéricas sobre os créditos que venho "enfrentando" (essa é bem a palavra) na universidade. Portanto, de noções de Ciência Política a teorias da História e ciclos econômicos, todos figurarão neste âmbito. Se os amigos forem realmente pacientes, ao verificarem o teor do texto de fundação do Blog, em outubro de 2005, no endereço http://xtudotudo1.zip.net, verificarão que "encontrar o melhor sistema político-econômico", dessa vez de forma mais madura, é, ainda, em essência, tudo o que persigo. Com a diferença de que por ora a resposta está tão na frente de nossos olhos quão distante, intangível e inalcançável (gira acerca da idéia do excerto ESTAMOS NA PRÉ-HISTÓRIA DO HOMEM). As próprias palavras necessitariam de uma refundação ("melhor", "sistema", "política", "economia", tendo em vista o "bicho que fala" que somos nós, híbridos curiosos de natureza e cultura que começam, finalmente, a se descobrir).

No título dos textos para o TRANSCENDER, sempre colocarei o número correspondente à ordem cronológica do post, isso é, 1 para este, 2 para o próximo e assim por diante. Tal medida tem fins organizacionais e ajudará a mostrar aos leitores que me encontrarem somente num ponto futuro onde - e ao longo de quantos percalços! - tudo começou... Claro que o Blog não se dedicará exclusivamente, doravante, ao TRANSCENDER. Devo dizer que sequer metade dos textos dos próximos meses deverá pertencer ao projeto.

Para não deixá-los de mãos abanando, já que isso era QUASE tudo o que eu almejava dizer, praticarei aqui um exercício condenável de acordo com muitos da minha área, embora eu não o reconheça como tal: futurologia. Pela primeira vez abrirei a boca em termos de datas. Se o que eu preconizo vier a acontecer, eu imputo os anos de 2050-70 como as testemunhas precisas da transição. O que dizem? Tenho razoáveis chances de me conservar vivo... Significa que atribuo a não muito além da metade do século o fim do Capitalismo, do Estado e das anacrônicas instituições que respondem pela falta de deuses ou pelos "deuses que não sabem dançar". Tal data marcaria o nascimento do homem que o projeto iluminista pela primeira vez desenhou mas não cumpriu. Significa a materialização de uma idéia.

Depois desse presente - se insólito ou não, meu interesse nisso não repousa! - julgo que me despeço não-debalde; e - queiram ou não - voltarei; claro que apenas com escritos mais "pesados" (permeados de dados e de Sociologia) de um próximo turno...


Escrito por wormsaiboty às 00:28
[
(0) Zero comentários. Há medo na massa? ]

 

Sábado , 14 de Junho de 2008
ESTAMOS NA PRÉ-HISTÓRIA DO HOMEM [versão condensada]

É complicado estar na roda da História tendo de lidar ao mesmo tempo com uma revolução pessoal e com a guinada de um inaudito destino humano em geral. Na realidade não existe palavra adequada para descrever os processos que se fazem iminentes. Primeiro, um relato auto-biográfico do "método" pelo qual se chega a isso. Depois, ao longo de muitos anos, tentarei enriquecer ainda mais o próprio isso.

"NÃO CONSIGO CONCEBER ALGUÉM QUE AME VIVER NUM LUGAR QUE FEDA TANTO; FAÇA A VERDADE APARECER, CRITIQUE A HEGEMONIA ATUAL"

Pediram-me para explicar esse nome com o qual andei me identificando na Internet...

Estava aqui na cozinha - não por acaso: a cozinha de si, onde nascem todas as idéias para auto-consumo, também estava em pleno funcionamento - quando tive a boa-vontade de compilar este artigo a fim de explicar para todos vocês que entraram em contato comigo na noite de 14 de junho de 2008 o que eu quis dizer. Vim correndo até o computador, com um pacote de biscoitos. Bastavam-me (a conexão, o teclado, e o combustível para alguns minutos de esforço teórico)!

A grande pergunta não são vocês que me fazem. Ela é: POR QUE EU DEMOREI 20 ANOS? PARA CONCLUIR ISSO? E agora que concluí, tenho certeza absoluta que me achei. Eu sou isso. Para isso nasci. E nisso vou morrer, não sem antes testemunhar.

Eu nasci para dizê-los que depois de mais de 5 anos lendo filósofos, sociólogos, economistas, culturólogos, relativistas, epistemólogos... eu tenho um juízo de valor intenso sobre a realidade. Intenso duas vezes: na sua simplicidade de ser dito e sobretudo na profundidade que implica dizê-lo. Digo que não sou o primeiro, nem serei o último. Mas, vejamos... espero que antes de morrer eu sinta essa verdade! Vai ser um sonho!

O Capitalismo vai implodir.

As bases do sistema estão rachadas. Qualquer conotação em escopo restrito não captou o espírito da coisa. Falo da ruína de todo o Capitalismo. Uma transvaloração que a sociedade ocidental-global nunca enfrentou. Vai haver um refundamento em novas bases. Não existe palavra que possa descrever esse fenômeno, como já lembrei.

Gostaria de listar a gama de autores e livros do meu caminho herético, mas não posso agora. Ainda juntarei todos os cacos, mais devagar. Quem me conhece há mais tempo e tem uma convivência "acadêmica" comigo já poderia conhecer de 10 a 20% das obras que contribuíram para minha pérola máxima de então.

Considero que o homem conseguirá se tornar o animal a que tanto visa por formas todavia equivocadas. O homem se encontrará e se tornará aquilo que ele é. Amante da vida. Dará sua primeira gargalhada sincera que poderá ser ouvida com igual sinceridade. A despeito do surgimento de escassos homens do tipo "verdadeiro", ainda são francos sujeitos sem reciprocidade. Ao que se visa, em última instância e na essência, é despir-se do mal, livrar-se do dinheiro.

Se não listarei obras que permitam que vocês também divisem o que diviso, para que compartilhem de minha gargalhada cósmica, posso ao menos delinear biograficamente a "partenogênese" desse riso fundante-iconoclasta.

Ao me interessar pelo espectro político, estudando História no ensino médio, senti-me comovido pelo movimento operário. Debrucei-me sobre a Revolução Russa, que foi a primeira tentativa séria do homem de viver num mundo substancialmente diferente do atual. Talvez mais que a Revolução Francesa, uma vez que é substancialmente - a priori, para o estudante nascido em economia liberal - o antagonismo da sua própria realidade. E todos queremos sempre um mundo melhor. Um mundo não-ruim.

Não tardou para que eu reparasse nas negações do próprio discurso promovidas por aqueles democratas e na dubiedade do projeto de Socialismo Real. Acabei, após o escândalo do Mensalão do Partido dos Trabalhadores, em 2005, invertendo minha perspectiva política. Tornei-me um neoliberal rasgado. A corrupção e a falência que vira no Leste me lançou para o espectro oposto.

Fosse com quem fosse a discussão, eu era o arauto número 1 da ideologia propagada pela revista VEJA, e muito me comprazia, ao tempo. Naqueles 1 ou 2 anos em que ainda imperava o meu lado reacionário, certamente encarnei instituições tais quais o FMI e o Banco Mundial como poucos. Poucos.

Escapando da superficialidade de revistas semanais de países em franca mancomunação com o imperialismo estrangeiro, pude entender que a corrupção nunca está de um só lado da balança. Ela é do homem. Aprofundando-me no pensamento filosófico e nas teorias do Fim da História achei por compreendido e finalizado todo o quadro vigente. Nos encontrávamos no final e isso era sem volta. A vitória da democracia em bases liberais (o absurdo concreto?).

Adensando ainda mais minhas reflexões e minha bibliografia, pude sair do espectro da Direita. Como também da Esquerda, do Centro, da abstenção ou de qualquer um do qual se possa falar. Eu naveguei rumo ao Nada. Talvez por isso seja difícil apontar um caminho. Porque fechamos os olhos por dois segundos e à deriva nos encontramos.

O reino do nada. A destruição de todos os valores. Por muitos meses me ergui sobre essas (ausências completas de) bases, crendo apontar uma falta de coerência universal de que ninguém se dava conta. A vida sem um sentido pequeno que fosse, edificante que fosse... A morte do espírito do ser humano. Sua carne não possui um preço mais elevado que a de um frigorífico. Aliás, apenas por falarmos em preço já se entende: a inestimabilidade da vida passou para a ficção. A ficção do dinheiro é que se tornara o real. O fim dos tempos, a hecatombe máxima. Disso não havia como efetuar um regresso, e qualquer regresso não passaria de nova ilusão, Caverna de Platão em novos moldes.

Entretanto, quase choro ao poder estar aqui narrando como e quando transcendi. A linguagem ainda é muito pobre para precisar a coisa. Eu cumpri o que Nietzsche quereria que seus sucedâneos cumprissem. Eu havia destruído todos os valores, que não serviam. Só que me contentei com isso. O MAIS CLAMOROSO DOS ERROS! O niilista que é o homem, que é o animal, que logra o auto-achamento, ergue novos ideais, com base tão-somente na crítica que fez dos velhos. Torna-se o autor da própria biografia e começa a fazer parte da História. A verdadeira História.

De 8 meses para cá eu dei esse salto. Tenho acumulado essa identidade em mim. Estou me fundando como homem. Efetuando o processo, a ponte. Agora em junho tenho consciência de seu início, desenvolvimento... intensificação.

Primeiro eu re-estudei Marx com bons olhos. Uma leitura despida do velho preconceito e da malversação de alguém ainda imaturo. Pude saber que ele não errou; o que há de errado é a escola marxista. Ele nunca falou o que está na boca de terceiros. Ele não foi socialista. Foi do primeiro tipo dos niilistas reconstrutores, esse que acabei me tornando, ao lado do tão antes-dos-outros Nietzsche.

(...)

A vida não é um meio. Ela é o fim. O fim último. O amor ao corpo, ao ser o que se é, ao poder que emana DO PRÓPRIO CORPO é a descoberta do animal. Se eu demorei 20 anos, a coletividade parece que está levando mais de 5 mil.

(...)

Ah, não tenha dúvida! Muito sangue vai jorrar! Mas ele nunca foi tão vermelho. E nunca significou tanto sangue. Vai ser a guerra das vontades individuais. Nunca numa guerra se matou por deliberação e volição individual máxima e suprema. Havia um mero interesse pré-moderno por trás.

O novo homem é o animal. O animal que fala, é preciso que vocês estendam esse escopo do dicionário Aurélio para pegar o espírito. É o animal como nenhum e como todos. Porque ele mata, ele é cruel. Mas não sabemos ainda o que é matar e o que é ser cruel. O dinheiro aprisiona tudo. Todo o jorro.

(...)

Meu projeto de refundação também implica algumas mudanças sociais, como o afastamento de algumas antigas amizades tornadas sobretudo indesejáveis para o momento. Deverei ao menos, eticamente, expô-los a motivação do expurgo da minha vida. É uma medida que, admito, não pode ser tomada da noite para o dia. Na medida do possível, no cotidiano, é bom omitir meus verdadeiros conhecimentos e meu nível filosófico, a fim de não prolongar situações tediosas em que tento não parecer estranho às pessoas (aos infelizes que se situam kilômetros atrás, mas que em determinado ponto histórico marcharão comigo).

Procurando uma rápida resposta para inevitáveis objeções que receberei nesse enceto de tão colossal projeto, prefiro esta opção:

"Como pode a humanidade estar inscrita em algo que individualmente todos odeiam?"

Voltarei.

Escrito por wormsaiboty às 22:51
[
(1) Um sortudo já comentou! ] [ envie esta mensagem ] [ link ]

 

E o tempo passou, e eu realmente voltei... E vou continuar voltando, mas comunico-vos que não nomearei mais artigos com o título TRANSCENDER. Apenas os que me compreendem menos mal adivinharão o porquê e não me interessa falar em vão para os outros. Não obstante, o que deve mudar é apenas isso: sempre escrevo, e como não há verdadeiras revoluções em nossas vidas, apenas explosões aparentes, serei sempre o mesmo, mesmo tendo mudado tanto, e o “projeto” continua, embora tácito... É difícil eu me arrepender de alguma coisa... Ah, como é bom aliviar as costas de um peso tenebroso!



Escrito por wormsaiboty às 17:14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


E UM, E DOIS, E TRÊS... NOCAUTE!

UM

Ao ignominioso Luan: Sabe qual é a definição vulgar de trágico? Que o homem sabe que vai morrer. Sabe o que é ainda mais trágico? Que, sendo a única criatura que detém esse conhecimento, o homem é também o único que sabe rir.

 

DOIS

Desconfie dos moralistas.

 

TRÊS

Deus já não se sustém – nem como hipótese.



Escrito por wormsaiboty às 12:58
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


NÃO ERA PRA CASAR

“Perder-se”: outra grande temática de reflexão, além d’“o retorno”! Excitação, adrenalina... Aventura: Valparaíso, Ingá, rodoviárias e ônibus. Longa noite: paradeiro inaudito. A vida como RPG. Ditadura do relógio em segundo plano. Caminho de leituras e afazeres até uma monografia: não outra que não um labirinto! Minhocão, subsolo, reentrâncias, números e siglas... Sagas em miniatura. Agora vejo essa tendência em tudo: na ebriedade, na Música, no futebol... Todo Link tem seu confortável domicílio perto de uma Sagrada Deku Tree, mas qual seria a graça se não explorasse? A vida sempre foi um JOGO! Com desespero e feridas reais, fica mais difícil de empunhar a espada sem pensar três vezes no que irá acontecer a seguir. Sair com febre: Guará e seus conjuntos, a casa do Bruno e a volta para casa – alguma dúvida do que é que eu queria? Com certeza não era dançar funk, beber cerveja ou transar com a irmã da Ranna! O fio de Ariadne não seria, aliás, o mouse? Redes de amigos, comunhões e desventuras – o risco de se danar, olhar para trás e não poder voltar... Auto-conservação COINCIDE com auto-mutilação.

 

Cadê seus instintos? Mulher, a víbora (no bom sentido): quase me faz pisar na Igreja. Por que me apaixonei por você e não por outra, Eline? Porque o pré-requisito fundamental mais importante até agora não escrevi: PERDER-SE COMIGO NO LAR DO MINOTAURO! Você foi minha Salomé, “não era pra casar”!

 

Estou na minha idade épica... Depois serei um daqueles velhos muito consultados? Frio na barriga, o maior dos imperativos por enquanto! Brasília de repente está em silêncio, silêncio que cheira a INTERROGAÇÃO. O que eu quero para o meu Messias? Por que tempestade dissipa?

 

Para suprimir o pornô... O pornô é terrível por causa da ânsia que provoca. Daí se vê que é bem uma coisa do estômago. Não tem coisa mais sem-graça que a mulher rendida, despida, em quem (na qual, objetal!) somente se enfia! Sempre achei o semi-nu, o decote, a fuga e a intriga mais espetaculares. Aquele momento intermediário no qual somos mais felizes. Omissão feminina. Desbravamento masculino – 1ª VEZ: Eline se recusa a ir embora na noite escura, mas não se convida explicitamente a ficar, espera meus movimentos, logo vai me dar, sem me dar nada...!

 

RPG, leia-se: transportar as neuras convulsivas cerebrais para o plano da ação. Não é que os sistemas caprichem nos cenários e na física e esqueçam da psique das personagens. É que o ocidental travado tem o cérebro inchado e é enfermo do pé! Renasça, ó beleza automática! Hiei, meu alter ego lutador! Depois que se cumpriu uma missão colossal, uma tarefa muito laboriosa, o que resta? Ora, nada nunca foi de ninguém. O amor a um ser humano, uma jóia, uma pedra preciosa, a estima popular, tudo é passageiro. Mas é suficiente o seguinte: gana de algo mais, uma curiosidade que persiste... Gastar até o último cêntimo da sua centelha...



Escrito por wormsaiboty às 18:01
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


TRASNCENDER-18

O ESPÓLIO DE F. NIETZSCHE OU AS QUEIXAS DE RAFAEL OU 19 DIAS DE SABEDORIA

 

P. 47: “A partir de um sistema de forças determinadas (...) não pode resultar um NÚMERO INCONTÁVEL de situações.” O eterno retorno. O fim é já o começo. Não existe morte. à consultar página da “nova concepção de mundo” do Der Wille Zur Macht (“número máximo de combinações”, “dado”, etc.).

 

48-9: esclarecimento do espiritismo (kardecismo): não há o indivíduo, tudo são impulsos nervosos.

p.s.: quem é Buckle? Fala da imortalidade da alma. Ei! A moeda maussiana, o hau, isso é espiritismo. Os mortos nunca saem daqui: eles nunca morrem.

 

50: retornar ao “macaco”. O bicho-homem imoral e trágico.

 

Descobri que eu não guardo os elogios que me fazem.

 

“A imensa expectativa quanto às relações sexuais estraga nas mulheres o olho para todas as outras perspectivas” – 55

 

59 (incompreendido – meu “observando-me-fora-do-mundo”?)

“O estilo deve ser adequado em vista de uma pessoa bem determinada, com a qual tu queiras te comunicar” – ora, se não estou tendo isso AGORA! A questão é: UM ou vários? Pode ser VOCÊ?! Como que um eu acima de mim, embora quase intragável de tão platônico. Mas você não é uma pedra fixa...

 

O oral antes do escrito? [Crucial]

 

“Porque ao escritor FALTAM muitos MEIOS do conferencista” – eis o que procurava! É benquisto explorar entonações, gestos, meras interjeições, que afinal no falar são tudo!

 

Devo escrever frases mais curtas. Porque sou muito RETICENTE no oral (não vá confundir – isto é, de quem teria muito a dizer e não pode).

 

Nietzsche em seu manual de redação!

 

61: o sexo frágil é necessário como contraste do forte.

 

66: “O perigo do sábio está em se apaixonar pela irracionalidade”.

 

“eu menosprezo mais o louvor do que a crítica”

 

Aquele que é mau está bem com o mundo. Como se pode ser feio e defeituoso e não ser mau? Eu não sou feio ou defeituoso, mas tenho um cálice de dignidade que beira o transbordamento. Eu gosto de ir ao Conjunto Nacional.

 

EU:LER (71)

“O que mais gostamos de fazer gostaríamos que fosse considerado como o que acaba sendo o mais difícil para nós”

“Nós fazemos também na vigília o que fazemos no sonho”

“Os criativos são os mais odiados”

“De tempos em tempos é preciso deixar suas virtudes dormirem”

 

Agradecer nossas maiores falhas! A desobediência militar, o Pinho-Sol – risos deles. O porre da Mel. O ciúme. Não ter traído – virtude. Não ter trabalhado.

 

73, aforismo 48: dois medíocres não se entendem. Mário como figura-síntese do que se deve evitar como interlocutor. Thomas: outro que escuta mal, talvez faça bem falar-lhe qualquer coisa.

 

Proveito próprio + paixão = egoísmo. Ora, eu sou a pessoa que merece o meu amor! Não sou pobre em amor! [outro ponto que me é caro]

 

74

“Tudo o que é longamente pensado se torna problemático”

Quase tudo...

 

“Quem quer se tornar um líder dos humanos precisa querer ser por eles considerado um BOM tempo como o seu inimigo mais perigoso”

 

POST-MORTEN?

 

Outra grande característica minha: detesto ser amado. Jamais rastejei quando foi assim. Veja: quando foi algo centrípeto unilateral, não lembro de ter movido uma palha – mesmo desprezei. É que é raro.

 

“Jesus de Nazaré (...) queria ser o aniquilador da moral” – e não foi.

 

Aforismo 74, p. 75: do giro do anel: já se conta [passivamente] com o mal.

 

80

“Ver as naturezas trágicas (...) e ainda conseguir rir (...) é divino” – “Como podes rir dormindo?”

 

77:

“Em torno do herói tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus – tudo sátira” [???]

 

“A dança é a prova da verdade”

 

“Mais um século de jornais – e todas as palavras vão feder” 82

 

“Pensar no suicídio é um consolo muito forte. Com isso se consegue passar bem a ‘má-noite’”

 

“Nossos suicidas difamam o suicídio, – não o contrário.” A constatação mais sensível já levantada no quesito



Escrito por wormsaiboty às 19:54
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


86: “Demora muito até que se morra pela segunda vez”

 

“Agora é primeiro pelo eco que os acontecimentos adquirem ‘grandeza’ – o eco dos jornais” 89

 

102 – da tragédia.

 

107, ao Kothe:

“Corre um falso dito: ‘quem não salva a si mesmo, como pode ele salvar os outros?’. Se tenho a chave para as tuas cadeias, por que a tua fechadura e a minha teriam de ser a mesma?”

 

109: reaparição da maldita distinção entre semi-deus e herói.

 

Detalhes da família (pessoais).

 

111: “O que inventa (o conhecedor), o que intermedeia (o artista), o que simplifica (o apaixonado).”

 

Nós, homens-da-meia-noite. O homem do eternamente retornável, do meio-dia. Para nós tudo é escuro. Demanda-se um novo – e primeiro – Iluminismo.

 

Uma religião sem secular.

 

Aceita o casamento, desde que com amizade.

 

120: MONOGRAFIA

“Ascetismo do espírito como PREPARAÇÃO PARA CRIAR. EMPOBRECIMENTO intencional dos instintos criativos.”

 

“A todo efeito segue-se um efeito – essa crença na causalidade tem sua sede no mais forte dos instintos, o da vingança” à newtonianismo. “Não se confunda: atores ficam arrasados à falta de elogios.” O contrário: se despreza o elogio!

 

121: “O ceticismo em relação a todos os valores morais é um sintoma de que uma nova tábua de valores está se formando”.

 

123: “Para a mulher, há apenas um ponto de honra: ela precisa acreditar que mais ama do que é amada. Depois desse ponto principia de imediato a prostituição.”

 

“Os utilitaristas são burros” [Pode parecer simples, mas demorei muitos anos para ler essa frase.]

 

O verdadeiro póstumo não é combatido, mas ignorado.

 

126: “A paixão de duas pessoas uma pela outra – isso são em todos os casos duas paixões e com diferentes curvas picos velocidades: suas linhas podem se CRUZAR, nada mais.”

 

127: contra a alfabetização universal: “Que qualquer um possa aprender a ler e leia, com o tempo isso deixa em ruínas não só os escritores, como até os espíritos em geral”.

 

129: “Ter ENTENDIDO um filósofo e estar CONVENCIDO sobre ele”.

 

“Não vos deixeis enganar! Os povos mais antigos são agora os mais cansados! Eles não têm mais energia suficiente para a preguiça!”

 

132 e derredores: de extremo interesse para o amanhã. Fala-se nessa META que é a falta de metas, um olhar para o FUTURO que justifica o PASSADO. Mas é como se houvesse uma perdaà Se NÃO acontecesse esse futuro, todos nós estaríamos numa CONDENAÇÃO ETERNA? Os mortos HOJE foram em vão, não se pode dizer que antes de se cumprir o DESTINO haja qualquer anel? Tanto faz? Por que tanto faz?

“regressão à animalidade”

“Não precisais temer o fluxo das coisas: esse rio flui de volta para dentro de si: ele não foge de si apenas duas vezes. [nascer e morrer?]

 Todo ‘era’ há de ser novamente um ‘é’. Todo vindouro morde o pretérito no rabo.”

“Surgimento do amor: – amor como decorrência da moral”

algo supremo parece se esfacelar em banal num mundo atomizado – o erótico é a demonstração par excellence. E o amor vai buscar esse “algo unificado” novamente, ao mesmo tempo instalando o embrião de uma sucessora divisão...

 

Se você está para frente demais no tempo você não está para trás? Ou no mesmo lugar? Talvez fosse sensato reconhecer que o Cristianismo, como trecho do anel, é uma espécie qualquer de redenção que deveria ser um objetivo pelo qual lutar – mas e então? Nietzsche acaso é um fraco, moribundo, débil? Tudo é “logo”, tudo é “o super-homem”! Para o diabo com essa conversa!! NOVA GUINADA? Não, só fantasmas apolíneos. Maldito deus-homem! Meu destino é pragueja-lo! [apesar de sê-lo]

 

133: “Ninguém vem a mim. E eu mesmo – eu fui a todos e CHEGUEI A NINGUÉM.”

 

Se todos os mundos fracassam igual, por que Nie. seria melhor do que Platão? Não existe máquina do tempo porque o universo é a própria MÁQUINA DO TEMPO [recorrente nas minhas anotações]. Já programou o curso de sua viagem?

 

Só sei que não posso mais de forma alguma ler jornais e assistir comentaristas babacas e meu bafo fede a sangue. O que é que eu ganho por antecipar um detalhe da roda que ainda não beijou o asfalto nessa rotação? O que é que a pergunta ganha sendo sibilada 400 bilhões de vezes, DROGA?! O mito do moto perpétuo e aliás qualquer mito... Tudo verdade, uma idade ancestral e/ou onipresente. Por que, no entanto, as coisas não são melhores e eu não posso viver como nos meus SONHOS? Será um PERÍODO EXCRUCIANTE? Só não quero morrer sem ter feito VINGAR esta ESPERANÇA à e não quero ler esta palavra de mãos sujas!

[Queixas...]

 

P. 134 – falta honestidade para admitir: o Cristianismo se apresentava como método para dispor igualmente o fatigado espírito humano de METAS SUPREMAS, e o que é endeusado hoje como tragédia bem podia ser a fonte de todas as noções de pecado e talvez necessitasse da racionalização. Talvez Apolo àquela altura fosse sinônimo de dignidade. Talvez? Ah, a quem estou querendo enganar? O devir é MAU. Porque de onde estou só posso pensar nessa palavra. Minha MISSÃOZINHA tola é ser alguém que colabora com dois séculos que aí vêm para, em troca, não viver a vida de seu presente, sua ÚNICA vida. Descobrir que se se fosse mais como as pessoas por aqui são eu seria igualmente NOBRE e TRANSGRESSOR, pois superaria os trágicos! Rá, que sórdido... Basta meu auto-objetivo de SAIR DAQUI, EVENTUALMENTE MATANDO ALGUÉM, ESCREVENDO COISAS QUE CHAMO DE ARTE, E MANTENDO MINHA LINHA MÁXIMA DE CONSUMO LÁ EMBAIXO – PARA, SABE-SE LÁ, MORRER DE DOR-DE-DENTE.  à Ah, se todos os mitos pegam! Meu guia será minha vergonha. Ler o horóscopo não rende mais vexame – falar com acadêmicos sim!

[gênese do meu desgaste intelectual]

 

 

P. 137 – “Essa é uma razão contrária, e eu te sou grato. Agora me rebata, porém, ainda a razão contrária, amigo!” Ótimo, parece que não falei para o vento...

 

“Com orgulho se venera quando não se consegue ser ídolo” – hoje sonhei com o Romário.

 

REVELADOR DA ONTOLOGIA NIETZSCHIANA:

146: “Todo ser humano é uma causa criativa do acontecimento, um primum mobile com um movimento original”

“Quando Deus entendeu a si mesmo, ele gerou a si mesmo e à sua antítese”

 

147: “Com ombros firmes, ele está escorado contra o nada e onde há espaço, aí há estar, há ser”.



Escrito por wormsaiboty às 19:52
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

150: “O homem se define por ficar de pé, como o supermacaco, imagem do último homem, que é o eterno”.

 

“Esses querem jogar dados e aqueles querem calcular e contar e aqueloutros querem ver sempre ondas e danças das ondas – eles chamam isso de ciência e ficam suando em cima disso. Mas são crianças que querem o seu jogo. E, realmente, é uma bela brincadeira de criança, mas um pouco de risada não prejudicaria o jogo”

 

152: “Há muito a calcular no mundo: mas calcular o próprio mundo – isso é enfadonho”.

 

“A antítese do ser-acima-do-humano é o último ser humano: fabriquei este junto com aquele”

 

153: “História: evolução das finalidades no tempo”. O anti-Darwin: “O inverso, de que tudo até nós é decadência, também é demonstrável (...) até agora a natureza VAI A PIQUE.”

 

155: curiosos esboços de Assim Falou.

 

162: “A liberdade da vontade é mais bem-demonstrada como causa e efeito (a rigor, causa-efeito é apenas uma SEQÜÊNCIA POPULAR)”.

 

164 à SOBRE OS PAIS

“Sentido do casamento: um filho que represente um tipo mais elevado que os pais” “eles precisam te desprezar quando tu vais mais longe do que eles – eles não entendem o acima-de-si” à LEI INCONTESTE – até eu posso ser vítima (como autor – pensar que se regride no anel e em verdade se avança – mas não seria um espírito mais poderoso que eu). “Tu suspiras por amor – mas não, tu precisas aprender a suportar desprezo.”

 

A cavalo concebido se olham os dentes!

 

O paradoxo de José na sociedade do trabalho: agrilhoar-se para libertar-se!

 

Desprezar:

  1. Troçar.
  2. Subestimar.
  3. Ignorar.

Eis as acepções clássicas e verificáveis aqui. De uma forma ou de outra ambos se alternam nisso. Ah, se ao menos isso se reduzisse a um só! Bom, N. também teve dois – aqui está mais para três contra um.

 

O mais pungente: toda vez arrepender-se de se abrir!

 

Nada entre um imprestável e um prestável.

 

Tenho quatro pais. Seria um erro cósmico que não houvesse um pregador cristão quase debaixo do meu teto, afinal não há nada menos aparentado conosco que nossos pais batismais.

 

Um ano torna caducos muitos sonhos e ridiculariza muitos pesadelos.

 

170: “Minha orientação para a Arte: não mais continuar poetando onde estão as fronteiras! Mas o futuro dos humanos! Muitas IMAGENS precisam estar aí de acordo com as quais se possa VIVER!”

 

171: “O grande MEIO-TERMO: a decisão sobre querer-viver e querer-morrer” à A filosofia de Camus

 

172: “A decisão. É preciso haver inúmeras vítimas. Uma tentativa.”

 

“Ainda a mais doce das mulheres tem sabor amargo”

 

177: Gretchen, a plebéia de Fausto.

 

179: AQUECIMENTO GLOBAL: “É preciso proteger o mal como se precisa proteger o mato. É verdade que pelo rareamento e pela destruição das matas a Terra ficou mais aquecida --“ [e muito boazinha]

 

183: “O nojo pela sujeira pode ser tão grande que nos impede de nos limparmos”

 

“Buscar conhecimento é um desejo e uma ânsia (...) Não há nenhuma forma de conhecimento que não seja antes um refazer” 196

 

A Debord: “Esses são meus inimigos: querem derrubar tudo e não reconstruir a si mesmo. Dizem: ‘tudo isso não tem valor’ – e eles mesmos não querem gerar nenhum valor.”

 

Aforismo 225: das alternâncias. Não é coerente com a condenação da ressaca. Esse periódico incômodo me é essencial para sobrepor tais momentos com algo mais forte. “Vontade de sofrer”  “em cada nascer há um morrer”

 

“O animal nada sabe do seu si-mesmo” p. 199

 

“Temos de ser um ESPELHO do ser: somos Deus em miniatura”

 

202, af. 263 – sobre o aumento da expectativa de vida e o paradigma estreito da medicina moderna.

 

Af. 267: “Há muitos que não sabem nada melhor sobre a Terra do que ficar na cama com uma mulher. O que sabem estes da felicidade!” Tipo Aloísio, “o pegador” – extrema limitação – viseira de cavalo – em alguém que cresceu comigo e já foi tão apurado quanto – excelente laboratório cristão. A honra de um sujeito assim está preservada justamente por ser minha antítese.

 

203: morrer de sede no mar.

 

204: crepúsculo tratado como engano. Reforçado pelo ser-acima-do-humano e seu sol de meio-dia.

 

210: “Os judeus estragados pelo aprisionamento egípcio”

 

“Odeia-se mais aquele que nos seduz de volta a percepções sobre as quais nos tornamos vitorioso com extrema dificuldade” – meu caso: a juventude (o que explica a velocidade-relâmpago das minhas rupturas). E os sociólogos! Ultimamente tem sido revoltante ler. E ainda: todos os ateus esclarecidos, os liberais do convencimento (os velhos Tartufos!), os igualitários, as mulheres melosas. Mas sobretudo os estudiosos e os hedonistas! Qualquer colega dos tempos de escola. Eles não acompanham o ritmo da dança. A classe média insossa do DF.

 

211: clara divisão entre ativos/passivos, otimistas/pessimistas, filósofos levemente subseqüentes (o último homem, projeto existencialista, “direitos humanos”) e os mais distantes (estetas do absurdo, os trágicos e imorais). Lutas, rodas atritando, sentidos opostos à “Quando Hegel encontra Heráclito”

 

HISTÓRIA DAS INTENÇÕES X HISTÓRIA DOS FATOS: o trágico em Weber.

 

“A fome não tem por meta a satisfação do apetite”, 212.

 

Ética “Nuno Leal Maia” e hedonismo representando o sufocamento da liberdade. (CATARSE – televisão, fuga, premeditação da ação?)



Escrito por wormsaiboty às 19:49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

Liberdade, de fato, o que seria? A personalidade heróica, prometéica. O tipo de Camus em Sísifo. Aceitação da edipianidade da vida. “Fatalismo” vira uma razão suficiente.

 

P. 215 – “somente as naturezas ordinárias podem ver no Estado o instrumento da desforra” – vide O CENTRO, A LENTE E O REBANHO.

VINGANÇA DE SANGUE X VINGANÇA INSTITUCIONAL

Vendeta x frieza

 

Quem eu mataria? Um Cleyton. Uma Julliana, um Vinícius. Um Paíque, o símbolo a incinerar: flamenguista (o que desde já inclui o subtipo fanático), ativista, pedante, popular e intelectualmente desprezível.

 

“A era dos reis acabou, pois os povos não são mais dignos deles” Z.

 

“Moral como mímica dos afetos”

 

A música CONFESSA o afeto, muito ao contrário da escrita, que é tão diferente da modalidade oral.

 

Kant e sua ingênua presunção do codificar-tudo: não passa de um pára-raio. Páginas interessantes... 217

 

218: a lucidez antropológica de um século depois já falada por aqui – crise do gosto.

 

“quanto mais as religiões forem morrendo, tanto mais SANGRENTO E VISÍVEL há de se tornar esse combate” – auxílio da mass media: “Estamos no início!” Resta saber onde termina o início.

 

Trechos de fisiologia análogos a Vontade de Potência – já não são diretrizes de comportamento macroscópico.

 

Hamlet – DURA CRÍTICA. O não-ser não está em debate. Obra frustrada.

 

“O quanto mais nós vivemos no BEM-ESTAR revela-se no fato de a dor ser sentida tão MAIS FORTEMENTE do que o prazer isolado” – se é assim, tem-se o poderoso estímulo que findará por sepultar a própria sociedade do bem-estar.

 

“o ódio e o nojo ao estranho são do mesmo tamanho que o prazer consigo” 222

 

O pragmatismo contra o heroísmo. A diferença entre o inteligente e o sábio: não se importar em ser prejudicado.

 

224: “aparece como a aspiração máximo do ser humano tornar-se UNO com o mais poderoso que existe”.

 

“que nós tomemos o mais próximo [o sistema nervoso consciente] como o mais importante é justamente o velho preconceito – Portanto, reaprender!”

 

Valorização máxima do corpo humano – a maior obra de arte do universo.

 

“Toda essa ânsia pelo imorredouro é conseqüência da insatisfação” 230

 

“Os nossos ‘ricos’ – esses são os mais pobres! A finalidade autêntica de toda riqueza é esquecer!”

 

“’Endeusamento da natureza’ – isso é conseqüência de pobreza, vergonha, medo, idiotice!”

 

“Eu quero não ser entendido por longo tempo”

 

Nesta fisiologia o autor não discrimina homens e mulheres, o que depõe a seu favor na questão.

 

Atavismo: hereditariedade a longo prazo. Vício.

 

O que Nietzsche diria do Homem na Lua?

 

“Luto com o dragão do futuro: e vós, pequenos, tereis de lutar com minhocas” 249

 

A vida é uma tragédia para aquele que sente, e é uma comédia para aquele que pensa. [o semi-deus é o que pensa?]

 

“Todos aqueles que produzem criativamente procuram novas linguagens: ficaram cansados de uma fina língua desgastada: tempo demais o espírito andou sobre tais solas.” [ele não está falando aqui de reformas estúpidas]

 

“Dos judeus tirar-lhes o dinheiro e dar-lhes outra direção”

 

O que são as “sete solidões”?

 

252:

“ponho a mão no fogo pelo próximo milênio”

“Vivo como em outras épocas: minha altitude me dá trânsito com solitários e ignorados de todas as épocas”

“muralhas destruídas”: um enigmático pré-requisito da formação do ser-acima-do-humano...

“Mostrar a ‘metafísica da metafísica’!” 253

“Os seres humanos mais influentes do mundo são os mais escondidos”

“Cultura é apenas uma fina película de maçã sobre um caos efervescente”

 

“Opiniões públicas – preguiças privadas” 263

 

“Corre-se maior perigo de ser atropelado quando se acaba de escapar de um carro”

 

“O discípulo de um mártir sofre mais que o mártir”

 

“Quando não se tem um bom pai, então é preciso se arranjar um”

 

“Não se sente a monotonia quando nunca se aprendeu a trabalhar para valer [sufocante, binômio cada vez mais nítido]

 

“Alguns homens choraram o rapto das suas mulheres; muitos, que ninguém as quisesse raptar”

 

“O fantasista nega a verdade diante de si; o mentiroso, só diante de outros” 264

 

Para mim: “Os seguidores de um grande homem costumam se deixar ofuscar para melhor poderem entoar os seus louvores; pobres pássaros canoros!”

 

Aforismos (meus, quando sem as aspas):

 

Eu refundei a maldade.

 

É preciso saber colher os louros da fama e da vitória.

 

Os direitos humanos recrudescem a cretinice da modernidade.

 

O que pode ser pior do que ganhar uma irmã via esmola? Cristandade ao meu redor.

 

“É preciso saber obscurecer a própria luz para se livrar das moscas e dos fãs” O Ocidental Obscuro bem o sabe



Escrito por wormsaiboty às 19:48
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

“Uma boa sentença é dura demais até para o dente do tempo”

 

“A maior doadora de esmolas é a covardia”

 

“Para o amigo do estilo rebuscado, o estilo solto é uma tortura para os ouvidos” 266

 

“É preciso acabar com os mendigos, pois a gente se incomoda lhes dando e se incomoda não lhes dando”

 

Indigesta sociedade, que se cansou de descansar.

 

O sonho me diz o que eu quero fazer, mas não o que eu quero. Eu não quero a mulher que eu cortejo – eu busco cortejá-la para que alguma ocasião se suceda.

 

Sempre há um próximo passo.

 

Quando um se masturba, quer o depois-do-gozar.

 

O que é a fome? É o produto da digestão! Mas a digestão ocorre – com fome ou não!

 

Conhecer efeitos inesperados de um desejo não obstruem a equação: há sempre um lado com incógnita.

 

280: psicologia.

 

HERÓI: Aquele que se faz passar por ridículo para salvar a humanidade – talvez essa impressão de mim mesmo seja até mais arcaica e profunda que a da palavra “revolta”.

 

“O que todos sabem é esquecido por todos” 289

 

“imortalidade é apenas uma metáfora” – a consciência de que, anelada esta ou não, só se vive uma vida. Ora, e o que é 1? O que significaria o eterno? Fadiga e esterilidade, aquele que não se destrói, que não é herói, seria como não retribuir todos que se sacrificaram para que ele nascesse – mas aí está: como morrer é a “volta”, agradece-se, criativamente, a si mesmo. Ultra-dádiva.

 

Queres paz? Tomas paz! Para haver paz, é preciso haver a guerra!

 

Como poderia existir criatura toda-poderosa, não-paradoxal? Não é aquilo que não se percebe. Que deus em frangalhos, este que não é contemplado! Rá! Mas é sentido. Porque não é sujeito nem predicado. O paradoxo de deus é que nós o somos. Dizem por aí que o pragmático ser humano mais perde seu tempo com o que não existe, os demônios que inventa – e que deus não passa de palavra. Mas se é para apalavrar, que tal embate de deuses?

 

312: Quem é Pana? O par de Zaratustra?

O sábio visita o Diabo.

 

322: “Visível deve se tornar o mundo ainda no menor de tudo: então vós pensais estar ENTENDENDO: essa é a bobagem do olho”

 

MONOGRAFIA

“Nada é mais caro do que um falso delírio sobre bem e mal!

   ‘O homem bom é impossível: na própria vida o não-bem é delírio e injustiça. E essa seria a última vontade voltada para a bondade: negar toda a vida!’

   Com o vosso bem e mal, vós vos magoastes a vida, cansastes a vossa vontade; e a própria apreciação vossa era o sinal da vontade declinante, que busca a morte.”

 

323

“A onda rugiu ao passar: a criança chora porque ela arrastou consigo o seu brinquedo para o abismo.

   Mas a mesma onda joga-lhe cem outros brinquedos na alva areia. Portanto, não choreis por mim, meus irmãos, por eu estar passando!” “A flor quer a semente”

 

O que parece ser repetição não é: Nietzsche embaralha seus ditos com uma palavrinha aqui, outra ali...

 

“’Sem raiva não se vence nada’ Aristóteles

Aparentar ser belo e terrível  Zaratustra 4, FINAL” P. 334

 

337: número e poderio das minhas explosões de força – para determinação do meu valor – está falando de momentos como o “rompimento com o tratante” e a “escrita do DA CULPA” ou “de ÊXTASE”. “depois o direcionamento dado a essas explosões.” Potência extraordinária a que me foi dada de enxergar tarde demais – cada um dos meus erros. E desde então eu tenho seguido errante por elipses, creio que isto seja um bom direcionamento. Já me sinto aborrecido por me sentir o tempo todo doente e desprezível nestas férias: pode ser impressão falsa – voltei a romper com figuras do meu passado. Creio que seria uma vitória continuar na toada... Sonhos: Liz e Antonielle, Camilla – lixos. Paulo Henrique e Tavares. Demonstrações de profetismo. Sim, eu posso voar! Nome do PROJETO: Professor Solitário. Obstáculo: adolescentes de safra estragada.

 

“Meta: formação mais elevada de todo o CORPO e não só do cérebro!” 337 – quando descobri o valor de não ser motorista e o de comer bem. Mais que qualquer abstenção. Repisar um ar puro, respirar um ar puro nas entranhas!

 

“História dos seres humanos mais elevados” – projeto inconcluso (?).

 

O ferido sempre se irrita consigo mesmo – esse é o poder da dialética trágica: ele estará MAIS FORTE da próxima vez.

 

Verdade sobre o sistema judiciário (339): “O prejudicador é compensado – é a forma mais antiga, não a intencionalidade hostil. A indignação surge por se ter sido prejudicado, portanto em função do êxito do inimigo, não em função da hostilidade. É a sensação do vencido – a ânsia de vingança: não a sensação de que tenha ocorrido uma injustiça”.

 

340: a justiça devia mais exilar do que prender? A garantia de rebaixar o status do criminoso, não de impedir que ele o seja, numa jaula.

 

“A relação suprema continua sendo a do sujeito criador com o seu material: essa é a última forma de arrogância e supremacia.”

 

“Arrependimento: isso é vingança contra si mesmo” Toda vez que penso na palavra arrependimento, penso em Eline.

 

356

“Quando o ouro tilinta, a puta pisca os olhos. E há mais putas do que moedas de ouro. Quem é venal, esse chamo de puta. E há mais venais que moedas de ouro!”

 

“Desprezo a vida supremamente: e eu amo a vida ao máximo: não há nisso nenhum contra-senso – nenhuma contradição”

 

357: terceiro sexo?

 

A ARENA DO POLITEÍSMO

“Com os deuses, há muito já se está no fim: eles todos morreram – de rir.

   Isso ocorreu quando começou a rodar o dito mais ateu já vindo de um deus – o dito: tu não deverás ter nenhum outro deus além de mim: uma velha barba iracunda de Deus esqueceu portanto a si.

   Tão pobre jamais fora um deus em seu ciúme a ponto de impor: ‘tu não deverás ter nenhum outro deus além de mim!’

   E todos os deuses riram então e se sacudiram nas cadeiras e exclamaram: ‘Não será justamente divino que haja deuses, mas nenhum Deus único?’”

 

Renan: um nome de desgraçados obstinados.

 

Assinado: O Ronin



Escrito por wormsaiboty às 19:43
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

José Saramago

 

P. 51 – está armado o cenário dos campos de concentração.

 

P. 127 – enxergo nitidamente o ocaso do Ocidente inteiro – quando nenhum carro mais trafega e a propriedade particular vale menos que alguma coisa... Mas sempre há esperança... Aposto aqui que se logrará uma sobrevivência [início da leitura], ascenderá uma civilização de cegos. Ora, sequer sabemos de que condições proviemos!

 

Para onde vai a Estética?

 

P. 130 – incrível alegoria/pastiche/cornucópia humana de quadros famosos, na descrição do “cego anônimo”.

 

Degeneração escatológico-sexual indizível.

“Como consentidor é duas vezes corno” p. 174

“teólogos (...) afirmam, embora não por estas exatas palavras, que a maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno é o cheiro que lá há”

 

One – Metallica: “Darkness imprisoning me / All that I see: absolute horror / I cannot live / I cannot die / Trapped in myself / Body's my holding cell”.

 

“quando é que é necessário matar[?] (...) Quando já está morto o que ainda é vivo” (189)

 

“Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega. Toda a gente, a cidade toda, o país.” (215)

 

216: de volta ao nomadismo.

 

225: sem água e comida num meio urbano em vias de extinção: perfeito para o Messias.

 

227: por que nessas histórias de apocalipse e último homem há sempre um cão? Filmografia: I Am Legend, Madrugada dos Mortos...

 

254-255: fator nivelador – sem bancos, não havia mais ricos.

 

277 – um escritor neste pós-mundo!

 

286: eterno retorno.

 

2987: ressurreição bíblica.

 

Final exuberante.

 

Os “santos cegos” e a escada do subterrâneo do supermercado como a boca do inferno. Um dos livros que o Messias irá ler é este.

 

306: a escuridão... e o regresso, a retomada (depois da revelação).



Escrito por wormsaiboty às 02:34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


TRANSCENDER-17

HEIDEGGER’S HEGEL’S PHENOMENOLOGY OF SPIRIT

 

A construção do sistema hegeliano – primeiramente, o autor necessitou recorrer ao fenômeno para dar suporte à continuidade de sua filosofia central (a Ciência e limites do conhecimento). Postumamente, deprecia o acontecimento e o relega a sub-seções em uma nova versão do sistema, doravante guiado pelo Espírito e pela Lógica (lógica hegeliano-dialética, em oposição a Platão e Aristóteles, ou, como preferir, “compreendendo” os dois). O universo só pode surgir do Absoluto, mas é o material e explícito responsável por legitimá-lo como tal – o Universo é como o paradigma ególatra do homem que para fazer-se precisa ser reconhecido pelos outros. Nisso estaria o mistério do universo de se auto-desvendar “fingindo” ser outro para contemplar a si mesmo. Eu sou deus. Eu encerro o absoluto em meu caráter fugidio. Não devo me voltar para o universo em busca da Verdade: se ele sou eu, ela reside em mim mesmo, no meu devir. Aliás, ela o é. [isso é exatamente o que Sartre dirá na introdução de sua magnum opus]

 

O problema do “saber absoluto” em Hegel e a constatação de que o Ser e a Verdade são quadros atemporais, desejo de fim e de morte, está no limite lógico do Ocidente e naturalmente antecede o DEVIR nietzscheano. Hegel é o último grande herdeiro de Platão.

 

O século XX oferece um panorama engraçado: Camus insinua que o problema central da Filosofia deve ser “julgar se se deve viver”. Já Heidegger insinua que a grande questão é “o que é o ser”. Uma Filosofia da Morte que quer a vida e uma Filosofia do Ser que deseja a morte!

 

É banal discutir se a Filosofia é ou não Ciência. Ela existe meta-isso, além. Trata dos problemas da existência. Nietzsche é taxado de anti-filósofo por ser imoralista e romper com os clássicos. Sem embargo, seu trabalho sem dúvida é Filosofia Clássica. Talvez o problema seja a atual condição precária da disciplina...

 

O conhecimento absoluto é um espelho que quer ser olhado. Quem pode olhar? O discurso, o relativo, a própria “soma rumo ao supremo”. A História seria o movimento de auto-descoberta culminando na satisfação plenipotente do espírito. Para mim, tanto faz (volta ao primeiro tópico).

 

A consciência progride, por experiência, até a auto-consciência; esta por sua vez aspira imperfeitamente ao absoluto [os existencialistas apontariam um erro grosseiro aqui: não existe consciência que não seja consciência de si] dizendo-se isso mesmo (que é relativa, sabendo, pois, do que sabe); é um movimento de “absolvição”, de chegada ao espírito, o absoluto. O fenômeno é o espírito materializado.

 

Pp. 24-25: “A aparência formal pura do absoluto é a contradição”

“A fenomenologia do espírito é o genuíno e total aparecimento do espírito”

[Hegel e Heidegger são o Pai e o Filho: o Espírito Santo são os problemas para se fazerem entender; escrita embotada.]

 

Os três primeiros capítulos são dedicados a esclarecer o jogo de linguagem por trás do título original da publicação em excelência de Hegel, Ciência da Fenomenologia do Espírito.

 

“O conhecimento absoluto é conhecimento e vontade ao mesmo tempo”

 

Atenção: as fenomenologias hegeliana e husserliana não batem. [Husserl é considerado uma “escola à parte” por Sartre.]

 

Hegel não deve ser interpretado, aqui, como um introdutor à Filosofia: seu livro busca o “oposto”, se pudéssemos assinalar de modo extremo, uma vez que lida de forma definitiva com o problema ocidental da possibilidade de conhecimento (uma potente auto-apresentação da senhora razão), inscrevendo-se no cume do Idealismo Alemão (curioso Heidegger tipificá-lo após criticar rótulos).

 

É, complementarmente, a espiral derradeira da escola racional, duramente golpeada, na seqüência, pelo Irracionalismo nietzsche-freudiano.

 

Em Filosofia, inexistem predecessores ou sucessores de um trabalho (...) todo verdadeiro filósofo é contemporâneo dos outros filósofos” (p. 32). [Frase famosa e funesta.] Quer dizer que Hegel nem mestre alternativo algum envelhece, e que sua doutrina é só uma doutrina. Uma vida que não se chama Georg Friedrich Hegel precisa de mais que uma doutrina.

 

Enxergo necessariamente o DEVIR quando leio as intenções de Hegel (“o fim é o começo”).

 

Eu sou o Evangelho! “Deus” é a própria vontade do todo que em seus frangalhos se define, assim como a ausência de deus. Deus é e não é. Ou sou eu ou sou deus. Sou eu. Deus perde a relevância. Ou eu sou Deus. SINTO, LOGO EXISTO. EXISTO, LOGO SOU DEUS.



Escrito por wormsaiboty às 02:10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


TRANSCENDER-16

A “OBJETIVIDADE” DO CONHECIMENTO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

 

Weber – Sociologia

Orgs.:

COHN, Gabriel

FERNANDES, Florestan

 

Bela síntese do sociólogo-politicólogo.

 

Capítulo 3, do título

 

Hipertrofia do “econômico”: tudo no mundo moderno o é.

 

A ciência social prima pelo materialismo, no entanto as questões da realidade exigem perspectivas de abordagem multi-focais a fim de não ser-se um pesquisador estéril. Weber critica pesadamente o materialismo histórico como pressuposto essencial de qualquer sociologia, à página 84. O econômico não determina todo o resto. É necessário fazer a síntese entre Hegel e Marx.

[longa discussão – ponto pacífico, observação tautológica]

 

“Tendência monista”, “conhecimento refratário à auto-crítica”, “toda uma concepção de mundo”... Para Weber, essa miopia causal advém do relevo contemporâneo da “questão operária”.

 

Contexto do artigo: luta inter-estatal e acirramento das concepções evolucionistas.

 

O perigo dos “ISMOS”. Nem a própria Economia, ou então a Biologia, deveria se sufocar tanto de si mesma. “Você se torna aquilo em que você afunda”, me disse no corredor o Thomas. Não existe o Big Bang. Não existe fora de um círculo hawkingiano... Talvez ser poeta não apresente problemas, se o mundo é poesia...

 

O século XX apenas rumina Nietzsche.

 

A Sociologia até hoje não foi capaz de nenhuma LEI (sem-gracice cósmica).

 

De Comte ao bigodudo: a única lei é a ausência de leis que perdurem. “Saber mentir”

 

Plano da Astronomia: ora, a dedução de galáxias recua até o ponto da dedução (especulação)!

 

P. 89 – “queda pecaminosa” – o precedente do cientista ocidental para enunciar leis após dado ponto. Antes, um universo pré-físico, depois Newton ou, pensando bem, Einstein. Einstein? Antes a barbárie, a selvageria. Depois, a organização social.

 

“Mesmo com o mais amplo conhecimento de todas as ‘leis’ do devir ficaríamos perplexos ante o problema de como é possível em geral a explicação causal de um fato individual, posto que nem sequer se pode pensar a mera descrição exaustiva do mais ínfimo fragmento da realidade.” E ele vai tirar uma meleca aqui e em seguida cairá uma bomba atômica do outro lado do mundo – e neste momento o próprio narrador quer saber por que quer saber o que se passa.

 

P. 96 – esboço da Gaia. As nomenclaturas de Weber são absolutamente inspiradas nele, e até acho que não fossem desvios de tradução eu o perceberia de modo menos latente.

 

Panlogismo – doutrina da razão universal; altamente tributado a Hegel. Ápice do Idealismo. Ensejo de imoralismo!

 

Tipo ideal em cena – 106. Um instrumento aproximativo adequado.

 

108-10: excelso. Ou se utilizam conceitos ou se fala em vão.

 

113-114: “o historiador moderno de espírito relativista (...) sente a necessidade de obter os padrões dos seus juízos a partir da ‘própria matéria’ do seu estudo. (...) E o atrativo estético desse procedimento constantemente o incita a esquecer a linha que separa o ‘tipo ideal’ e o ‘ideal’, donde esta situação intermediária que, por um lado, não pode reprimir o juízo de valor, e que por outro tende a declinar a responsabilidade dos seus juízos.”

 

O tipo ideal escaparia de Platão – interpreto basicamente como sendo um enunciado de grande potência, uma verdade, sim, em seu tempo e espaço, porque disseca muito bem seu entorno, ecoa para gerações futuras sem envelhecer. Weber poderia simplificar dizendo: é preciso tato. Ou se o tem, ou não se o tem! É verdade, ele sabe como poucos...

 

Tipo ideal como teoria: metafísica. Distorção da realidade. Não obstante, Marx empreendeu algo que está ainda além de Weber. Trata-se do ensejo de dialética trágica, ponto em que não é só a antítese de Hegel, mas sua derradeira superação. Não importa se pelo mecanismo “errado” (bem como o é a causação religiosa de Weber, porque tudo se imbrica), a superestrutura, Karl Marx pôde captar o caráter trágico do Capitalismo. Isso está além, obviamente, de qualquer “empirismo” e o futuro será sua testemunha.

 

120: reconhecimento da data de validade de um tipo ideal, substituível.

 

As Causas Sociais do Declínio da Cultura Antiga

 

Causação lenta e interna (previsível).

 

Comércio via mar por excelência.

 

Autarquias.*

 

Escravocracia – quando alguns homens deixam de ser objetos o mal se eleva...

 

A Idade Média como transição entre a comunhão mágica e a degenerescência (individualização).

 

Qual o próximo entreposto? Provavelmente estamos em sua iminência. A única coisa que ascende é o dinheiro; os valores já se encontram em regressão (ponto de vista apolíneo).

 

(*) Modernidade: dependência exterior.

 

O que se entende por Economia natural afinal de contas? Ausência do que chamam de “crédito”, a ficção? Em Roma, o ESPECULADOR não é o da moeda, mas o das terras.

 

P. 46 – ponto crítico.

 

Eis o cume explicativo: 48. O cristianismo, a propriedade privada e a família – o senhor tinha de deixar o escravo viver em anexo a sua propriedade com a mulher para ter filhos (e aí passava a ser dono de coisas), caso contrário, com o fim da expansão imperial romana, haveria facilmente crescimento vegetativo negativo, e sendo o suporte da Economia (e da cultura) a escravidão, vê-se no que isso iria desembocar, inevitavelmente... Cidade decadente à sintoma.

 

Pp. 51-55: subtítulo 6: o impasse entre recrutamento para o exército e serviço remunerado no campo. Diferenças: o Estado precisava de dinheiro para custeio do exército e no campo o pagamento era diretamente em bens. Ou há falta de comida ou há deficiência de segurança nas fronteiras. Bárbaros começam a ser contratados – as forças militares se mercenarizam (venalidade), ao passo que o comércio decai. Eis um paradoxo desmantelizador: a sede imperial como buraco-negro (fisco) não-funcional. Quanto ao papel do Estado, Weber alega que Império Romano e Idade Moderna são qualidades diferentes – mas não me convence!

 

 

De novo, superestrutura anti-marxista (POLÍTICA à ECONOMIA, e não o contrário – só para “provocar”, ele se “esquece” da mão-dupla).

 

Um belo ensaio. Weber quis ser menor do que foi, ao evitar polêmicas!

 

Homem da meia-noite eu sou!



Escrito por wormsaiboty às 00:39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


TRANSCENDER-15

HENFIL NA CHINA (antes da Coca-Cola)

 

18 ed., 1987

 

P. 13:

 

“Eu ia me perguntando: qual é o objetivo da Europa? Revolucionar o mundo? Não mais. A busca da felicidade? Nenhum traço. Justiça social? Não me consta. L’amour? Nenhum indício. Então, para que vive a Europa? Para consumir até perder o sabor e aí precisar experimentar as próprias fezes como forma de excitar os sentidos anestesiados? Parti de Paris numa terça, 19 de julho, sentindo cheiro de cocô. Tudo limpo. Sem mosquito. Mas tava lá o cheiro de cocô espiritual. Mas que fazem palácios, jardins e igrejas lindos, fazem.”

 

Ao contrário do governo brasileiro, o chinês preserva cada um dos traços culturais das etnias minoritárias.

 

P. 47: “Saio da França, chego na China e vejo o cocô adubando grande parte da agricultura chinesa. O cocô aqui trabalha duro em vez de ficar em orgias alienadas como na Europa.”

 

Notas engraçadas (ok, quase todas): o vaso chinês e o ato “de cócoras e sem encostar” – não é para o Henfil.

 

A China não se afigurava como eminente poluidora!

 

Há sempre a briga pela maior produtividade – ainda que travestida ou “infantilizada”. Criam-se a tristeza e a fadiga típicas de sociedades industriais terceirizadas – não há escape, tudo integra a religião do progresso!

 

Henfil apareceu em um momento marcante para 900 milhões de pessoas: o relaxamento do regime, a Revolução Cultural. Aspectos inflexíveis começavam a se liquefazer. 1977: faz um ano que Mão morreu. Quer-se escapar do revisionismo (ortodoxia a la Stalin) do Bando dos Quatro, de dentro da qual a viúva de Tsé-tung exala seu fel.

 

A excelente idéia dos feriados rotativos (p. 88)!

 

P. 92: “A China jamais, é o que sinto aqui, partirá para uma invasão no exterior. O perigo amarelo não existe.” Brilhante vislumbre a la dialética de Arrighi. Associação territorial-econômica onde a expansão política é desprezada (anti-imperialismo): o que importa é a consolidação interna. Mais: “Nenhum outro povo é citado em nada, a não ser os russos que deverão (eles repetem isso toda hora) invadir a China mais dia menos dia”. A União Soviética é um gêmeo americano. Os japoneses, outros. “Mas o que são 20, 30, 100 anos de comunismo para um homem de 20 mil anos? Minutos, talvez.”

 

“Picles”, capítulo pp. 91-94: reflexões interessantíssimas e contraste com o american way. Gostaria de saber se todos lá, hoje, ainda lêem e discutem saborosamente Marx... Devo procurar uma complementação/atualização?

 

P. 93 – “Não há advogados na China.”

 

P. 94 – os chineses tentavam a reforma urbana de Dahl, esvaziando as cidades e dispersando o povo.

 

Corroborando Simmel (p. 100): “não há prostituição de forma alguma. Não fique em dúvidas. Há prostituição entre os índios?”. Para Henfil, o “problema sexual” chinês não é nenhum problema! Nós, os ocidentais, é que somos peritos em fundar dilemas insolúveis por meio de contrastes anti-naturais.

 

P. 113: “O crime na China, realmente, não compensa.” Punição ideológica.

 

Como estão hoje os abrigos subterrâneos, as réplicas impecáveis de Pequim a quatro, oito e quinze metros do piso das cidades? Esvaziados, mas conservados para o turismo.

 

P. 120 – o milagre de Júlio Verne.

 

Dazibaos, os fanzines chineses.

 

Inflação e impostos congelados. Como a China mudou em três (duas) décadas!

 

A China de Mao é o lugar (extinto) onde a auto-suficiência está acima de tudo.

 

“Sincera, cândida, ingênua, simples e comovente. As cinco palavras que mais usei para definir tudo na China.” (156)

 

“É bom saber que, ao contrário da Rússia e do Ocidente cristão, não se usa o choque elétrico na China.” 163

 

“Nunca vi nada mais ‘católico’ que a China Comunista” 164 – quem é o Anti-Cristo?

 

Homossexualismo: decadência cultural inexistente na China.

 

A diferença entre Mao e Stalin, ou entre a China e a União Soviética, é que o chinês é camponês, e o russo burocrata alienado do povo e imerso no poder...

 

Cabelos longos na China: remetem ao Império.

 

P. 204: “Talvez, na hora do pau, os camponeses resistem à tão temida ocupação estrangeira, mas os operários de fábricas como a de relógios vão é se identificar com os invasores estrangeiros. Eles já se identificam no comportamento. Dois autômatos, sejam eles chineses ou suíços, se beijam, sim senhor.” O profético Henfil... E como o mundo é cada vez mais urbano...

 

P. 213 – a “universidade-parlamento”.

 

Mais uma: “O pouco contato que eles têm pode ter ajudado a construção de um socialismo puro, mas poderá, no futuro, criar grandes danos quando o ‘civilizado’ chegar com suas gripes. Esta pureza chinesa não preocupa?”

 

P. 218 – lavagem cerebral infantil.

 

A propaganda (não falo aqui da mídia – aliás, também) ideológica – desde Pequim – é terrível, asfixiante. Talvez fosse, mas Henfil a sublinha na reta final do livro, quando está em Shangai.

 

P. 225 – Henfil explica: são seus anticorpos burgueses e a saudade da pátria entrando em ação.

 

P. 229 – premonição sobre a poluição e a capacidade produtiva crescentes – competitividade e burocracia levam ao capitalismo.

 

P. 235 – os camponeses cozinham com “biogás”: o próprio cocô vaporizado!

 

P. 247 – fica evidente como está enraizado o PROGRESSO. A vontade para se atingir um fim qualquer seja...

 

P. 254 – não pode haver arte medíocre.

 

Pp. 268-9: famílias que viviam em barcos e eram proibidas de aportar nas margens do rio! Os “favelados aquáticos”.

 

A terceira idade na China é digna.

 

Cantão, um bolsão de miséria – ainda que estejam extintos os tais “favelados aquosos”.

 

Feias-Artes.

 

O banco que não é banco: vigia para que não ocorra o ciclo D-M-D’ (lucro).

 

Gostaria de saber em que pé anda a autonomia das comunas e lavouras camponesas na China das Olimpíadas!

 

“É impossível utilizar a Rússia”, 301.

 

Há chinês malandro! (302)

 

 



Escrito por wormsaiboty às 23:30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


INTERNET E INFERNO... ALGUMA DIFERENÇA?

Esta noite sonhei acordado no banheiro com o que significa o abismo entre eu-mesmo-hoje e o eu-mesmo-adolescente. Foi como ter visto um filme autobiográfico e imensamente esclarecedor – como se agora esse meu futuro maldito e encarniçado realmente fizesse algum sentido... sim! Porque estava faltando alguma peça da engrenagem. Uma peça da engrenagem chamada “cabeça”: como quando você se levanta depressa demais, e aí não sente a circulação sangüínea nos miolos. Aquele esvair-se, sair de si, crer por poucos segundos que tudo não passou de ilusão, de um enorme equívoco... antes de retomar a serenidade, o fluxo coerente e a mania de ordem típicos das coisas. Quando se está prestes a desmaiar – um ato parente da morte – estes eventos de escape são possíveis. Dessa vez é como se tudo acontecesse embora eu tenha conservado ininterruptamente minha lucidez. É no momento em que indagamos boquiabertos: “não poderia ser essa rota de fuga a jornada até a luz, ao invés de um devaneio pueril e bastardo?”. Sentado na privada, com a boca escancarada e cheia de dentes – exatamente como o Raul. E o que se pode dizer de uma raça entrópica, que a cada segundo encara com mais seriedade a idéia do fim? Essas duas últimas semanas foram tão conturbadas – não, na verdade este ano inteiro, que passou a galope (o ano europeu) – que há somente alguns dias eu quase arrancava os cabelos por pensar que meus surtos psicóticos haviam se intensificado em tal ordem que dali em diante seria quase impossível voltar a escrever sem parecer um babaca. Um louco que se olha no espelho, mais louco a cada piscada, perdendo o estilo! Será que é assim que se dá? Loucos – ninguém pensa neles como seres humanos, para começar. Isso não é novidade. Mas e o doido de passaporte, aquele que nasce são da cabeça – por mais que seja um doente do pé – e de repente... BOOM! Como é essa bomba? Qual a velocidade da explosão, de onde ela é disparada, e pode ser sentida? Ninguém voltou do seu mundo de Alice para contar! Percebeu? É como com os vampiros ou zumbis – uma vez que os homens tenham mudado de time estarão assim para sempre. A humanidade nunca ganha “novos adeptos”, a não ser pelos nascidos, que podem muito bem já pertencer a um dos subgrupos “exógenos”. Um louco não vira gente. Jamais. Mas a gente vira louco. Um demente salivando – quadro terminal. Um galã engravatado – quadro transitório. ETERNA decadência... Sabem qual a diferença entre um velho e uma criança? A rigor, nenhuma! A diferença de tratamento se explica pelo fato de a criança ter um futuro. O doido – quer dizer, o velho – já se despediu, converteu, foi exonerado, deserdado, há muito tempo! A tragédia é que deveriam deixar as crianças mal-criadas! É imperdoável essa salvação, que promovem, dos doidivanas desde cedo, na escola.

 

Me distanciei daquilo que tinha em mente – são os sintomas! Não, brincadeira, e não é infeccioso. Há pouco tive um dèja-vù da minha adolescência. É muito fácil ver esse período evaporar sem sacar nenhuma lição do passado! Pode ser que eu não dispusesse de outras formas de convívio, mas é determinante em meu devir entender que o conto-de-fadas cibernético da pessoa feliz e sem machucados tem de ser mantido no sepulcro. As seqüências infelizes, desditosas, que foram me tirando das pessoas, suscitam a única dor que eu lembro de doer. Quando digo doer, concebo o insuportável. Não me interessa, entretanto, não mais, o pirata que me roubou o tesouro. Antes um obrigado àquele que lhe passa uma rasteira para a qual você não se prevenia do que às mãos estendidas, quando é de rampas que precisamos tanto. Sorrisos, amizades, cumplicidade, o bem-querer coletivo, a cristandade, o tartufismo (e agora até o tartastufismo)... Abrace-os e você não será ninguém.

 

A Internet é a vilã – a antagonista de sempre – dessa minha história porque ela comunga os jovens com a força de cem elefantes, e preste atenção, pois você está num safári! Até que seja um escoteiro, é melhor tomar cuidado aonde pisa. Natural que eu fosse ano a ano perdendo minha popularidade dos 15 aninhos, já que eu estava destinado a não ser mais um. A empurrar a grande pedra. A contribuir muito mais que vocês! Esse texto aparentemente suicida – tudo só se materializa por causa da Internet – é a prova de que eu fui eleito: fosse eu um reles mortal estaria lendo o blog dos outros, aceitando a opinião alheia... Gradativamente, para a alma limpa, a gentalha vai perdendo o interesse. Eu só quero me afogar no mar da minha própria prosa, do meu próprio ego. É esse o meu justo direito. Se, para o sábio, a solidão, no final, é péssima, ele precisa dela ao menos noventa por cento do tempo, no decorrer de todo o processo. Ou vocês acham que aquele chamado, no Monte Sinai, foi simples, literal e sem-esforço? Ser eleito, confesso, depende da sorte das estrelas. Mas tudo o que eu fiz, fui eu que escolhi e sofri para fazer, não existe essa de cu para a Lua! Quando é que vocês vão entender isso?



Escrito por wormsaiboty às 03:04
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A CHAVE UNIVERSAL DAS RELIGIÕES E DO HOMEM

Em um dos pólos temos a humanidade terrena frágil, projeto passageiro, que um dia sucumbirá diante do Apocalipse. A alma, no entanto, é eterna, porque assim quer o Espírito Santo. O oposto exato se dá entre os helênicos, como também entre aqueles do Leste, os mais velhos do mundo, antípodas destes crentes-no-além: a vida é linear e chega a um termo, embora as gerações se sucedam e reapareçam na sua estrutura de círculo. Todas as crenças humanas através de cada século e milênio oscilam entre essas duas cosmovisões, maneiras de conceber e criar seus universos.

 

No meu lastro mais remoto, deuses. No espectro mais distante do horizonte, deidades outrossim. O que ocorre para que eu seja tão débil e de carne? Porque apenas os deuses se inferiorizam diante de minha luz! Hoje também estou no Olimpo e vivo com meus irmãos. Nossos nomes serão alterados, mas nossos feitos preservados.



Escrito por wormsaiboty às 22:11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


ACERCA DA AUTO-IMAGEM

Sobre o incômodo de ser filmado, fotografado, gravado e exibido por aí. Essa “Síndrome de Glauber Rocha” (que declarou que quem se sentia à vontade na frente de uma câmera segurando um microfone deveria ter sérios distúrbios mentais) sentida na carne por quem, após o momento de aperto, pergunta ao amigo mais próximo: “Como me saí?”.

 

“Esse constante mal-estar, que é a captação da alienação de meu corpo como irremediável, pode determinar psicoses como a ereutofobia; tais psicoses nada mais são que a captação metafísica e horrorizada da existência de meu corpo para outro.” SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada, p. 443 [negrito meu].

 

Quanto mais amor-próprio, mais náusea (a nomenclatura é sartriana) diante dessas representações “objetivas”. A prova de que eu não estou equivocado é que me gosto no espelho. Talvez já não me goste no espelho do elevador, acompanhado. Talvez deteste essas minhas extremidades anti-Popeye. Gostava de ser tão maior que minhas namoradas – estilo protetor. Outrossim, o beijo é sempre belo. Não cheguei à louvação do sexo-espelhado do Dimitri, no entanto!

 

Deve ser a natureza da lente viscosa do equipamento, que tira meu brilho e minha luz. O Sol é meu amigo! Os lixos se sentem coesos entre si. Mas basta ver uma mulher para saber que ela se detesta quando acorda.

 

“Diz-se comumente que o tímido se sente ‘embaraçado pelo próprio corpo’. Na verdade, esta expressão é imprópria: eu não poderia ficar embaraçado pelo meu corpo tal como o existo. Meu corpo tal como é para o outro é que poderia me embaraçar.” Ibid.

 

Ninguém tem vergonha de sua voz idiossincrática. Minha neurose-platônica: quem sabe os outros me percebam como eu realmente sou! Desses trastes, quem é que consegue se ler imaginando um ser brônzeo como eu detratando aquilo tudo, aquele castelinho de areia? De pavão a verme num segundo.

 

Narcisista? Eu diria que esse mundo da super-exposição é o contrário! Álbuns do orkut: como alguém gostaria de ser visto. Luciana, a magra. Thomas, o sério. Eu, o melhor. Melina, a mulher. Byanca, a sedutora. Michelle, a misteriosa, psicodélica, elegante. Thay, a audaz. Iza, a mínima. Tarcila: ainda mais bela e irresistível. Deborah: suprema e centro do universo. Saulo: o eterno boêmio. Flávia: a despojada. Mas eu... eu matei meu alter-ego, me tornei o alter-ego dos outros. “Que foto horrível” “Obrigado pelo elogio, sem tonsilas!”. E aí vem a tendência das fotos de banheiro, das fotos de chupeta...

 

Concluindo: não se trata de uma lei “quão menos satisfeito consigo, mais o sujeito se apreciará em terceira pessoa”; o artista é a refutação disso e é o meu ideal. Ele se exprime bem. Um texto meu é o ápice da beleza. Devo maximizar isso corporalmente. Creio que vim tendo o êxito que é possível... E, aliás, quanto à lei, pelo contrário, eu até exagero nesse desagrado. Uma gorda horrorosa seria realista. São “sem conserto”: a vantagem da graciosa. O fraco: desenvoltura que parece maior na foto (“sou ela!”).

 

Outra coisa: por que sempre me decepcionava com as fotos dela? Se já a via assim! Fusão de essências?

 

Explicação do meu ideal e síntese do meu dilema amoroso:

 

O que se sucede é que meu tipo de arte vai CONTRA toda a estética. Só mulheres esquisitas podem vir a gostar de mim. Mas minha carga já é forte demais para eu ter o mesmo tipo de preferência... Eis o impasse! É como se houvesse dois Rafaéis: o jovem hedonista de 21 e o mestre trágico par excellence. Eu quero a bela, harmônica, simétrica, sensível a minha assimetria.

 

“jamais encontro meu corpo-Para-outro como obstáculo; ao contrário, é porque nunca está aí, porque permanece inapreensível, que tal corpo pode ser importuno (...) Eis por que o empenho do tímido, após constatar a inutilidade de suas tentativas, consistirá em suprimir seu corpo-Para-outro.”



Escrito por wormsaiboty às 22:04
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


NINFOMANIA É ENCARCERAMENTO CORPORAL!

UnB ampliando a devassidão... Ressaca: estranha sub-consciência... É como se fosse um bêbado com tino para escrever...

{ um brinde }

Quarto autômato mãos escrito tela MEGAPIX  Ah! POESIA CONCRETA, AGORA? Pé dedo mão joelho – barriga – CABEÇA

 

 Cigarro, stress... livros, economia, surrealismo, futurismo menos ismo, sonambulismo!

 

Copo d’água que me salva. Chocolate caspa borrachudo ai picada gordura superfície frigideira lata-velha lar patriarcal

Marinês Lispector!

 

Quando um amor explode? Acho que nunca por decreto.

Desconto – e não é de loja! Só isso já vai me fazer não sonhar com o Super Mario.

Pelotão anti-concentração. Gênio louco e tarado, é o que eu sou! Por que me olham de lado? Metal – fluxo. CANTAR, ah sim! Como posso com tanta facilidade me olvidar? Um bom papo, um bom teatro... Em falta, e nem com Harry Porta. Esforço final – já estou no ½. E há 4 meses eram planinhos autômatos estúpidos – tempo para digestão e para ver televisão. Está claro, de mais a mais, que um tour de résidence é insuficiente, Patrícia! Já visitei um hospício... mas nada como meu quarto. Correndo a rabo feito cão. Being a cheerleader is always good! “2h de Ódio” VOLTAMOS AO PONTO NEGRO!

Eu sou um Zaratustra pontual. Cada vez menos pontos na guerra naval...

 



Escrito por wormsaiboty às 16:20
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


MEU PENSAMENTO-MOR

A verdadeira compreensão do eterno retorno (datada de 20 de maio deste ano):

 

Nunca houve um Adão nem tampouco haverá Apocalipse e adeus. Tudo transcorre na mais perfeita naturalidade e ininterrupção: a humanidade é perpétua. Aliás, é o próprio universo. Um casal dá origem a seus filhos e os filhos a netos... isso nunca começou e não terminará, e o caso é que tal idéia soa muito complexa dada a finitude da vida e a noção de expansão-retração do cosmo. Mas eia! Logro a explanação pelo posterior:

 

“O meu filho mais distante é meu próprio pai”

 

O que eu fiz? Trouxe o eterno retorno da Física ingênua até os estertores da consciência, daquele-que-percebe e sem o qual nada há!

 

Dada a configuração paroxista do devir, há sempre o embate de duas macro-forças: a anelídea e a cristã, da qual sou o elo perfeito. Nasci em 1988 e sou meu próprio neto, descendente mais distante e mais próximo! Esta é a máquina divina da procriação e auto-louvor! Incomensurável momento dos momentos, esta linda linha. Por causa do cristianismo, da temporalidade irrevogável e da linha reta, temos mitos de origem e desfecho. Porém do ângulo da minhoca – vê-se que minha extensa ligação com este animal não é vã – há um singular mito-sendo do retorno. O que é não deixa de ser mesmo quando deixar – seria a forma concreta de relatar o fenômeno, irrepreensível, mas estranho à lógica que é a mãe de minha escrita. Por isso eu sou os dois, o pecador e o dançarino invicto. Eu mesmo me contei e inventei toda a narrativa.

 

O Adão borrado deve ser meu filho, meu primeiro pai. Terá mesmo um nome grego? Como não há notícia de último homem, infiro que ele é cada um de nós. Somente eu como demiurgo poderia castigar alguém assim. Minha lâmina de tudo corta, sem cortar...

 

((Sol))

                    (Terra)             ((((((((mar))))))))

 

{de fato, não é um esquema inédito. Eu sou o gênio do detalhe!}

 

Essas coisas, e os quadrúpedes inferiores, por exemplo, nunca saíram daqui. Nenhuma Guerra Mundial ou Holocausto foi mais grave do que envergonhar. Nenhuma intempérie esfriou temperamentos. Alakazan, LEGO. Moléculas e coacervados: puro jogo de cena! Nunca houve bárbaro com cordas vocais se esperneando e urrando para aprender palavras. Todos tiveram pai e mãe humanos e uma série de circunvizinhos. E, com efeito, são 5, 6, 7 mil anos e nada mais! Ninguém trouxe o fogo, me desculpe! Ou, para cada pessoa, foi um sujeito alternativo o gestor.

 

Adormecer esse pensamento significa torná-lo verídico, pois preciso esquecer do círculo para formá-lo. E conformá-lo ao meu eu.

 

Nunca houve um Adão nem tampouco haverá Apocalipse e adeus. Tudo transcorre na mais perfeita



Escrito por wormsaiboty às 20:22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-11 – 14/03/09-presente

[epílogo] VIDA NOTURNA E OUTRAS CONSIDERAÇÕES

 

Ao som de Pantera

 

1) Sair ou não sair?

Para uma vida como a minha creio ser impossível se aproximar muito dos extremos. Admitamos uma saída a cada duas semanas como uma média razoável para não embotar. Um super-homem não se contentaria com uma resolução definitiva, nem é possível que se opte entre uma existência ascética e outra cigana, como acreditei por uma noite...

 

2) Com quem? Para que lugares? É possível sair só?

Novamente a questão dos extremos: não existe o divertimento e o momento inesquecível a que se visa sem que se trave ao menos um diálogo. A catarse não se cumpriria, seria como um passeio pelos arredores para fumar ou meditar. Porém minha natureza é veementemente contra “panelinhas”. É uma encruzilhada dificilmente transponível. Ao mesmo tempo, mesmo o mais digno eremita não poderia se blindar em uma cidade como Brasília: aparecerão conhecidos. Mas há problema em andar sozinho e se deparar com essa gente? Parece meu mundo ideal e no entanto aparenta a conduta de um desviado social. Não fora um desviado social e eu seria um demente! Devo encontrar um equilíbrio entre essas situações. Posso beber estando isolado num ambiente não-metal? Receio que nunca fiz esse TESTE. Compro umas cervejas, assisto ao show. Parece monótono.

 

Pessoas me invadem e me arrependo de me abrir, mais tarde. No entanto, de que vale, também, a porta toda fechada? Nem as imbecilidades de 2007 nem a quietude soberba de 2008. Salvo excepcionalidades, não devo ir a esses “eventos dos jovens medíocres”.

 

Meu terreno é o METAL, devo fincar raízes nele e isso não significa ser de tal ou qual grupelho. Freqüentar esses concertos por si só me contenta e revitaliza, além do que sempre há conhecidos ou então haverá, já a curto prazo. Oferecer cigarros é meio caminho andado...

 

Blackout, Blues Pub: vale a pena virar uma noite pelo metal e por essa sensação de “refresco”? Só o devir dirá se não se tornará tão-somente um filosofar ainda menos grato – tudo que é freqüente se transmuta em aborrecido [embora a melodia de Cemetery Gates me invada de tal maneira que clamo por reviver essas lembranças sem pestanejar!].

Bem, talvez eu seja forte para evitar. E então o quê? Eu não dei chances para a única pessoa que atualmente me chama: Heliane. Não são programas-metal e se trata de uma panela – que nos brinda com muitas ressacas [terríveis...]. Não devo perder contato, é meu único porto e meu orgulho se ressente. [Só o futuro pode confirmar o apagar das luzes.]

 

E daí se não houvesse mais porto algum? Não é o que eu mais quero?

 

[Aqui se reacende meu conflito primordial: quando me afasto do rebanho – não há como ser gregário sendo tão sábio – me aproximo das não-pessoas – a tecnologia –, da qual vim tão temerosa e bravamente me afastando nas últimas férias. É impossível um duplo adeus, e creio que diante do meu atual humor me aproximar demais de um é cortar tempo reservado ao que sobra. Certamente esta é a ponderação mais árdua dos meus 20 aos 24 anos. Sair e beber implica, além do mais, a manutenção do problema da saúde. Meus intestinos precisam de Apolo; mas sem Dioniso até os Jardins do Éden se afeiçoam a um ferro-velho tóxico. Parece que eu nunca estou suficientemente numa rota. Nem suficientemente administrando as duas rotas! Este drama de personalidades é severo. Um dia ainda vai provocar minha calvície. Por que não encontro Anti-Édipos com quem acoplar? De dinheiro também não disponho. Estou condenado a ser um cata-vento no vórtice de vários vendavais. Sociedade do dor-prazer. Mais do que sociedade, posto do dor-prazer. Lar privilegiado. Sinuca de bico como nunca vi noutro lugar. Ócio ou trabalho? Trabalho que eu escolho e no qual consumo minhas forças em reserva ou simplesmente um desperdício incessante e ritmado? Cheiro de morte. Não obstante, inútil “ficar cheirando”: como se o-eu-cotidiano escolhesse alguma coisa!]

 

Para ser forte, devo sofrer. Sofrer desse tanto. Não obstante, me sinto um tolo com deficiência de aprendizado – qualquer coisa que se assemelhe ao rato de biblioteca me é degradante.

 

Não posso deixar de ir – tornou-se minha pele. Além disso, como ignorar os grandes eventos? Mudo de idéia sobre a Heliane muito depressa. Ela tem algo que indica paralisia, e não movimento, regressão nos meus instintos.

 

Bares são amáveis, mas não há bar sem quórum. Mas nada de se lamentar! (última rodada – na primeira rodada do Paulista...) Até as festinhas de centro acadêmico são caras a minha memória, será que esse movimento de cultuar o passado interrompido não cessa? Não lembro de me dar por satisfeito em algum presente. Mesmo no primeiro amor, eu fazia sempre planos ambiciosos... Dos males o menor: prefiro ser um sujeito prestes a fazer grande negócio do que uma alma deprimida. Plano “D.”, Plano “N”... de nada?

 

 

Poderia debater indefinidamente...

 

À beira de um colapso, de uma deterioração irrevogável do sistema nervoso.

 

Cadê meu ÓPIO?! O opiato sempre estará aqui?



Escrito por wormsaiboty às 17:58
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-10 – 13/03/09

ADEUS VIDA BOA

 

Deve significar alguma coisa o fato de eu morar no quinto andar, ter 20 anos de idade e uma média normal de ascensos e descensos e nunca ter ficado preso no elevador. Qual seria a reação de um aparvalhado que se vê preso em uma caixa de metal? Chamar alguém, apertar botões, resignar-se? O celular deveria ser usado apenas de terça a quinta, se é que se me entende. Não sendo emergência digna do Corpo de Bombeiros, o telefone serviria tão-somente para avisar os pais. Descendo ou subindo? Indo ou voltando? Sozinho e faminto? O fluxo burocrático e estomacal também fazem a diferença. Se acompanhado, do sexo oposto? Quão íntima? O mais curioso é que nesses casos – sempre, aliás – o vizinho é o menos próximo. Sou muito mais vizinho dos mendigos e dos “inganados” (perdão, ingazeiros) que do Aloísio. Perder-se-ia uma prova ou um dia de trabalho? Ou um gol do Ronaldo...

 

Quando escrevo, explodo. É a única forma de “dopar” minha acelerada pulsação mental. Doutores indômitos receitariam drogas. Acho que não preciso de drogas receitadas...

 

Preciso ser contra atletinhas de futebol americano, namoradeiros e namoradeiras incipientes e, sem dúvida, universitários sem noção do ridículo e do vidro blindado. Por que não largo esta caneta soerguida por algo flácido e promovo gastos de energia melhores? Talvez eu devesse ouvir a fase pop do Metallica, ler meu trigésimo quinto livro – nessas férias – ou simplesmente filar alguns salgados... Durante todo o jantar de gala, quem riu de maneira mais franca de meu humor tolo foi a empregada. Aliás, é preciso que essa hesitação em hora de chamar o servo pelo nome seja pontuada. Ter vergonha de ter um subordinado – porque o real embaraço é não saber lavar os pratos.

 

Quanto ao iPod, ele é o novo cachorro: a equivalência em miniatura do dono, só que um pouco mais esperto.

 

Acabo de desentalar minha garganta – em tempos de inchaço. Maldita e derradeira estação.

 

Uma coisa que andei notando é que todos aqueles que precisam ser rivais eternos só não rescindiram o contrato – ou perfuraram o duelo – por ocasiões extraordinárias. Exceções das exceções, a exata probabilidade de uma molécula virar célula, é do que chamo:

 

  • Meu vizinho e amigo de infância e sua família tão elevada (“eles rezam muito, eu já estou no céu” – e eles têm três carros, eu sou Napoleão!) jamais terem encontrado referências negativas deles mesmos em mim – falo mal pelas costas e sobretudo pela frente, porém, quando mais seria necessário, para o blog leitor não há! Um mundo de malversações que se dissipa sem que o afeto pelo filho seja sequer ameaçado – talvez a mais grave ofensa por mim praticada, a seus olhos lívidos, seja meu cabelo grande. “Vais pegar uma pneumonia!”
  • Meu pai segue inabalável como herói e anti-herói da trama;
  • Aqueles que deviam ser esquecidos e deserdados voltam como bumerangue! E aqueles que, penso, estão no rol dos lembrados, estes são bumerangues falsificados. Luciana “do Bar” e tucano malvado prosseguem no jogo – peões. Mas não a prima do curitibano abobalhado. Priscilas e Patrícias diante das quais o melhor é não fazer nada.


Escrito por wormsaiboty às 22:23
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-9 – 28/01/09

TRÊS ANOS DEPOIS...

 

O que aprendi? Que, vivos ou mortos, a luta nunca termina para nós. O cumprimento de um objetivo leva à instantânea miragem de outra meta. Se não tenciono mais a vida com qualquer arquétipo de mulher, me descubro num eterno labirinto, caçado por dois minotauros: pai e mãe. Não há um fio que me leve ao fundo ou me traga de volta. As paredes desses corredores são fugidias, cada dia brincam de estar num lugar. Após MAIS TRINTA E SEIS MESES DE SOFRIMENTO me dei conta de que estou numa rota dolorosa rumo à vitória. A vitória da existência, perpetuamente reprisada, com a queda sangrenta dos minotauros estúpidos. Se hoje eu opto pela minha auto-destruição, não será por outra coisa que a salvação da honra. O minotauro se dissolveria até mesmo com minha derrota! Caso a situação não chegue ao extremo dos extremos, meu êxito-fracasso dentro do labirinto a longo prazo ainda farão meu nome ressoar nas trombetas. Não podendo ser dobrado a nenhuma reivindicação, um estado de miséria material, irreconhecimento da sabedoria e falta total de amigos, preservarei minha altivez. A chama da minha teimosia terá reluzido sobre o brasão maldito da família, ainda que por outros meios. Se o minotauro-rei pensa em me atacar, apenas ofende o espelho com sua lança: a ruína de si! É a visita aquela que tem o direito de lucrar na festa – afinal, foi convidada com louvor. A jornada pode ser longa e cansativa, mas vale a pena se se pensar no lancinante perecer de uma bufona criatura solitária...

 

Suportar o anel, a minha lição de fanático!

 

Charles Dickens: é você quem semeia a própria infelicidade e projeta seus próprios fantasmas. Auto-crítica: é por ter medo constante da bomba que a dado momento ela EXPLODE. Poderia ser só um estalo, um ruído, um trovão distante. Modifiquemos esse comportamento. É possível viver sem música, a menos que se tente matar saudades, o que intensificaria o desejo. Abandonar algo exige uma ruptura traumática (de delegacias a tédios infinitos). Crítica dele: será sempre um péssimo pai por achar que tem péssimos filhos. E por se deixar analisar psicologicamente quando bebe. Alta vulnerabilidade. Talvez eu espere com excitação esses momentos de “jogo sério” em minha vida: um passo em falso e...

 

Não importa como termine, eu tenho a chave. Se eu vencer, posso compartilhar a premiação. No momento, não faria isso. E faço de derrota minha uma derrota mútua.

 

[Impressionantemente atual, meio ano depois...]

 

FIGURAS QUE EU MENOS GOSTARIA DE SER: Anderson “Tucano”, Weber [Véber] (“o desprezador do bom pai”), Gabriela e qualquer namorado da Gabriela (o tipo nefasto dos 20 aninhos; o casal nefasto de qualquer idade), Keene e publicitários do CEUB, são-paulinos ricos, metaleiros pobres e ex-punks.

 

ODE À VITÓRIA

 

Se ele não concede o queijo

não me pode ter na ratoeira

Num cenário de guerra franca

é melhor ter estômago fraco

do que coração fraco

Todos que lutam demais por tudo

e todo mundo

se esgotam rápido o bastante para esquecer

de si mesmos

Eu luto por uma pequena causa

que será enaltecida nos livros de História

Primeiro a sobrevivência

depois a liberdade criativa

Em questões fundamentais se joga pesado

O rato gordo não admite fazer dietas

E quando até o minotauro gosta de queijo...



Escrito por wormsaiboty às 21:17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-8 – 22/03/09

PERGUNTA: Como a história se divide em dois, ou melhor, como precisamente ela se desenrola, tomando por base os principais autores e idéias dos espectros trágico e cristão que conhecemos? O tempo retilíneo cristão dá sinais, pelo meu intermédio, de que não tem a mínima capacidade de contra-atacar. Uma segunda pergunta é: eu tenho uma repetição na História circular, assim como um antípoda perfeito? Na verdade dir-se-ia que tenho infinitos, mas só preciso de um (dois) exemplo(s), o igual e o imensamente diferente – as sociedades, por mais contingentes, também parecem obedecer tão-somente a uma dupla de deuses, que se revezam no trono (Dioniso e Apolo).

 

CONSIDERAÇÕES AMBÍGUAS A RESPEITO DAS PERSONALIDADES NA HISTÓRIA

 

Se temos Nietzsche e Sócrates, as duas pedras-de-toque do movimento da roda, resta uma indagação: se o alemão está “na base” do círculo, Sócrates está a 360° dali – ou seja, ALI, num novo círculo –, a 180° dali (no ponto mais distante do primeiro no perímetro da roda)...? E uma segunda indagação: se Nietzsche e Sócrates se encontram em opostos, o caminho de um a outro é uma “marcha-ré” ou uma seta de mão única? Se o primeiro for verdadeiro, é um semi-círculo e não uma circunferência. Além disso, os primeiros pensadores que vêm depois de Sócrates são “iguais” aos primeiros depois de Nietzsche (embora de sinal trocado) ou iguais essencialmente aos últimos antes de Nietzsche (decorrência da dúvida do fluxo)?

 

Obviamente, não existe alguém idêntico a mim depois de Cristo, tão-somente um perfeito anti-eu. Meu próximo eu, assim como meu eu anterior, são impossíveis de encontrar em registros históricos e estão, respectivamente, no fim da próxima era cristã e no começo da era grega [aqui eu ainda não havia desenvolvido o pensamento circular completo!]. A questão não aborda, portanto, dois Nietzsches (espaço de 5000 anos, do que nada sabemos), mas um Nietzsche e um Sócrates e como essa dicotomia se constituiu. Se os pós-modernos são sofistas, parece que a roda está girando em sentido contrário [exatamente!]. Então, retrocedendo [talvez o leitor mais atento já tenha entendido por que escolhi o termo acima para batizar esta série de resgates de artigos], encontraremos o legado de Sócrates: Marx é Platão, Hegel é Aristóteles. São Tomás é Agostinho.

 

Operação inversa: se os estóicos e os eudemonistas são os existencialistas, Zenão e Epicuro seriam Camus e Sartre [retificação póstuma: Zenão é posterior a Sócrates (séculos IV-III a.C.)!]. Homero seria Shakespeare. Cristo estaria vindo... Ou quem sabe já veio... Quem seria meu antagonista ideal [eu já me fiz essa pergunta infindáveis vezes]? Alguém lutando por ordem antes do surgimento de Sócrates faz mais sentido que depois... Do lugar onde estou não posso analisar, dados os pontos cegos? [Ou talvez eu não queira analisá-los; ou não se pode tirar conclusões; ou as conclusões que se podem tirar são que “as peças não se mexem após esse acréscimo de sabedoria”.]

 

Inconcluso [intensa pesquisa histórica dos séculos VI a.C. a III a.C.? Se eu tiver descoberto uma lei do cosmo eu terei sido implacável na minha busca pela Verdade. O que um gauche aspirante a professor preocupado com seu futuro de longo prazo teria feito para se resolver?].

 

“Prever quando um gênio irá nascer e o que ele terá para dizer”

 

“Comte ficou datado muito depressa” – corrobora a contra-mão

 

[Três dias depois desse manuscrito durante uma aula na universidade eu teria a idéia de escrever “Hegel, Marx e Nietzsche: Aristóteles, Platão e Sócrates de cabeça para baixo”, como se anteviu pelo fim do penúltimo parágrafo – vide arquivo –, o que responde algumas das dúvidas listadas acima (já “proto-respondidas”, em negrito). O “pulo do gato” foi ter lido a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de autoria do jovem Marx.]

 

 



Escrito por wormsaiboty às 20:15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-7 – 04/01/09

REFLEXÕES (SOBRE TOLSTOI OU NÃO)

 

”Exprimia uma vontade de sentar-se debaixo de uma árvore no meio do nada e nunca mais ser encontrado”

 

Escrever um livro: só quando eu tiver o meu espaço, os meus pensamentos, o controle sobre as coisas e, o principal, poucas coisas.

 

Pensei em alguém com um colchão e um conhaque [quanta obsessão por uma bebida!] em um cômodo – cubículo – de paredes descascadas. Havia ainda um lavabo mínimo e uma “louça de cozinha” – na verdade outra pia simples, no próprio quarto. Seu hábito preferencial é caminhar sem trajeto fixo enquanto fuma e pensa. Pensa cometer um crime. Está desempregado e seu dinheiro se aproxima do fim. Não pensa em pedir auxílio para a família. Retraiu-se, escondeu-se de todos os amigos, desde que está alojado ali. Fará uns bicos por alguns fins-de-semana. Lavar carros, atuar como garçom. Mas não pensa em converter mais nada em rotina. Pensa na prostração que o levaria à morte por inanição. Mas se julga de índole fraca para isso – acabaria desistindo. Talvez um crime banal e a reclusão com subsistência subvencionada pelo Estado? É branco e sua família acabaria por interceder. Um jovem de berço ligeiramente nobre já não pode pensar em uma vida de cárcere... A não ser que fizesse da fuga sua única constância. Que matasse alguém que não podia matar e tivesse de se considerar um foragido irrecuperável. Matar o pai! Brilhante, porém nada inédito. E agora tudo não passava de idéia mal-resolvida... De sua vida pregressa, nada se sabe OU não se trata de alguém demitido, mas de um professor que declinou do magistério – e que antes disso se envolvia com alunas, estabelecia rixas com seus colegas e adulterava provas. Tinha toda a capacidade normal a um jovem recém-egresso de um bom curso de Sociologia. Dir-se-ia que suas leituras complementares até excederam sua formação superior – ele sentia que sabia até demais. Fosse por relativa insegurança na transmissão do conteúdo em sala, pela falta de sentido disso ou por não encontrar público real para suas palavras [eis aqui a crise do remetente esquizofrênico da dádiva!], o mérito é de difícil julgamento, recusou-se a respeitar as normas de seu ofício. Uma catarse? Uma vingança! Decidiu não mais simular indiferença em relação às cantadas das garotas. Teriam quinze anos, assim como todos os meninos. E nenhum entendimento da vida que os espera em dez anos. Muitos pegarão em revólveres, farão supletivos por desistirem hoje de estudar ou irão conseguir, eventualmente, uma bolsa para se formar. Mas não seria comum. Não seria interessante. Melhor pensar que todos os alunos não passam de imprestáveis, lixos sociais. Assim convive-se melhor com quem não o entende. Foi então que seu apreço pelo ser humano já havia decaído tanto que automaticamente matou. Acasalou com a pupila e depois sentiu nojo – decidiu ignorar que tivesse pais ou a obrigação de ir à escola no dia de amanhã. OU como cometer um crime? São muitos eventos, mas nenhum dignificante para um escasso grande homem. Seu dever autorizaria sua morte, seu ingresso no anel, seu infinito, sem um grande ato? Decidiu amealhar fundos para conseguir exibição nacional: excesso de cocaína e invasão do congresso? Não, bobo demais. Talvez se tornasse um traficante e com isso se comprazesse. Os objetivos se tornaram pequenos demais. Nada de ser pássaro-apolíneo-solitário.

 

Essas idéias são boas, mas o ideal é “normalizar” o personagem e elaborar um elenco que interaja bem.



Escrito por wormsaiboty às 16:15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-6 – 05/08/08

Algo me aflige. E não é como antigamente. Subitamente sinto-me atrofiado: faz tempo que não utilizo polegar e indicador para escrever (a dupla dinâmica). E já há um tempo o ruído do ônibus da madrugada me seduz. NÃO É COMO DAS DEMAIS VEZES!

 

Não quero mais compartilhar esse excerto – como faria em janeiro, em julho, dia 4 de agosto...

 

Do que eu preciso? A solidão é a companhia pela qual meu coração neste segundo bate forte. As asas libertadoras da moral dos pais.

 

Estou farto de não caminhar, fumar e ser livre. De escrever o que devia FAZER.

 

Pouco valor tem a forma. E o conteúdo – se mentira. Passemos à natureza:

 

Rotina, tempo, submissão – 3 problemas.

 

Contingência, desamarrar-me, voar.

 

Neste verbo há algo de encantador: na minha insônia, muito mais. Quero a bem-aventurança – e nada de herança. De que me vale a avareza?

 

Ninharias. Eu, podendo, atirava fora a TV. Lembrei-me há 10 minutos do Carlos Gomes. A cibercultura – outrossim a Morte de GAIA (o que fazer?).

 

Quero caminhar até saber o que fazer. Já NÃO DEPENDO DE NENHUMA PARAFERNÁLIA, NEM STRICTO SENSU... Que diabo é o latim?

 

Eu sou, de fato, MANÍACO?

 

Vêm meus surtos piorando?

 

Poderá ser uma virilidade extrema que a sociedade mata. Mas encontro chaveiros esparsos, se as portas estão trancadas!

 

Ludibrio... com a linguagem.

 

A resposta da RUA está na CASA.

 

Uma geladeira dispondo de conhaque; tênis e meias sempre embotados. A esquina, moradia. EU DEMANDO SOLIDÃO. SOLIDÃO INCLUSIVE OBJETAL.

 

[Exuberante época de um auge a-tecnológico do meu ser; não deixa de ser trágico este post.]



Escrito por wormsaiboty às 15:37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-5 – 03/03/08

PAIDÉIA, Werner Jaeger – “leitura dinâmica”

 

Introdução (pp. 3-16) – Atribui à Grécia Antiga um ar superior e – não por acaso – afirma serem os alemães os principais herdeiros destas concepções de mundo.

 

IX (pp. 150-180) – Xenófanes de Colofão como o previdente pensador pré-socrático a discursar talvez em caráter precursor: “Deus é uma criação do gênio humano”. Tudo que podemos concluir advém de leis naturais. É dele a frase “se cavalos tivessem mãos como as nossas e pintassem, nos mostrariam deuses-cavalos, sua divindade genuína, assim como nós imaginamos um humano excepcional em vestes maravilhosas; o negro pensa num negro-deus; o nórdico em uma criatura onipotente de cabeleira loira e olhos azuis”. Heráclito: fundador da idéia do vicário na Política (vida na polis).

 

Pp. 243-247 – Prometeu de Ésquilo e Édipo-Rei de Sófocles. Equivalência do mito de Prometeu Acorrentado à representação contida em Ecce Homo (Eis o Homem; Ele mesmo).



Escrito por wormsaiboty às 15:19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-4 – 05/11/06

Antropologia da Infância

 

LARROSA, J. & LARA N. (org.). Imagens do Outro. Petrópolis: Vozes, 1998.

 

A idéia central do livro é transcender a visão negadora das alteridades, tendência majoritária dos “normais”.

 

Por “normais” entenda-se basicamente aqueles que não são loucos, crianças, silvícolas, criminosos, homossexuais, idosos, prostitutas, mendigos, negros, deficientes físicos... Louco seria aliás a nomenclatura mais abrangente para definir essas minorias. Um mendigo ou uma criança são considerados patológicos ou desprovidos da razão em algum grau.

 

São os adultos normais que definem o que é ou não maduro.

 

A falta de identidade no/do outro reforça nossa identidade, nossa arrogância. Sentimento real: sentimo-nos fortes quando próximos aos mais novos, aos excluídos, a um estrangeiro desorientado, a bandidos sem força para a ação infratora, a “loucos”, em suma, de qualquer tipo.

 

Dedicar-nos-emos à parte do livro que trata do estágio de “loucura” pelo qual todo “normal” teve de passar um dia: a tenra infância.

 

O Enigma da Infância

 

A fase da infância constitui-se num enigma. Um enigma pelo seguinte: há duas perspectivas – 1) a objetiva; e 2) a subjetiva. De acordo com a primeira o ser humano (o adulto, o cientista, inicialmente, que depois transmite suas descobertas à sociedade) já entendeu a infância. A segunda nasce não dos próprios olhos, como o termo subjetivo sugere, mas justamente do inverso: posicionar-se não observando esses “outros” em precoce desenvolvimento, mas sendo observado por eles. É daí que surge o estranho, o incognoscível, nesta segunda esfera.

 

Na Psicologia, na Sociologia, na Literatura, na televisão, nas revistas, nas lojas, nos clubes, nos parques de diversão e na escola vemos claramente até que ponto evoluímos e até onde ainda podemos avançar na “compreensão” da fase infantil e no auxílio a ela prestado. Sabemos exatamente como proceder diante das crianças (PERSPECTIVA 1).

 

Porém, que ser arredio é este que acaba sendo abarcado pelas instituições mas “sem ligar” para elas? Tememos tanta inquietude e poder de questionamento.

 

“Transgridem” a ordem social pré-estabelecida mas diante de sua condição neurofisiológica não podem ser punidos legalmente. São chamados de “mentalmente incapazes” ou “em formação”.

 

A infância, com efeito, não é o que já se tenha aprendido nos “manuais”, tampouco se poderá apreendê-la cientificamente. Vamos pensar o que somos para as crianças...

 

Infância e novidade

 

O recém-nascido ainda prescinde do livre-arbítrio. Ele “acatará” tudo que decidirmos. O local do berço, os brinquedos, as roupas. Nosso poder, saber, desejos, expectativas e projetos sempre falam mais alto. Nesta fase o novo ser vivo do lar parece uma extensão da vontade dos pais, tão operável quanto o controle remoto.

 

Simultaneamente, o “outro”, além do previsível ou desejável. Nascimento = interrupção.

 

Tudo, portanto, é uma questão de educação. A idéia de filhos continuístas tira a alteridade do bebê apenas para envolvê-lo numa identidade copiosa e sem-graça.

 

O nascimento precisa trazer a sensação de estranheza de quando topamos com algum “outro” na rua. “Quem é ele? Não se trata de uma extensão da minha personalidade, difere bastante de mim!”

 

Não fosse assim poderíamos dizer que quando os primeiros homens surgiram toda a História já estava escrita, porque as próximas gerações só iam reproduzir sua moral – e, claro, reproduzir-se, no sentido mais biológico do verbo. Acontece que cada cabeça no mundo é uma chance de mudança, renovação, revolução...

 

Derrubada a noção temporal newtoniana de “linha contínua”, o tempo talvez sejam quadros, um para cada vida, sem que um necessariamente determine o estilo de pintura do vizinho. Como numa sucessão de quadros numa galeria.

 

Uma nota sobre o Totalitarismo

 

Herodes, governador de um pedaço do Império Romano, patrocinou o infanticídio (medo de que as crianças ali arruinassem o Império com suas “rupturas históricas”).

 

No totalitarismo tudo é estável e o futuro é planejado. A Propaganda regulará as crianças nascidas. Qualquer semelhança com o lado que “venceu o fascismo” não é mera coincidência... Na democracia, com um mecanismo ainda mais perverso: a exploração financeira das novidades (pense nas tribos urbanas, em suas indumentárias e demais bens de consumo favoritos...). Seja como for, o intuito é sempre fugir do enigma, submetendo o “outro” chamado criança a nossa lógica.

 

Infância e milagre, ou o que vai do impossível ao verdadeiro

 

Não se trata aqui de “corrigir” uma alteridade. O ser socializado não é “falso” antes de ser educado nem “verdadeiro” após a integração no todo coeso. O que acontece é um forçoso esquecimento. As Musas gregas cantarolavam as histórias dos heróis. Mas os cidadãos que não se destacavam eram olvidados após algumas gerações. Quem não faz por merecer estar nos versos viveu sua vida com verdades, tudo por que passou não foi um simples golpe da imaginação, uma aberração do cosmo; contudo, as canções não preservaram a memória desses infelizes. Mais do que a preocupação com o bem ou com o mal, o grego via sua fatalidade nas escolhas que o tornassem obscuro, impossível de ser rememorado outra vez, insignificante. Seria como um viver em vão. O espírito artístico da criança, a força criadora que conduz ao mundo, precisa ser resgatada. Ou, antes, apenas preservada!

 

A noção de “vivência errada” não é universal. Talvez gere incômodo a aceitação de que “a existência precede a essência”, antecede em muito a consciência. O ser-está-no-mundo muito antes de escolher-estar-no-mundo e como-estar-no-mundo. Nunca haveremos de lembrar de nossos anos mais precoces com a perfeição com que analisamos nossos atos a partir de certa idade. Mas a questão não é essa: é aceitar o passado, sem mágoas. O adulto da civilização ocidental está corrompido. Por isso não pode promover o (re)encontro com a infância.



Escrito por wormsaiboty às 00:50
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-3 – 25/04/07

O belo grego x o belo cristão

 

Platão – Possui um padrão de beleza inatingível, embora pudesse ser manipulado. Todo o visível constituiria falsificações. Haveria um arquétipo de cada objeto escondido num “plano perfeito”.

 

Aristóteles – Harmonia, proporção e grandeza como basilares para a beleza máxima, associada dois milênios depois à raça ariana em um recorte deturpador. Ao contrário de Platão, não é tão esotérico. Reconhece, na melhor parte de seus escritos que sobraram (a Poética), a beleza no feio (comicidade ou tragédia).

 

Nietzsche, Baudelaire e o Movimento Punk – Põem a Estética, basicamente, de pernas para o ar. Seqüência lógica da parte sadia aristotélica. A beleza no “podre contemporâneo” (Baudelaire viveu na época em que o capitalismo era mais pujante e incontestável; só um poeta de tais tempos poderia levar a efeito uma sinestesia tão bem-acabada em revés, bem como o filósofo alemão diria que seria reconhecido postumamente pela sua grandeza, quando fosse comparado à pequenez de seus conterrâneos), a subjetividade e o impressionismo condizentes com nossa época. Eternizaram o banal (eterno retorno).

 

Qualquer arte não-representativa era considerada como o feio pelo regime nazista. Arte = subversão, o oposto de simulacro.

 

Não existe a anti-estética; como não existe o sujeito fora da moda, da política, da economia, da religião. Somos estetas. Tampouco há chance do “homem unidimensional” se manter muito tempo no topo.

 

A ciência estética não julga casos, ela só estipula generalidades (o que é o punk – você decide sozinho, por sua beleza ou feiúra). Alguns imbecis diriam que gosto não se discute; mas o mais forte e o mais belo tem sempre o direito de impor seu gosto. “O direito” significa: o poder. O poder é a legitimidade, ele cria a legitimidade, não existe justiça isenta, nem a cristã. Aliás, tanto menos a cristã. Hoje uma elite decadente estabelece os gostos. Depois de séculos sem alternativa moral à supremacia do bem” burguesa, a explicação platônica do mundo é flagrada em franco declive: muitos são os capazes de constatar que está em último lugar na hierarquia dos grandes valores.

 

Mas por que sempre nos detemos sobre o Nazismo, esse pedaço de calamidade do meio do século XX? Porque ele é o ícone máximo do que se quer criticar. Embora ainda não saibamos (no geral), o suicídio de Hitler foi o fim da Era Cristã!

 

As realizações pictóricas atuais

 

A arquitetura pós-moderna faz coisas que a arquitetura clássica não podia, como por exemplo uma pirâmide invertida com mais peso quão maior for a altura, todo esse “milagre” sustentado por um ponto de equilíbrio, que podia ser calculado ou cogitado pelos egípcios, mas para cuja execução não se encontrava suporte tecnológico satisfatório.

 

 

A Arte “termina” ou deixa de ser opaca (vira transparente) do momento em que a fotografia reinventa a modalidade “representação fiel do real”. Os quadros, as pinturas autorais, ganham novos significado e sentido. Nasce o abstracionismo, que a despeito das aparências, é muito mais funcional e diz muito mais que uma mera cópia do visível. Considera-se, aliás, realismo ou simulacro a idéia subjacente do quadro, ou seja, o fidedigno não se confunde mais somente com o sentido da visão.

 

Em suma: Impressionismo x Academicismo.

 

A pintura atual é representativa – que “representativa” é esse?

 

Tornar presente, significar, simbolizar, afigurar-se ao espírito, incutir a sensibilidade.

 

Representa na medida em que contradiz as limitações das dimensões espaço-tempo, eternizando o objeto retratado.

 

A pintura não é um processo meramente psicológico. Ainda que a concepção de um quadro nasça da psique, as tintas e o resultado final diferem da imagem tal qual no plano mental.

 

Ser Arte ou não depende do momento histórico. Cada um deles tem idéia diferente do que signifique “relevância”.

 

Crise da Arte deriva da complexidade do nosso momento histórico.

 

Somos bombardeados por imagens: não é só a televisão, repare que ninguém há algum tempo conhecia a vista de um trem-bala, do automóvel ou do avião. Velocidade, desmanchamento do sólido, sublimação.

 

Pintura representativa/realista, portanto, é aquela que mostra melhor no respectivo tempo no qual é pintada. A pintura realista moderna é tudo menos a “cópia visível” do passado (a pretensão do museu).

 

Neo-realismo italiano x Hollywood

 

Mortais contra deuses. Integridade contra calúnia. Rua contra estúdio. Sol contra luz técnica. Simplicidade contra armas hi-tec. Câmera tremida e queda da quarta parede contra isenção. Deformados contra botox. Idéias contra vacuidade. Recursos escassos contra...



Escrito por wormsaiboty às 21:12
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-2 – 21/05/07

Café filosófico com Gerald Thomas

A Arte está condicionada à realidade?

 

O teatro não tem o amor, é uma farsa. “Romeu e Julieta é sexo disfarçado.”

 

A questão da vergonha/interação – a personagem aponta para mim, o expectador, mesmo que haja a quarta parede ao mesmo tempo não há.

 

Amor na Tragédia Grega: mais brando que o shakespeariano (com exceção talvez de Orfeu). Na própria vida real o amor é um narcótico, uma pele narcísica, que logo será despida. Goethe sempre defendeu a importância desse efeito para estimular a criatividade e a vontade de viver.

 

O(a) ator/atriz que cansa do próprio trabalho é o único que poderia cair na cilada de se apaixonar pelo(a) companheiro(a) de palco. Isso não é desempenhar bem seu trabalho; estafa típica de quem não tem vocação para o teatro. Extensível à vida real: desgastes geram explosões.

 

“Odeio ser maniqueísta.” O que é necessário para combater o Pós-Moderno para Gerald? “Reunir os ‘estilhaços de Hiroshima’ e fazer algo. CHEGA DE RUPTURAS! Odeio esse teatro atual.”



Escrito por wormsaiboty às 18:17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


RETROCEDER-1

Em meio ao recesso do projeto TRANSCENDER – e até mesmo para encorpá-lo, e comemorar seu aniversário de 1 ano amanhã – tomo uma iniciativa contrária (complementar!): re-investigar meu baú empoeirado, que na maioria das vezes contém manuscritos de até 2 anos a 3 meses atrás. A compilação não resulta em um tema unívoco, mas a soma dos fragmentos será capaz de delinear um “projeto”, afinal estamos falando aqui da vida do autor. Apesar do nome passar uma sensação de “abdicar da caminhada para a frente”, este é um estágio das minhas reflexões e vivências em que necessito exatamente disso para suplantar as barreiras que bloqueiam a vista do horizonte norte. Nos próximos dias o leitor será brindado com algumas jóias do meu passado que estiveram esquecidas por um pequeno hiato, insuficiente para desgastar sua beleza. Principio com meus primeiros passos após a idade escolar, no Jornalismo.

 

ÉTICA NO JORNALISMO (1º/2007)

 

O público é a razão de ser do Jornalismo. Ele nasceu da necessidade de informação da massa e é, simultaneamente, um negócio (mesmo empresas públicas de jornalismo rivalizam com terceirizadas). Dessa dicotomia nasce o impasse: a imprensa existe para o povo e cumpre um dever que possibilita, em contrapartida, o direito individual à informação em uma democracia; mas a notícia não passa de mercadoria. Como atender o público (clientes), fundamentação democrática, e lucrar, respeitando o liberalismo econômico?

 

A questão, embora complexa, por limitações de espaço pode ser sucintamente dissecada: agradar (na realidade informar, o que pode desagradar) ao público e atingir confiabilidade (cifras) andam juntos. O público – que não deve ser subestimado – deixará de comprar o veículo caso perceba conflitos de interesse em suas páginas. Ainda que a verdade e a objetividade plena não existam, é compromisso do jornal persegui-las. Se fizerem isso o jornal será mais lido.

 

O inconveniente apontado é o do setor publicitário: os anunciantes atingidos por reportagens iriam fugir. Em primeiro lugar, os clientes dos anunciantes são os próprios leitores e as empresas precisam divulgar seus produtos e salvaguardar sua imagem. Em segundo lugar, se houver a separação dos setores de propaganda e redação no veículo, cessa qualquer possibilidade de anúncios determinarem pautas. Basta um leque diluído de anunciantes para que a receita publicitária continue existindo, a independência editorial prevaleça e o público confie no teor das matérias, num círculo virtuoso. Eis por que lucrar e ser democrático andam juntos: a postura ética, de tentar o jornalismo mais imparcial, traz ambas as coisas a médio e longo prazo.

 

Também por isso, o profissional da área deve devolver “cortesias” e presentes que vier a receber; conforme a longevidade de sua carreira aumenta e se torna um autor de reportagens laureadas, também terá mais liberdade de escolha quanto ao lugar em que trabalhar e o que escrever, em detrimento do jornalista entravado e inexperiente, que “veste a camisa (de força)” do seu chefe/empregador. Ficaram notórios o caso do recebimento, por vários jornalistas culturais no país, de iPods e as mais díspares reações. O remetente dos presentes foi a gravadora de uma artista, da nova geração da MPB, “afilhada” de cartas marcadas da velha guarda, que estava lançando seu primeiro CD e desejava receber “elogios da crítica”. Houve quem tenha resenhado o álbum com mais gratidão do que ouvidos.



Escrito por wormsaiboty às 15:03
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


HOBBES E AS MULHERES

Uma coleção de grandes frases e de outras nem tão grandes assim...

“é bem verdade aquilo que Cícero disse algures a seu respeito: que nada há mais absurdo do que aquilo que se encontra nos livros de filosofia” Leviatã, (ed. Abril) – Thomas Hobbes (p. 33)

 

“os melhores homens são os que sentem menos piedade” Ibid., p. 40

 

“aqueles que discutem sobre questões incompreensíveis, como os escolásticos” Ibid., p. 54

 

“não existe o fim último nem o bem supremo de que se fala nos livros dos antigos filósofos morais” Ibid., p. 64

 

“posso atribuir todas as mudanças de religião do mundo a uma e à mesma causa, isto é, sacerdotes desprezíveis, e isto não apenas entre os católicos, mas até naquela Igreja que mais presumiu de Reforma” Ibid., p. 77

 

“a natureza dos homens é tal que (...) dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios como eles próprios” Ibid., p. 78

 

“os homens são naturalmente mais capazes do que as mulheres para as ações que implicam esforço e perigo” Ibid., p. 124

 

“homem (...) o sexo mais excelente” Ibid., p. 127

 

“quer o Estado seja monárquico, quer seja popular, a liberdade é sempre a mesma” Ibid., p. 136

 

“[escolásticos] argumentam tão mal quanto os selvagens da América”, Ibid., p. 205

 

“a multiplicação de palavras no texto da lei é uma multiplicação da ambigüidade” Ibid., p. 210

 

“quando vejo quão curtas eram as leis dos tempos antigos, e como a pouco e pouco se foram tornando mais extensas, penso ver uma luta entre aqueles que escreveram a lei e aqueles que pleiteiam contra ela” Ibid.

 

“a parte maior e mais ativa da humanidade nunca até agora esteve contente com o presente” Ibid.

 

“estou a ponto de acreditar que este meu trabalho seja inútil, como o Estado de Platão, pois também ele é de opinião de que é impossível desaparecerem as desordens do Estado e as mudanças de governo por meio de guerras civis, enquanto os soberanos não forem filósofos” Ibid., epílogo da parte II

 

“nem Platão nem qualquer outro filósofo até agora ordenou e provou com suficiência ou probabilidade todos os teoremas da doutrina moral” Ibid.



Escrito por wormsaiboty às 22:25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


MEU TIME É MICHAEL JACKSON MAIS 10

Algumas considerações sobre atualidades, coisa que tenho me preservado de fazer nesse blog...

 

...sem esquecer do meu projeto filosófico

 

 

A década 2000 (estranho nome para uma década), todo mundo sabe, é a mais fraca em termos musicais, desde que ouvir e fazer (quem não tem ou teve uma bandinha ou quem não experimentou aqueles softwares que não exigem o menor conhecimento da escala musical por parte do operador?) Música se tornou natural, popular, descaracterizando, aliás, esse “M” maiúsculo de Música, provavelmente uma herança das Musas gregas, privilégio de poucas almas nobres...

 

“Geração banda-larga” é como apelido essa safra de adolescentes (de até 30 anos!) orkuteiros e usuários do Last.fm, a nova usina sonora do mundo. Obviamente, eu tenho conhecimento de causa porque possuo contas nos dois universos: estas redes são mais do que simples voyeurismo. Agora são sites os melhores termômetros para medir o alcance e o impacto de um artista consagrado ou de uma revelação.

 

Nos charts do Last, que não devem ter mais do que seis anos de rodagem – o que permite algumas distorções, como pensar que Green Day (64 milhões de execuções) e U2 (56 milhões de faixas até este momento) são melhores, mais influentes e mais importantes do que foram Ray Charles (8 milhões) ou Jimi Hendrix (25 milhões) –, os líderes incontestáveis são Radiohead e Beatles (173 e 171 milhões de captações, respectivamente). Completando o pódio, um sonolento Coldplay – o que salva um pouco é que o Metallica vem logo a seguir. Os Beatles, o único desses grupos que não está mais na ativa, é um caso à parte, já que o Last.fm adora entronizar os fogos-de-palha. E não tem outra pretensão, pois não passa da ponta de um iceberg de alguns séculos de História.

 

Esses números, lembrando, só crescem, pois vão da inauguração do serviço até aqui. Um golpe do acaso, semana passada, deixou bem claro o quanto esse tipo de ranking por contagem absoluta é falho: a morte de Michael Jackson, aos 50 anos. Ele pulou do sexagésimo sexto lugar para o primeiro, no recorte semanal. Imagine as estatísticas do “dançarino da Lua” se existisse o Last nos anos 80! Se ele vendeu quase 1 bilhão de discos, do que seria capaz no domínio virtual das coisas grátis?

 

Bastaria um pouco de senso crítico para notar o quanto o “soma” (narcótico pacificador, “anestésico mental”, do Admirável Mundo Novo do escritor britânico Aldous Huxley) radiofônico (falo do rádio na era da Internet) é o grande responsável por um certo cheiro de tecido podre no ar. O que estou dizendo é que a decadência da Música nasce da surdez dos ouvintes! Esse movimento de inércia – navegar nas estações e se deparar com os mesmos padrões (ou o mesmo padrão, sem espaço para nada diferente), abrir o perfil do colega e ver as desgraças culturais habituais –, essa falta de ponderação com respeito ao que se vai meter goela abaixo, fazem com que a esquizofrenia eletrônica martirizante de um Rádio-Cabeça qualquer esteja no topo de alguma lista que não “as principais causas da sua cefaléia crônica”! Me faz lembrar inclusive de uma passagem d’A Ideologia Alemã de Marx, que ataca seus conterrâneos afirmando que eles nada mais produziam que uma ansiedade verborrágica cortante pelo Apocalipse, cristãos que eram, prontos a marcar o compasso desse clímax chamado Juízo Final com as guilhotinas da Revolução Francesa. É bem essa a idéia da automação radioheadiana – um intuito fracassado apesar de qualquer número que deponha em contrário, deveriam admitir os membros da banda. Um som desprovido de humanidade.

 

Quando ocorre uma pequena fissura neste mecanismo “pastoral”, a nostalgia entra em campo: mas se foram feitas músicas sublimes e excepcionais nos anos 70 e 80, o que as impede de voltarem? “A tecnologia”; “a falta de inspiração”; “sorte”... Tudo balela. A despeito do caráter prometéico e irrepetível do Rei do Pop, o destino da música deveria depender estritamente de talento, discernimento (para não jogar todo o dom na privada – reparar que a noção que se tem de um artista é a de um gênio louco, alguém que vive perdendo as estribeiras e age sem coerência, engodo que precisa ser descartado) e CORAGEM, o que vem minguando de uns aninhos pra cá. Como o homem tem sempre a possibilidade da escolha, mas se tornou medroso demais para admitir, contenta-se com o “menos pior”, o pastiche cultural contemporâneo. “Inventar dói, vamos apenas testemunhar as infindáveis oscilações do pêndulo do relógio desse moto perpétuo chamado mundo.”

 

A década de 90 é intermediária entre essa fraqueza que reina hoje e a pujança que já se viu no Pop, no R&B, na Música Popular Brasileira, no Heavy Metal e nas demais searas da indústria fonográfica. Não faz três dias que vi um episódio dos Simpsons que é uma aula de História da cultura: Homer e Marge contam aos seus filhos, à lareira, as circunstâncias em que Bart veio ao mundo, os atribulados anos 90 (curiosamente, o desenho data deste período, mas a cada ano os personagens são apresentados com a mesma idade, repaginados para o contexto, como é o caso agora, dos anos 2000). Nessa “realidade alternativa”, enquanto Marge começava a faculdade, Homer dava um duro danado na loja de paintball do pai e ainda arranjava tempo para ser o líder carismático de uma banda, o Sadgasm (Tristorgasmo, na melhor tradução), paródia do niilista Nirvana. Uma época em que ainda havia um gênio criador, mas que, por não encontrar destinatários à altura para seu grunge, acaba se auto-destruindo. É um marco divisório: a negação da arte. O preferir-morrer anunciado pelo próprio Dioniso. A estética ocidental na sua agonia entrópica.

 

Está certo que não é “culpa” da Música: esta bomba de efeito retardado (sim, primeiro o relâmpago, depois o trovão!) só aterrissou na década de 90. O próprio Espírito da Música está fatigado, quer colapsar. Antes a moral burguesa já havia detonado muitas outras belezas. Arruinaram a Política, transformaram a vida num cardápio e tornaram onipresente a promessa de um Além. É sintomático que o próprio Kurt Cobain tenha batizado seu projeto de Nirvana: porque aqui é o insuportável reino da imperfeição. Mas querer a paz é justamente o motivo da decomposição do tecido. O que restaria para ser contado? Sempre que ouço uma boa canção penso em Homero: façanhas e proezas quase impossíveis, o desafio complicado e aterrorizante, a condição humana. Somos músculos e sangue, e, portanto, devemos usá-los e arriscá-los.

 

O que minha bola-de-cristal diz? Que viveremos as décadas de 10 e 20 na mesma missa cibernética, cheia de espasmos e espirros. Como ouvintes estamos doentes e não suportamos um olhar no espelho. Mas episodicamente um Dante ou Colosso nos visitará, como aconteceu em 2008 com o Death Magnetic, o literal re-despertar de um gigante.

 

Antipatia por pessoas é algo que faz bem! Não transfira ao mundo inteiro – não amaldiçoe tudo, procurando causas primordiais imaginárias – o ódio por conta de uma babaquice que só pode ser explicada pela própria vontade do autor de cometer a babaquice!

 

Alguém sempre transborda. Outros, sorvem.



Escrito por wormsaiboty às 18:22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O grande sábio não quer convencer ninguém.



Escrito por wormsaiboty às 20:36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


ORIGEM ETIMOLÓGICA DOS MEUS SIGNIFICADOS NO DEVIR

Uma coisa que sempre me intrigou: quando era pequeno achava que era judeu. Não há nenhum traço judio em minha família. Nada concreto a respeito...

 

Mais uma: aos 5 ou 6 anos, quando da primeira vez que a Globo exibiu aquela novela, A Viagem (um grande sucesso, reprisado duas vezes no Vale a Pena Ver de Novo, num espaço de menos de meia década), eu sentia um prazer imensurável em acompanhar o protagonista, Alexandre, rastejando no Inferno, ao passo que aquelas “rodinhas espíritas” de pessoas vestidas de branco no Paraíso eram não só o ápice do clichê mas uma situação deveras desagradável, incômoda, suscitadora da – inicialmente – dúvida – depois provocação segura – de que não seria entediante ser um pecador irresoluto para no fim escapar àquilo. Fogo, trevas, inimigos, aventura... Eis aquilo pelo que minha infantil mente já clamava. Uma curiosidade é que Alexandre significa “altruísta, justiceiro”.

 

Eu tenho um primo bem mais velho chamado Alexandre. Sempre disseram que eu fui muito parecido com ele, que quando mais novo poder-se-ia julgar que sou seu clone. Com efeito, “puxei” muito essa minha tia, Socorro, a mãe de Alexandre. Meu pai tem irmãs loiras e míopes. Eu nasci loiro e tenho quase 10 graus de miopia no olho esquerdo. Não é de se estranhar que, na idade de “Pequeno Príncipe”, eu fosse comparado ou confundido com o justiceiro.

 

Quase me batizam como Hugo, de origem alemã, conotando “espírito, razão”. Espírito que é uma coisa de que o homem moderno, o alemão anti-semita, principalmente, que é o non plus ultra deste, prescinde. Curiosamente, dir-se-ia que um hebreu é alguém de espírito. O judeu tem espírito, é bem-humorado, sagaz e tem dinheiro. Por isso é tão odiado. Independentemente de não me chamar Hugo, eu tenho espírito. O que é estranho é eu ter pensado durante algum tempo que eu fosse judeu sem pistas claras.

 

Meu irmão Diogo, “conselheiro”, aconselhou meus pais a me concederem o nome de Rafael. De raiz grega, “curado por deus, aquele que é paciente, perseverante”. Além do mais, faço alusão específica ao termo TEIMOSO. Não foram poucas as conversas e as madrugadas reflexivas em que pensei nesta palavra como a minha sina: teimosia é o melhor de tudo para me descrever. Minha vida é a apresentação sob bilhões de formas do que significa um espírito teimoso diante de incessantes obstáculos. Também é dito nos dicionários de nome que Rafael é aquele que se esforça por ser observado, chamar a atenção, sobressair em relação aos demais. Não sei se estou falando da acepção genérica do nome Rafael ou então de mim mesmo, agora! Em 2002, quando dei minha largada mitológico-filosófica, exteriorizando minhas convicções no papel, produzi um compilado de teorias fundadoras da minha concepção de mundo e de eu, As Teorias Supremas. Nelas a característica da teimosia e a necessidade de retomar uma espécie de realeza que eu possuía na infância e que alguém ou várias coisas me furtaram são a tônica. Entendo que meu egoísmo é o puro altruísmo e ninguém percebe: ao ter alma de artista, eu estou presenteando a todos com meu super-talento, e cada vez mais atingindo minha própria essência. Nem que a custo de ser um pecador.

 

Minha mãe se chama Nadir, que significa “o contrário de zênite”. Zênite é o ponto mais alto do céu. Nadir, por extensão, implica decadência. Eu sou filho da civilização em estado putrefato, decadente. Meu pai se chama José de Jesus. Ao mesmo tempo, José é o pai de Jesus. Eu posso ser considerado um mártir. Mas filho de Nazareno já vem a calhar. Eis o ícone supremo do cristianismo e da moral que nos infecta, que torna o homem do século XX o extremo da miudeza.

 

Meu nome completo é Rafael de Araújo Aguiar. Aguiar deriva provavelmente de águia, que é a ave mais aparentada à figura lendária da fênix, Ouroboros, que remonta à sociedade egípcia e que foi transmutada para diversas civilizações até chegar ao Ocidente. A fênix implica a confirmação do princípio de eterno retorno de todas e de cada uma das disposições do sempre-transitório universo. Trata-se do único imortal factível, que renasce das próprias cinzas: tem uma vida finita, embora inesgotável. Rafael de Araújo Aguiar é uma denominação especial, porque eu consigo vê-la em círculo, se fechando em si mesma: Rafael de Araújo AguiaRafael de Araújo Aguiarafael de Araújo AguiaRa... Ra é o deus-Sol, o mais poderoso elemento dos cultos no Antigo Egito.



Escrito por wormsaiboty às 20:49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


ÉTICA DO CARONEIRO E IDIOTICE AO LONGO DO TEMPO

Quase três meses se passaram e eu não recebi a resposta a um e-mail que emiti a um amigo meu, ex-professor de Sociologia (ele continua dando aulas, eu é que não sou mais seu aluno) do CEUB. Observei que o blog anda às moscas e que a mensagem provavelmente jamais será respondida, o que é uma pena. Mas, se eu mantiver a identidade do destinatário em sigilo, aposto que a transcrição desse recado eletrônico é um poço de cultura e promoverá belos debates... Sim, vou publicá-lo na íntegra! É revelador acerca da minha própria vida ultimamente, como verão...

Absolutamente nenhum corte foi feito!

 

Pois é, agora eu também tô na correria, mas só pra não perder o hábito...

...escrevo mormente por conta de um lampejo meu de hoje:

---
antes um parêntese:

Casou-se esse ano ou ano passado? Felicidades. Curiosidade mórbida: foi na igreja, no cartório ou no quê? Haha.

---

A ética do caroneiro (você está dirigindo, aparece um transeunte, você deve parar o carro) - On The Road -, a ética do potlatch, enfim, essa naturalidade em conceder um favor -- certamente os que choram de saudades da propriedade privada já antes de seu fim não se sentirão incomodados ao dormirem na gruta "dos outros" (ética de acolher o visitante estrangeiro em seu palácio, A Odisséia) ou ao compartilharem um milho, uma maçã ou um veado morto (hoje um caçou e o outro amargou jejum, porém sentará à mesa com o primeiro; como amanhã pode muito bem se dar o inverso - mesmo o homem que deseja superar a si mesmo, o Zaratustra, não se faz de rogado, e ao invés de cair de fome por orgulho bate à entrada da choupana pedindo comida, não sem a costumeira altivez).


A postura de mendicância seria socialmente reprovável (como é neste mundo), outrossim a da ganância também, num futuro vago. Certamente pedir não seria constrangedor ao aventureiro que se visse conjunturalmente necessitado. E no entanto o ímpeto desse novo homem é tão amplo que amanhã mesmo aquele que teve de ser amparado estará retribuindo com um banquete homérico. Só não posso afirmar que haverá essa circularidade e o vetor obrigatoriamente horário ou anti-horário (como nas tribos estudadas por Mauss - aliás, principalmente por Boas, já que Mauss não "etnografava" - e nos trobriandeses de Malinowski). Não é curioso? Talvez não haja dívidas de gratidão: pague-me quando puder, um dia nos veremos de novo, faça de conta que eu sou o próximo que aparecer. Aliás, não tenho dúvida de que todos seriam no mínimo semi-nômades.

Pueril? A verdade é que olho ao redor e vejo apenas "idiotas", no sentido grego, isto é, os politicamente nulos e interesseiros da polis, pessoas que são ensinadas a recusar caronas para estranhos, jamais dar moedas por aí (Nietzsche diz: "é preciso acabar com o mendigo, porque frente a ele fica mal dar esmola e também não fica bem não dá-la") - o engraçado é que há uma camaradagem fora do comum quando se trata de cigarros (aliás, a droga de balada anos 2000 é consumida sozinha, enquanto a maconha ou os chás costumam ser ministrados em roda, grupos, essa é uma evolução comportamental notável) - e comer seu quinhão antes que abocanhem primeiro (exemplo habitual de professores em Introdução à Antropologia: o índio, chegando à cidade, consideraria o sumo do absurdo o egoísmo do homem branco, "pagar para comer!", e ao contar isso aos seus semelhantes, na volta, seria tratado como aquele que saiu da Caverna de Platão e viu a luz - louco ou mentiroso).

Tudo isso para dizer que o helênico desconhecia o homem estranho, era o antípoda da loucura, em sua loucura: o exato oposto da esquizofrenia pós-moderna do quarto com PC. O que podemos fazer? Certamente que nós somos apólogos da liberdade negativa, "cada um no seu quadrado" (talvez eu esteja ferindo a sua ao aborrecê-lo com um verso de funk). Idiota, em 2 mil anos, se tornou aquele que participa. O que não está claro é a conseqüência trágica (auto-mutiladora) de uma solidão que adora se expor (Orkut - não quero ser tocado, preciso ser observado, por 10 mil olhos, quiçá). Talvez o pessimismo seja apenas um disfarce do otimismo: quem nada espera lucrará com o que passar - e uma coisa tão grotesca e sedentária está devolvendo a interação com o estranho!

A propósito, a tese que pretendo defender é quase o que falei, só que com relação à televisão. Quem diria, a caixinha é tecnológica, não é magia, mas está ensinando modos alternativos de vivência para quem não desgruda a bunda do sofá. Se quem assiste o personagem morre com ele, nós estamos começando a gostar da idéia de "arriscar a vida". Obviamente, os esportes radicais são uma outra derivação do homem cansado de ser ascético...

Curiosidade: meu professor de Política disse que Dostoyevsky escreveu certa cena em um romance seu, um homem que ficava louco ao ver um cavaleiro açoitando seu cavalo, corria em direção ao animal e o acariciava. Nunca mais voltou ao estado normal. Pois bem, o que é divulgado é que, ANOS DEPOIS, Nietzsche veio a se tornar clinicamente insano da mesmíssima forma... O nome do livro é O IDIOTA. Eu já o li, mas sinceramente não lembrava dessa cena, por isso só me toquei com a menção direta da coincidência/previsão. Seria o mesmo com Maquiavel e Napoleão, aquele que veio a ser o "Príncipe empírico". Conhece mais casos?

A história é circular...

Rafael



Escrito por wormsaiboty às 21:23
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


NIILISMO CANDANGO

 

Alexandre, que cursa o terceiro semestre de Ciências Sociais na Universidade de Brasília enquanto escrevo esta mensagem, e que faz Teoria Política Moderna às segundas e quartas comigo, é minha escolha para ícone do niilismo. A modalidade européia da descrença absoluta no homem parece já ter chegado aqui. Este jovem hedonista e seus comparsas representam o sumo da imundície e da vergonha. A elite brasiliense abraçou o nada com ímpeto. Seus corações econômicos desde já batem e se debatem por essa nova “verdade”. Não há nada pessoal na citação. Nenhum ato de Alexandre me pareceu particularmente abjeto. Mas um pintor que olha um quadro entende tudo. Apura a catástrofe que emana daquele retrato sem culpa. Sem culpa e sem dignidade, uma figura prosaica do cerrado, passível de ser encontrada em qualquer entrequadra (o Plano Piloto não possui esquinas) num dia de semana, bebericando um chopp. Alguém até bacana, sorridente... Mas isso borra ainda mais sua imagem.

 



Escrito por wormsaiboty às 17:29
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O BRASILEIRÃO DOS ATACANTES

Pedrão (Barueri, artilheiro do campeonato paulista com 16 gols); Rafael Moura (Atlético-PR, artilheiro do campeonato paranaense com 14 gols); Taison e Nilmar (Internacional, respectivamente o artilheiro e o vice-artilheiro do campeonato gaúcho, com 15 e 13 gols); Maicosuel (Botafogo, artilheiro do campeonato carioca com 12 gols); Fred (Fluminense, ex-Olympique Lyonnais e Seleção Brasileira); Adriano (Flamengo, ex-Internazionale de Milano e Seleção Brasileira); Dodô (???); Kléber (Cruzeiro, vice-artilheiro do campeonato mineiro com 13 gols); Diego Tardelli (Atlético-MG, artilheiro do campeonato mineiro com 15 gols); Washington e Borges (dupla ofensiva do São Paulo, juntos possuem 23 gols na temporada); Kléber Pereira (Santos, 11 gols no Paulista); Keirrison (Palmeiras, 19 gols na temporada, vice-artilheiro do Paulista e atual vice-artilheiro da Libertadores); Ronaldo (Corinthians, ex- e futuro jogador da Seleção Brasileira).

O cardápio promete. Mas se algumas das defesas não forem queijos suíços, vários destes nomes não vingarão. Resta torcermos para que o menor número possível saia desta lista no decorrer do campeonato e revelações dêem o ar da graça.

 

O Campeonato Brasileiro, que já era mais divertido que qualquer nacional europeu, agora tem também os melhores jogadores do mundo e, ao contrário da distribuição de renda do “país real”, há considerável isonomia entre os participantes: oito clubes ou mais com status de “favorito ao título” e belas peças distribuídas pelos 20 elencos da disputa, ao contrário das badaladas oligarquias inglesa, espanhola, alemã, francesa e italiana, em que três ou quatro times até podem vencer uma equipe brasileira em final de Mundial FIFA, mas onde os pequenos são sacos de pancada e fazem feio diante do nosso glorioso Ipatinga. O Cruzeiro é melhor que o Bayer de Monique. O São Paulo é mais time que o Sevilla. O Barcelona perdeu uma vez e perderia outras tantas para o Inter de Porto Alegre. Adversários mais cascudos, como o AC Milan, são não-raro capitaneados por brasileiros. Finalmente, um aviso ao Robinho: se não voltar, vai ficar desprestigiado na Seleção (e vai continuar na capa dos tablóides ingleses por coisas que não fez). Não sei se diante dessa virada econômica que trouxe o Fenômeno e o Imperador o Pato já se arrependeu, mas o Mineiro e o Breno tenho certeza que sim!

 

Arriscarei prognósticos quanto aos rebaixados deste ano: 1) Barueri; 2) Santo André; 3) Avaí (é, o mar da Série A não está para peixes pequenos...); 4) Atlético-MG (vai e não volta nunca mais!).

 

 



Escrito por wormsaiboty às 20:34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A FALTA DE SENTIDO DOS CAMPEONATOS ESTADUAIS

A cerca de 110 minutos do final dos jogos de volta para determinação dos últimos campões regionais do futebol brasileiro, vejo-me num impasse. Bater palmas para os campeões (sim, antevejo vários deles)? Bocejar diante da televisão? Escrever um artigo para o blog? Quem sabe espernear com a anuência da CBF e a preguiça pensante das federações aqui e ali...

 

Não há nada de novo no departamento. As competições estaduais perderam a graça. Antes de dizer por quê, vou contar rapidamente a minha história com os estaduais, principalmente com o Campeonato Paulista, do qual participa meu clube do coração.

 

Comecei a acompanhar futebol a sério em 1998, aos 10 anos, apesar de guardar recordações da Copa de 94, da final brasileira de 1995 (no bar do meu pai, botafoguense) e de vários outros momentos marcantes (a final da Libertadores em que o São Paulo foi vice-campeão em pleno Morumbi, o bronze olímpico com Bebeto). O marco zero dessa minha incursão no mundo da bola como torcedor fanático foi a compra de um CD em loja de shopping enquanto passeava com minha mãe, uma prima e uma tia: A HISTÓRIA DO CAMPEONATO PAULISTA, para instalar no Windows 95, com fatos históricos de ano a ano, várias fotos, tabela interativa e até os escudos dos times que iriam disputar a série B-II (equivalente à quinta divisão)! Algo riquíssimo oferecido pela Federação Paulista e seus funcionários. Apaixonei-me pelo material, passei a madrugada lendo em voz alta o histórico do torneio, edição por edição. E não é pouca coisa: o certame mais antigo do nosso país, iniciado em 1902. A arqueologia do país do futebol! Juro que hoje procurei o CD e não achei, gostaria de reviver estes momentos. Tudo o que sobrou foi o ícone de atalho na área de trabalho do meu PC mais velhinho, um Pentium 166 Mhz, atualmente jogado num canto acumulando poeira. Naquela época o micro ficava no quarto dos meus pais; seu José já brigava com o filho que o não deixava dormir, e eu nem tinha acabado de ler sobre a década de 70! Mas que havia de mal em pesquisar um pouco do passado do esporte que pára a nação todos os domingos, em entender um pouco dessa predileção pelo São Paulo Futebol Clube (curiosamente, aquele foi o primeiro título que eu vi meu time conquistar!)? Outro conteúdo do fantástico compact disc – havia até um teste para futuros árbitros e bandeirinhas, cerca de 30 perguntas sobre controvérsias de regras. Para nenhum Arnaldo botar defeito...

 

Desde então o refrigerante e a pipoca estão sempre a postos, a TV a cabo é a companheira inseparável de todos os fins-de-semana – mais até que, em certa época, a namorada, que, por golpe do destino, era uma traíra corintiana!

 

Interrompo este relato carinhoso para anunciar: o Flamengo faz seu primeiro gol contra o Botafogo. Veja bem: eu disse primeiro. Sei que virão outros...

 

Por que uma história tão linda iniciada há mais de uma década possui um desenlace tão trágico (redigir um artigo intitulado A FALTA DE SENTIDO DOS CAMPEONATOS ESTADUAIS)? Temo que essa época romântica, essa idade de ouro da infância, já passou.

 

Não porei a culpa no campeonato nacional, que suga todos os holofotes. Pelo contrário: ele amadureceu. Não é em si uma questão de predominância dos grandes clubes ou de fatores econômicos (países de terceiro mundo não conseguem segurar seus craques, o interior é ainda mais falido, etc.). Apenas constatei que paramos no tempo.

 

Longe de mim querer abreviar de repente uma tradição que remonta ao comecinho do século XX, com o tricampeonato do São Paulo Athletic Clube (o avô do SPFC, é o que dizem). Mas a palavra abreviar vem bem a calhar para outra coisa: reformulação do formato. O que é isso, pessoal? Joguinhos que não valem nada de meados de janeiro até o mês de maio?! O campeonato estadual, para sobreviver, deve ser mais curto. Aos que aleguem que extra-oficialmente ele já não passa de pré-temporada, vá dizer isso para um flamenguista, um corintiano ou um cruzeirense amanhã... Se fosse apenas pré-temporada, torneio-exibição ou conjunto de amistosos não haveria toda essa pompa, festa e zombaria dos adversários. Nem tanto ibope global (eis um dos problemas fundamentais, obstáculo número 1 para a reforma tão necessária desses campeonatinhos). Ou se encerram as atividades das federações que patrocinam torneios inócuos, abarrotados de times de empresários, de incompetência e de repetições, ou intenta-se um último resgate do charme dos tempos preto-e-branco fazendo o campeonato acabar em março! Mas as regras e fórmulas das novas ligas eu deixo para vocês.

 

Vou insistir no ponto mais grave, no que me faz querer explodir esses campeonatos tão longevos e previsíveis: estamos em 2009? Tem certeza? Parece-me 2008, ainda; ou um 2007 levemente adulterado. Venho percebendo que de alguns tempos pra cá só em nível nacional surpresas podem acontecer (e olha que estamos diante de um São Paulo que é tricampeão, fato inédito!). Afinal, a cada ano pode surgir um novo Fenômeno, e não sabemos se ele despontará num time de Roraima ou no Goiás. Pode haver o ressurgimento de um daqueles centro-avantes apagadões, estilo Leandro Amaral. A volta de um craque europeu (no auge ou em decadência, mas neste último caso ainda serve!). Uma equipe de juniores que sobe para os profissionais e conquista o sucesso (Santos 2002). As variáveis são bem mais ricas, tudo é mais contingente e implausível.

 

Já nos estaduais, todos sabemos que os clubes ainda estão em período de banho-maria, no soro. O Fluminense, deixa eu adivinhar, trouxe as três maiores contratações da temporada, mas sequer irá decidir o carioca. Bangu e América não vão chegar; pelo contrário: até correm risco de rebaixamento.

 

No sul, polarização entre Inter e Grêmio, com o Juve tentando estragar a festa caso um dos dois grandes esteja envolvido demais na Libertadores. Em Sampa... ah, em Sampa! O torneio que me traz lembranças de infância... Deve ser diferente, afinal tem mais times, tem uma economia mais pujante... Pura ilusão!

 

Faça um exercício: procure no Google, nos arquivos do Terra, da Gazeta, do Lance – como terminaram os estaduais do ano passado?

 

Primeiro jogo da final do mineiro de 2008: Cruzeiro 5 x 0 Atlético-MG. Primeiro jogo da final do estadual do Rio de 2008: Flamengo 2 x 1 Botafogo. Último jogo do gaúcho 2008: Internacional 8 a 0 no Juventude. No DF (rá, claro, eu sou brasiliense, senão não lembraria), mais conhecido como Candangão 2007: Brasiliense pentacampeão. Várzea total. Monopólio inescrupuloso. E onde não há monopólio, há duopólio ou oligopólio, o que não é sinônimo de animação.

 

Flamenguistas, cruzeirenses e colorados fizeram a festa. O que mudou esse ano? O Internacional aplicou 8 a 0, mas não foi no Juventude! O Flamengo não venceu o Botafogo na 1ª partida, mas já está consertando o desvio... O Atlético levou de 5 do mesmo Cruzeiro. Sim, esse resultado é sintomático, quero usá-lo como exemplo máximo do quanto acompanhar estaduais ficou caduco, fora de moda. O que vale é o chopp com os amigos. É tentar prever se o Kléber será expulso. Tudo o mais perde o valor.

 

Aos que apontarem que eu negligenciei a análise excluindo o campeonato mais antigo e imprescindível dentre todos, reafirmo: não faz diferença se Palmeiras ou Corinthians são os campeões (desculpe, torcedores). Não faz diferença se temos Ronaldo. Não é mais emocionante acompanhar Ronaldo contra Ituano do que Ronaldo contra Itumbiara. E pra isso existe a Copa do Brasil... Mas vejam a 1ª rodada do Brasileirão ’09: Corinthians e Inter! Ronaldo x Nilmar... Agora sim o ano vai começar (coisa de brasileiro – e olha que dizem que nada anda antes do carnaval, mas a Páscoa já passou e até agora nada)...

 

Segundo gol do Flamengo. Estou reportando ao vivo.

 

O São Paulo foi eliminado pelo terceiro ano consecutivo em semifinais. O Santos está na segunda final em três anos. Não se deixem enganar pelo contraste entre os vencedores: esse quadrangular final, se reserva algum tipo de surpresa, é apenas 20% da competição. Nos outros 80%, rodadas inúteis protelando o que todos já sabem: um grande clube levantará a taça. Para que um inchaço no número de participantes, para que a execução do hino nacional antes de cada partida? Para que pay-per view (“pagar para ver”)?

 

Aquele torcedor do galo que despertasse de um coma de um ano julgaria que voltou no tempo. O mais desconfiado deve achar que colocaram um VT da final do ano passado por falta de recursos. O campeonato mineiro é o destino do paulista. E o carioca já é um mineiro adaptado ao Corcovado. Da próxima vez, você apostador já sabe: nada de bola de cristal ou mãe diná! Entre no meu blog, leia este artigo e aposte com seu amigo em 2010 sem medo de errar. Flamengo rumo ao tetra, Grenal decisivo, Cruzeiro ampliando a hegemonia...

 

Eu quero novidade, eu quero esquecer esse primeiro semestre...



Escrito por wormsaiboty às 17:18
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


ÊXTASE E AUTO-GLORIFICAÇÃO

 

 

Interrompi minhas leituras para narrar o que considero um dos episódios mais belos de minha vida: o dia de ontem. Certamente poderia resumi-lo como a constituição de uma divina obra-de-arte. Algo passível de justificar a existência de todas as criaturas, dos fracos e dos fortes, per si!

 

Há alguns meses venho percebendo que nas noites de álcool e durante as ressacas produzo cenas das quais muito me orgulho, afastadas que estão de qualquer ingenuidade pueril de adolescentes e do modo humilhante como os brasilienses se comportam. Escapismo? É necessário admitir que, a despeito do lamaçal, venho provando que este não é o fim do homem. É preciso confessar que o mundo moderno e a escravidão produtiva tornam maioria dos dias deploráveis, o que no entanto não obscurece alguns deles, pontos esparsos, espécies de ondas de um mar subitamente revolto, explosões dionisíacas, pelas quais assumo inteira responsabilidade. Talvez o Brasil seja mesmo um lugar privilegiado, de onde provém a vendeta do espírito trágico sobre o espírito burocrático. Estas ocasiões especiais de que falo, mais comuns em fins-de-semana, distantes daquela fétida universidade, longe da rotina asquerosa, parecem mesmo uma luz de Tieta, uma glorificação do momento típica do país do carnaval – difícil de ser imaginada na insossa Europa.

 

A primeira vez que tive consciência da alteridade peculiar que uma ressaca me provoca foi quando, em outubro de 2007, decidi sair para outro lugar, sair pelo segundo dia consecutivo, em que pese estar quase sem dinheiro. Enquanto caminhava em direção ao ambiente escolhido – um show ao ar livre – meditei inesperadamente acerca da questão do namoro. A concepção enraizada entre meus convivas é a de que isso constitui algo normal. De repente, e sem motivo aparente, pus abaixo esses valores: não há coisa mais bizarra do que se integrar, quase que contratualmente, a alguém! Nasceu em mim, desde aquele dia, um invencível repúdio pela idéia de namorar, quem quer que fosse, a vizinha ou a Madonna. O que também promoveu um ódio automático pelos pombinhos arruinados, todos dessa “sociedade do namoro”. É importante ressaltar, aliás, o quanto tais caminhadas se converteram em algo imprescindível para mim. O jeito mais apropriado para refletir. Jamais gostei de carro, mas recentemente me veio esta implicância até com ônibus. Aonde eu puder chegar a pé, assim irei. Fato é que este novo hábito parece ser a interferência de alguém em minha vida (logo, neste relato, isso ficará mais claro). O efeito flashback me dominou: sempre que estou bêbado, ou de ressaca, e sempre que estou caminhando em qualquer dia “normal” eu diria que destruo tudo a meu redor, filosofo com o martelo. Não há valores arraigados que eu não tenha descascado e derrubado, como fizeram com aquele muro na Alemanha. Uma vez se disse (Jair Ferreira dos Santos disse) que Nietzsche, um viciado em marchas, que não parava até se exaurir, se vivesse entre nós, andaria por aí com um walk-man (notar a data do texto) mudo, ou seja, refletiria sem música, tão-só pelo prazer de caminhar. Fato é que há seis meses meu MP3 player queimou... mais tarde no relato eu dou seguimento a esta história...

 

Está na hora de retomar aquilo a que me propus no primeiro parágrafo: dia 19 de abril de 2009, véspera de eu completar 21 anos de idade, a maioridade em alguns países e em algumas épocas, uma perfeita demonstração de tudo o que eu disse. É quando minha natureza mais hercúlea fica evidente para mim. Sinto – e se sinto faço – que moldo a realidade conforme meu gosto e me enquadro no chamado “comportamento trágico”, e peço mais paciência ao leitor para entender por quê. Primeiro, vamos à descrição despretensiosa de ontem:

 

Acordei, vi um filme excepcional sobre a vida de um ex-soldado premiado por heroísmo na Guerra do Vietnã e sua família arruinada, do qual, porém, não pude obter o nome, comi dois pães redondos com hambúrguer, manteiga e queijo, despedi-me dos meus pais, que como de praxe se dirigiam ao sítio, e reservei duas horas para a leitura do começo da grande obra de Montesquieu, Do Espírito das Leis. Em seguida, iniciei os preparativos para receber um amigo, para assistirmos juntos ao confronto dos nossos times rivais. Preparativos que consistiam na compra de não mais que dez cervejas e na “ritualização” da casa, quer seja, espalhar coisas do São Paulo por aí, principalmente no cômodo da tevezona, deixar no canal certo e no volume máximo, escancarar a janela para a hora de gritar gol e trazer as cadeiras para a frente da TV – só faltava cobrar ingresso para o espetáculo. Ok, o Felipe chegou na hora combinada e, ao que parece, intimidado e sem confiança, pois não trajava seu manto alvinegro (manto com patrocinador é ótima!) e tecia elogios ao meu time (manda o protocolo? Não sei).

 

O primeiro tempo foi de domínio da minha equipe, embora sem resultar em gols (e o São Paulo precisava vencer). Lá pelos idos dos 30 o interfone toca: é um amigo vascaíno com quem iria sair mais tarde, que já aportava no Plano e se auto-convidou para subir e assistir ao jogo uma vez que, em contrário, teria horas ociosas. Foi melhor assim: me sinto mais à vontade entre outras duas pessoas que ao lado de apenas uma – deve ser porque dissipam-se as atenções. E não era nada ruim o fato do novo conviva ser neutro na disputa: dois torcedores de times paulistas e um de carioca que não estava envolvido na final de seu estado, Flamengo x Botafogo. O clássico não foi belo; antes eu diria que foi embelezado por duas figuras: meus sábios comentários táticos e aquele jogador extraordinário (puta jogador!) chamado Ronaldo Fenômeno (por que será? Num mundo que navega no vazio ele é uma das poucas coisas que é concreta, impossível de passar batida). Meu time saiu de campo derrotado, Morumbi lotado, 2 a 0 no placar: o segundo tempo havia mudado os rumos da partida, o Corinthians emendou dois contra-ataques e foi o Felipe quem usou o maldito parapeito da janela para gritar e troçar dos coitados (sei de ao menos três são-paulinos no 3º andar). Um dos gols foi de gênio, R-9 tocando por cobertura ante o goleiro Bosco, lance rápido e preciso. É necessário aplaudir. E se conformar. Depois o jogador foi entrevistado e disse que “dos dirigentes do São Paulo às vezes sai muita... merda”, com um “r” bem carioca. A Band, parcial, enaltecia o feito do Timão com exclamações na tela, e foi a única a reprisar sem censura o desabafo feito ao vivo. Ronaldo teve razão: haviam dito que ele era um ex-jogador em atividade. Para variar, o Fenômeno concreto calou as bocas de quem não consegue subverter realidades adversas. Rapidamente restabelecido do fracasso esportivo, levantei e como bom anfitrião ofereci nhoque (ou inhame? Nunca sei) aos visitantes. Felipe, o vencedor, comeu. Brayner, que depois se arrependeria disso, repeliu o prato.


(continua abaixo)

 



Escrito por wormsaiboty às 02:16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

 

Marchamos rumo ao evento na Torre de TV (um dia, enganosamente, dedicado à televisão!) ao meu gosto, quer dizer, a pé e sem firulas... até que eu me dei conta de que, sabe-se lá por quê, saí de casa com duas chaves ao invés de uma, pondo em risco o chaveiro do Cristo Redentor sem necessidade, além de a dada altura, sem que nenhum dos três percebesse, ter sumido minha carteira de Carlton, quase cheia. O isqueiro e todo o resto estava lá no bolso. Praga do Brayner, que vinha dizendo que cigarro mata. Brayner é um bebedor compulsivo (alcoólatra) de 31 anos. Tivemos que parar a meio caminho para que ele comprasse uma micro-dose de conhaque, da qual aliás bebi mais que ele. Ao longo daquele dia aquilo ocorreria várias vezes. Nesse preciso momento fez mais ou menos 24 horas que comecei a ler Montesquieu, enquanto escrevo a palavra palavra. Ah, é claro! Olvidei-me de algo no relato cronológico: Tartas (como eu chamo o Felipe) me ensinou a pegar batatinhas no lixo do McDonald’s. Ensinar não é bem o termo – ele me lembrou que eu poderia fazer isso. Genial! Maravilhas do mundo capitalista, o dinheiro e as mercadorias circulam e os lascados se viram. O Brayner não parecia faminto, nem tocou naquela comida amarela deliciosa. Curioso notar que às 19:20 o relógio de ponteiro do Tartas parou. Deixe-me fazer um breve intercurso: como conheci essas pessoas?

 

Brayner: show do Alceu Valença aqui na Asa Norte há dois anos, um sujeito (ele) apareceu esmolando vinho. Eu estava com um amigo, Eduardo Maniax, e na verdade eles já se conheciam, então a garrafa virou propriedade de nós três.

 

Felipe Tartas: meu veterano na universidade, cursou História Econômica Geral comigo. Se Brayner é alcoólatra, Felipe T. é sua antítese social, e aficionado por automobilismo.

 

Os dois parecem ter – não muito tarde, mas tarde o bastante para não haver remédio – se arrependido da locomoção A PÉ. Almas simplesmente fracas. O Brayner despencou com 5/6 da trajetória cumprida. Disse que jogara bola de manhã e não comera direito. Agora o nhoque faz falta! Alguém inconseqüente feito moleque de 5 anos. Deu para ver que não era fingimento, o suor lhe banhava. Encontramos um bebedouro emporcalhado num posto, isso o susteve levemente; já meus músculos estavam sedentos por exercício, desperdício de energia. Assim que completamos a rota o maldito coroa devorou três cachorros-quentes e nem tinha dinheiro para pagar. Sujeito embaraçoso, além de alcoólatra que mente para si que não o é. Tartas nos acompanhava quieto. Logo encontrei duas amigas, que aliás vim a conhecer no primeiro dia em Brasília após um mês fora (em Fortaleza), há um ano, quatro meses após aquela ressaca em que questionei de súbito OS NAMORADOS. Eu havia chegado ao CONIC – mesmo lugar para o qual eu me dirigia na caminhada daquela grande ressaca – atrasado, com o show terminado, e fui comprar um hot dog e uma cerveja, quando as duas, bêbadas de cair, me abordaram. Adoro essas contingências urbanas. As duas, ontem, não me serviram para muita coisa, nem para alugar um baseado de maconha. Fiquei na base da vodca e da Antarctica noite adentro. O monstro comilão Brayner não tinha o menor respeito por si próprio ao se aproximar de mulheres. Degradante. Embaraçava o coitado do Felipe. Eis que surge em nosso horizonte o Eduardo Maniax, a razão de nos conhecermos, e provavelmente a razão de eu ter conhecido as magrelas a que acabei de me referir.

 

Muita coisa me aconteceu por causa desse sujeito, mas hoje não somos mais amigos. Logo se verá razoavelmente por quê. Um acidente, um desgraçado, esse cara de 28 ou 29 anos, o oposto das meninas, dezessetinhos virgens nas costas. Brayner observara ontem, mais cedo, que eu, aos 20, era um rei antológico da maturidade, artista do viver no mais alto grau – não com essas palavras de gênio. Lembrem-se: mesmo se tudo isso eu não fosse, mentir para si mesmo é um modo DIVINO de pensar... Responsabilidade criacionista: cada um é seu próprio demiurgo, existências precedem essências. É impressionante como uma pessoa reluzente pode justificar a existência de seis bilhões delas: eu. Se Brasília não existisse, eu não haveria, o que me deixaria muito triste! Esses vermes existem para que eu efetue minha self-glorification catártico-semanal. Olhar o outro e vê-lo baixo. Repugna mas acende. TODOS TÊM QUE APRENDER A CHAMAR AS COISAS PARA SI. Maniax é um bagulho humano, ou um homem bagulhado, estrupício. Não há pseudo-jornalista mais burro. Vou colar a URL do blog dele para vocês tirarem a prova: http://revolutionx.blogspot.com/ (mensagem do servidor: “O blog foi removido” – por que será? Um imbecil com um certo tipo de atitude frente à vida não consegue fazer nada direito – a menor coisa que faça, estará fazendo fora das regras estipuladas). Nefasto. Um sujeito desses é o limite do quanto um deus pode errar na criação dum universo. Todos somos deuses, mas uns não deixam jamais de ser patéticos. O safado ainda trabalha no PT e ganha cortesias para eventos caros. Molecote que apesar da idade usa bandanas na cabeça, munhequeiras de punk e parece um colegial. Além disso, sanguessuga deslavado, um miserável da sola do pé até o cálcio do (simiesco) crânio. Tomara que um dia ele encontre essa comovente descrição por uma googlada.

 

Dando prosseguimento à história linear, ele aparece e nos cumprimentamos friamente. A grande apresentação da noite, a Plebe Rude, se avizinhava. Cortarei pormenores destas horas até que chegasse o momento de todos se reunirem para deliberar o que fazer, após a última música. Mais de meia-noite, os fracos resmungavam ter de ir a pé e não haver ninguém com carro. Maniax, sempre esperto (demasiado esperto, o cristão), tenta abocanhar três mulheres de uma vez “alugando” meu apartamento. Aluguel compulsório, por constrangimento ao locador. Quem mesmo ele pensa que é? Ele sofre da síndrome de “meu filho”. Se direciona aos outros com um repertório de conselhos inúteis que refletem uma experiência que ele NÃO possui. Por isso ele acha que todos são seus filhos, e se considera também o proprietário da minha casa. Claro que as lindas meninas escapuliram, deram uma rasteira no “tiozão xarope”, e então, sem mulher no jogo, ele sabia que não tinha a mínima chance de pernoitar na minha casa (opção melhor que madrugar de olho vivo na rodoviária), ha-ha, como se eu fosse aceitar que ele viesse de brinde com qualquer mulher. Mulheres que não sejam suas amigas só servem para procriação, e ninguém procria duas fêmeas simultaneamente. Não haveria acordo nem se ele tivesse sob seu controle, digamos, a pessoa que eu mais desejaria comer. Talvez para comer alguém EU precise estar no controle, não um terceiro, cafetão, candidato a ser estampado na capa do NA POLÍCIA E NAS RUAS, esse Chaplin involuntário e horroroso, síntese do ridículo! E eu nem sei se quero comer alguém – alguém factível. Falando em comer é aí que chegamos ao impasse principal:

 

Maniax de repente se dirige ao Tartas e diz que foi ele que “me botou na fita da Mirian”, uma mulher que eu comi por causa dele. Nada a desmentir por enquanto. A segunda parte é que eu seria “cabaço” antes desse momento, ou seja, só “me tornei um adulto”, um “homem”, graças a ele! Instinto de pai em estado bruto. Mas o nome do meu pai não é Eduardo, e sim José, e o sobrenome não é de louco, embora Jesus fosse uma personalidade bastante controversa! O sentimento de repugnância foi tão elevado que me despedi de todos ali – dei um cascudo nele ou coisa assim, não me recordo (a reação do elemento foi patética, aliás) –, seguindo de volta para casa com meu orgulho. Isso eu chamo de HONRA, ou auto-respeito, e o que decorreu disso eu chamo de ASTÚCIA SUBLIME.

 

Voltando à metáfora das ondas do mar revolto, pode-se dizer que a ola arrebenta quando aquele mundo d’água atinge um ponto crítico: não pode segurar mais seu ímpeto, e se lança contra a praia, os arrecifes, as rochas. Eu sofro desse processo com uma freqüência incomum, rompo com as pessoas. E em muitos casos me esqueço, pouco tempo depois, do real motivo da briga. Não era a briga, o em-si, a baixeza do tratante, a motivação do cascudo, a galhofa sexual. Eu sou um brigador nato. O importante é que a briga saia, não interessa mais o motivo. Poderia sem medo de ser taxado de covarde me referir a esses instantes como pretextos. A essência do indivíduo me incomoda tanto que eu espero a oportunidade, a brecha... e ela sempre surge, a imundície sempre vem à tona. Não executei nada de caso pensado, mas a forma como isso vem acontecendo permite que eu elogie meu temperamento explosivo com os adjetivos “frio e calculista”: se eu meditasse por 1000 anos, teria feito exatamente o mesmo. Na noite passada em específico, essa ruptura com as pessoas que estavam na festa pública me possibilitou livrar-me de qualquer obrigação para com hóspedes, me deixou livre para caminhar e monologar (o que é muito melhor do que entabular conversa com fracos das pernas) e para me recusar a futuras conversas moles com o infame Eduardo. É como se num golpe de astúcia tirado da cartola (coroa) o Príncipe se visse liberto de tudo o que o ameaça; por ora.

 

Preciso continuar o relato linear, tão entrecortado que se desfigurou. Mas não carecerá, este desfecho, de qualquer esmiuçamento como as partes anteriores: houve uma insistência do par Brayner-Tartas, via celular, para que eu os esperasse em algum canto, ou para que eu atendesse o interfone, quando já estava em casa. Neguei absolutamente esse “socorro”. Por que eles deveriam ser punidos pela infeliz circunstância de estarem acompanhados de um bufão? Não é necessário um porquê. Os cristãos sofrem demais com finalidades. Que aqueles circunscritos ao que você quer punir paguem o preço de estar na hora e no lugar errado, sim senhor. Outra lição deste meu dia de destilação de sabedoria é que devemos assumir a inevitabilidade de bodes expiatórios.

 

(continua abaixo)



Escrito por wormsaiboty às 02:15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

 

Sendo generoso e fazendo uma concessão aos teimosos famintos por motivos “racionais”, ainda suponho que estes poderiam ter existido, e o justifico... Por que uma sensação de ofensa tão grave diante de algo aparentemente tão frívolo? Não seria imaturidade do autor do texto, quem se julga tão sábio apesar da pouca idade? Não se trata aqui de uma imagem arranhada de garanhão, mas da ruptura trágica com alguém que é exatamente o inverso do seu reflexo no espelho. Pode alguém honrado não se sentir DESPREZADO como se sua descomunal exuberância fosse reduzida a lixo? Minha primeira meditação, no meu entender, desde que pratico longas e assíduas caminhadas, foi quanto ao ato moderno de namorar. Eis que me deparo novamente com o verbo. Tudo faz parte de uma grande cadeia, e este artigo, em sua unidade final, o demonstrará. Obviamente, já passei pela experiência supracitada. Foram muitas gotas de suor, lágrimas e outras secreções que eu tive de vivenciar, para me fortalecer, em um longo relacionamento, quando tinha dezesseis; foi alguém – indiferentemente do juízo que eu faça dela hoje – com quem dormi mais de cem vezes; para depois de tudo isso brotar um MANÍACO da terra seca do cerrado e relatar aos outros coisas que desconhece acerca de mim? Não, não vivi aquilo tudo em vão, eu tenho uma história, história essa que é melhor que a dele em todos os sentidos, pulverizando nesta afirmação qualquer chance de relativismo. Além disso, selecionei esse caso em particular porque considero-o a vilania perfeita – MANUAL DE COMO SER ATROZ – devolvida do modo mais prometéico. Como tudo se desenrolou ontem minha memória segue viva a respeito e registro tal dia de domingo aqui como a demonstração par excellence de que uma vida bem vivida pode ser uma obra-de-arte apesar de (ou, aliás, justificada pelo fato de) vivermos no mundo moderno.

Durante todo o dia me senti poderoso, alguém sem virtude, mas com honra. Por vezes Montesquieu é bem nietzscheano. O engraçado é que eu vivo minha teoria. Os imbecis das Ciências Sociais não sabem o que fazem, vivem à deriva. Viver o que eu estudo é o único estímulo restante, o que faz da vida de universitário suportável, de modo que não largue tudo e vá ser serial killer.

Finalmente, vou retomar aspectos do início do texto. O leitor que não é de fixar muito bem assuntos pelos quais passa apressadamente talvez tenha de subir a tela novamente. Quase nada do que eu disse era sem propósito, mesmo quando parecia sê-lo. Quando falava do vício pelas caminhadas extenuantes, da necessidade de se afastar da quase totalidade das pessoas, provocando – se preciso for – cisões abruptas e escoradas em “motivos fúteis”, do walk-man e do MP3 e das nuances trágicas, eu estava preparando o terreno. Com todas as variáveis do meu dia dissecadas, chegou o momento de efetivar a unidade do pensamento da vez, revelar o princípio moral que é meu imperativo absoluto, minha diretriz-base.

 

Sinto-me à vontade, então, para definir a expressão que utilizei entre aspas no princípio do ensaio, comportamento trágico. Entendo que o homem trágico é aquele que molda seu destino. Mas não tome por esta expressão uma espécie de amo do gênio da lâmpada. Não é “sou aquilo que quero”; é “sou aquilo que consigo ser”, mas o que eu consigo é na verdade aquilo que eu queria. Daí concluo que nunca ajo de modo escapista, como uma Alice e seu ácido. Pelo contrário: eu chamo os embates, eles me transformam, e “o que não mata fortalece”. Sagro-me um ser brônzeo, um Hércules, semi-deus, herói, legendário, e o fato de desencadear a ira dos que se irritam facilmente com o sucesso dos outros (ainda que eles sequer entendam o conceito de sucesso, mas basta notarem que eu sou feliz comigo mesmo) só agrava o mesmo quadro: fico cada vez mais forte, daí o emprego do termo trágico: no fundo meu inimigo sou eu, e amo meu inimigo.

 

O ideal seria ser PROMETEU ou AQUILES. Como não podemos, resta-nos enganarmo-nos a esse respeito.

Mês passado tive uma aula de Teoria Política Moderna em que o professor Paulo Kramer citou algo curioso: a tendência de haver “profetas” na História. Menos pelo talento do próprio enunciador e mais pela capacidade de uma personagem futura moldar a sua maneira a vida de forma que se torne exatamente aquilo que foi descrito que deveria acontecer. Uma espécie de fatalismo; porém esta palavra não retira a responsabilidade e o livre-arbítrio que cada um teve na construção da “coincidência”. Do que estou falando, em termos menos obscuros? Kramer disse que Napoleão Bonaporte foi o exato Príncipe maquiavélico, três séculos depois da publicação da obra-prima; Nietzsche, quando ficou irreversivelmente louco, surtou ipsis literis como o protagonista de O Idiota de Dostoievsky. O romance foi escrito na metade do século XIX, enquanto o homem real foi internado em 1889. A cena do santo epiléptico que perdia a razão devido aos pecados incessantes dos homens e a incapacidade de apreender seus corações era permeada de detalhes que se repetiram sem-falhas na tragédia-realidade nietzscheana. Um capataz desumano que açoita um cavalo, as lágrimas que brotam, a corrida por um descampado, o beijo na boca do animal. O mundo está abarrotado de Édipos. Vou ser o mais direto possível aqui:

A cena da ruptura, o desenlace da noite de ontem, quando tomei a resolução de evadir o local, me vingando das ofensas recebidas, me evoca a última gesta de Zaratustra no livro-poesia de Nietzsche. Os detalhes biográficos, as semelhanças entre eu e o autor, já estiveram evidentes o suficiente. Mas o alter-ego do filósofo do martelo e da dinamite, o sábio persa, mistura de eremita com tirano redentor, sou eu. Depois de abrigar todos os governantes que foram de estatuto nobre no passado e que estão no seu ocaso, ofertando-lhes vinho, deleite e conversas agradáveis, Zaratustra pede licença, sai de sua caverna e se depara com o leão. Zaratustra fala com os animais. Não ordena explicitamente que destroce seus hóspedes, mas exorta a fera a entrar, pois é bem-vinda em seu lar. Acaricia sua juba imponente. Sua atitude astuciosa só lhe vem à mente depois que o rei-da-selva já sumiu na gruta: havia sido ato inconsciente, uma dionisiedade, um arrebatar instantâneo – fenomenal. Se pensasse por 1000 dias, teria feito a mesma coisa. Não há pusilanimidade no feito: apenas não há virtude; mas há honra. A correção de Zaratustra, a dignidade e a sinceridade, o protocolo, a cerimônia, a pureza e a desenvoltura com que se dirige a qualquer um sem meias-palavras e semore de frente não precisam ser a regra; ou, antes, é uma regra como qualquer outra: comporta suas exceções. Aquele que quer algo mais impõe a jogada mirabolante que ninguém no tabuleiro pode retribuir, ainda que eventualmente a possa prever. Que subjuga sem resistência. Maucaratismo, não. Golpe de mestre, sim. Àté o vinho da caverna lá estava, na noite candanga (transfigurado em conhaques e vodcas – Zaratustra concedeu as últimas risadas aos compatriotas falidos)! Eu reprisei a epopéia. Porque ao longo dos últimos anos forcei minha rotina a acompanhar o movimento daquele homem. Os contornos-gêmeos são atingidos assim: com extrema labuta. Depois de relegar os convidados às dentadas, Zaratustra parte para novas peregrinações, e não mais é visto. O que reserva o destino à ponte para o super-homem?

Previsões divertidas – Quiçá dessa teia de fatos decorra que a morte que eu aguardo para mim, definhar de fome, pode não ser a mais provável. Penso, agora, que terei um fim tranqüilo de alguém que enlouquece depois de mandar todo o seu recado, ou parte do seu recado com grande propriedade. O que será de mim a longo prazo? Serei professor, como o idealizador de Zaratustra. Amigos fiéis e duradouros? Creio que só tenha um, Thomas Edson. Espero que ele não seja meu Richard Wagner. Essas possibilidades de repetecos já começam a me assustar! Quem será minha Lou Salomé? Até agora não conheci uma mulher esperta - talvez a Patrícia?  E claro! Grandes livros virão, quanto a isso não há sombra de dúvida. Se puderem ser paridos sem tanta enxaqueca eu agradeceria... E eu gostaria de viajar pela Itália, respirar o ar veneziano, sentir a atmosfera florentina, rever, caso ainda exista (rever porque já a vi, num momento que não posso mais resgatar!), a pedra pontiaguda à beira do lago em Sils-Maria. Se sonho muito alto, quem sabe me contente com nossa Itália sul-americana, a Argentina! Não seria nada mal, na mesma toada, acompanhar algumas óperas: ambiente decadente, mas desfrutável.

Alguns aforismos deste ensaio foram retirados, até esta linha sem os devidos créditos, de outro homem, Jean-Paul Sartre. Também suprimi as aspas, intencionalmente. A existência precede a essência é uma delas. Somos livres para tudo, ou somos deuses, o que é uma tradução livre das suas implicações, é uma outra. Tratei com menosprezo este pensador mas repararei esta miopia em pouco tempo. Nunca havia dado uma chance a ele até perceber a importância da auto-responsabilidade nos séculos XX e XXI. Se digitar CTRL + F e procurar pelo nome do filósofo francês, o leitor deverá encontrar críticas severas. Vejo aqui que a dilatação do conceito de liberdade me incomodava. Mas a culpa não é de quem o cunho, é do rebanho que não o suporta!

Tréplica que já imagina a réplica – Ao leitor mais arrogante que retrucar que sou louco: loucos não escrevem tão bem.

A propósito, melhor do que me resumir em uma palavra, DOIDIVANAS, PSICOPATA ou sei lá – melhor o leitor me enxergar pelo prisma dessas três: APAIXONADO PELA VIDA. Acho este até aqui o post mais importante e trabalhoso do blog – hipertrofiou minha mão, tive que parar, escrever menos que o previsto, deixar as idéias descontínuas, devido à paralisão completa dos nervos do membro direito. Sempre acho, nessas horas, que não lograrei resultado melhor, como no DA CULPA E DA AUTORIA DOS ATOS E TEXTOS, ou, retrocedendo ainda mais, DA PASSAGEM E DA CONTINGÊNCIA DA ESTADIA NO VAGÃO, duas grandes publicações do blog, campeãs de comentários, aliás. Mas a espiral segue, incrivelmente!

 

Gostei dessa linha pessoal de postagem. Talvez relegue o PROJETO TRANSCENDER a segundo plano em prol de auto-análises similares. Talvez eu faça remendos e novas incursões baseado no que escrevi, principalmente a fim de que o leitor conheça mais a fundo a origem de várias das citações e personagens que eu busquei, mormente na literatura, e com os quais projetei paralelos. Ou seja, prometo desde já uma espécie de REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA deste ensaio. Isso poderá fundamentar inclusive pesquisas que enriqueçam meu próprio panorama, com informações que, conforme for conveniente, eu revelarei ou não a vocês!

 



Escrito por wormsaiboty às 02:13
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A MAIOR TOLICE: ESCREVER PARA PRESERVAR!

Dedicado a um amigo que jamais lerá

 

Frases minhas:

 

“Precisei de uma cicatriz para entender o ferimento”

 

“Sísifo suplantou todos os deuses”

 

“Eu sei por que leio tão devagar! Mas demorei a descobrir!”

 

“Um dia vou tatuar nas costas: o único cristão morreu na cruz”.

 

“Tudo é como num jogo de futebol: ser diferente não é escusa para o fracasso; você escolhe onde se posiciona em campo e o gesto que executa. Tente o melhor antes de reclamar da sua condição. Aliás, só são toleradas invectivas ao árbitro após o apito final. E, como eu dizia, a vida é como num jogo, e isso é depois do jogo...”

 

 

 

É engraçado como Deus sempre participa das decisões temporais até a época lockeana ou um pouco além. “Deus interferiu pessoalmente”, é o que consta de uma passagem do capítulo VIII do seu famoso Segundo Tratado.

 

Eu só consigo pensar num contraste como sendo um duplo. Mas não poderia ser triplo, ou polimorficamente conjugado?

 

Cada um é absolutamente responsável pelo próprio destino. Esta a única das verdades práticas já enunciadas e que ainda não se consegue suportar. Sim, o Euclides estava certo: eu tenho sede de poder. Ser poeta é ser demiurgo, é dar uma sapatada na cara de cada um dos desafetos. É, eu simplesmente gosto desse jogo! Ninguém descreve verdades, apenas produz verdades. Soneca e bando: esfarelem-se! “Ois” e nada mais, o melhor para o meu corpo. Há riso demais para tão pouca graça entre os jovens. O que eu digo é verdadeiro com base na força do que escrevo, e não do que vinha antes. Persuasão? Não, não é só isso: eu convenço fisicamente, uma vez que a matéria não mais resiste a esse moto – que é matéria, impulsos nervosos e pigmento de caneta Bic (ou bits e bytes, placas integradas, mandando um sinal elétrico daqui e dali). E é verdade, não obstante, que o demiurgo também se alimenta (até vermes como o Luan se alimentam, de onde tiram energia para dizer as asneiras de praxe) para poder criar. Mas, tiranicamente, me despeço: demiurgo é demiurgo, criatura é criatura. O dia em que todo mundo assumir culpas sem crucifixos...



Escrito por wormsaiboty às 19:49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

Talvez a Grande Política se resuma a governantes que impõem as seguintes condições:

 

- não puniremos quem matar ou ferir. Cada homem deve saber se proteger e arcar com conseqüências;

 

- sancionaremos aqueles que furtarem, adulterarem ou destruírem obras-de-arte alheias. O ideal é que o artista divulgue seus trabalhos. Iremos acolhê-lo mesmo se for contra nós. Mesmo e sobretudo, pois para nós não há “mesmo”.

 

Etapas para a re-extensão do espaço-tempo:

 

- fim da Internet e das comunicações modernas;

 

- fim dos carros;

 

- fim da cidade como a conhecemos;

 

- destruição dos pastiches das épocas passadas (que nem são tantas assim, dados trimilenares desconfiáveis);

 

- isolamento de vários grupos humanos (como em O MESSIAS E O HOMEM RURAL);

 

- decréscimo da população (obviamente);

 

- para tanto, não a guerra, mas o desmantelamento dos Estados nacionais via desastres climáticos – Nova Era do Gelo – oh, isso é engraçado!

 

- ou seja, muito espaço por explorar e um tempo para criar, de novo.

 



Escrito por wormsaiboty às 19:16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


SAGRADA FAMÍLIA

 

Não estamos satisfeitos com aquilo que nós temos

a não ser quando o perdemos

e depois o reavemos

De certo modo,

é um querer viajar

até o ponto do saturar

para em seguida tecer o voltar

 

Eterna saudade

do que precisa ser superado

 

Enquanto eu quero viver

o cristão só pensa em morrer

para descobrir o que vem depois

A sina está feita

quando se descobre

que o rabo da cobra

era a cabeça!

 

Infância

Mil ressurreições

A deposição

do ressentimento

de qualquer cristão

 

Vingança

qualquer anti-semita delineia

mas a minha

não é contra o espelho

nem avessa a minhas veias

 

Onde corre sangue

e não a metafísica hobbesiana

do judeu exangue

Deus Mamon, deus-dinheiro

O umbigo mais profundo

O sofista mais infecundo

 

O carnaval da elite

é pagão

Faz ajoelhar até

o chão

Típico valor

de pedra

Esse de se curvar diante de

uma reza

 

Eu voo

Porque seus pontos cegos

são mais cegos que os meus



Escrito por wormsaiboty às 18:56
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O JORRO D’ÁGUA

Do bebedouro ou do tonel

Por que essa explosão?

No meio da noite

A mulher distante se avizinha

O dinheiro se reaninha

O ouvido amigo se dilata

Para ouvir a queixa

de um lamuriado

Quer que batam,

mas se sente injustiçado

Lei da compensação?

Porque a aflição e o afeto

são como o vírus que

cristaliza

no ar

e de repente

com um sopro

vibra

 

 

 

 

 

***

 

 

 

Paguei uma puta

Só pra conversar

- De onde vem?

- Do útero da mãe

A puta é,

em última instância,

uma filha de outra puta



Escrito por wormsaiboty às 12:08
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


HEGEL, MARX E NIETZSCHE: ARISTÓTELES, PLATÃO E SÓCRATES DE CABEÇA PARA BAIXO

Na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, o Marx jovem lança os postulados da sua futura filosofia iconoclasta trans-moderna. A partir da página 108 (edição de A Questão Judaica que contém o excerto no apêndice) a covardia alemã e o estado de subserviência da cultura teutônica tornam-se palpáveis.

 

Quais são os principais sinais de que uma cultura começa a evaporar (entra em decadência)? Um inequívoco é a transformação do que foi trágico em Comédia. O Estado alemão do século XIX, comandado por kaisers que tentam ser ingleses, é a sátira do Antigo Regime. Segundo Karl Marx, tendemos a nos despedir de um processo histórico de modo alegre, rememorando suas facetas risíveis. O mesmo se sucede hoje, na Pós-Modernidade: todas as Artes e todas as Ciências são auto-comediantes. Chegou-se ao ponto de as comédias de comédias proliferarem: Guerra nas Estrelas, uma paráfrase cósmica dos combates épico-medievais (George Lucas bebe da fonte de Tolkien), é a série campeã de referências divertidas nos filmes e seriados americanos. No âmbito político, ver Chávez, o Carlitos do Socialismo, o último adeus da alternativa falha ao Capitalismo clássico.

 

Voltando à Alemanha, inscrevia-se o país em uma situação tão peculiar que se poderia defini-la no entreposto entre o esgotamento do mundo idealista e o não-saber-o-que-fazer. Isso implicava refutar qualquer filosofia e, tacitamente, aceitar o destino fatal, o cumprimento da mesma filosofia (de qualquer modo, a maneira mais ágil de transvalorar, se não fosse a única)! Se tudo por enquanto (anos 1840) fora teoria (imaginação), amanhã o que faríamos não seria prática, mas tão-somente reflexo do que viemos a ser... Até que o movimento iniciado gere um colapso extraordinário e outro projeto renasça das cinzas – Holocausto? Por colapso sem proporções, certamente quer-se dizer o fracasso e a humilhação alemães, o débito pelo progressivismo tedesco no século em que a Inglaterra não queria guerrear.

 

A Alemanha havia cumprido sua função intelectual antes do mundo – Hegel é quem disso se apercebe, sendo simultaneamente aquele que arremata esta compreensão, assim como um protagonista de García Márquez fadado a desaparecer lendo um texto sobre si –, mas parou em 1900. Os dois filósofos de mais renome que sucederam Hegel são os pássaros do devir do mundo moderno.

 

Hegel percebeu que, quando o homem se dava conta de que estava preso numa cadeia de fatos já projetados, nascia a História. Marx apenas reforçou esse juízo com sua pseudo-inversão. Talvez Nietzsche não tenha reforçado muito mais, porém foi categórico. O que é do futuro do projeto realmente autônomo é de lá e é apenas uma meta do observador daqui, QUE AINDA NÃO SUPEROU A SI MESMO. Marx se engana no derradeiro pingo de seu trabalho, quando, consciente de que o homem que ainda não se superou jamais teria respostas definitivas para problemas como esse (simplesmente o da auto-superação da humanidade!), ainda assim, afirma que a chave da transvaloração é o proletário. Nietzsche não cita diretamente nenhuma fórmula capaz de subverter o Cristianismo, o espírito iluminista e os Estados-nações. Não há fórmulas. A fórmula é decidida pela própria existência a cada segundo transcorrido – a única menção mais clara de Friedrich Nietzsche ao atingimento do übermensch consta do princípio de Vontade de Potência e é um duplo alerta: caso as categorias do niilismo se mostrem invencíveis, justo no momento em que o homem teria mais força e capacidade para ultrapassá-las, tendo chegado tão longe, isto significa que ou os modos de produção não estão maduros o suficiente ou ainda não se encontrou o modo adequado. Talvez essa seja a linha mais enigmática do legado deste último filósofo, o Sócrates depois de Cristo. Provavelmente as duas coisas vêm juntas, e ainda que não se possa pressenti-las no horizonte o pensador do martelo, morto em 1900, nos envia preces otimistas (especialmente a nós): não importa o dia em que cheguem, os novos valores um dia vão chegar...

 

NOTA CONCLUDENTE: Por incapacidade total de que me entendam adotarei silêncio rotundo e constante sobre as coisas da vida em conversas. Lembre-se sempre: é melhor para a alma forte ser centrípeta que centrífuga, e aliás é o único pathos que ela conhece para si. Respirar o ar do crepúsculo e sê-lo, ser mais imperioso que qualquer jovem, que quaisquer pés sobre o asfalto. Auto-satisfação comigo mesmo e com minha majestade. A onda do mar navega milhas e milhas antes de arrebentar. Escolherei o pedregal.



Escrito por wormsaiboty às 20:05
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


UMA (DUAS) ODE(S) AO AMOR IMPOSSÍVEL

 

Quão brilhante é a neo-clássica adaptação de Romeu e Julieta de Shakespeare para o cinema! Talvez esteja fora de moda, não só o próprio amor, mas a forma textual em que ele é comunicado. Na era da falta de imaginação, imagens e sons devolvem ao jovem o doce – e ao cabo amargo – sabor da ilusão. Talvez o diretor Luhrman tivesse em conta a situação do professor de Literatura ao iniciar as gravações. Afinal, com a exceção do rosto de DiCaprio, cilada que captura as menininhas e esvazia o significado da aventura – sem volta: todas as aventuras são sem-volta –, esta é a única maneira de solidificar o que é líquido e esparso. O vívido contraste entre a erudição e o colorido de boate é o mesmo de entre as carroças e os possantes carros, das páginas (sem vida? O leitor está inerte!) com as câmeras, da batina sóbria e da camisa florida do padre (dos padres). E o que se tira disso? Há algo familiar demais entre opostos que se atraem para ser ignorado!

 

A contradição que não se pode resolver, entre dois inimigos de sangue, é o mesmo dilema que sente a carne. Posto que é tão real, não pode ser loucura ou confusão. Ou será que serão? Tudo isso é, e muito mais; a nova força semovente abraça todas as alteridades num invólucro só. O que é de hoje e o que já se tornou estranho, fóssil de uma enterrada era... sempre estiveram no recôndito de cada alma. Nenhuma experiência é previsível, não há ato que possa ser repetido – logrado duas vezes.



Escrito por wormsaiboty às 15:22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Vamos testar o canto da sereia

Provar minha dureza

Se sou um hipnotizado

Ou se tenho sangue nas veias

E, se digno de Homero sou,

Para sair dessa

Sem mastro a que me atar

Só por cera assaz espessa



Escrito por wormsaiboty às 15:59
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


2300 ANOS DEPOIS...

 

PLATÃO – Vê no que se tornou minha República. De fato, o projeto entrou em execução. A virtude dos filósofos foi empregada para governar o povo e tudo que se tem agora é a concupiscência desses senhores, a corrupção generalizada... Eu as produzi! Como lhes ensinei o desinteresse, e subestimei a vontade de poder humana, hoje eles ainda se afirmam desinteressados, porém eu vejo através da demagogia...

 

ARISTÓTELES – Que monstro produzistes! É chegada a hora, mestre e sobretudo leal amigo, de que luzes se tornem trevas e sombras matéria. Tua alegoria da Caverna é o que restou de mais preciso sobre a milenar natureza humana, e é um retrato perfeito de como os valores se invertem de era em era, de modo que o Bem se torne o Mal e o Mal se torne o Bem; e, claro, produzam-se essas figuras indefiníveis, fronteiriças. Sócrates foi o demônio antes de ser santo, e hoje é apedrejado novamente. Todas as épocas, apesar de toda alma ser livre, apresentam esses mártires, cuja liberdade se resume em atender uma necessidade universal: transvalorar o animal político! Meu inestimável professor, é tempo, já vês, de fusão de classes. Na morte de Deus já não há mais heróis, déspotas, escravos, o divino, o depauperado, um estamento infinitamente distanciado do outro, esta vocação de berço... Vês que todos esses homens treinados para a guerra, para os cálculos ou então para o comércio ou para bem servir os demais são atualmente um só? O querer sempre mais, a seleção que impusestes aos atenienses, este instinto de competitividade estranhamente alimentado pela ascese, isso gerou o corpo burocrático, isso centralizou todas as atenções no dinheiro. O nivelamento extirpou a nobreza.

 

PLATÃO – A areté é uma coisa que vai e que volta, nada deixa de ser... Hípias, Górgias... Vejo que o século XX será a reprise dos sofistas. É um movimento decadente, se bem que necessário, estímulo para uma ulterior ascensão. Vês como a Idéia atingiu sua exuberância máxima em Hegel? E não obstante foi com este alemão que meus ensinamentos principiaram a degenerar. Quando Glauco rebate Sócrates e diz que a Música não pode conduzir o intelecto porque é arte, sensível, ele está refutando Schopenhauer. O Homem ainda vai navegar por estas curiosas águas do tempo, meu amigo, até reencontrar Homero! Ressurreição do Olimpo!

 

ARISTÓTELES – Que a nova era dos poetas dure três mil anos e que até lá joguemos e dancemos, porque não será mais necessário tanto falar... O logos fica em segundo plano, coagulado.

 

PLATÃO – Aristóteles, apólogo de Sófocles, vamos indo que aí vem a caduca mas invencível mulher chamada Esperança...



Escrito por wormsaiboty às 15:36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


VONTADE DE (EXERCER) PODER

 

A Goethe

A Weber

E aos bons estrategistas

 

Por que o ser humano – jamais vi um caso – se recusa a fingir de modo que consiga as coisas fácil, que ganhe um atestado de que não é responsável sobre si e de que necessita de cuidados especiais de terceiros para sobreviver? Em outras palavras, de vez em quando me vem a idéia: e se eu fingisse que fiquei retardado de repente, com vistas a escapar de trabalhar, estudar ou de ser dono de qualquer coisa no mundo da propriedade privada? A fuga perfeita da burocracia que engole todas as consciências vivas, o resguardo em uma casa de loucos com cama, comida e roupa lavada (ou só os dois primeiros). Por que não? Ou a estadia em casa numa cadeira de rodas com a cabeça para o teto, a baba escorrendo sem-fim, os pais baqueados, sem alternativa a não ser servir? Algo aí não cai bem, e não é a desconfiança de que alguém não iria engolir o teatro ou a inexistência de planos paralelos (um deles seria cometer um crime hediondo para viver o resto dos dias numa jaula custeado pelo Estado).

 

Mas ninguém faz isso. É por culpa do transtorno que acarreta o simples pensamento de que se é um demente, um idiota. A humilhação instantânea. Todo ser humano vive para se esforçar e fazer seu melhor, mesmo que este melhor esteja muito abaixo do desejável. Prefere-se as dificuldades do “mundo lá fora”, o mercado de trabalho, o emprego insalubre, a existência sem sentido e o cotidiano enfadonho a qualquer enclausuramento mental. Talvez bata também (como me aconteceu), quando se reflete detidamente sobre o tema, o medo de se tornar um deficiente mental de fato, como resultado do hábito da dissimulação. Quem finge que é possuidor de um outro caráter há muito tempo frente a certas pessoas sabe do que estou falando. Uma coisa é parecer ser para angariar vantagens, outra é se converter na vítima do próprio golpe do baú. O que um completo incapaz poderia fazer? Nem que pedir esmola no sinal, o ser humano exige o direito de fazer alguma coisa. Quando penso que se tudo desse errado eu poria tal plano em ação, logo emanam dois impedimentos: o que eu poderia fazer? Talvez nem assistir televisão, ou ao menos não mudar de canal, porque não saberia mais contar, ou associar botões, controles, aparelhos, cores e cliques a movimentos coordenados do meu corpo. Não comemorar os gols do meu time. Não rir do que tem graça. Nunca mais. Tal perspectiva é apavorante. Não se está ganhando nada com isso. O sujeito mais convicto desta “saída” sofreria recaídas em menos de uma semana. Meu segundo obstáculo pessoal seria: nunca mais escrever, o pior dos interditos. Eu, que venho tentando emudecer, não aceitaria essa estaca no meu coração (onde afundaria, se entrasse pela mão destra), esse silêncio ainda mais fatal. Não acredito em loucos voluntários. No fim, em termos de sanidade, não tem como nos imaginarmos mascarados.

 

Tudo que cada um quer é aquele arrepio, aquela tensão, aquele sentimento de mover montanhas, que só se afiguram entre os poderosos. Ou entre as formiguinhas orgulhosas e persistentes que até o último instante têm esperança e apostam as surradas fichas nos seus sonhos.

 

(*) Para aqueles que consideraram ser este o ensaio mais ingênuo até então, se comparado com a série anterior, pense a respeito da doutrina da Contemplação de Platão e Aristóteles: em busca da Felicidade, viver a vida conforme as disposições de um débil mental. Recusar-se a qualquer tipo de afronta aos deuses! Ironicamente, tanta vontade de paz gerou “o mundo lá fora” desprezível que conhecemos. Mas nosso papel é aceitar a responsabilidade de combatê-lo, e não se esconder atrás de preces. Quem quer danar, vai salvar... ...e o verbo continua...



Escrito por wormsaiboty às 16:11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O SONHO-PARÁBOLA PERFEITO

 

Proletários de todas as idades – falo de crianças e idosos, como no século XIX – e dos dois sexos, e uma voz que ecoa pela escadaria como se por um alto-falante ou por um sistema de rádio. Todos em trapos e inclinados à rebelião, exceto este austero homem da voz, devidamente engravatado. Firme, seguro. Ele representa o Capitalismo. A massa representa não o marxismo, a democracia ou o mercado de trabalho, abstrações: trata-se do homem, da condição humana. E os homens, em bloco, se bem que caóticos, descem as escadas. O ricaço – este anti-próton, antípoda da existência, que se aglutinou a nós, que se tornou desde tempos imemoriais nosso pastor – contempla, maravilhado. A escravidão em sua modalidade mais explícita me foi mostrada neste sonho-espelho. Não faz muitos dias, ou semanas, que ando tendo essas incursões filosóficas até mesmo na esfera inconsciente. É sinal de alguma coisa: essas questões se apoderaram da parte mais funda do meu espírito, da minha essência.

 

É como se o prédio se incendiasse e fosse posto em prática nesse exato momento um plano de evacuação, orquestrado pelo sujeito polido. Uma crise do sistema, uma desordem social, que logo será contornada, para que tudo volte a se assentar, como antes, ou mais que isso: em bases mais sólidas. As pessoas parecem saber disso, mas não há alternativa. Alguns, mais insurgentes, crêem que depois de hoje nada será como fora, a verdadeira revolução se aproxima. A exploração sepultada? Meu sonho penetra no verídico devaneio de bilhões de homens no decorrer da História.

 

Algo, no entanto, paira insondável. Aliás, ao invés de estático este algo talvez seja dinâmico, fluido, movimentado, eficiente, faceiro, sábio, sério e brincalhão na medida – uma entidade que opera com conhecimento total das circunstâncias, cujos propósitos até escapam à cena, algo que consegue enxergar além, uma origem e um destino do processo em curso – o momento da correria pelas escadas é o Ocidente, o mundo moderno. Esta criatura invisível, onisciente e observadora, o que é? Deus? Não, óbvio demais... Sou eu! E afora alguns detalhes meu sonho – eu diria extraordinário vislumbre alegórico – não avança mais do que isso...

 

Vamos aos detalhes: o grande proprietário, a burocracia de carne, rosto bem-aparentado, sorriso elegante, bom porte, enseja organizar seus soldadinhos em batalhões de diferentes tamanhos, de acordo com faixa etária e gênero. Há, como já mencionado, um burburinho, um mexerico, uma espécie de pólvora que promete comprometer essas fundações e que, depois, venha o que vier. A taça cheia precisava derramar seu conteúdo. Antes que as filas se organizassem como pedia a voz, tudo se desvanecia e eu acordava...

 

Às interpretações: o que é que diferencia os planos da massa dos meus diante desse “filme”? E o que faz de mim um antagonista invencível para este homem, enquanto só os operários com suas vontadezinhas imediatistas não passam de brinquedos sob rígido controle do dono? Eu sou a perfeição, diviso até uma das aparências ocultas desse homem engravatado: não é mais esbelto e galante, mas um gordo de cabelos encrespados, uma figura feia e áspera daquelas ante as quais se deve cuspir no chão ao se lhe dirigir a palavra, ou engolir em seco, caso seja seu patrão. O semblante de um obeso que promove o escárnio, ri sozinho e mata com suas piadas: o inimigo da sociedade há dois milênios.

 

O que vai acontecer é que eu vou combater este centro de poder com o único contragolpe à altura: ele mesmo. Os homens que rolam escada abaixo não podem tentar queimar suas fábricas, destroçar o Capitalismo: este último sempre triunfa. Eles devem sê-lo. Devem se fundir com a figura sebosa do capitalista: milhões de homenzinhos iguais, com a testa engordurada, um sorriso doloroso, o terno passado e justo, a conta no banco tão gorda quanto a própria silhueta. Isso traz à tona um diálogo – mais para lição, nada amigável – que tive há meses com um estudante de Serviço Social, engajado na promoção da  “justiça social”. Agora sim, com todos se comportando de modo pragmático, lucrando e lucrando... tudo vai desmoronar! Essa é a função atual do sindicato: ser burguês. Tornar-se a burguesia (um estranho crossover, é verdade), a classe unificada, a última habitante deste planeta. Para então se auto-destruir. Nenhum Aquiles escapa à sua sina. Clones em marcha: logo o senhor Narciso se enfastiará da própria imagem.



Escrito por wormsaiboty às 16:56
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


MINHA INTEMPESTIVA III – DAS VÁRIAS METÁFORAS QUE EU ENCARNO

 

“Eu me arrependo de tal coisa.” Essa é uma frase corriqueira em nossas vidas. Mas tão comum quanto perecível. Quando se tem maturidade suficiente para se aperceber dos jogos de ação-e-reação que nos constroem e do papel do sentimento de culpa em cima de nossos atos, enfim, quando o sujeito apreende a “irrevogabilidade do crime” e enceta a direcionar seus erros a seu favor, tem-se finalmente autoridade para proferir a frase: “Todo arrependimento tem uma data de validade”. Se nem todos têm, é melhor embarcar na ilusão de que determinada ferida irá cicatrizar – ou não se consegue viver uma vida. Atente para meu exemplo: pelo menos um ano me arrastando em sonhos para ser readmitido no Colégio Militar. Mas eu engolia o dissabor com meu orgulho de leão (e não de pavão, que é um ser belo porém fraco) e não contava a ninguém – muito menos aos pais. Eis que quando a oportunidade se insinuou, piscou, tremeluziu... eu já me havia apoderado dela. Bingo! Todo arrependimento é vencível – seja pela ação do tempo, seja pela labuta individual (obviamente, essa é uma categorização como todas as outras: falsa, pedagógica).

 

Eu não me arrependo de descartar amigos. Talvez eu me arrependa de não descartar mais... Tenho de reconhecer que meu lugar jamais foi fora do reino burguês. Apesar de jamais ter sido dentro. É hora de cortar os laços que ainda restam para ser cortados. Não tenho mais amigos ricos e frescos. Sou tão estranho no ninho que ainda que com um bom porte, roupas adequadas e um celular da moda, não me confundiriam com um deles. Portanto, as badaladas do relógio hoje indicam: é tempo de se desfazer de quem te olha com estranheza não por estares de fora, mas por estares intrometido. Ou quem seria o intrometido de uma história que começa na minha casa com convites constrangidos? Desde o início fui montaria de um grupelho que me olhava como detentor de benesses especiais – de caráter financeiro. E que outro seria? Qualquer outra afinidade no meio do caminho é fachada. Como disse, arrepender-se é ou precipitado ou vão. Claro que se trata de figura de linguagem – todo ser humano se arrepende e ponto. Resta saber, contudo, o que se faz a respeito dessa angústia de não poder alterar o passado.

 

Minha vingança é atroz porque me vingo de mim mesmo. E quando reconheço o erro, resta muito pouco para os idiotinhas fazerem. Quem sabe já se conformar com o prejuízo seja a melhor saída para eles. Um ex-amigo que está indo para o saco nesta temporada chama-se Eduardo, o adolescente de meia-idade, o Peter Pan ébrio e urbanóide que se dedica ao ofício de ser o contrário do que a cara estampa a cada finalzinho de semana, para descontar a frustração existencial. Evidentemente, a cada criancice, faz questão de propagar sua moral antípoda: “aprenda com os mais velhos”. Precisa de um Cristo a cada sexta-feira porque a mão está cravejada de calos demais para que dê outros três passos adiante com a cruz nas costas. Talvez a madeira deste Pinóquio esteja tão podre que ele não se vê mais capaz de pressentir o mal que devém. Ele espera que um terremoto o avise, sem embargo o tremor de terra é o próprio mal do qual ele deveria ter sido alertado...

 

Um pobre diabo desses, quando cair em si, vai notar o bilhete premiado que lhe escapou pelas mãos graças ao vento e que, quando estava prestes a reaver, escorreu pelo bueiro. Por um acaso um bilhete se arrepende de não ter sido de algum vencedor? Se não se está com o bilhete, a vitória é só um sonho perdido. O bilhete faz o vencedor. Nem que passe a ser benquisto, para o próprio gozo de si, o destino de se colocar fora de qualquer alcance no submundo, e deixar a mesquinhez lá em cima se acumular. Se todo o ouro volta ao dono, o único dono é o fluir ininterrupto, porque nesta aventura não há retorno – e se houvesse o dono já não seria o mesmo.

 

É chegado o momento, em suma, de singrar por novas águas, o que implica a deserção de marujos saudosistas em excesso. Nada de velhacos com manias de meninice, nada de bufões. Daqui em diante, que o capitão prepare o convés, a proa e o casco – e, porventura, se algo der errado, o bote salva-vidas.

 

Ficam registradas algumas dúvidas pessoais: 1) passarei meu segundo ano consecutivo sem me apaixonar? 2) quantas recaídas eu terei naquele campus? Vou me sujar de novo com aquela patota? Me sentar de novo naqueles sofás comidos por traças?

 

Aos parasitas: aqui estão as chaves, mas é bom olharem para o chão antes de entrar, porque esqueci de dizer que moro numa imensidão. Uma imensidão que para pequenos praticantes da punga não tem nada de inteligível, é só uma queda no vazio.

 

Eu sou perigoso. Não ofenda o solitário. Eu não tenho absolutamente nada a perder, em nenhuma transação termodinamicamente cogitável. Um espírito como o meu -- possui a sabedoria de cem deuses, e o conhecimento do veneno específico de cada um que tem o azar de me surgir como pusilânime. Principalmente os outrora outra coisa. Eu emito sinais claros de que estou prestes a fazer uma “burrada”. Como não se precavem, os vizinhos indômitos levam um caixote: do cimo da onda – domadores do mar! – aos arrecifes. Se ter Napoleão como escada é o ideal, a meta máxima, tombar dessa escada deve ser o que deixa o cotovelo mais roxo: e se alguém nunca está tão elevado quanto quando sobre um lance de escadas, também nunca esteve em maior risco. Eu sou o homem-dos-riscos. De que me importaria o juízo alheio, se só eu me leio?

 

O trapézio que eu era, o palhaço que eu fui, viraram o fogo dos arcos, as facas dos alvos e as luzes do palco. Sem mim vocês não são nada. Mas comigo estarão mortos ou ofuscados.



Escrito por wormsaiboty às 17:50
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


MEA CULPA

Tive meus anos de 2005, 2006 e 2007 pautados pelo liberalismo econômico mais ortodoxo. Relacionei-me com veículos de comunicação, pessoas e defendi idéias que não queria – não quereria, é dizer, se pudesse medir as conseqüências hoje. Me defrontei com muitas instituições, programas, crenças e vidas. Gerei polêmica, gerei tumulto. Em sala de aula ou em ambientes de trabalho. É verdade que, receber, eu jamais recebi por isso um só tostão. Até em paradas de ônibus na calada da noite eu me engalfinhei com desafetos (nem que apenas imaginários). Claramente havia uma atmosfera que me infectava, um acontecimento político escandaloso, a desilusão do passado (do infrutífero século XX), um curso superior errado, o impulso por ser contrário ao vigente, personalidades de cuja paralisia eu precipitadamente me alimentava.

 

Poderia elencar as principais figuras vivas, e os principais projetos em que me engajei (me enredei, vi depois) neste período, plantando desesperança e querendo colher a realização da liberdade: Diogo Mainardi, e sua sedutora e espetacularizante retórica – hoje eu não sei quem é esse homem, o que ele escreve ou deixa de escrever; Gabriel Keene – que me achem, esses indivíduos, no Google, se puderem –, o “presidente inteligente popular amigão” que atualmente enxergo lá embaixo como tendo sido uma trava temporária (ele era presidente de uma limitada de adolescentes faz-de-conta, não se formava por incompetência, apenas puxava o saco de algumas patricinhas, era somente uma daquelas crianças rejeitadas que cresceram com seu amor pelos videogames e pelo Tio Sam sem saber o preço de uma amizade); Raphael Bruce, um antiquado um pouco mais genioso que a rede de amigos geeks (*) ao seu redor, que pensa em “entabular diálogo” como “impor o meu falo”; professores muito... pessimistas; blogs em que trabalhei “querendo raciocinar em conjunto”, mas em que descobri o sobrepeso da minha opinião pessoal, dentre os quais o Abrigo Polar, o Horário de Brasília, As Fantas, o Bicarbonato de Sódio. Michelle, talentosa mas desorientada, Rômulo, Martino, um maluco ou outro da internet, Peu Lucena, o adulterador de textos, Carmen, a chefe invocada, Melina Sales, a de humor contagiante, colegas de ex-faculdade (ou ex-colegas de faculdade), todos me passam batido. Tem ainda o demoro.com, os jornais em que estagiei como clandestino. Seria impossível lembrar de tudo de uma lapada só.

 

Este artigo não pode se resumir à modalidade acusatória. Também trago uma receita para um melhor entendimento de onde se pisa: 1) caminhar muito ao ar livre, se possível debaixo de sol forte e com roupas pesadas. Ou melhor: tentar os mesmos trajetos em diferentes horas do dia. Quando se está um pouco bêbado e se passa por uma cidade suja, escura, desolada e insolúvel não se acredita mais no capitalismo. 2) de vez em quando desligue a música e a TV e coma uma refeição em silêncio!

 

Continuando o que ia dizer, 2008 foi o ano da virada. E este texto é só mais uma pedra.

 

(*) Cabe aqui esclarecer por que utilizo geeks e não nerds, uma etimologia arruinada que confundiria meu leitor – enquanto ser pensante eu ser considerado na maioria dos círculos jovens como nerd, com ou sem óculos, é auto-explicativo o bastante. Meu conceito de nerd/geek é: aceitar o mundo adulto só no que ele tem de eufórico: o aumento de poder, o carro, a bebida, as mulheres, as festas, as compras, poder olhar de olhos caídos alguém na rua e rumar para casa. Mas recusar as responsabilidades. Às vezes o nerd lê quadrinhos demais e esquece que por trás de toda a tecnologia do fabrico e a aparência há o fator humano e que nem tudo é uma rodada no Outback. Como o tio Ben do Homem-Aranha já dizia... (a frase todo mundo sabe) Porém, ninguém aqui quer saber o que implica o trabalho. Quando você cresce e seus amigos não, fica essa dificuldade de definição: o que há com eles? É precisamente isso: um estranhamento inter-geracional, porque você amadureceu mais depressa.



Escrito por wormsaiboty às 18:18
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


EU DANTESCO

Eu já visitei o Paraíso e voltei

Contei que fui rei

Riram de mim

Do profeta em mim

Mas quem senão eu

Para relatar

Os bastidores do pós-espetáculo

Se Real não é palavra por acaso

Que denota a realeza

De tudo que vai

E de tudo que volta

 



Escrito por wormsaiboty às 17:55
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


ANÁLISE PSICOLÓGICA DO SEXO NO PORVIR

 

As orgias gregas não são como entendemos as nossas, porque eles não negavam o corpo. O Cristianismo é um estímulo catatônico à perversão. Universitárias com poucos dotes intelectuais logo se abandonam ao fogo, feito as bruxas. Estudo do prazer - dar ou obter o presente proibido/oculto. Mas tem de ser um jogo igualmente tácito, é assim que se joga. Se a libertinagem ganha publicidade e câmeras demais, inicialmente é prostituição, mas há algo estranho aí - uma mudança, um ganho contra o pudor moral. A permissividade como excitação (com predomínio ainda do sentimento póstumo de vergonha) cede à adoção hedonista como costume - não-proibido. Culto e re-valorização do corpo, portanto da nudeza. Enfraquecimento da culpabilidade. Perversão à inocência (re-helenização). Nossas orgias ainda são o culto do socialmente reprovável. Caráter de desafio. Os bacanais gregos constituem o exame duplamente nu da verdade e das possibilidades do homem frente aos deuses - ele nasceu assim, ele é isso. Celebração da vida. O sexo sob o cobertor, o fabrico da vida às escondidas, soa como algo débil, aviltante da natureza humana. Até o ponto de ter vergonha de testemunhar a cópula entre os animais!

 

 

 

"Se Goethe tivesse cavado um pouco mais fundo na essência da mulher, teria descrito um segundo Werther que foi levado ao suicídio não pelo amor frustrado, mas por ter logrado o amor carnal. Mil Werthers cometem suicídio espiritual, enredados na roda dos ciúmes, para cada Werther que quebra a cabeça porque uma plebéia idiota se recusa a atender uns suspiros apaixonados." Friedrich Nietzsche

 

"Eu amei; eu também sofri, mas, acima de tudo, eu posso sinceramente dizer que eu vivi!" Fiódor Dostoyevsky



Escrito por wormsaiboty às 16:16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O MELHOR GOLE D’ÁGUA

 

Hoje eu compreendo o sentido de três mudanças na minha vida: ter sido expulso do Colégio Militar; ter rompido com a quase totalidade dos meus colegas de curso; não ter me casado. Quando Nietzsche formulou o conceito de Deus ex machina ele escrevia a serviço do cristão Richard Wagner. O Deus ex machina, se fosse atualizado, seria entendido como parte do indivíduo e de sua força - o sabor da roda do acaso. Sinto que estas três linhas divisórias da minha vida foram de obtenção inconsciente. Mas é o inconsciente nossa verdadeira fatalidade.

 

Não houvesse sido inconseqüentemente submetido a processo disciplinar na escola-quartel em que estudava aos 14 anos, provavelmente hoje eu teria profunda ligação com amizades daquele tempo. Faria parte de um círculo razoavelmente sólido na Universidade de Brasília. Gosto de pensar que sou um barco à deriva ao invés de uma ilha, então minha base fluida me permite conhecer novas águas. Hoje eu entendo a modalidade de comportamento daqueles garotos, uma vez crescidos, como não tendo sido alterada mesmo após tantos anos. Sinto uma diferença muito dilatada entre nossos pontos de vista. Eles são minha antinomia: os filhos, os profissionais e os cidadãos que eu jamais seria. Conversas tediosas, rotina hedonista (cujo sinônimo mais próximo é "pessimismo": falta de capacidade e de claridade mental para suportar a dor e até querê-la, como nascedouro de novas vitórias), projetos ligados ao dinheiro e falta de discernimento psicológico. Sem dúvida esta última característica é a que mais me irrita: não conseguem compreender as atitudes dos outros (eu posso estar feliz com a cara mais séria!). Tal deficiência é óbvia, pois seus universos são como a viseira de um cavalo.

 

O mesmo problema - exatamente o mesmo - se verifica entre novos jovens. Não tão novos assim: parecem cópias dos primeiros. Ao entrar no curso de Sociologia, procurei avidamente me entrosar. Conhecimento e reconhecimento instantâneos. Estava caindo na mesma cilada de quatro anos antes sem perceber. Mas novamente houve uma interferência do que eu posso chamar de "o manobreiro-eu", sua parte mais colada à essência, sua personalidade verdadeira, que opera sua casa-das-máquinas. Contra os incuráveis hedonistas - perguntem-nos por que bebem tanto, o que querem esquecer, por que preferem a palavra "solução" a "problema"! - encontrei a solução da mímica: me tornei o superlativo do beberrão. O que aconteceu depois disso foi a quebra de um dente da frente numa escada e o dano moral. Finalmente o operador se recostou aliviado e emitiu um suspiro: seu pupilo absorveu o recado. Pude iniciar meus rompimentos no campus: uma série que ainda não acabou. Disposição havia, mas faltava o motivo: um para cada um, como seria desgastante! Mas, ao fim, bela manobra! Infelizmente, depois de baixar a poeira, percebi que algumas cabeças permaneciam fiéis. Mas eram fidelidades que doíam. Querer-se todo para si: esse é o extremo do amor! O próximo trabalho, em curso, está sendo revolver essa gente, que também me faz sentir apequenado. Já não basta a carência de rivais dignos, para injetar um pouco de graça? O que há no momento são mil sombras indiferentes e alguns adolescentes que ainda me incomodam por estarem do lado que se chama de "os amigos": não há grupelho mais propenso a destruir o que um tem de mais valoroso do que esse. É preciso tomar muito cuidado com cada coisa que deles se ouve e com cada postura que eles sub-repticiamente nos incitam a tomar.

 

Meu plano inicial - e falo de outro tipo de relacionamento agora, ocorrido cronologicamente entre esses dois primeiros marcos citados - era terminar a faculdade de jornalismo já despachando num jornal e me casar. Havia pressão da namorada para que isso acontecesse, e como ela era "o bem mais precioso" eu tinha de me esforçar. Uma vida inteira ao lado de quem se ama, a segurança sexual almejada pelo homem, quem sabe daí a vôos mais altos: lindos filhos, a propalada vida do bem-estar. Era o vírus do hedonismo, do ser humano sempre apático diante do que a vida tem para oferecer, esse querer-se enclausurar num conto-de-fadas, que me atacava outra vez. Como o ferrão de uma abelha, ou a agulha de uma injeção, de quem espera a anestesia, a sonolência, a amnésia profunda. Eu havia me esquecido que o amor perverte mais do que a amizade, é a amizade que dorme consigo na cama! A amizade de papel lavrado. A amizade não é o problema. Mas ser a amizade errada, e não sabermos onde raios se encontram as certas. Parece que não há naturezas como a minha. É esse o preço a se pagar por se desejar um pouco de desafio, querer tomar um gole d'água gostoso, e não porque se diz por aí que beber água faz bem para a saúde? Que bem é esse? Viver mais enquanto se nega a viver? Minha potencial noiva se apaixonou por outro e o sonho americano foi pulverizado. Aos 20 anos, eu confesso que sei demais: muito mais do que jovens hedonistas, cuja preguiça me cansa. É preciso aprender, tolinhos, que o gole d'água só é gostoso quando se está com sede...



Escrito por wormsaiboty às 17:31
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


DESENCANTO E REENCANTO DO MUNDO

 

Lendo CartaCapital e a matéria sobre o barulho crescente de São Paulo e juntando isso com o NECROSE de Edgar Morin eu cheguei a um importante insight: contrariando - ou, antes, solvendo a dúvida da - minha nota prévia (abaixo) sobre o horror nuclear, o grande fenômeno que parece demarcar o início da derrocada do Ocidente e que sucede imediatamente o sucesso ou ponto máximo da era fabril é mesmo a Segunda Guerra Mundial. Agosto de 1944, para ser mais exato. Neste momento os embriões congelados das criaturas e coisas trágicas começam a fermentar. Este é meu procurado "turning point" da transmutação de todos os valores. É a este momento de sangue semita-japonês que Nietzsche se referia com garbo meio século antes. Apesar de índices enganadores como o Neo-Liberalismo pujante dos anos 80-90, isto já é decadência, pois o fôlego dos Estados representou a espoliação das massas, assim como o poderio soviético nos anos 50-60 é a demonstração de que a assim chamada cultura moderna não consegue sustentar seus ideais, embarca com fé numa nova solução, uma resposta para a crise, a qual irá tombar.

 

A Liberdade, dilema sempre central - cuja apoteose se deu na Revolução Francesa, durante a qual o homem estava no ponto-médio entre o servilismo feudal e a escravidão humanitário-democrática (julgando-se vitorioso sobre a primeira condição e ignorante da segunda) -, chegou ao paroxismo da sua auto-destruição com vistas a tornar-se soberana: abdiquemos de nossa liberdade individual, como autores de escolhas, e sacrifiquemos o czar, defensor de uma liberdade antiga e ultrapassada, para que as vozes sábias do Partido Comunista nos ordenem como há de ser daqui em diante, sem Deus. Esse era o teor do discurso, se pudéssemos ter ouvido francamente.

 

É conhecido o cenário vigente de proto-deuses que ainda concorrem para tomar o lugar da falida deidade cristã, do envelhecimento e pacificação da população, da desertificação, da mentira do crédito e da busca pela vivência alternativa, seja ainda parcialmente consumista ou radicalmente eremita, mas sempre mais "Gaia". A aceleração que é ininterrupta ao expectador é aparência. Não existe expectador, todos estão do lado de dentro do trem-bala. Talvez por isso não percebam, mas a sensação de velocidade se intensifica não porque os trilhos sejam percorridos mais rapidamente, mas porque as edificações do último milênio vão desabando em ruínas como nunca antes. Se Guy Debord soubesse que seu retrato não passa de aparência...

 

Este escrito é de alguém lúcido, no olho do furacão. Minha única ressalva é: não admito a ingenuidade de que novas catástrofes não ocorrerão e que a transição será tranqüila - vide proliferação nuclear entre nações do Terceiro Mundo. Intentei apenas descrever qual momento histórico era o ápice da contradição, entre tantos episódios, passados e vindouros.

 

 ***

Escrevi em 7 de dezembro (com reformulações na data presente para tornar o manuscrito acessível):

 

Terão sido as Guerras Mundiais e a Guerra Fria - o século XX - o estopim do processo de loucura niilista por que perpassa a humanidade, ou a a-humanidade, o ocidente decadente? Teremos a tranqüilidade de dizer que doravante o anel exibe sua curva ascensional rumo à idade de ouro trágica? Ou é necessário mais um esforço, um empenho sublime, um contagiante acesso de fúria, uma alta da maré tanto mais feroz para nosso século quanto o que a onda nazista representou para o rochedo outrora tão vacilante, inconsistente? Este, o rochedo da capacidade de assombro humano - o que hoje nos assombraria, para além de duas nuvens de cogumelo? O que será isso, ó Mãe-Natureza? De uma coisa tem-se a certeza: não existe fim de mundo, ou fim da História...

 

"No princípio, era a ação!" Wolfgang von Goethe

 

"O sociólogo precisa entender o que é apurar necessidades. Eu trato do que é inevitável a longo alcance" O Autor

 

"Existem pessoas centrípetas e centrífugas. Algumas empobrecem sua essência ao longo da vida, dissipam suas energias. Eu reúno o gasto sem propósito ao meu redor para realizar meus projetos" O Autor



Escrito por wormsaiboty às 16:37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


NIETZSCHE CONTRA TODOS, APOLOGÉTICA DO HOMEM

 

Sobre a imaturidade autoral: quando publicar imediatamente uma obra ou esperar mais tempo. Nietzsche já era auto-suficiente, se assim se pode definir, quando lançou O Nascimento da Tragédia. Zaratustra sem dúvida é outro píncaro, mas são aí dois autores cuja relação de linearidade não pode ser traçada.

 

Jesus e Nietzsche: os últimos transmutadores, os bodes expiatórios da Europa. É citado Copérnico (1), e poderia ter sido lembrado Galileu: aqueles que não tiveram problemas para levar adiante suas revoluções em vida, ou que desistiram em um último momento porque não tinham a força requerida. Nietzsche é um contra-exemplo: não se ajoelhou, não pediu perdão. Foi este santo que pagou com o próprio sangue para que os preconceitos da época fossem revistos. Aquele que não gerasse polêmica - um wagneriano - estaria levando a Europa para o caminho mais fácil e equivocado. Jesus podia muito bem ser substituído por Sócrates para ficarmos na Filosofia. Um homem como Sartre, que se torna pop star e colhe os bons frutos em vida...? Não se se quiser a verdade. Hoje em dia parece ser fraco o apelo de Cristo: quem morreria por ele? De igual modo, não conheço outros filósofos tão proscritos... Lutero quase representa esse pathos fatalista. Mas esses cânones modernos, de Platão em diante, tiveram existências tranqüilas, uma posição por demais asceta. Nietzsche jogou fora, por assim dizer, uma carreira de talento precoce para enobrecer o homem niilista. Professor da Universidade da Basiléia aos 23 anos, trabalhos sobre os pensadores do Helenismo que eram muito lidos e divulgados com prestígio. Era apadrinhado de dois influentes mestres, Ritschl e Richard Wagner. Só um louco ou idiota - para Dostoievski - abriria mão de sua trajetória individual para conceder aos humanos do porvir, a essa massa cristã desesperançada, a chave da cela. O meio-dia da eternidade. Sua posteridade auto-sentida pode ser atestada pelos subtítulos de suas obras. Zaratustra - um livro para todos e para ninguém. O irônico é que algumas tempestades sobrevêm sem aviso. A dinamite nietzscheana quase não tem explicação. Seu estado mental, talvez o corpo mais perfeito de todos, o mais intenso brilho da Arte até o século XX, assimilou o que apenas um humano com sede de afronta e de desafio não lograria fazer. Pode-se dizer sem medo que a Prússia estava diante de um milagre. O filho de Deus voltou à Terra, pereceu, procrastinou o Juízo Final por mais 2 ou 3 mil anos e ninguém está ainda a par. Se eu achasse ainda por um segundo que vivo em vão haveria aí um grande desperdício. O engraçado é que, ao contrário de Sócrates, Friedrich jamais teve um intérprete a sua altura. Tendo escrito - muito -, talvez tenha reunido dois em um, professor e aluno. Não era seu filho espiritual esse tal de Zaratustra?

 

Pequeno pedido: que os Direitos Humanos, que nunca existiram, fossem declarados inutilizáveis por qualquer nação. Que seu uso como prerrogativa para o apodrecimento do homem seja proibido. A guerra, atitude que jamais deixará de ser nobre, da qual cada um de nós homens poderá tomar parte um dia, é a mais peremptória negação desse remendo brutal da oratória suja do século vinte: e assim deve ser. Que o direito - e até a obrigação - de matar o próximo seja olhado com carinho. Viver é matar todo dia.

 

(1) My Sister and I, Introduction, by Oscar Levy



Escrito por wormsaiboty às 17:31
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A VENDETA E O MAL-ENTENDIDO – O CENTRO, A LENTE E O REBANHO

 

Hoje a chamada "instância central" dita o comportamento humano. Porém, não existe qualquer fonte objetiva - mediana social - quando se fala em homem. O indivíduo contemporâneo é apenas uma planta adulterada - o rascunho original está perdido. Com respeito a qualquer grandeza e dignidade na palavra "homem", elas vêm do próprio ente, não da transferência de responsabilidades ao vazio. A proibição da vingança pessoal é o indício mais claro dessa falência moderna do homem: o Estado é o responsável por julgar, vigiar a condenação, condenação que ele próprio criou... Mas quem é o Estado? Não se trata de um homem maior e mais poderoso - trata-se da covardia dos pequenos reunida. Sentimentos agregados de vergonha jamais fariam frente a um gênio indivisível, ainda que renegado - por isso nem se pode falar em Napoleão, que já em seu tempo foi a esperança do "século", até sucumbir à máquina burocrática.

 

Quando o Estado é questionado há cheiro de grandeza - ressurreição? Exceto quando esta revolta é inspirada por outro "centro neutro" ao invés das pessoas. De novo a ingerência do espaço vazio! A lente midiática atua como um segundo detrator da verdadeira assunção de responsabilidade. É um Estado sem sede ou exército - ou talvez essa assertiva seja muito ingênua. A vendeta da televisão é apenas outra cadeira elétrica. Não há aí punição com as próprias mãos. Há apenas uma sujeira anônima - no íntimo, esse anonimato é uma confissão de culpa geral, em uníssono. Uma sociedade que gostaria de ser queimada na fogueira. Quem é o carrasco?

 

A conversão da imprensa dos magnatas em "cada um emite a sua notícia", paradoxalmente uma tendência em propulsão graças a um grupelho de bilionários, que começa a falir os jornais e vê a infinitude dos blogs no espectro, é uma resposta inicial de uma mãe-natureza que nunca morre, de uma história que não acaba. Digamos que daqui a duas décadas já esteja bem mais claro o "olho por olho". Eu quero ser reconhecido por isso! Quem grita mais alto passa a ser ouvido: a atração será a magnitude do próprio eu, nada de cunhadismo - que cunhadismo? Um brasão de família que volte a arder! - ou venalidade. Já há blogueiros que não silenciam barato...



Escrito por wormsaiboty às 17:29
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


EMBURRADO COM A IMPRENSA

Nesse reveillon, tive uma idéia: vou usar minha traquéia para, com eloqüência, melar a estréia da nova senhora gramática, que já lanço de antemão como candidata a mais precoce das viúvas - seja por falta de quem a pratique, seja porque não se pode entender o que deriva do que já não se compreende. Ao contrário de revistas luso-francas como a MONET (também, com um nome desses, como poderia ser fiel aos sub-trópicos?), não fico embevecido com obra-tampão (obra? Lei. Status inferior. Não é coisa de artista - não daqueles mais chiques que palhaços). Ainda falo o bom Português de Camões. Este Blog não aceita as novas recomendações ortográficas que começam a viger em 1º de janeiro de 2009. Algum problema com isso?

 

Já que toquei no assunto projeto de lei, ficam aqui minhas palmas para a figura plenária que teve a capacidade de engendrar uma votação para dar cabo de uma comunidade do orkut que veicula a discografia de vários grupos musicais em formato mp3. Agora sim, a pirataria vai acabar! A pobreza só não se esgotou porque nenhum gênio teve ainda a idéia de transformar riqueza em lei!

 

Um 2009 de mais sabedoria para quem não me lê - o tipo político, o tipo que tem vergonha do seu idioma.

 

(quem enxergou minha infração ao idioma estrangeiro? Minha retaliação doce como um vinho branco)



Escrito por wormsaiboty às 02:23
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


TRANSCENDER 14

MAX WEBER apresenta:

 

A ÉTICA PROTESTANTE E O "ESPÍRITO" DO CAPITALISMO

 

APRESENTAÇÃO

 

Logo no primeiro parágrafo (p. 7) eu vejo como o Guilherme é burro!

 

Explicação das aspas (retiradas na 2.ed) na palavra espírito - cautela e destaque. Capitalismo no sentido amplo (o progresso).

 

"Rascunho" da Sociologia da Religião de Weber.

 

São praticamente dois livros, um de 1906, o outro de 1920.

 

TÁBUA DE CORRESPONDÊNCIA VOCABULAR

 

"Prisão/gaiola de ferro" se torna "rija crosta de aço" aqui.

 

Um sem-número de alterações fúteis (trocar "absurdo" por "sem sentido").

 

NOTAS DO AUTOR começam na p. 169.

 

GLOSSÁRIO (277)

 

Três igrejas protestantes a se considerar:

- anglicana (inglesa)

- luterana (germânica) (1546-)

- calvinista (sub-ramos esmiuçados ao longo do documento)

 

Afinidades eletivas: ler verbete; citação de Goethe.

 

Anabatistas: ana - outra vez; de novo um batista (protestante). Vertente radical, atiçava camponeses a se revoltarem e pregava um retorno ao cristianismo primitivo, considerado pagão. O "Ana" foi acrescido pejorativamente pelos rivais, uma vez que esta seita extrema se caracteriza por permitir o batismo de - e só de - adultos. Como um adulto é um bebê que um dia fora batizado classicamente, tem-se um re-batismo.

 

Anglicanos: protestantes ortodoxos ingleses. Se o dado principal é que todos na igreja puritana são pastores, teoricamente "iguais na tarefa de evangelizar os fiéis", aqui é diferente: há uma vertiginosa hierarquia, como nos domínios católicos.

 

Arianismo: originado no padre Arius de 3 a 4 d.C. (séculos), é contra a Santíssima Trindade. Jesus é como qualquer outro humano. Implica - talvez, desde já? Não apurei - numa redução do conceito de humanidade irrestrito cristão (Simmel)? Testa-de-ferro do anti-semitismo... Embora se possa direcionar a mesma crítica aos próprios judeus: eles se crêem "o povo escolhido", assim como o ariano crê que justamente o não-escolhido e funesto é o semita. O porquê de esse instinto repulsivo não se levantar de forma tão incisiva contra os católicos ortodoxos (ou não ter havido isso episodicamente, na Alemanha de Hitler)? O Cristianismo não é coerente, como nenhuma religião apresenta elevada coerência interna fundamental.

 

Ascese: basicamente, voto de castidade e submissão ao jejum. Ligado etimologicamente a "cuidar do corpo", é a mais clamorosa antinatureza! É o espírito apolíneo. No Budismo, forma mais avançada de niilismo, ocorre um combate às dores deste mundo pela fuga (Schopenhauer). No Protestantismo, ocorre o engano da função do desprazer, o que gera o fosso sujeito-objeto e a falta de senso do mundo, posto que há inconteste sujeição à moral uma vez estabelecida (dogma). Os impulsos do indivíduo são canalizados para o trabalho; uma ética do não-saber mandar e do obedecer. Álibi da fugacidade hedonista (fenômeno não coberto pela obra).

 

Batistas: preferiam autonomia provincial para seus templos, sem necessidade de prestação de contas ao Estado. O espectro das religiões (mesmo intra-ocidental, mesmo intra-calvinista) é vastíssimo, de modo que naturalmente o despontar de uma crença em definidos parâmetros instiga o aparecimento de diferentes configurações circunvizinhas. Tenderam, no entanto, a seguir as diretrizes da Confissão de Westminster (1647). Também chamados de "os independentes" ou "congregacionalistas" (detalhes no verbete puritanos).

 

Calvinismo: predeterminação do destino da alma. Calvino condena de antemão um sem-número de almas. A seita mais importante.

 

Confissão de Augsburgo: do rompimento com o Papa.

 

Confissão de Westminster: "compacto completo da fé calvinista".

 

Crematofobia: medo de dinheiro. E plutofobia?

 

Metodismo: afeiçoados em parte a Lutero - florescimento tardio nos EUA.

 

Pietismo: submodalidade ou derivação luterana, de 100 anos depois. Com ênfase, claro, na capacidade de interpretação das Sagradas Escrituras. Pietismo vem de piedade. O próprio indivíduo deve se auto-policiar (super-moral).

 

Presbiterianos: calvinistas sem hierarquia da Grã-Bretanha.

 

Puritanos: apólogos do "cristianismo puro", sem interferência vertical (artifício da Igreja invisível - os calvinistas ortodoxos estão neste barco, embora os quakers tenham levado esta prática a extremos por eles desconhecidos) e apoio às Escrituras. Prega-se a liberdade individual, mas a própria nomenclatura evidencia o moralismo. "Para Weber, o puritanismo é cria do calvinismo" ("cria nem sempre direta", acrescenta o verbete) e ele utiliza o vocábulo claramente como coletivo para vários dos grupos já pormenorizados que resumam o "protestantismo ascético", posto que englobam congregacionalistas, anabatistas... A maior crítica em relação à Igreja da Inglaterra: ostentações cerimoniais em excesso.

 

Quakers: protestantes radicais (movimento Reino Unido - Escócia - EUA). Advogam o direito de não ir à missa, de não haver batismo e a consciência como parâmetro último de todas as soluções de problemas e o silêncio. Parecem ser o cume do niilismo nietzscheano, pois reúnem características pragmáticas que os filiam ao que há de mais capitalista, ocidental, dado o enaltecimento do indivíduo e o "culto a Apolo" (de fato, atrelo-os fortemente aos republicanos contemporâneos, estes perdedores de eleições!). Pudicidade e vergonha recrudescem.

 

Rabinismo: judaísmo tardio.

 

Seitas: o intuito - voluntário ou não - puritano (suicídio do templo).

 

Septuaginta: Velho Testamento, traduzido para o grego em Alexandria - Egito - três séculos antes de Cristo por cerca de setenta eruditos. Sócrates teria visitado o local décadas antes.

 

Esclarecimentos (parciais) relacionados a Calvino e Lutero e aos anglicanos também:

Ambos são reformadores e até determinada altura dos anos 1600 sustentavam esta alcunha, que depois se tornou bandeira específica dos calvinistas. Calvinistas lembram quakers, batistas e congregacionalistas porque eles são anti-hierárquicos. Resta saber qual a grande novidade luterana, haja vista a própria capacidade de interpretação e piedade dos anglicanos! Resta asseverar: na Inglaterra não há após o século XVI nenhuma igreja católica formal, ou estas desempenham papel irrisório para o espírito do tempo. Os anglicanos são rompidos com o Papa; não obstante tenham mantido uma forte hierarquia. Talvez isso os diferencie não só dos calvinistas mas também dos luteranos, que pregavam igualmente elevada autonomia individual (anglicanos = flexibilidade mínima), com a diferença de que queriam se fazer ouvir por todos os cantos (ética universalista, o que explicaria o mundo moderno), enquanto os calvinos são provincianos (aristocráticos, "seitistas"). (Basta lembrar: Lutero rebaixa o homem, destrói o elo com o sagrado; ao passo que, no calvinismo, há ainda uma aura nobre que se intenta buscar, ainda que no coração do indivíduo, sem a mediação eclesiástica.) (Anglicano-luterano no Google aparece 268.000 vezes - acho que isso já denota por si mesmo o que quer dizer. Só quero deixar claro que isso não cancela o dito acima: está certo.)

 

PROBLEMA DA TEODICÉIA (CENTRAL NA ARGUMENTAÇÃO) - A barca furada do monoteísmo:

O Direito Divino. A tentativa infeliz de explicar a injustiça infindável do mundo que emana de um deus todo-poderoso, todo bondade. A confusão ocidental por excelência. É um problema de lógica bem simples de se resolver. Os gregos viviam sem o contrato social e ainda hoje paira sobre eles a aura da imortalidade. O culpado pela maldade que nasce da infinita bondade é esse "bom", Deus. Caso haja a fusão com ele nestes termos, esse é o preço a pagar. Porém, antes, é retirada a onipotência desse Deus para que o livre-arbítrio seja possível (situação da morte de Deus). Falta, meus amigos, rasgar o contrato. Deus, o autor de todos os crimes. Poder-se-ia agradecê-lo, sendo trágico! Não há forma concebível para findar com a Tragédia, com ou sem contrato. Basta apenas um pouco de cinismo e inocência! O mundo é uma luta que jamais finda.

 

Lutero é muito produto da mística cristã alemã cujo auge do movimento panteísta-monoteísta foi no século XIV. Explica-se esse híbrido pelo seguinte: há a formulação do amor universal à humanidade, mesmo à natureza, todos obra de Deus, que co-habita em tudo. Portanto, é uma forma de transcendência-imanência que influenciou o protestantismo (a reforma). Paradoxo: essa atitude de piedade aparta cada homem do outro indefinidamente.

 

A unio mystica ou simplesmente mística é o contraponto weberiano do conceito de ascese. No que poderíamos então substituir ambos por Baco e Apolo. Como esclarece Frazer, em "O Ramo de Ouro", Jesus é o ponto onde as duas divindades antagônicas se tocam. Eis que a religião cristã é anticristã! A tendência gaia não pôde vencer o processo de socratização/atomização do mundo. Ao pretender unificá-lo, estilhaçou-o. Se o deixasse como andava, homem-com-mundo seriam vitral intacto.

 

CHAVE: a iconoclastia protestante - abolindo a imagem dos imanentes-transcendentes Papa e Jesus - impulsiona o deus-dinheiro (hipertrofia do indivíduo). Latour: somos imanentes demais ou transcendentes demais. Hoje estamos na barriga do "U" e o indivíduo vai perdendo a força... (fusões no horizonte: Deus e Alá, Ocidente e China)

 

Obs.: Agora entendi o "a música é arte decadente" - é agora, por ser chave da transição. Será, então, majestosa. Artes clássicas = cume apolíneo. O dia da LUZ DE TIETA se aproxima... Universidade é o silêncio rotundo. Contemplação: imagem. Participação: música. Obrigado, Dimitri.

 

Obs. 2: Reler todas as notas "polêmicas".

 

CRONOLOGIA

 

Max Weber - Max, o tecelão.

 

Simmel e tantos outros se reuniam em sua casa!

 

O mundo religioso do amanhã: politeístas no topo da pirâmide; monoteístas na base (subdivisão monoteísta: ateístas).



Escrito por wormsaiboty às 23:38
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

LIVRO

 

PARTE I

O PROBLEMA

 

1. CONFISSÃO RELIGIOSA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL (p. 29)

 

Weber embarca em um pensamento redundante: tomados em lato sensu, os dois hemisférios de seu título, "ética protestante" e "espírito do capitalismo", adquirem uma impressionante tautologia - "compulsão para o progresso gera (gerou historicamente) uma sociedade voltada para o progresso" (claro que a tal compulsão é, para os efeitos aqui estudados, "vontade de salvar a alma"). Essa é a mensagem principal: a ÉTICA PROTESTANTE é a morte de Deus mediante a hiper-valorização do indivíduo, o enceto de um ciclo esquizofrênico (o ideal asceta); o "ESPÍRITO" é o mundo desencantado, sem Deus e POR ISSO sem indivíduo. A pergunta DEUS EXISTE? Não tem sentido sem um acréscimo de dimensão valoral. Tal binarismo sim/não é apenas uma peculiaridade do sistema. Há outros tipos de deuses do lado de fora... Mas claro: pertencendo à época a que pertenceu, M. Weber descortinava uma faceta até então inimaginada a não ser por uns poucos.

 

Pode-se dizer que Lutero foi o assassino de Deus, ao torná-lo transparente com a tradução das escrituras, universalizar o transcendente, ferir letalmente essa essência, rebaixar o intérprete. Há que haver pelo menos duas castas.Calvino não rompe tal laço. Condena tantos para salvar uns.

 

INÍCIO DO FICHAMENTO DO LIVRO PROPRIAMENTE DITO

 

Considerem-se dois aspectos: 1) Weber já inclui uma auto-crítica de seus postulados ANTES de desarrolar a tese. Ou uma "resposta antecipada" a previsíveis contestações. Relata que se pode verificar no Capitalismo moderno incipiente mais famílias protestantes ricas e que boa parte disso decorre mesmo por herança; 2) mas, seguindo pela serpente causalística, depara-se com um handicap educacional entre os dois núcleos familiares em estudo - protestante e católico. Esta diferença é que há mais estudantes de nível superior de pais de Igrejas reformadas. Obviamente, o fato de possuir um capital mais elevado nisso ajuda. Contudo, rebuscando ainda mais fundo estas origens, vê-se que em geral o católico é enviado para formações humanísticas (o típico "desinteressado", culto), que por si são incapazes de multiplicar patrimônios. Já o evangélico costuma ser aluno de formações tecnicistas (administração, economia, direito...), o que de uma geração a outra irá indicar a mais forte razão da defasagem de riqueza entre os adeptos da primeira e da segunda religião.

 

Mas claro: Weber devia ter enxergado que no proto-capitalismo esse quadro viria naturalmente à tona - necessidade de competição, especialização, ganho. Exatamente como na Autogestão Iugoslava, em que a burocracia renasceu das cinzas devido à acirrada disputa entre operários e políticos (classe que havia sido abolida, não por muito tempo...).

 

P. 33 - os judeus são ricos porque são párias aonde vão (voltam-se para um aporte material).

 

O protestante é aquele que remotamente era o CHÃO cristão? Talvez inconformado com seu estado de miséria - e veja as condições do proletário inglês*! -, tenha se lançado num esforço reformador para que enriquecer não fosse malvisto. Bingo: novo ethos.

 

* antes ou depois da reforma? Lutero apareceu cedo, mas Calvino vem de um contexto já semi-industrial! Em que pé andava o processo de industrialização inglesa em 1546 (da alemã nem se cogita que existisse algum traço)? Em rápida navegação, não encontro indícios. O sistema-mundo ainda é capitaneado pelos holandeses em seu capitalismo de companhias de comércio, e até Espanha e Portugal ainda encabeçam a lista dos centros de acumulação.

 

Salto idêntico não foi dado pelos cristãos não-protestantes em países tardios que já "nasceram" protestantes, tal qual a Alemanha.

 

Ou seja: o protestante, o tipo-ideal cristão, é inclinado à racionalização na "saúde e doença" - a exceção judia não está em foco.

 

Troca de farpas entre católicos e protestantes sectários: "ascético!" (indiferente ao mundo), grita o 2º ao 1º; "materialista!" (desencantado), é a pronta-resposta. Um mundo sem espaço para COMER E DORMIR, ao mesmo tempo. Só que: o quadro anterior deixa subentendido um certo apreço do evangélico pelo mundo. Não é bem assim. Ele é que é o ascético, espécie de hipocondríaco.

 

Weber deixa sempre visível que hoje o espírito é autoguiado. Trata-se aqui de uma GÊNESE, de uma história.

 

ENGENHOCA: P. 36 - mecanismo: PIEDADE à (senti-la leva à) MAXIMIZAÇÃO DOS LUCROS, que criará, ampliará, o fosso social entre abastado e miseráveis, fato que... à (gera a) PIEDADE à ... (recomeça)

 

Colchetes 37: os calvinistas eram mais racionais que os luteranos (sublimavam as fronteiras nacionais).

 

39 - Montesquieu

 

Calvino e Lutero criaram um Frankenstein.

 

Um esforço causal hercúleo nas próximas páginas...

 

NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 1

(quase) sempre obedecerei a notação "número da nota (página entre parênteses)", o que quer dizer que abaixo disponibilizo comentários sobre as notas 16, 19 e 23, nas páginas 172 e 173 (quando omito a numeração da página, a nota se encontra na mesma página ou muito próxima da anterior). Como metade do livro são notas, isso facilita muito a consulta (o exemplar é a 2ª edição da Companhia das Letras).

 

16 (172): a relação de banqueiros e igrejas protestantes: Banqueiros sempre transportam riquezas pelo mundo; nada de mais ele não ser deste credo (auto-resposta a TREVOR!). Todavia, quando é, e se é pastor, há(via) controvérsia sobre a possibilidade de cobrar juros. O interesse era não misturar este par de funções. Weber toca neste assunto muitas outras vezes.

 

DA DIÁSPORA

19 (173): o sul dos EUA era católico? Sim. Weber não dá crédito à tese dos "países mais ricos" estarem ligados ao Protestantismo (resposta a TREVOR). Caso contrário a França seria mais pobre que países como a Polônia. Na Polônia a elite financeira era de reformados. Não obstante, sempre há uma brecha nacional que seja, como é o caso dos huguenotes.

 

23: uma assertiva digna de um clássico: os efeitos provocados são divergentes das intenções primevas. Contextualmente, acerca da reação protestante frente ao capitalismo tardio.



Escrito por wormsaiboty às 23:36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

2. O "ESPÍRITO" DO CAPITALISMO

 

Delimitação tosca provisória do objeto de pesquisa (o tal "espírito").

 

"Filosofia da avareza" de Benjamin Franklin - o objetivo da vida é poupar e render; dinheiro não deve ser DESPERDIÇADO com diversão - ou qualquer coisa que o não multiplique - mas afinal, para que serve o dinheiro? Este é o espírito moderno em carne viva, pois o dinheiro cresce cada vez mais e mais rapidamente, no entanto nada ainda foi feito... pelo homem.

 

Mais do que isso: não é questão de uns serem lobos e outros cordeiros: é o inculcamento, na massa, dessa moral esdrúxula.

 

"Dinheiro é pra se gastar!" é um pensamento corrente que parece ser o início de uma virada. Eu, por mim, não me sujarei na bolsa. Orçamento apertado em prol do hoje: não porque ECONOMIZE, mas porque não tenha dó de me livrar do meu pouco!

 

A tal ethos, basta PARECER. Mundo da mentira e de Platão. Mulher cesárea.

 

P. 46 - entre "felicidade" e "utilidade", obviamente a "virtude" protestante (Nietzsche diria cristã, e é uma neo-configuração inerente ao cristianismo, esta sua reforma - EXATO, PEDRA-DE-TOQUE da idéia de epifenômeno e dilatação do conceito!) fica com o segundo.

 

O pano-de-fundo dessa ética é desvelado: o contrário de ser-se materialista! E o contrário (a acusação é católica) de "desencantado": aos olhos protestantes, está-se seguindo os desígnios de Deus. Franklin quer apenas se sentir digno PORQUE TRABALHA. Não-raro percebo este fenômeno na juventude (Débora Schuab, o protótipo)...

 

Norte-EUA x Sul-EUA: a prova de que o MERCADO - por si, sem a religião - não basta para pôr em movimento o processo. O Norte não tinha intuitos comerciais, apenas pregadores: logo se tornou "próspero". O Sul, de finalidade mercantil, estagnou. Dir-se-ia que apresentava o chamado "capitalismo irracional" ou "amador", da ótica protestante.

 

P. 49 - citação da "superestrutura".

 

A Itália, país de artistas, apresenta um capitalismo deficitário.

 

Sempre houve, pontualmente, representantes dessa ética (Franklin), nas mais diversas sociedades. Na época moderna, entretanto, afigura-se como fenômeno de massa (e é isso que Weber aponta).

 

massa/mediocridade/democrata/"sem Deus" X Aristocracia/Sangue-azul/Privilégio da transcendência/Mensageiro de Deus

 

Quem segue a palavra da Bíblia lê o mandamento "com isso me contento" e segue "sossegado". Produzir mais seria pecar. A interpretação da palavra divina (Lutero, maldito!) DEMOCRATIZOU a livre-interpretação. De pecado a virtude.

 

P. 54 - Weber refuta a característica do progresso enquanto provinda de um arrocho ou (muito menos) aumento salarial. Não tem a ver com Economia ou patronato neste aspecto: é um processo de inculcamento a longo prazo.

 

CALVINO NÃO É BENJAMIN FRANKLIN

Há - e era a regra - empresas capitalistas tradicionalistas. Adotavam a política do "lucro suficiente", que não precisa ser aumentado. A antítese disso: Franklin dizia que cada cinqüenta centavos num café poder-se-iam tornar 100 libras se não fossem gastos (o mesmo que jogar os centavos - e, por tabela, 100 libras!, ao mar). Esta é a prova cabal de que o capitalismo moderno veio das agruras, de uma modalidade de comportamento (o proto-especulador), não de repentinas benesses materiais. Ressaltar este ponto na prova: classes outrora subalternas em ascensão monetário-ascética.

 

P. 60 - surgimento de uma das causas periféricas de Weber: o achatamento do mundo, via aperfeiçoamento dos meios de comunicação.

 

Auxilia nisto o fato da perseguição e coerção moral que sofreram à época: naquilo que de modo algum eram venais era na persistência desta moral em um quadro adverso. Só a religião possibilitaria esse tipo de "incursão funesta" em algo, contra tantas intempéries e tanta gente.

 

Ademais, o próprio Tocqueville diz que a razão do sucesso inglês/norte-americano advém da ininterrupta religiosidade das elites (do homem médio, no caso do Novo Mundo). Já na França demonstrava-se, principalmente no topo, uma aversão tremenda pelo não-imanente, era-se tremendamente irreligioso, o que não combina com o papel social de um nobre. Logo, os burgueses barganhadores, no início paupérrimos, foram se agigantando e reivindicando este espaço. Tal descoberta é uma inversão da idéia comum que se faz - senão do mundo do dinheiro - da gênese da burguesia.

 

"Impulso perverso: a auri sacra fames" p. 63 - provavelmente o em latim quer dizer "o ethos ascético [do dinheiro]".

 

Daí provém o dito: VOCAÇÃO PARA GANHAR DINHEIRO, como outros são metafisicamente situados no mundo para descobrir a verdade e ainda outros para governar, e outros para SENTIR.

 

P. 64 - mais uma vez, a ruptura: o Capitalismo no piloto automático. Qual o momento certeiro da cisão? Não há, assim como a semente cristã e a semente protestante são difusas na História...

 

DA USURA À OBRIGAÇÃO

Transição do PECADO ao DEVER MORAL (e pontada em Marx):

"Querer falar aqui de um 'reflexo' das condições 'materiais' na 'superestrutura ideal' seria rematado absurdo"

 

Igreja pede dinheiro e visa ao lucro para ampliação de seu poder temporal! O que é feio é o catolicismo hoje, ainda "fiel" às escrituras...

 

NOTAS DO CAPÍTULO 2

 

31 (175): racional/irracional - questão Valdyr.

 

34 (175-79): longa tergiversação acerca de contenda com Sombart: verossimilhanças ou não entre Battista Alberti e Benjamin Franklin. No final, algo que tange o que falei de Tocqueville: os reis passam a agir de forma "pagã", a espécie de cristianismo mais remoto. (outro fragmento anti-ROPER)

 

35 (180): Brentano e meu comentário inicial (abre-alas) sobre a tautologia weberiana.

 

40 (181): sobre o "ópio do povo" como fator periférico em Marx.

 

44: a ética protestante não é universal, mas traga quase tudo para seu mundo, feito um buraco-negro. Gusmão na lona. É imprescindível ressaltar sempre o caráter DE MASSA DO FENÔMENO em Weber.

 

50 (182-185): outra longa digressão, agora sobre a proibição eclesiástica da usura e do causalismo fulcral de Weber - defende-se, nas linhas derradeiras, que o cristianismo pré-reforma já era essencialmente capitalista (citarei pela última vez que Weber repele o póstumo TREVOR-ROPER sozinho e sem esforço...). Há aqui ainda a citação das ordens jesuíticas, o "catolicismo mais capitalista". Veja-se que o Papa, no século XIX, já sabia que a Terra não era mais o centro do universo: a Igreja não reconhecer um erro emanando de suas fileiras não implica que ele não tenha existido e que não tenha se dado naquele espaço-tempo específico.

 

52: justiça/injustiça, caso em que vale o lucro e ocasião em que não é próprio. Isso sempre houve e vai sempre haver, vide ultra-especuladores da bolsa acusados de não serem éticos - pelos seus pares, já um tanto suspeitos (ora, se a função de todos no pregão não é primar pela anti-ética!)! Para tentar fechar esta questão, o lucro é sempre permitido quando "está a serviço da glória terrena de Deus".

 

3. O CONCEITO DE VOCAÇÃO EM LUTERO. O OBJETO DA PESQUISA

 

História do verbo "chamar", o Beruf, e do substantivo "vocação".

 

O nascimento da demonização do período de ócio. O trabalho é que é a vontade de Deus (influências deterministas).

 

Ódio às cerimônias difundidas no "calendário pagão-cristão", cheio de dionisidades... O país pára no Carnaval... mas quer saber? Tem mesmo é que parar! Carnaval e futebol são a chave para uma vida mais artística...

 

P. 75 - "O pão nosso de cada dia nos daí hoje" - não amanhã, o amanhã que nunca chega... Por isso o evangélico "já não reza".

 

Paulo e Lutero como tradicionalistas. A que serviço... Verdadeiros Édipos!

"indiferença paulina [ao mundo do trabalho]", p. 77

 

LUTERO à DESENVOLVIMENTO DE à a) luteranismo ortodoxo; b) luteranismo heterodoxo.

 

Catolicismo x calvinismo à parece ser mais explícito

Mas Calvino e Lutero se complementam (finalmente algo A FAVOR de Roper).

 

A Divina Comédia (p. 79): é benquisto ser expulso do Paraíso para contar o que viu a alguém - de nada vale a contemplação muda, é esta a verdade! Se não me engano, despejo a mesma coisa em SIMMEL AVENTUREIRO, dia 5/12/08. Se não despejo, trata-se de um comentário do autor ou de seus comentadores. (*)

 

P. 80 - dura crítica à idealização de um povo em cultura nacional, como se homogêneos fossem: "os ingleses, os alemães..."

 

P. 81 - a tragédia em Weber, dialética bruta(l):

"programas de reforma ética não foram jamais o ponto de vista central para nenhum dos reformadores (...) A salvação da alma (*), e somente ela, foi o eixo de sua vida e ação (...) os efeitos culturais foram conseqüências imprevistas e mesmo indesejadas do trabalho dos reformadores"

 

(*) Quem disse que o homem quer ser salvo, quer ser FELIZ? Esse sim é um questionamento filosófico que não se costuma fazer.

 

NOTAS DO CAPÍTULO 3

 

53 (185-188): sobre a história lingüística de Beruf (vocação). Provavelmente, no Português [não-citado na obra] o sentido hodierno se dissociou muito dessa origem divina. Weber aponta para o fato de Lutero ter modificado o alemão para ensino de sua doutrina (processo que se poderia batizar de racionalização da língua) - deste empobrecimento do idioma nós, além-mar, escapamos, e Nietzsche o saberia bem (o que não quer dizer que o Português seja perfeito para um poeta-filósofo se expressar).

 

P. 190 - certamente há uma metafísica nas ações! Uma razão (entenda que degenerativa, apenas uma de tantas próximas e passadas) para tudo! Vide este texto clerical: "Se alguém foi chamado já circunciso, não dissimule sua falta de prepúcio. Foi alguém chamado com prepúcio? Não se faça circuncidar". Assim como dia 17 de outubro na biblioteca compreendi eu ser o centro não-sendo, essa dissimulação eterna entre unidade e caos, me veioà tona um passado que eu não pude escolher que me torna o que eu quis. É uma consonância cósmica. Ao mesmo tempo há metafísica e não há: afinal, é um anel!

 

Afinal, o que é a literalidade bíblica?

 

Calvino veio depois de Lutero e secularizou, intramundanizou Beruf (no horrível dialeto da tradução da Cia. das Letras).

 

Pascal, 193: objeto de desgosto e do mais alto apreço - simultâneos - de Nietzsche.

 

58 (194) - da teodicéia - Adão peca porque foi impulsionado por Deus, que vê nisto a perfeição de seu próprio mundo.

 

65 (196) - de como foi vantajoso para o Reino Unido manter "satélites", Irlanda, Escócia, ao invés de POSSUÍ-LOS de maneira irrestrita.

 

-FIM DA PARTE I-



Escrito por wormsaiboty às 23:33
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

PARTE 2

A ÉTICA PROFISSIONAL DO PROTESTANTISMO ASCÉTICO

 

1A. OS FUNDAMENTOS RELIGIOSOS DA ASCESE INTRAMUNDANA (cotidiana/imanente)

 

4 "seitas" ou portadores da ética protestante:

 

  •  CALVINISMO
  •  METODISMO (neo-ascetismo, ver p. 87)
  •  ANABATISMO e correlatas (provincianas tendentes a Calvino)

(ascetismo de tipo pleno)

 

  •  PIETISMO - Lutero

 (sobras místicas)

 

(obs.: o pietismo inicialmente não queria se desvincular da igreja católica-mística; o metodismo não pretendia romper com o puritanismo clássico - percalços da história)

 

ISMO's "parecidos mas diferentes" ou, antes, heterogêneos mas semelhantes - a semelhança é mais forte na consideração do espírito ascético.

 

Segundo me parece, não há uma relação de correspondência entre anglicanismo e calvinismo, porém me soa claro que todas as igrejas inglesas efetuaram a cisão com o papa - e não poderia deixar de ser: com tolerância religiosa ou não no país, fato é que houve uma contenda/queda-de-braço entre o Papa e o Estado britânico como um todo, e qualquer templo devia "obediência" a ele: OBEDIÊNCIA lato sensu, ou seja, apenas para resumir que Estado-Igreja, no ato de governar e de representar o divino, muitas vezes são um corpo só (a Igreja também mandava no Estado). De fato, os perseguidos da diáspora americana foram aqueles que recusavam a ode ao templo (intensa hierarquia).

 

Não houve "revolução" nas casas de Deus. Uma ia se distanciando da outra conforme os séculos.

 

Barafunda:

Historicamente, há tese e antítese. Anglicanismo é o que de mais católico poderia haver na Inglaterra (cf. 88). Sua oposição inicialmente se aglutinava no rótulo "puritanismo" (portanto sem Martinho Lutero), que ainda não era um calvinismo devidamente modelado.

 

CONTRA GUSMÃO

O papel de Lutero é anterior e se circunscreve à compulsão pelo trabalho. Estranho híbrido formado: sinal da predestinação ao paraíso na vocação temporal enriquecedora! Roper não pode contestar Weber se este reconhece as exceções mas constata - habilmente - que de qualquer modo foram as famílias progressistóides que "elevaram" a condição da Grã-Bretanha e espraiaram a configuração Europa e América afora. Tampouco faz sentido jogar no começo de uma aula a afirmação de que Weber atribui à ética protestante somente o início da expansão capitalista, tornada automática depois, se logo em seguida se vai evocar que os budistas também convivem com o lucro - não é esta a questão: ascese extemporânea alguma seria capaz de gerar "homens práticos" (eles são o contrário da denominação - ver RACIONAL X IRRACIONAL em Weber!), e ele (o professor) sabe que o que é "flagrado" nestes países é posterior à onda de acumulação inglesa, o que faz deles VÍTIMAS e não CRIADORES. Vítimas de um processo já automatizado que não exigia mais a conversão religiosa.

 

CONTINUANDO, outros templários importaram o costume do trabalho duro que não herdeiros legítimos de Lutero.

 

P. 91 - Coroa x puritanismo

O "dogma perigoso"

Pp. 91-92, transcrição da Confissão de Westminster; a predestinação é um enigma parcial, uma engenharia diabólica do comportamento humano: sempre haverá a dúvida, o que é natural nosso, doxa, e sabendo-se disso se determinou que o PREDESTINADO é aquele que apresenta a fé, CERTEZA. Mais: eficácia (funcionalismo) e anti-hedonismo (ordem, austeridade, Apolo).

 

Calvino: aristocrático, em que pese anti-hierárquico! Revogar seu dogma seria ferir a onipotência de Deus. Justiça, culpa ou mérito, como valores humanos, não se comparam ao juízo todo-poderoso.

 

Luteranismo e calvinismo, não obstante, são iguais. Não saem do lugar. Debate infrutífero entre determinismo e livre-arbítrio.

 

P. 96 - Gusmão - o mundo moderno com a continuidade da religião - porém, com o rompimento com o mundo mágico - religião pagã!

 

Interiorização promovida pela esquizofrenia do indivíduo: o esperado. Resultado: abolição da confissão com o padre.

 

Uma atmosfera tão nauseabunda só podia fabricar doentes mentais!

 

P. 99 - Kierkegaard e a fissão ética (o fosso latouriano) + teodicéia (uma vez compreendida esta palavra, compreende-se a tese).

 

P. 100 - Gusmão - calvinista: "ferramenta" (de Deus)

                                  cristão/místico/em parte o pietista: "receptáculo"

 

P. 103:

"o virtuose religioso pode certificar-se do seu estado de graça, quer se sentindo como receptáculo, quer como ferramenta da potência divina. No primeiro caso, sua vida religiosa tende para a cultura mística do sentimento; no segundo, para a ação ascética. Do primeiro tipo estava mais perto Lutero; o calvinismo pertencia ao segundo."

Ilustrativo

 

Resumo até aqui: ambos (LUT/CAL) tratam da virtú cristã. No entanto, a de Calvino é mais policialesca, uma venalidade da alma MAIS EFICAZ.

 

O católico "podia ser perdoado infinitas vezes". Romper com o tradicional não deixa de ser irreligioso. Calvino e Lutero são dois irreligiosos. O Cristianismo é profano par excellence! Lutero DEMOCRATIZA; Calvino INTERIORIZA (não que Lutero não interiorize e que Calvino não demonstre preocupações para com aqueles que não serão perdoados, já que "é preciso acreditar"!). Claro, ainda há sagrado em cada - a sua guisa.

 

P. 107 - Descartes, a separação do corpo e da mente/alma e a correspondência com a fé calvina.

 

Ao ler a 110 não posso compreender mais por que o Pietismo não é mero catolicismo!

 

111 - a faca suicida de Calvino: "como Vossa Santidade sabe que é uma alma salva?"

 

115:

"A grantia amissibilis luterana, que a todo instante podia ser recuperada com o arrependimento e a penitência, não continha em si, obviamente, nenhum estímulo àquilo que aqui nos importa como produto do protestantismo ascético: uma sistemática conformação racional da vida ética em seu conjunto."

 

No tempo de Lutero (ou "antes de Calvino", ou "seus adeptos em qualquer tempo") ainda havia a presença entrecortante de Baco. O confessionário era a garantia de sua sobrevivência. Ocorre como hoje em que o fim-de-semana é uma religião. A EXPIAÇÃO cotidiana do "semi-reformado" (pietista) salvava qualquer um... Era um resquício mágico.

 

-interrupção na 117 para...

 

NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 2 (CALVINISTAS)

 

4 (202): relato de como é difícil uma etnografia se não há um respeito na Alemanha pela própria história dos dogmas das seitas provinciais. Mais adiante, o que Tocqueville não viu em Democracia na América: a transformação secular do povo americano.

 

5 (203): desculpas pelo excessivo número de notas de rodapé!

 

13 (205): esclarecedora sobre o "deus-de-chave" de Latour e o casamento entre a tendência luterana do "deus bom" e a tendência calvinista do "deus velhaco" (Novo x Antigo Testamento, o crossover moderno p. excell.)

 

20 (206): judeus são protestantes de outrora, anti-mágicos. Daí a suspeita nietzscheana de que Sócrates esteve em um reduto judio no Egito. O convênio/pacto da (des)razão!

 

23: o individualismo para Weber - analogia com o duelo racional x irracional. É simples lembrar que são proposições simétricas e de ponta-cabeça, a depender do acusador.

 

26 (207): do amor ao inimigo, do eremitismo e de outras disposições em Zaratustra.

 

35 (210-11): a comicidade das missões puritanas para recrutar fiéis - massa de manobra de predestinados à condenação, inclusive na China!

 

37 (211): Cromwell e sua aliança com a doutrina da predestinação.

Na mesma nota: ensaio de distinção católicos/pietistas.

 

48 (214): divertido; gosto quando Weber "conversa conosco" e utiliza exclamações. Citações de Pascal: o trabalho é a distração da dor que é estar no ócio, ou seja, um sub-ócio! Volição para a morte...

 

49: "Como posso ter certeza eu da minha bem-aventurança?", a pergunta-cerne das religiões, segundo Weber. Referente à "brincadeira" dos reformistas com uma pobre alma sempre em DOXA.

 

50 (215): mais uma vez - da proximidade entre as condutas mística (unio mystica) e pietista.

 

66 (217-19): menção de Nietzsche. Questão daquela burra, Luiza Rossi (na aula de 21/10): a conseqüência lógica de se enunciar a predestinação é recair no fatalismo (niilismo passivo pessimista); o efeito psicológico, no entanto, à época, foi a compulsão pelo trabalho, a certeza da seleção/eleição ao Paraíso. Obviamente, tal ÂNIMO não perduraria por mais de QUATRO séculos... e seus sintomas de derrocado são desde sempre perceptíveis... "o último limite lógico" do Ocidente, o próprio fatalismo - único resultado cristão a longo prazo (Der Wille Zur Macht).

 

UM "CAUSO" (25/4/2008)

Viro a página na mesma nota. O que leio me recorda cena do meu último aniversário, saindo da realização de uma prova de História Geral em franca ressaca - na espera pelo atendimento no guichê da xérox, ouço diálogo entre professora e funcionário em que a primeira arremata: "Há que se ter muita coragem para colocar alguém no mundo hoje". Não sei se foi o conhaque do dia anterior ou o sentimento exasperante inevitável de "entrar em contato" com cristãos. Aquela frase me ficou marcada e agora faço registro. É um problema típico de responsabilidade verificado nas índoles fracas, que elaboram autores para cada ação. Mas, seguindo o ditame nietzscheano, é bem melhor que não procriem! Aqui está o trecho que me remete a uma mãe niilista:

 

"Por razões de princípio análogas [psicologia calvinista querendo acumulação em que pese a danação; logo, em face da Tragédia, amo-a! Nietzsche teve de amar a II Guerra como se se tratasse de obra sua tanto quanto o surgimento antitético de pessoas como eu!], os adeptos de Nietzsche reivindicam para a idéia de eterno retorno, como todos sabem (?), uma significação ética positiva. Só que se trata aqui da responsabilidade por uma vida futura com a qual o SUJEITO DA AÇÃO não guarda nenhuma relação de continuidade de consciência - enquanto para o puritano o futuro queria dizer: tua res agitur {Problema teu!}."

 

(?) Talvez o círculo letrado que freqüentava a casa do autor - em meu contexto ninguém sabe o que é.

 

Concluindo a nota, ainda sobra para a coitada da Ciência, a religião do proletariado contemporâneo de Weber!

 

68 (219): abertura de precedentes para a SANTIFICAÇÃO OBRÁRIA [ética da recompensa] calvina. "Esmolas são um meio de evitar penas temporais."

 

77 (221): a repulsa dos pietistas pela filosofia de Aristóteles.

 

80: outra tirada de sarro para cima de Brentano. Weber evidencia a transição gradual de uma ética transcendental dos mosteiros para a cotidianidade.

 

82: influência da ascese na configuração do ethos militar moderno (precursor, apud. Weber: Maurício de Orange).

 

91 (223): gênese da secularização americana - o cancelamento da primogenitura. Na Inglaterra este é um direito imemorial cuja "atualização" pode ser considerada o dogma da predestinação de Calvino ("o eleito para herdar").

 

105 (225-227): "o grande fundamento dogmático (sola fide!)..." - só pela fé se alcança a salvação... Logo a seguir, pesada crítica à passividade alemã.

 

-fim das notas (parte I) deste capítulo.



Escrito por wormsaiboty às 23:33
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


1B. RETOMADA DA LEITURA LINEAR

Pietismo mais próximo de Calvino do que aparenta. Serve aqui a pecha de puritano.

 

Sabe-se que luteranos/místicos são assistemáticos, enquanto que calvinistas são sistemáticos (ordenamento, ascese, vida privada desregrada). O pietismo, aqui, se subscreve na segunda categoria. Isso porque, lembrar-se, o que fala mais alto é o mandamento calvinista - que lembra a ferramenta - de que obras terrenas são executadas com o fim de ampliar a glória de Deus. Os homens existem para Deus. Seria uma lição de egoísmo herege inverter o axioma. Os pietistas, ainda que coligados ao sentimento, tinham essa idéia em mente: a de que os desígnios da divindade sequer precisam ser compreendidos para se fazerem valer. Weber reconhece a dificuldade de distinguir o calvinista pietista e o não-pietista. A piedade está lá, mas podia muito bem não estar. Não "serve". É apenas uma característica alternada do puritano, uma tendência mais "humanitária".

 

O calvinista clássico (item A) acredita na auto-prova de que se é um eleito. Esta postura de se antecipar ao julgamento divino - necessária para uma vida de dúvida - é interpretada como soberba pelos católicos. Eis que os protestantes pietistas atenuam essa "arrogância", típica dos eclesiásticos, que sempre se arrogam o título de salvos, de santos. A certitudo salutis provém de mecanismo divergente. Não muito.

 

Há uma democratização do sentir-se santo e todo um método interiorizado de pacificação da alma, ligado ao trabalho. Obviamente, reside aqui a verve excludente da maioria. Deus abrirá as portas do sucesso só a vocacionados. Ademais, diferencia-se do "mais místico", o católico, por se distanciar da idéia de que o santo era alguém envolvido por certa pobreza material. Pelo contrário: no novo ethos, aquele que não aumenta a graça de Deus pela disciplinação diária é um réprobo.

 

Um "empregado" é visto como mais adequado ao inculcamento pietista. O calvinista ortodoxo costuma ser o empresário, burguês clássico. Há gradações delicadas aqui, um crescendo de atividade. O pietista é conformado à ética do progresso mas é mais passivo; o caudaloso homem de negócios ou irrepreensível jurista é quem "leva a Economia nas costas", transforma o mundo, moderniza-o, com efeito. O pietista também possui um sub-elemento em sua doutrina conhecido como terminismo: ganha a salvação uma vez, súbita e indefinida, em sua vida, mas pode perdê-la se não fizer por onde.

 

Metodismo: também "pietista", menos aferrado ao dogma; quer apenas chegar ao seu intuito de salvação de modo mais esquemático. Típico do Novo Mundo.

 

A certitudo salutis tem chance, por essa doutrina, de se manifestar ainda nesse mundo. Um calvinista diria em represália que também acredita nisso, exceto que seja algo que venha de súbito, alegando ser um processo contínuo até a morte e que um pecado na velhice pode pôr tudo a perder (alegoria da conta corrente), enquanto que o metodista diz atingir o estado de graça em dada altura de sua vida, para supostamente não mais a perder e viver, dali em diante, levemente. Até este dia, no entanto, ele é um puritano como o tipo-médio.

 

OS DOIS PERIGOS DESTA FUSÃO

Trata-se de um estranho híbrido. Há incoerências poderosas no metodismo - claro que em todas as correntes as "falhas psicológicas" ora vêm à baila. Obviamente, elas estão atreladas ao dogma central da predestinação. Se a certitudo salutis podia aparecer antes, então ou neste momento o indivíduo se desligava da ascese ou se tornava um ultra-calvinista porque sua certeza (de uma coisa perenemente duvidosa!) fazia de si um santo. Aqui cito Weber: "uma exacerbação do tipo puritano pela via do sentimento". É preciso lembrar que a glorificação da santidade é manifestamente condenada por Calvino e por isso a prática de algumas igrejas de auto-legitimar-se era um incômodo calvinista irresolvível. Pois há iconoclastia nestes adeptos (todo puritano em geral), já que não se é "santo por acaso", nem é bom tê-los em alta estima, afinal não se sabe se Deus os absolveu! No espectro da reforma, dir-se-ia que:

 

  1. há o luterano, um "reformador inconsciente", místico e crente incipiente na vocação;
  2. o pietista, já algo concretamente voltado para o dogma da predestinação;
  3. o metodista, tipo um pouco pietista mas com teor pragmático palpável;
  4. o calvinista, ideal para descrever a ética da ascese em Weber. É verdade que as fronteiras são difusas e maleáveis, mas geralmente dir-se-ia que o metodista está entre o 2 e o 4, com arroubos conservadores e/ou emotivos (irracionais) em torno do que lhe é peculiar (o "momentum" da consagração/revelação).

 

Há coisa mais curiosa e exposta a ataques que a fruição de uma sensação por meio de uma série de procedimentos burocráticos? Parece mais um condicionamento mental manjado.

 

Outro fato: o metodismo despontou realmente tarde, então ele não cumpre o papel que Weber atribui à ética protestante para o surgimento do espírito do capitalismo.

 

Reputa-se ao pietismo alemão a maior proximidade com o catolicismo, no quadro europeu. Huguenotes e puritanos diriam se tratar de bárbaros, magos retardados no mundo secularizado. No século XIX a Alemanha é o progresso em pessoa, e suas religiões não são vanguarda: ela adota a ascese tipicamente capitalista de outras partes.

 

D. Batismo e anabatismo

 

Tempo histórico: 1500's, 1600's, mesmos séculos do auge da influência de Calvino. Itens A e D os realmente importantes na tese. Quakers estão aqui.

 

Distinção weberiana recorrente: Igreja visível x Igreja invisível. A primeira é típica do mundo católico e proto-protestante (luteranos). Qualquer templo é um elo com a transcendência. A reforma interiorizou a ética e com isso enfraqueceu bastante as formalidades (sacramentos). Desejoso seria que só quem num templo pisasse fosse o predestinado à salvação, embora saibamos da utopia deste intento pastoril. Sucede-se que o próprio condenado cumpre um papel, "aumentando a graça de Deus" (chavão chato!). Ponto forte da nova ética, esta transformação da Igreja é, por motivos óbvios, também um baque infra-estrutural. Muitos são os puritanos reclamantes de uma maior presença espiritual do sacerdote. Resquício mágico - a crescente impessoalidade exige, para o calvinista, a "seitalização" do que era MASSIVO. Os batistas são notórios nesse processo de "almejar-se seita". Outros grupos que acabaram por se converter em seitas não o tencionavam - apenas foram expurgados pela autoridade central eclesiástica, como os metodistas.

 

Restrição: protestante x católico. Diz o 1º: "não basta conhecer, deve-se sentir" - uma das contra-reações aristocráticas à tradução e popularização das escrituras (ou seja, da vulgata gerada pelo próprio protestantismo, enquanto ainda fosse "católico" na acepção bíblica).

 

Estes templos municipais anabatistas seriam de culto pagão (sem confessionário; o segundo batismo era tão-somente a revogação do primeiro, era mais um "não-batismo" que batismo!) - o que é cúmplice do DESENCANTAMENTO DO MUNDO. O grande papel estaria no OFÍCIO (trabalho).

 

135: "a idéia de que Deus fala somente quando a criatura se cala"

 

Os anabatistas são uma miscelânea de todo o já visto. Claro que eles possuem algo de específico. Aqui vai: mais "afastados do mundo" que qualquer puritano, eram avessos à política e a cargos públicos. Seu interesse se centrou na pecúnia e na ascese intramundana.

 

Preponderância, já há algumas páginas, de citações como "regeneração" e "obra", interconectadas. A predestinação co-habita com impulsos conciliatórios de "vamos lá: grande perseverança nos redime ante Ele".

 

Weber promete indefinidamente aprofundamentos na abordagem que nunca chegam, e o livro está acabando...

 

Benjamin Franklin: um quaker, para o autor.

 

137-138 - FULCRAL:

"De caso pensado, não partimos das instituições sociais objetivas das antigas igrejas protestantes e suas influências éticas, nem em particular, da disciplina eclesiástica, tão importante, mas dos efeitos que a apropriação subjetiva da religiosidade ascética por parte do indivíduo estava talhada a suscitar na conduta de vida. E não só porque esse lado da coisa foi de longe o menos estudado até hoje. Mas também porque o efeito da disciplina eclesiástica nem sempre ia na mesma direção. O controle eclesiástico-policial da vida do indivíduo, tal como foi praticado nos territórios das igrejas estatais calvinistas, tocando as raias da Inquisição (*), podia ao contrário contrapor-se, por assim dizer, àquela liberação das forças individuais que era condicionada pela busca ascética da apropriação metódica da salvação, e de fato assim ocorreu em certas circunstâncias."

 

(*) Se a Contra-Reforma foi pesada, não devemos pensar na Reforma como algo mais brando.

 

139

 "A ascese cristã, que de início fugira do mundo para se retirar na solidão, a partir do claustro havia dominado eclesiasticamente o mundo, enquanto a ele renunciava. Ao fazer isso, no entanto, deixou de modo geral intacta a vida cotidiana no mundo com seu caráter naturalmente espontâneo. Agora [séculos XVI-XVII] ela ingressa no MERCADO DA VIDA [açougue!], fecha atrás de si as portas do mosteiro e se põe a impregnar com sua metódica justamente a vida mundana de todo dia, a transformá-la numa vida racional no mundo, não deste mundo, não para este mundo."

 

Nas duas passagens acima os grifos são do autor.

 

NOTAS DO CAPÍTULO 1 PARTE 2 (PIETISTAS, METODISTAS E BATISTAS)

 

111 (229-31): contendas Estado-Igreja. O extremo dessa cisão entre vontade de sagrado e temporalidade reside nos aristocratas anabatistas. Impulso capitalista e tolerância religiosa não estão em absoluto associados.

 

115 (231-2): Weber critica a intromissão de termos da Psicologia.

 

119: mais contenda. Desta vez, não especificamente Primeiro contra Segundo Estado, mas contra o Terceiro (clero x burguesia).

 

146 (236-7): do percurso filosófico da idéia de piedade e da teodicéia, passando pelas ciências modernas, ao projeto pedagógico nefasto das escolas do Ocidente (a nefasta preferência protestante pela Física, a disciplina que "desencanta o mundo"). Citação de Descartes, Platão et al.

 

169 (240): religião e economia - qual é epifenômeno e qual é causa incondicional? Sabe-se a antinomia de Weber em relação a Marx, mas no fundo são dois "brincalhões da Grande Ciência", que não vêem moral ou condições materiais como sobredeterminantes - tão-só recíprocas, justapostas. É a minha aposta. Algo eles precisam eleger, caso contrário seria escusado não tergiversar sobre essas coisas, sem uma palavra. O próprio Nietzsche seleciona a sua: moral. São estas três palavras conotadoras de universos amplos o suficiente para descreverem a condição humana.

 

171 (241-2): os anabatistas, tais quais pietistas e metodistas, são secundários para o trato da ontologia da ética burguesa. Batistas, quakers e menonitas se encontram no foco dos problemas, ao lado dos calvinistas ortodoxos.

 

179 (243-4): consideração sobre a democracia no mundo moderno e seus dois diferentes tipos (porque de dois distintos precedentes): 1) a democracia radical dos povos de ascendência puritana - "radical" no sentido de que pendem a uma isonomia fundada na liberdade individual (Tocqueville) e na ausência de um chefe a que se deva obediência (Pai); 2) a democracia "latina", paternalista, instaladora de tensões - autoritária, igualitária, contraditória (França, Brasil, Portugal, Espanha - ditaduras equivalentes à militar brasileira - Alemanha - pois Lutero é um "protestante manso", o país é falso-evangélico, trata-se de um povo católico nos séculos XIX e XX -, Itália... Curiosamente, os dois principais pivôs da Segunda Grande Guerra, o "Eixo do Mal"). E então, o que há de novo? Ora, defasagem se explica pela ascese intramundana. É dito que entre os quakers o ataque às imagens foi tão aberrante que gestos de etiqueta como "tirar o chapéu" se tornaram sinônimo de submissão espiritual - e portanto razoáveis chances de não ser um eleito. Esta peculiaridade genial é oferecida por Weber como a explicação dos modos rudes do norte-americano, um caipira se comparado ao gentleman da Rainha.

 

189 (246): Veblen apud. Weber: "super-homem econômico", "acima do bem e do mal" - provavelmente se refere a figuraças esporádicas: de Rockefeller a Chateaubriand. Esses homens nunca deixaram de haver, mas não como fenômeno de massa até a era moderna, ressalte-se de uma vez por todas!

 

190: o "formalismo da ética puritana" e seu absurdo apreço pela honestidade em simultaneidade com o lucro - não, não há compasso...



Escrito por wormsaiboty às 23:30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

2. ASCESE E CAPITALISMO

 

Calvinismo ortoàheterodoxo. Era o 2º o de grandes nomes por trás das seitas protestantes: Baxter é o renomado puritano; o destaque pietista (alemão) recai sobre Spener; e ainda temos Barclay como porta-voz dos quakers.

 

P. 143 - na Baixa Idade Média já se tolerava a usura mesmo entre o clero. Na Reforma, pelos escritos de Baxter, houve grave recuo, a reprovação da riqueza. Como? O perigo da posse é o que ela carrega consigo - ócio e prazeres da carne... "Perder tempo é o pior dos pecados" - luxúria, preguiça à "tempo é dinheiro". Tempo é execução da ampliação da graça de Deus. Descansar? Só no domingo - e lá isso.

 

Tomás de Aquino ainda não enxerga no trabalho a "ferramenta de Deus".

 

Baxter não aceita sequer as exceções tomísticas, inclusive para os ricos: estes devem trabalhar mesmo que não dependam disso para a imediata sobrevivência.

 

É demandado obedecer a sua vocação - e nisto não está incluída a contemplação!

 

Baxter é smithiano em alguns pontos (nota 226: vantagem comparativa). Outrossim, defensor da especialização do trabalho, um ordenamento para as funções do indivíduo - artesão em xeque (ele é um "vadio").

 

ATUALIZAÇÃO: vê-se hoje que a carreira estável petrificou-se em mito. Sintoma de décadence.

 

"Não o trabalho em si, mas o trabalho profissional racional, é isso exatamente que Deus exige" p. 147

 

Abertura de precedentes: aceita-se a troca de vocação (que é metafísica!) e o acúmulo de várias delas sob a alcunha de um só, tomando por base, claro, que se está em crescente congraçamento com Deus - e isso é o que importa!

 

Baxter e os demais "engenheiros" selecionavam os trechos propícios do Velho e do Novo Testamento para seus sermões - enquanto qualquer fragmento tradicionalista era logo rechaçado. A propalada guerra com o mundo mágico.

 

P. 152 - ILUSTRATIVO à Carlos I e seu Book of Sports - afinal, o Protestantismo nasceu inimigo do corpo (escusa: "preservá-lo!") e só depois, vagarosamente, adentrou em mutações - emergência do homem trágico [ensaio e textos de Sociologia do Esporte]. As seitas calvinistas eram originalmente inimigas do esporte, pois seria uma "prática francamente irracional", pelo desperdício de energia física, além de estar sempre atreladas a "apostas e bebedeiras", nas próprias palavras de Weber. Era-se até contra banhos quentes!

 

WEBER PROFETA - P. 153 - o mecenato.

 

P. 154 - cultura de massa/indústria cultural à contra a "divinização da criatura" - roupas iguais - hoje - MODA - Olimpianos.

 

"(...) a ascese era a força 'que sempre quer o bem e sempre faz o mal'" p. 156. A benção de Deus é a semente do cúmulo da culpa.

 

"E confrontando agora aquele estrangulamento do consumo com essa desobstrução da ambição de lucro, o resultado externo é evidente: acumulação de capital mediante coerção ascética à poupança." - DIFÍCIL DE REFUTAR! Detratores, experimentem...

 

Holanda à Inglaterra, ciclo de Arrighi

 

Efeito trágico das normas: "A história inteira das regras das ordens monásticas é em certo sentido uma luta perpetuamente renovada com o problema do efeito secularizante dos haveres"; "O mesmo também vale em maior escala para a ascese intramundana do puritanismo" - metodismo tardio como uma das reformas dialéticas.

 

pp. 159-160: a auto-constatação do paradoxo cínico e da crise de valores.

 

Robinsonadas quer dizer: a idiotia do Homo oeconomicus.

 

Os primeiros efeitos da ascese só puderam ser sentidos em um tempo retardado, logicamente. O princípio do problema da mendicância em escala global. Os anglicanos se locupletavam com a presença de um - sua salvação era facilitada por intermédio de esmolas - DEPENDIA delas. Os puritanos, pelo contrário, trabalhavam por uma reforma constitucional que recrudesceu a indigência (o típico de proliferar o mal que se "enseja" debelar).

 

Emergência da questão trabalhista.

Rico à trabalhe para o lucro à (ele) amplia a glória divina

Pobre à venda sua força à (isso) é edificante

 

164-165: belo tratado da decadência. Rival de Marx? HAHAHAHA

 

(adaptado)

"Quis o destino que o manto do santo se convertesse em uma rija gaiola de ferro!"

 

(ipsis literis)

"Também a rósea galhardia de sua risonha herdeira, a Ilustração, parece definitivamente fadada a empalidecer, e a idéia do 'dever profissional' ronda nossa vida como um fantasma das crenças religiosas de outrora."

 

P. 166 - o neo-caráter agonístico-esportivo dos EUA.

 

O MAIOR PARÁGRAFO DA SOCIOLOGIA - p. 166

"Ninguém sabe ainda quem no futuro vai viver sob essa jaula e, se ao cabo desse desenvolvimento monstro hão de surgir profetas inteiramente novos, ou um vigoroso renascer de velhas idéias e antigos ideais, ou - se nem uma coisa nem outra - o que vai restar não será uma petrificação chinesa [ou melhor: mecanizada {comentário da 2ª edição de Weber}], arrematada com uma espécie convulsiva de auto-suficiência. Então, para os 'últimos homens' desse desenvolvimento cultural, bem poderiam tornar-se verdade as palavras: 'Especialistas sem espírito, gozadores sem coração: esse Nada imagina ter chegado a um grau de humanidade nunca antes alcançado'." [grifos meus]

DE ARREPIAR!

 

Depois: diretrizes para os pesquisadores sucedâneos.

 

E Weber admite o entrelaçamento irresolvível de causas à nota 307 - Marx.

 

-A cereja do bolo...

 

NOTAS DO CAPÍTULO 2 PARTE 2, AS CONSIDERAÇÕES FINAIS DE WEBER

 

Concepção forense de justificação - baseada em provas inexoráveis (inexistentes) à santificação, jogo da DOXA, interiorização.

 

198 (247): Baxter é anti-mamonista (mamona = dinheiro), o que REALÇA Weber ao invés de refutá-lo - o que importa é o efeito indesejado (impulso à parcimônia e autocontrole coincide com lucro; se ele não é gasto - não pode ser -, é reinvestido ou no mínimo poupado e os juros trazem mais dinheiro - aqui temos o clássico caráter trágico do dinheiro, Édipo-Frankenstein, que se deprecia a si mesmo ao se inflacionar - logo o limite do pecado se dilata - contrai, entendeu-se!).

 

204 (249): a proibição do "falar sem pensar" - "em boca fechada não entra mosca" - e a recomendação de Nietzsche de que é preferível falar a escutar. "Economizar na fala". HAHAHA.

 

211 (251): o DESINCHAÇO da cidade grande é outro sinal de transmutação. Um dia compilarei a lista completa!

Mito do desenvolvimento zero (o progresso já não se dá crédito)

Fusão entre trabalho e lazer (flexibilização da rotina)

...

 

214 (252): pietismo x puritanismo

 

216 (252-3): "escalas de casamento" conforme prática do sexo / Simmel / o problema do médico do Ocidente (à Gaia).

 

224 (254): Soneca: Spener (piet.) avesso à troca de vocação + 232 (257) + 246 (260)

 

225 (254-5): sistema hindu x protestantismo e judaísmo.

 

233 (256): "Matarás [por vias indiretas, como o cultivo de tabaco]!"

 

235 (257): classe média, burguesia, o limbo entre a nobreza que OSTENTA (pecadora) e o miserável (vadio, pecador). Ciclo da poupança já referido duas vezes.

 

236 (257): catolicismo e protestantismo podem até concordar de soslaio, mas a questão vocacional e ascética era periférica no primeiro.

 

239 (258): Carlos I, o primeiro "estadista do bem-estar social", indignando os partidários do liberalismo puro (ainda que estatal).

 

244 (259-60): protestantes x judeus.

 

252 (260-2): mais QUESTÃO JUDIA. Kant ascético. Realmente esclarecedor sobre a ética judia. Aparentemente, espírito judeu + protestante compõem o capitalismo em seus ciclos D-M-D', fases de expansão materiais (M-D-M') e especulativas. (Na mosca com relação a ROPER.)

Judeus à capitalismo especulativo-aventureiro;

Ascetas à capitalismo burguês-burocrático.

Este é o esboço feito no fim da nota, só que o Protestantismo ALIMENTA o Judaísmo ao promover o lucro E a não-gastança. Parece uma alternância de bastão.

 

ARTES & HOLANDA (questão de teimosia de um docente):

258 (263): o "nada absoluto" da arte musical inglesa. Dêutero; Rembrandt... + 260.

"o que se ouve o mais das vezes a título de 'canto coral' é uma gritaria insuportável para ouvidos alemães" + notas na página e verso...

 

261 (264): configuração da Holanda ou Países Baixos. O mercenarismo e a fragmentação: "os pregadores ingleses evocavam o exército holandês quando queriam ilustrar a confusão babélica das línguas".

+ jogo moral/imoral (perspectivismo habitual weberiano): exércitos inglês e alemão.

 

262 (265): "em Shakespeare, ódio e desprezo pelos puritanos não perdem a chance de se manifestar a cada passo de sua obra"; "Ainda em 1777 a cidade de Birmingham denegou autorização para a abertura de um teatro sob o pretexto de que iria fomentar o 'ócio', sendo portanto prejudicial ao comércio [hoje teatro = comércio!]".

 

273 (267): o imperativo categórico e o direito à herança. "Quem se diverte em esclarecer uma idéia seguindo-a até suas últimas conseqüências, lembre-se daquela teoria de certos milionários americanos segundo a qual não se deve deixar para os filhos os milhões adquiridos só para não privá-los do benefício moral que só a obrigação de trabalhar e lucrar por sua própria conta e risco pode dar: hoje, evidentemente, isso não passa de uma bolha de sabão 'teórica'." à sabão em Brentano (mais um). Ou seja, a moralidade dos calvinistas enriquecidos não passa para os descendentes a longo prazo.

 

276 (268): "o quaker era (...) a 'lei da utilidade marginal' ambulante".

 

278: Bernstein e o Norte poupador.

 

289: autoconsciência sempre houve, difícil é cessar a impessoalidade: não pecar implica no chamamento do pecado; a religião se perdeu e Deus foi morto.

 

293 (272): "Como se vê, o interesse de Deus e o do empregador confundem-se aqui de forma suspeita" - patrão = Deus (Jesus tem pai mas não tem pai - eis o culto da imagem quando interessa) / a repelência aos gordos - para ver aonde os EUA chegaram...

 

298 (273): Marx... eles se amam!

 

303: o cosmos científico goethiano, o homem sem espírito pós-moderno. E a inversão cretina de Benedict, Ruth [antropóloga estúpida].

 

308 (275): epílogo: "Também não sou muito afeito a escrever livros mais grossos, desses que precisam se apoiar fartamente a trabalhos alheios" - para mais sobre a "igreja invisível" ele recomenda seu AS SEITAS PROTESTANTES E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO.

 

293: vender sua força de trabalho é "dignificante", é o recado para o proletário.



Escrito por wormsaiboty às 23:27
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


TRANSCENDER 13 (E)

Ensaio sobre a Dádiva

 Esta resenha será dividida em tópicos (as mesmas três partes, em 3 posts) e subtópicos correspondentes aos empregados por Marcel Mauss:

 INTRODUÇÃO - Da dádiva e, em particular, da obrigação de retribuir os presentes

 

  • a) Epígrafe - O antropólogo irá tratar aqui de um fenômeno batizado de "dádiva", a ser pormenorizado mais à frente. Por enquanto, basta a consideração de que em toda dádiva está embutida uma contradádiva, e nisto se poderia resumir por enquanto a espécie de contrato social que vigora em várias sociedades "primitivas" (outro intuito de Mauss é demonstrar o quanto este termo está equivocado, pois o sistema da dádiva é algo plenamente maduro do ponto de vista ocidental e, até seu tempo, isso era difícil de reconhecer).

 

  • b) Programa - Mauss introduz os dilemas ou perguntas principais de sua tese: qual força misteriosa impele o receptor da dádiva à contradádiva? O que existe de direito real (arcaico) incrustado no direito pessoal, nome pelo qual nos acostumamos a chamar nossas garantias e deveres constitucionais (nos termos maussianos, "conclusões morais sobre (...) a crise de nosso direito", p. 189)? Analisando sociedades míticas, em que não existe a noção de indivíduo dissociado de um todo, pretende-se chegar a estas respostas.

 

  • c) Método seguido - Há uma semelhança incrível entre o método comparativo de Mauss e o método histórico ensejado por Franz Boas, que será, aliás, enormemente citado em notas de rodapé. Objetiva-se o "acesso à consciência das próprias sociedades" (p. 189) e, para tanto, há a consideração do sistema cultural em sua completude, sem comparações fragmentárias entre instituições de um e de outro povo, o que "tiraria a coloração" delas, pela perda do contexto.

 

  • d) Prestação, dádiva e potlatch - O número de sociedades ao redor do mundo descritas detalhadamente por Mauss - para comparação posterior - é razoável e será possível encontrar desde "sistemas parciais da dádiva" até "dádivas totais" ("prestações totais" ou potlatch, como Mauss emprega, que quer dizer nutrir ou consumir), esta última variante encontrada nas tribos do noroeste americano. Algumas destas culturas apresentam pistas de parentesco (uma adotou o sistema após contatos com outra que já o adotava e depois o suplementou a sua maneira), mas este fato não é uma necessidade absoluta (há casos de desenvolvimento autônomo das prestações e contraprestações).

 

  1. As dádivas trocadas e a obrigação de retribuí-las (Polinésia)

 

  • a) Prestação total, bens uterinos contra bens masculinos (Samoa) - O próprio casamento se afigura como relação de prestação e de contraprestação: oloa é como são chamados os bens masculinos (móveis) e tonga os bens femininos (imóveis). A criança é tida como um bem uterino: ela é literalmente um bem que será fonte de contradádivas pelo resto de sua existência (parentes que o presentearão - regalarão, em conseqüência, o núcleo da família do menino ou menina - com oloas, bens móveis). Mas tal sistema samoano não é ainda um potlatch (prestação total), uma vez que fica faltando um pré-requisito essencial: a ocorrência da guerra caso a reciprocidade não tome lugar.

 

  • b) O espírito da coisa dada (Maori) - O tema ganha em abrangência quando migramos, em pensamento, para outra sociedade, a dos maoris. Sucede-se a transição do conceito anterior "tonga" para "taonga". Cada taonga tem o seu hau (aqui, tonga ganhou em amplitude) ou mana, quer seja, espírito, alma, atributo sem o qual "não se está vivo", "não se está". Pois bem: quem infringe a regra da dádiva e da contradádiva tem seu hau destruído, a maior vendeta imaginável (vendeta = vingança - quando alguém comete um crime, supostamente será alvo de vendeta daqueles em comunhão com as vítimas). Eis a caracterização da violação às regras de troca como crime, "punido" e sentenciado de forma diversa do nosso sistema de justiça. Portanto, a coisa "tem poder sobre o ladrão". Se a coisa tem poder, ela não é inerte (a propriedade "resmunga", "grita", cf. p. 254 e circa). A interpretação das coisas terem haus é que sejam espíritos, antepassados, objetos que foram de antigos maoris e que ainda encerram suas atribuições, e jamais deixarão de fazê-lo, posto que circulam indefinidamente. Há um vínculo inseparável entre coisas e homens aqui: na própria linguagem nativa, seria impossível determinar o que é o quê.

 

  • c) Outros temas (a obrigação de dar, a obrigação de receber) - Não consiste o potlatch apenas em retribuir, mas, por inferência lógica, em sempre oferecer e receber (afinal, a retribuição só existe com estes dois verbos a ela vinculados), e jamais recusar convites (exceções são enumeradas, mas creio que não seja preciso chegar a esse nível de precisão).

 

  • d) Observação - o presente dado aos homens e o presente dado aos deuses - Estendendo as conclusões sobre o hau, tem-se que os deuses são os "verdadeiros proprietários das coisas e dos bens do mundo" (p. 206).

 

  • e) Outra observação, a esmola - Alcunha-se aqui a teoria da esmola, uma eventual origem do nosso "Doces ou travessuras?" do Dia das Bruxas: "dádivas às crianças e aos pobres agradam aos mortos" (p. 208), em última instância aos deuses. Sendo assim, é demandado "dar" para não entrar em desgraça. Mauss precisa o momento em que os termos hebraicos da Bíblia passaram a significar esmola ao invés de outra coisa menos clara, o nascimento da doutrina cristã como adequada para aqueles que viviam em penúria material.


Escrito por wormsaiboty às 15:38
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

 2. Extensão desse sistema - liberalidade, honra, moeda

 

  • a) Regras da generosidade. Andaman (obs.) - Os antropólogos desta escola racionalista francesa não priorizam a história (apesar de levarem em alta consideração as metamorfoses do Direito nas diversas sociedades) - fogem do difusionismo puro e também do "independentismo puro e simples das descobertas de um povo" (neste aspecto lembram muito Boas, ao se situarem em uma escala intermediária, de moderação na explicação das "invenções culturais").

 

  • b) Princípios, razões e intensidade das trocas de dádivas (Melanésia) - Por diversas vezes, ficamos sabendo que o "comércio circular ou de retorno", de taongas ou bens, o potlach ou kula (em Malinowski), costuma ser realizado intra-chefia, ou seja, entre os chefes de fratrias e tribos. Eles - e o povo que mediam - estão sujeitos a sanções como o banimento do indivíduo ("O esquecimento tem conseqüências funestas", p. 246). Correspondente a essa noção e não menos importante, temos as classes sociais destas sociedades. Pensava, por noções antropológicas anteriores à leitura deste livro, que as sociedades australianas "primitivas" careciam de divisão social em estamentos. Porque fica transparente em Mauss (e Malinowski, no kula) a presença de um ethos nobre, à maneira hindu, no tocante às relações de trocas entre os indivíduos. Os presentes da troca são supérfluos no que se refere à subsistência, mas nisto reside sua importância e sua nobreza (para não deixar margem para dúvidas, está é uma questão que, exteriormente, varia: tais presentes podem muito bem constituir filhos e comida, bens claramente de subsistência, tomados sem um contexto definido, no entanto é requerido observar a função desse tipo de honraria. É escusado dizer que aqui se trata de dádivas sem as quais, em tese, ainda é viável uma vida - só que não é suficiente tê-las só para si ou não tê-las, é necessário haver essas relações de troca entre os nativos, como se sem isso, com efeito, viessem a morrer. Prova cabal disso é o costuma ancestral esquimó de presentear o visitante - e não o nativo, o que é uma peculiaridade - com sua própria esposa, ao menos na primeira noite em que o estrangeiro é recebido em suas dependências: sem isso sua existência se tornaria vexatória, indigna). Há um distanciamento soberano entre a dádiva e o econômico/cotidiano: não pode haver barganha, pois isso denegriria o processo. Há inclusive a idéia do juro, mais moral que material (qualitativo ao invés de quantitativo, exato, matemático): em um mês se viaja sem mantimentos e se é acolhido; pois no próximo a intenção é receber aqueles anfitriões de outrora com ainda mais luxúria e opulência. Talvez por isso haja um impulso de "dar" inicialmente: dar sem ter recebido indica honra e significa um grande presente ou banquete vindouro.

 

Na nota número 29 entra em jogo o complexificador do sistema: a moeda. Mauss lista algumas etapas de consolidação do sistema financeiro até o presente. Antes de a moeda ser um equivalente universal de todos os bens e que não é um bem por si (o que ocorre em nossa sociedade - uma nota de 10 reais não pode "ser vendida" por 2, ou então por 25 reais, pela sua beleza ou para qualquer tipo de consumo final, se seu valor ainda está em curso e não estamos falando de colecionadores), ela era também qualidade, estava atrelada à magia, ao hau. Ou seja: apesar de envolver algo de impessoal, a moeda arcaica não o é de todo (aliás, disso está distante). Tanto é assim que Malinowski e Simiand contestam a classificação de Mauss, que atribui ao cobre, conchas, gado e a tantos outros talismãs das sociedades estudadas o título de moedas. Sua defesa é de que apesar de não haver uma arregimentação fixa do valor de troca, este existe, pode ser expresso em números, e isso basta. Tampouco há um centro burocrático emissor da moeda ou que a estipula por lei; mas para as considerações em mente do antropólogo francês a lei escrita é banal: basta que seus efeitos se verifiquem, e parece realmente ser uma instituição de uso universal nas fratrias e clãs. A relação do indivíduo local com a moeda é curiosíssima: "Os proprietários os manipulam [os pedaços de cobre] e os observam durante horas. Um simples contato transmite suas virtudes. Colocam-se os vaygu'a sobre a testa, o peito do moribundo, eles são esfregados em seu ventre, balouçados diante de seu nariz. São o supremo conforto dele" (p. 219). O contraste com nossa situação chega à comicidade: apesar do alto apreço pelo dinheiro e de eventuais demonstrações de "fruição do poder", como o milionário que "se banha de notas e moedas" ou que "joga o dinheiro para o alto", contentíssimo (o personagem ficcional Tio Patinhas, que mora num cofre, seria o absoluto disso), tanto o dinheiro de plástico quanto o dinheiro de metal estão mais associados à sujeira; lavamos a mão depois que entramos em contato com cédulas - elas "passam pelas mãos de todo mundo", não servem para nada que não seja "comprar aquilo de que se necessita", seu uso é "pontual e metódico".

 

E para atestar a "tese da moeda", Mauss lança mão de analogias com um corpo de nomenclaturas com o qual estamos acostumados, ainda que não torne essas ilustrações explícitas. É o caso, por exemplo, da menção ao basi, que funciona nitidamente como "entrada" numa "compra a prazo", uma espécie de "fiado"; e dos "bancos" (nota de rodapé 37). Uma associação do sistema de dádivas com o mundo ocidental é, então, viável: o dinheiro ou capital (forma acabada do dinheiro) é onde nossa potência e sua elevação reside. Onde se concentra o ímpeto cultural de criar. Seu cunho inflacionário, os juros sobre juros e as casas financeiras garantem que amanhã ele será mais que hoje. Assim como o "primitivo" retribui amanhã mais do que lhe foi oferecido hoje. O que é nossa poupança senão um enorme potlatch?

 

É preciso apenas deixar claro que a dádiva não compreende toda e qualquer transação (o potlatch é entendido como essa totalização, mas mesmo ele carrega cadeias secundárias). Há, acessoriamente, no cotidiano das famílias, trocas meramente comerciais ou o chamado escambo, onde os dois pensam estar fazendo um "negócio lucrativo", trocando algo de um quantum menor por algo de um quantum maior. A essência do escambo é divergente do princípio do potlatch: o impulso do primeiro se direciona ao ganho material, enquanto o segundo, de significação mais profunda e mítica socialmente, é motivado pela moral e pela honra, onde o mais importante é dar. As ilhas Trobriand, onde esteve Malinowski, e suas considerações sobre a enorme variedade de comércios existentes serve de base ao meu comentário.

 

b.2) outras sociedades melanésias - Chegamos aqui a uma demonstração viva (comprovada pela língua) da "confusão" existente entre "pessoa" e "coisa", indissolúvel nestes povos: "As operações 'antitéticas são expressas pela mesma palavra'" (p. 231), referência à ignorância do nativo quanto a "estar emprestando" e "tomar emprestado": para ele, são uma coisa só. Tal peculiaridade ainda reside parcialmente em dialetos correntes, no Ocidente e na China (notas de rodapé 116 a 118).

 

  • c) Noroeste americano

c.1) a honra e o crédito - Na página 236 nos deparamos de novo com aquilo que se poderia chamar de bancos, entre os índios americanos (nota de rodapé 131: se todos fossem sacar ao mesmo tempo aquilo a que tem direito por "crédito", haveria uma "quebradeira geral"! Vê-se que apesar de serem sociedades ágrafas, elas possuem tantos elementos especulativos quanto a nossa, e sequer se poderia dizer que nelas estes são "informais", porque há um sem-número de ritos que envolvem os atos de empréstimos, concessões e pagamentos). Aliás, a preponderância do potlatch no noroeste americano é tão patente que uma das tribos se chama Kwakiutl, "rico" no dialeto local. Pode-se concluir, por conseguinte, que o tema da destruição e da guerra ("dar é destruir", p. 239; ato bélico que é, aliás, equiparado a "jogar um jogo") está presente com força nessa região. O banquete cumpre uma importante função social, outrossim. Normalmente, os nativos passam uma estação inteira "dizimando" sua moeda, toda a riqueza, o excedente do restante do ano, em tremendas festas. E Mauss defende que "complexidade jurídica" e "complexidade do fato social" não estão necessariamente em compasso: aqui as normas são mais simples que nas ilhas do Pacífico e no entanto o potlatch é ainda mais ostensivo (ou melhor: se há um potlatch, ou algo que mais se aproxime de um potlatch puro, eis o exemplar). Sobressai, também, a conclusão de que a própria dádiva talvez seja o fenômeno econômico mais fundamental, e quer dizer muito sua configuração como evento complexo: significa que as instituição humanas atuais não vieram linearmente de relações simples que iam se complexificando com o passar do tempo. O autor até acha que o escambo, bem como a compra e venda contemporâneas usuais, é que derivaram desse estado de coisas de prestações e contraprestações, afinal pedir uma mercadoria no balcão de uma loja e dar uma certa quantia monetária por ela é uma espécie de síntese do fenômeno fundamental da dádiva, duas etapas de um fato social camufladas de uma só!

c.2) as três obrigações: dar, receber, retribuir - Reiterando, o axioma máximo descoberto por Mauss em sua pesquisa etnográfica (a despeito de não-presencial) é: "melhor dar do que receber". Mas "receber" não é visto como vexame. O vergonhoso seria apenas receber. Recebe-se com austeridade e polidez e desde esse ponto a ética demanda a retribuição gloriosa e mais rica do primeiro presente.

c.3) a força das coisas - Mauss se escora em inumeráveis mitos das diversas sociedades para ilustrar a importância da dádiva e da contradádiva. Apresentam um enorme poder explicativo alegórico, mas não é necessariário falar em nomes neste resumo - suas idéias se encontram diluídas nos outros tópicos.

c.4) a "moeda de renome" - A partir da página 260 podemos averiguar a extrema relevância do cobre entre os kwakiutl. Já ficou claro há muito tempo, mas finalmente o autor comenta o assunto nestes termos: a dádiva é um fato social total (abrange toda a existência - ou no mínimo muitos, quase todos os, elementos, em uma singular troca - dos povos tratados, do ethos exigido aos nomes com que chamam as coisas, da política à religião, passando pelos preceitos econômicos, pela moda, pela família e pela vida sexual, entre inumeráveis outras minúcias).



Escrito por wormsaiboty às 15:36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 3. Sobrevivências desses princípios nos direitos antigos e nas economias antigas

 

  • a) Direito pessoal e direito real (direito romano muito antigo) - Um sistema jurídico parcialmente mágico e no entanto reconhecedor da propriedade privada (alienação dos bens). A questão é que no nexum romano o escravo ainda é um bem móvel, o que deturpa (em relação à nossa sociedade) a relação sujeito-objeto. Somente na época de Justiniano haverá uma reformulação que torne a "coisa" mais afeiçoada ao que se pode chamar de "inerte". Os antigos romanos são muito similares aos kwakiutl no tocante a bens inamomíveis de uma família, porque eles são a família (é só lembrar da relação dos melanésios e dos índios norte-americanos com a moeda - e transferir automaticamente essa relação afetiva para objetos ancestrais do clã).

a.1) escólio - Na página 272 verifica-se a explicação da nomenclatura reus, de suma importância quando se vai considerar a relação diferenciada que povos mágicos mantém com os objetos - sua relação sujeito-objeto que se afigura, inicialmente, estranha a nós. Os contratos e a punição do furto nos remetem às tribos já estudadas por Mauss: réu - aqui - é o acusado e o acusador! Outras figuras jurídicas comuns a vários tempos e sociedades: o leilão, onde compete-se para dar mais.

a.2) outros direitos indo-europeus - Aos gregos tardios e aos semitas atribui-se o fato da primeira divisão conhecida entre direito real e direito pessoal (modernidade). Mas Mauss é breve por não tê-los estudado a fundo.

 

  • b) Direito hindu clássico (teoria das dádivas) - O Código de Manu é uma extensa lei que trata em grande parte da moral da dádiva. As associações não param por aí: "O Mahabharata é a história de um gigantesco potlatch" (p. 279, grifo do autor). Há variações de hau verificáveis, adaptadas, por exemplo, à doutrina da reencarnação: "O alimento dado é (...) ainda o mesmo alimento na série de seus renascimentos", cf. p. 281. Além disso, "a terra canta", assim como "a casa fala" nos kwakiutl. Há, para se ver, a figura do poeta jurista, evidenciada em uma das notas. O Ocidente é o típico lugar da abertura incomensurável do fosso entre o jurista (técnico) e o poeta (irracional). E é com este poeta do direito que Mauss encerra o capítulo: "Aqui há somente uma roda (girando de um lado só)", é o que o primeiro diz.

 

  • c) Direito germânico (a caução e a dádiva) - A noção que merece ser citada é a de caução, não-ausente (apenas levemente diferenciada) no Império Romano Arcaico: trata-se da garantia contratual que pesará sobre o infrator, e que diz respeito naturalmente à contraparte, também. Eis o velho conhecido (das linhas acima) vínculo entre sujeito e objeto, uma espécie de hau.

 

  • d) Direito céltico - Vizinho do folclore alemão (sabe-se que o Direito se funda nos mitos - tanto isso que autores como Max Weber irão denunciar que apesar da coexistência entre burocracia e Direito, trava-se perpetuamente uma luta neste campo: aquela entre os especialistas, que são sempre reformadores da sociedade, apólogos do progresso, e os juízes clássicos, "sacerdotes", os porta-vozes da vontade divina, que são os representantes dos mandamentos mais arcaicos e tentam "conservar" a sociedade, evitar sua secularização técnica).

 

  • e) Direito chinês - O Direito Chinês também está permeado da noção de "perigo" ou "risco" de se "aceitar um presente". Terras para onde se migra, uma comida que se aceita, podem encerrar maldições, feitiços, de espíritos remotos - os mortos estão nas coisas, são as coisas, as coisas são gente. Este é um país de tradição camponesa em que a terra é considerada parte da família e dificilmente é abandonada. Mesmo na China Comunista não houve a alienação total das terras pelo Estado, como se há de pensar. Um sistema milenar dadivoso não rui facilmente: nas comunas rurais a gerência continuou sendo autárquica e um dos mandamentos de Mao lembra a questão do dom: "Aprender a andar com as próprias pernas", que ensina a recusar favores o quanto for possível (evitando assim o mau agouro de espíritos ruins). Grande parte das informações deste tópico "e" foi complementada pela etnografia de Henrique de Sousa Filho, Henfil na China.

 

4. Conclusão

 

  • a) Conclusões de moral - Marcel Mauss nos oferece, então, em seu balanço final, ricas páginas. Alerta para o perigo do Homo oeconomicus engendrado pelo projeto moderno, que passa a enxergar tudo como relações venais. Mas na verdade a mágica sempre subjaz em nossos atos, não é possível escapar dela! Os exemplos da aplicação da dádiva em nossa sociedade são vastos. Por mais que se o omite, as coisas ainda têm alma e superstições cotidianas não nos poderiam fazer olvidar. O que dizer de dar três toques na madeira depois de dizer algo de ruim? E o que uma escada haveria de ter a ver com nossa sorte? Há uma luta constante, nos porões da arena social, entre os valores tradicionais/humanistas e a inumanidade (objetividade) de nossos códigos. Receio estar sendo parcial ao criticar este mundo? Não o receio porque estou apenas dando eco à atitude de Mauss. As passagens do francês são, aliás, soberbamente atuais. Ele dá saltos e comenta da lei francesa de proteção aos artistas, do sistema de previdência social, dos movimentos assistenciais (de ONGs, por que não? Ele anteviu bastante coisas...) e proletários - enfim, de tudo que tem uma acepção "anti-mercado" hoje, um quê de comunitarismo. "A sociedade quer reencontrar a célula social", é seu recado exibido na página 297. O perigo, assinalará mais adiante, é quando o pequeno grupo se considera o porta-voz de toda a sociedade.

 

  • b) Conclusões de sociologia econômica e de economia política - Nas páginas 304 e 305 encontramos um belo resumo de todo o percurso delineado até aqui. Na 306, a mensagem de que quão mais alto é o teor mágico de uma sociedade, mais a característica da beleza estará atrelada à da força - o mais belo é o mais forte (invertendo a frase a compreensão pode melhorar), o que mais tem para dar. Ainda na mesma página: se "[a palavra] interesse é recente", conforme o texto, é indubitável que chamar os nativos de "desinteressados" (ou justamente "interessados"!) para caracterizar o potlatch é desprovido de sentido - a linguagem cria essas ambivalências. Está claro que para os nativos da etnografia maussiana não existe nem uma coisa nem outra. Afinal, no mundo mágico a roda gira para um só lado...

 

  • c) Conclusões de sociologia geral e de moral - Enxergo a Sociologia e Antropologia de Mauss como bastante atuais, e um grande serviço epistemológico para as Ciências. Apesar de citar Durkheim em seus escritos, de ser co-autor de livros com ele e de ser constantemente emparelhado com o mesmo, sinto que o sobrinho superou o mestre, porque seus questionamentos não envelheceram, pelo contrário, como os postulados objetivistas de Durkheim. A escola francesa é um interessante esforço de guinada antropológica, pois ensaia a tão necessária crítica ao Ocidente, o que vejo de forma mais acabada em autores contemporâneos como Bruno Latour. São capítulos fundamentais, portanto, da história da disciplina no século XX. Imprescindível leitura para a compreensão da "circularidade da cultura".


Escrito por wormsaiboty às 15:33
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


TRANSCENDER-13 (D)

 

O IDIOTA - Dostoievski

 

Contém revelações.

 

1ª PARTE

 

O idiota é, naturalmente, aquele que ama. A mulher quer a insídia e o desvario.

 

O que representa, na instância fundamental, o dinheiro, afinal de contas? Nada. Não significa nada para uma vida humana digna.

 

2ª PARTE

 

207-8: o Eterno Retorno do Príncipe Míchkin! O estupor e a existência supremos.

 

Estado febril recorrente nas mentes de grande gênio, também verificável na personagem Raskólnikov de Crime e Castigo.

 

O ataque epiléptico, segundo o narrador, é "um homem gritando dentro de outro homem".

 

CAPÍTULO VIII/IX: a discussão-espelho: o Príncipe, acusado por um suposto filho bastardo de "milionário idiota", rebate em exímia exposição que o idiota é o acusador - ou, senão, há no recinto pelo menos dois doentes da cabeça.

 

3ª PARTE

 

Teoria similar à de Raskól: CIDADÃO ORIGINAL X GENERAL (aquele que destoa da carreira de funcionário público, o genial, era um tolo, um idiota social). E, afinal, a despeito do atraso do czarismo russo, fervilham naquele país-mundo os tais "homens práticos". Nada mais inglês...

 

P. 372 e circa - a "convicção suprema" de Ipolit.

 

P. 409 - do sonho.

 

4ª PARTE

 

P. 490: "O Catolicismo romano (...) não chega nem mesmo a constituir uma religião; é, para falar com propriedade, a continuação do Império Romano do Ocidente".

 

"O ateísmo saiu do próprio Catolicismo romano!"

 

"(...) tudo foi trocado por dinheiro, por um miserável poder temporal"

 

"O russo passa muito facilmente ao ateísmo, mais facilmente do que não importa qual outro povo do mundo." Míchkin é sem dúvida alguém à frente de seu tempo.

 

P. 555 (última) - a edição de capa-dura rubro-negra da BCE possui marcações

 

"E toda a sua Europa (...) não passa de fantasia" Lisavieta Prokofiévna, uma bela previsão dostoievskiana. Um fim tão mais niilista que o de C&C. Gostei bastante do narrador, em constante interlocução com o leitor, como se fosse, e isso se cita na própria obra, um artigo de revista. Concede leveza à loucura desmedida das personagens, equilibrando a trama.

 

Outro fato curioso a observar: apesar de ambientar-se na mesma cidade do outro romance, "O Idiota" nos brinda com uma Petersburgo, quereria saber por quê, diferente - nem mais nem menos sombria, tão-somente uma urbanidade paralela. Ao menos é meu testemunho visual - pode não equivaler a outras apreensões.



Escrito por wormsaiboty às 15:06
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


DE ARREPIAR A RAIZ DOS CABELOS

Acordei assustado. Eram quinze e um. Porém, os relógios do microondas e do rádio, as únicas referências, estavam piscando. Sinal de que a hora não está certa. Deve ter chovido e um raio resetou o horário durante a noite. Ansioso por saber o verdadeiro momento em que acordei, liguei a televisão. Está passando Domingão do Faustão, nada mais cotidiano (digo, para um domingo). Na RedeTV, um estranho programa de auditório com a Eliana que nunca vi na vida. Apesar da novidade, nem me interesso muito: a TV perdeu a capacidade de mexer com a gente; perdeu nosso respeito; a gente se sente anestesiado diante da caixinha, "anestesia" é bem a palavra. Mas e o jogo, e o jogo? O Domingão do Faustão é uma atração tão gigantesca que não sabemos se é 4 da tarde ou se pode ser 8 da noite... Claro, a Globo nunca vai deixar de mostrar futebol, acaba "cortando em dois" o programa... Mas sei lá, um dia poderia ser que... Bom, para checar se não estava atrasado, mudei para o SporTV.

E foi então que me desesperei de vez. SPO 0 COR 1. Sim, isso mesmo. São Paulo Futebol Clube, placar vazio. Sport Clube Corinthians Paulista, um gol anotado. É segundo tempo, começo, ao que parece. O Rogério Ceni faz como o Marcos outro dia: parte atabalhoado pela intermediária, tentando evitar o segundo desastre. Quem diria que a decisão do campeão por pontos corridos ficaria para o clássico paulista? O Grêmio poderá abocanhar o título se o SPFC tropeçar no arqui-rival... "Segundo desastre"? No meio de sema